quarta-feira, 30 de abril de 2014

Modo abrasivo

Obra do artista plástico mineiro José Madureira Vasconcellos















Todo passado
imperfeito
se apaga
quando
conjugo
o teu rosto
imperativo
categórico
com olhos
flexionados
no futuro
falacioso
do subjetivo.

Você,
primeira e única
pessoa
de qualquer discurso,
flexiona
nervos e verbos
secretamente
defectivos;
amar,
por exemplo.


domingo, 27 de abril de 2014

Sem salvo-conduto

Kasimir Malévitch, Composition : Blanc sur blanc, 1918


Algosaidocentrodealgoquandoalguémdentroéalvo
quandoalguéméalgoalgumalvosearmaparaalguém
quandoalgooualguéméalvodeoutroalguémquemira
ninguémnoespelhorespiraalgoquesetornanovoalvo
nocentrodentrodealguémnamesmalinhadetiroequeda
decorpoecartuchonacalçadaalgomenosqueninguém


quinta-feira, 24 de abril de 2014

a.9

Esta invenção alemã criada em 1925 




uma estratégia é tudo de que se necessita em situações de risco controlar o pânico estudar fraquezas do oponente diminuir a pressão nos pulmões avaliar os próprios recursos escolher a forma de luta o lugar o horário a posição do sol a fila de formigas que descem da janela quase solta das dobradiças em madeira mofada mover o botão do rádio até a última estação de música para dias de tempestade jogar Kafka na lixeira por amor a labirintos túrgidos plenos de suor feromônios fervor de hormônios anelantes sobre a mesa apenas matemática química geometria mapas manual de guerrilha ilustrações anatômicas rota de fuga grossos tratados de farmacologia facas tesouras material hospitalar garrafa térmica ferver nervos e neurônios para fixar as conexões entre matérias discrepantes as disjunções entre a roda dianteira e a traseira de uma bicicleta em mãos erradas corrosão visível na lateral direita pedais bastante danificados impróprios à delicadeza de pés tão chineses como se quebrados os dedos logo após o nascimento da mulher conduzida por mãos erradas a mundos subterrâneos




a.8

Gravura de Iberê Camargo



saíam para o trabalho os dois pombinhos plastificados os dias flagraram novos ângulos da tentação agora de costas saias sapatos bolsas vestidos de grife ele de abre-alas segurando a bicicleta era o guia que transformava músculos em garantia de posse de um terreno agora em disputa sairia à cata de propriedades alheias limpando a cidade de excessos à mulher o vizinho odioso ofereceria uma agenda de encontros suspeitos com sorriso canalha no rosto mal desenhado enorme mossa na face direita o galo no lado esquerdo da testa brilhava de satisfação ao exibir tanto poder mas tanta segurança não o impedia de voltar a cabeça para o alto da escada antes de bater a porta nem de largar o guidão apertar braços desatentos e despedir-se com beijo cinematográfico verdadeiro certificado de propriedade não escapavam ao meu olhar 48 degraus abaixo rasuras e parágrafos subterrâneos confusos no fundo dos olhos em estado de alarme da intrusa que viera devastar a minha vida


Manual de poesia subaquática














Toda arte
arremesso
de isca ao mar
sem o peso de peixes.

No chão de tombadilho
em estado de naufrágio
resíduos
de relâmpagos
acendem no poema
memória de palavras mortas.


Haicai



Martim-pererê,
saci de asas sob o sol.
O galho é cais.


quarta-feira, 23 de abril de 2014

Cidade de Caim

Al Farrow, Casket Reliquary III (Foot of Santo Guerro), 2011, Bullets, shell casings, steel, wood, glass, bone, lock, antique velvet,


















Feito à imagem e semelhança
do inalcançável
o homem mata
por prazer,
por engano,
por encomenda.

Às vezes mata
para testar a arma,
a perícia,
o calibre,
os limites
do tédio
ou da pontaria.

Matar é fácil,
tranquilo,
confere poder
e prestígio.
Alguns fazem fortuna,
outros gravam riscos em pistola.
Sempre houve aqueles que viraram estátuas.

Mata-se por nada,
porque alguém não gostou
de uma certa camisa azul,
de um perfume adocicado,
de um tom de voz desagradável,
ou porque vizinhos festejam
o quinto aniversário de uma menina.
Também se mata um vulto furtivo no escuro.

