sábado, 30 de novembro de 2013

Narrativa a caminho da queda

Iberê Camargo



a.3


sete passos atrás como sete palmos abaixo voltar à sala aprisionar páginas de poemas em gaiolas de vidro limpar a mesa de perfume antigo a madeira corroída amoroso enlace de cupins e folhas arrumar a trouxa de desenhos aquarelas guaches telas desmanchadas cores de cidade sem neurônios a pastel novamente um colapso à frente do último degrau a bicicleta batia na parede ocre o carregador suado exausto parava para tomar fôlego mãos na cintura por trás das rodas ainda uma cidade flutuava seios me apontando a direção do inferno por trás das rodas uma alça desmoronava alvura de ombro demoníaco por trás das rodas todas as musas libertinas saíam de leituras noturnas desinventadas de linguagem a aura magnetizando cabelos esticados no abismo do alto do último degrau como um deus estrangulado nas mãos de Hernán Cortés ou de Pizarro tudo o que podia ser visto era um sistema solar aprisionado pelo aro 26 da bicicleta suspensão a meio metro do piso


In totum

Basquiat



























Todos
os versos
entre
Hamlet
ETs
etc.




As películas protetoras




















casca de besouro
couro de jacaré
asa de morcego
colete à prova
de balas
más caras
pele óleo S.A.
biombo de bambu
bomba
de efeito fatal
o ranço da segurança
casa/mata
carro blindado
urutu
nau capitânia
caveirão
detector de presença
navio negreiro
sorria para
câmeras de intolerância
panzer
blitz
helicopterus rex
abrigo subterrâneo
para o cofre
o cofre
todos dentro do cofre
o cofre
todos os corpos
moedas
em caixa-forte


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Narrativa a caminho da queda

Iberê Camargo



a.2


antes dos degraus a porta caía aos pedaços tábuas como remendos inúteis qualquer bêbado a abriria só com o hálito de álcool em madrugada morta mas uma tarde dois fugitivos subiram o gólgota ombros e braços musculosos carregavam a bicicleta roubada por trás dos raios das rodas rodava uma miragem de cabelos negros e pequenas sardas as formas incabíveis em vestido gelo de folhas verde limão era a insônia era a luxúria era a loucura subindo as escadas era meu coração rangendo à passagem de tempestade de carne era um mocassim caramelo pisando as dobras do gozo em lençóis lavados de solidão a maldade despontava no sorriso como pura promessa de ruínas um casal principiava então a costurar abismos em que os aprisionava no pânico do olhar 

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Silepse













Ao Norte de nome
secreto
outro nome anoitece
em linhas tortas

ninguém
responde ao chamado
cercado de palavras mortas

o substantivo
concorda com o sufocamento
em gênero, número e grau


Órion desoriente
























para que caiam novos
gêneses
como dentes com cárie
caindo
podres de apocalipse
e raios
partam paradigmas
aos pedaços
juízos teóricos divinos

para que palavras
bastilhem
pilhas de axiomas
matilhas
de sintaxe e sofisma
em preceitos
bordelizados
a intimidades e compadrio

barimetria
e guilhotina
ao excesso
de logomaquia
teoliterária
no céu de cães
canônicos

Anarquipélago



Meu livro de poemas Anarquipélago já está disponível para venda nas Livrarias Cultura e Travessa virtuais (R$ 30,00). Pedidos também podem ser feitos à editora Ibis Libris -http://www.ibislibris.net/site/



Não percam o lançamento na próxima terça-feira, 

03/12/2013 

Livraria da Travessa - CENTRO



Casulos

Imagem: fotografia de Robert e Shana ParkeHarrison



sono repartido / coma em colmeia / mente vazia de mel e maná / almas dobradas em redoma / algo se quebra e parte o deserto / basta uma sílaba para oásis e êxtase

Os logófagos

















fomos
infames esfomeados
eu e meu cabelo
máquina três
à pizzaria à beira da Lagoa
debaixo de bruta
chuva

para nossa surpresa
atrás da fila de coxinhas mofadas
preso à porta envidraçada
um cartaz nos dizimou:
"proibido entrada de palavras inflamáveis"

fosse uma dia
de sol
oswaldinvadiríamos
a pizzaria




Narrativa a caminho da queda





a.1

48 degraus rangiam pesadelos o peso dos pêndulos tiquetaqueavam horas em fendas as paredes de pinturas superpostas como camadas de tragédias de eras glaciais nós mesmos em outras estações inabitáveis temporais todos os cômodos mofados da casa em cacos nos pés descalços pois era assim a nossa dança o nosso olhar ainda não contaminado do bafio rançoso a emanar das tábuas do assoalho balaústre parapeito portas de duas bandas trincos destinos aferrolhados nada apontava os grilhões grisalhos mas tudo já estava posto na mesa do filho do amoníaco e do carbono podia ser entrevisto na fumaça da cannabis sativa madrugada a fora vejo agora dentro do riso e do sol nascente ácaros e fungos tecendo o pântano na alma

D s p r c d s







Alma de sparring


Fora de controle


Estudo para futuro romance



Tangências – pequenos desgarrados que amassamos tanto o mesmo barro.

Artur. Claro, nome falso. Para nós o Tatu, por razões que não me lembro. Melhor talvez fosse Touro, aquele corpaço hipopótamo. Sempre as mãos no lixo, os olhos revirando fundo restos, frutas estragadas, pães mofados, sonhos fora do prazo de validade, côdeas de desamparo. A família, sempre um câncer no calendário de visitas. Um dia, um muro, nunca mais o Tatu roendo ossos.

