quarta-feira, 17 de julho de 2013

Décima incursão à carne




A voz estridulante chegou cinquenta passos à frente da sombra, estranho chamado ao interior de antro gorduroso, coalhado de objetos inúteis, móveis quebrados, velas e oferendas. Era Deus e seus dez desregramentos do outro lado da parede mofada. Mãos de dedos rugosos estenderam-se como punhal dentado numa exigência imperiosa de nomes, roupas e pertences. Antes que os olhos piscassem, abrupto puxão nas costas; o linho rasgado de cima a baixo, as calças dilaceradas por dentes em fúria, cães arrancando sapatos, nacos de carne e tatuagens. Pequenos dados viciados, bilhetes amassados, moedas e retratos perdidos na recepção dos leões-de-chácara encapuzados. Despojado da película de ataraxia, o corpo esplendia viço e virilidade. A voz soou mais intensa, suplicando chagas, úlceras, doenças, arrependimentos, choro convulso, mas o corpo rijo e resistente lançou-lhe insultos no céu de álcool e feromônios: respiração ofegante, pressão alterada, circulação acelerada, brilho nos olhos, narinas dilatadas, o pau - lança rubra erguida por demônios. No chão as vestes impuras e as íris dilatadas de Bastet, testemunhas dos nomes que escorriam sílabas e cadáveres de boca em metástase. 


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