sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Décima-segunda incursão à carne

Goya



Na banheira, por asfixia, na cama, por infarto, em terreno baldio, por uniformes oficiais, ou em cruz de plástico, por cineastas amadores, a morte e seu séquito de banalidades: choro, hagiografia, totens, revelações escabrosas, faxina biográfica. Falsa proposição enunciar a causa mortis. A morte não. Desmoronar, parte da construção; afogamento, o próprio mar; sucumbir, outra manifestação do vigor; abandonar o porto, levá-lo nos dentes para ilhas distantes. A morte, não, a morte, porque nada nadinha reconfortante o abandono das horas em que juntos, porque extraímos fungos e diamantes de horas mortas, porque caminhamos às tontas para nunca escapar ao deserto, porque é necessário palavras cumprirem destino de areia. Só mentiras alimentam a alma, as grandes e as infames. O amor selado em tonéis e desfaçatez, o último orgasmo a acender-se em fumaça na lama sagrada do corpo. A morte não. A alma infante não cabe no corpo mofado. Como a ineludível lavará as falsas promessas de amor urdidas mutuamente em noites úmidas de felicidade? A morte não. Salamandras venenosas ensaiam carícia no corpo morto, nunca a morte, porém, encontrará a sonoridade das palavras que perdemos. A morte que nos leva não sabe o que deixa. Alguns afirmam ver, do outro lado dos orifícios nas duas mãos, a sombra do paraíso (um pastor de cobras foi pregado em poste para multiplicação de fé e descrença). A morte não. O que vi foi aqui mesmo quando pisava em falso.

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