terça-feira, 15 de março de 2011

QUEBRADA

René Magritte


























              José Antônio Cavalcanti
 

Hora da alcateia na praça.
Sigo
o hálito transbordante
da desordem.

Uma lua de cobre
em sua órbita pedestre
poderia.

Inscrito na linhagem
do círculo,
salto possibilidades e geometria.

Invado a zona secreta
da casa de intolerância,
turva escrita de decretos
para burla e tédio.

Encurralado no escuro,
derrubo o rumor de qualquer traçado.

Órbita pessoal possível:
à deriva, ao léu, ilegível,
apenas o imprevisto por caminho. 

5 comentários:

  1. visita feita com muito prazer! um abraço!

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  2. A obra de Magritte já me despertou interesse imediato pela leitura do poema. Gostei dos versos, são profundos, indispensáveis.
    Vou acompanhar o blog.

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  3. Palavras são um espetáculo que se lê... lindo poema.

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  4. José Antônio,este poema que postou mostra-nos claramente como o poeta diz tudo,sobre tudo,e quando quer,pois sabe escolher as palavras e falar seus sentimentos,porém ao mesmo tempo esconde-os.Pena que ainda sou analfabeta,pois ainda não consigo ler nas entrelinhas tudo o que o poeta quer me dizer.Parabéns! Sigo-te!Um grande abraço!

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  5. Marli, acho que escrevemos todos para dizer algo. O problema é que nem sempre sabemos o que dizemos, erramos o tom, tateamos, pensamos em a e escrevemos b. Ou seja, não sei se escrever corresponde a um exercício de dominação da escrita, às vezes penso que é o gesto no qual nos dissolvemos, como se fosse preciso o poeta se perder no poema para encontrar a possibilidade de um caminho. Embora infelizmente não a conheça, posso sentir no seu comentário que você leu de um modo que me comoveu: conseguiu perceber que o poema é aproximação e fuga, que ele promove tanto o mergulho em determinado universo criado pelo autor quanto a sensação de que não se esgota nas palavras do seu próprio corpo, pois possui laços secretos e invisíveis com outras realidades. Daí a dualidade do poema: exposição e cifra. A linguagem, a instância máxima do poema, trabalha justamente esse jogo.
    Obrigado por suas palavras e espero que não fique preocupada com as entrelinhas, nunca há clareza entre intenção e recepção, a leitura é justamente uma apropriação de conteúdos por meio do extravio de diversos significados. Leitura, portanto, não é posse, desvendamento do sentido de um poema, mas fruição, reconfiguração, reinvenção, respiração, ou seja, o poema é seu, foi você quem o criou quando resolveu efetuar a leitura dele. É um outro poema? Claro que não. É o mesmo depois da sua leitura? Claro que não. Não tenho resposta, mas talvez o poema seja a sua permanente dissolução, e a força dele resulte exclusivamente de ser capaz de renascer revigorado a cada leitura.
    Um grande abraço.

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