Moreira. Cobrir. Firme. Descansar. A santa trindade da obediência deixava marcas em seu pescoço branco avermelhado. Tanta disciplina precisava de estocadas no braço, olhos arroxeados, galos na testa, joelhos no milho. Dia houve em que uma surra de fio ensandeceria a escola, centenas de meninos alucinados tentando linchar o marinheiro mascarado de inspetor após expulsão da Marinha.

Gláucio. De Copacabana para nosso espanto, nós de Gramacho Vigário Geral Parada Angélica Engenheiro Pedreira Ricardo de Albuquerque Pavuna e adjacências. Filho de gravuras dos livros de História, já nascera com punhal nos olhos e com esperança ulcerada. Podíamos ver as pedras que guardava nos olhos, a pele cor de ressentimento, os cabelos de pregos e cacos de vidro. Aproximar-se era convite a duelo. Como num conto de Aníbal Machado, o menino-guerreiro sumiu no vento.

Papai Noel. Menino-bibelô largado sem babás no deserto. Olhinhos verdes em meio a tantos olhos famintos. Coxas de menina. Corpo agoniado por se saber em pesados sonhos infanto-juvenis. O postal de miss na hora da punheta. Dentes mais luminosos do que o sol, uma alegria misteriosa, inexplicável que o protegia de todo o mal ao redor.


Cocada. Anos sem visita. As férias só não o mantinham em solitária por causa de tantos outros largados como ele. Nosso líder na abertura de cadeados, assaltos à despensa, comida extra. O chefe da nossa gangue logo desgarrado em voo solo. Carteiras alheias em mãos frágeis, bolsas estudadas com método e rigor, objetos valiosos recolhidos para análise. Expulso com toda a pompa: a escola perfilada para exemplo e dor.


Desdomingar-se

Esculturas do artista espanhol Ivan |Prieto






















Domingo em gomos
domingo de gala
domingo de gula

Domingo
- essa não engulo -
anoitece segunda


Fora dos trilhos



















todo caminho é de ferro / em brasa cinzas e asas / estendidas em falsa geografia / rios secos cidades inabitáveis / os amores falsos cognatos


quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Incisão geográfica






















uma baía
é concha
na contracosta
angra
escura
gigante
com água
dentro
do betume
de olhos noturnos
velados
por palavras
molhadas de quimera
onde poetas
pescam
naufrágio
e tempestade


Exportar é o que importa

Bebês resgatados pela polícia em Camboriú em 1986Foto: Carlos Pereira / Agencia RBS














bebês postalizados
à venda
perfeitamente
ilegais
mas sem problemas
com alfândega
e fisco
caucasianos
saúde de ferro
exames completos
DNA anexo
sigilo sagrado

em caso de troca
cobramos dobrado


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Descenso





















Acolher
todas as ausências
vazamento
de manhãs pretéritas
no mar
de águas contaminadas.

Escolher
a dedo
tripulação
vocabulário
e encantamento.

Afundar
a boreste
levando
ao fundo
da página
todo o corpo
de escamas
da linguagem.


domingo, 24 de novembro de 2013

O desequilibrista

Paul Klee - El equilibrista, 1923
























o desequilibrista subiu ao palco
os aplausos estrugiram na plateia
ovacionando o estupendo artista
o desequilibrista começou o número
era a caminhada entre a vida e a morte
passagem pelas torturas e expectativas
a fuga alucinada entre o piso em brasa
a plateia não se continha e aplaudia
a ponto de não se entender mais nada
quando o desequilibrista falseou o pé
e a ponta de uma lança mortalmente afiada
estropiou-lhe a perna a plateia silenciou
num instante começaram a vaiar e xingar
não satisfeitos os assistentes se levantaram
invadiram o palco destruíram o cenário
e lincharam o desequilibrista incapaz


Baía das lobas marinhas



























dedos ou remos
aranhas em pelos pubianos
erguem em máxima intensidade
o voo inflável
de nau corsária
afundam
todas as velas no oceano
esparramado na cama
azul
os lençóis
bordados a sonho e suor
Vênus insaciável
pernas abertas
a uma frota inteira


Punção

“Paisagem em azul”, tríptico de 1966, Antonio Bandeira

















Este poema foi publicado na revista Desafio, nov/1977.



estranhas paisagens
tecem sinfonias
na pele do país

navios fantasmas
singram insônias
na pele do país

viúvas enlouquecidas
cantam amores perdidos
na pele do país

celerados insolentes
semeiam medo
na pele do país

corpos deserdados
dormem abandono
na pele do país

poetas carbonários
incendeiam palavras
na pele do país

flores alucinógenas
amadurecem perfumes
na pele do país

pássaros peregrinos
desinventam harmonias
na pele do país

arquitetos da aridez
desesperam auroras
na pele do país

cinéreas crianças
esparzem tragédias
na pele do país

estrelas instáveis
varrem madrugadas
na pele do país

carícias atrevidas
incrustam cimitarras
na pele do país


A mulher ao largo





















Seu nome
não sai das sílabas
de frases vazias
da linguagem morta,
invasor compulsivo
de tantas palavras
na escuridão da boca
de tanta ausência torta.


sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Volta e meia inteira
























Obras a cem metros
do último gesto
circunvagante.
A rotatória
incontornável
evita ultrapassagem
mas permite
pânico
e palavras intransitáveis.
Corpo preso
à porta giratória,
incontrolável
movimento
em círculos
o amor.


Ippon






















Quimono branco
impecável
no tatame
súbito
o monte Fuji
de costas
no chão


plateia hipnose