Mata-se por passatempo,
por verdades e inverdades,
por vastas propriedades,
por falta ou excesso de grana,
por erro de cálculo ou informação falsa.
Alguns matam com alegria.

Observe, amigo,
aquele homem sereno
comendo pipoca.
O ar tranquilo,
óculos de mestre,
orelhas de judoca.
Pois acredite,
matou a cara metade
meia hora atrás,
entrou na fila do cinema;
meia-entrada
para comédia romântica.
A consciência? Pura leveza bailarina.

Feito à imagem e semelhança
do inalcançável
o homem mata
por intolerância,
por impotência,
por cega obediência.

Secos acordes de compaixão
ecoam na cidade crivada de corpos:
piedosos tiros de misericórdia.


terça-feira, 22 de abril de 2014

Poemas em Mallarmargens




Sete poemas meus acabam de sair em Mallarmargens - Revista de Poesia e Arte Contemporânea

domingo, 20 de abril de 2014

Saudade em expansão cósmica

Obra de Mira Schendel















Análoga à antimatéria
a antipalavra,
antissílabas na forca
da teoria de cordas
vocais
roucas.

Palavra e antipalavra
anulam o universo
quando teu nome,
Big Bang na boca,
atravessa o domingo.


Arco vazio
















Santificados
os que te dizimaram
com fé e varíola.

A pátria
apaga tuas terras
com a gula dos agiotas.

Em alguma narrativa oficial,
acadêmica,
nas linhas da prosa pétrea
etc & tal
medalhas e autocomplacência.

Chamam a matança
de tua gente
"páginas do desenvolvimento
nacional".

Metafísicos da terra de Oz
cospem verdades cósmicas
"os índios vivem em nós".

Difícil segurar a ira
ou o riso.

Poucas flechas,
tantos cafajestes.


sexta-feira, 18 de abril de 2014

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Kranhacãrore

Primeiro registro fotográfico feito de um índio Kranhacãrore, 1973, Rio Peixoto de Azevedo, divisa entre Mato Grosso e Pará - foto de Pedro Martinelli, 1970.

















Veio Sôkriti
do mato

a máquina captou
a imagem

o estado
arrotou
a placa
ordem e progresso

índio
descartável,
a tua tribo
doravante
em ponto morto,
as ocas deslocadas
ao deus-dará
por bárbaros ilustrados

e ai de ti
se não te pintares
para postais
turísticos
ou antropologia de povos extintos

sempre foste
história remota
línguas desaparecidas
suicídio
bando de nômades embriagados
invisibilidade
secular genocídio

ah, e o carnaval,
sim, o carnaval,
palco de tua máscara mortuária



Dez toneladas de tempo


















Guardava a porta
linha imaginária
sobre a qual pássaro
de indecisão
se encorpava
incorporando
o canto aos acordes
da chuva ácida.

A linha imaginária
separava o verniz
dos sapatos
em dois hemisférios
tomados de poeira
até a altura dos joelhos
- polos brilhantes
à espera da salvação.

Mãos inseguras
seguravam a serpente
de fogo
que escapava
da sombrinha chinesa
para incendiar o leme
sem se importar
com a direção do vento
a intensidade da chuva
a velocidade da água
que invadia as fissuras da travessia.


segunda-feira, 14 de abril de 2014

Mar aberto

Jennifer Hudson

























Dois abortos abaixo
da felicidade
o corpo de Paloma
apenas porto de passagem.


Poema escolha (novo arranjo)


domingo, 13 de abril de 2014

Água-régia

Escultura subaquática de Jason deCaires Taylor


















Guardo ingressos
em caixas de biscoitos amanteigados.
Por eles meço
a altura das nuvens,
o calor do corpo,
a distância dos abismos.
Entre a data e o preço,
fluidez da memória de águas
impuras
e leve desvio para o vermelho.

Às vezes tiro a camisa,
mergulho em piscinas naturais
atrás de páginas perdidas
no fundo,
ou, quem sabe?,
à procura de palavras sem espinhos,
tesouro de sentidos intocados.

Tudo o que trago, no entanto,
em minhas pálpebras inchadas
é um sistema planetário desconhecido
no centro do espanto.

E cãibras, cãibras,
muitas cãibras.


Bergsoniana
























Entre o abc e o avc,
la duré.

A vida é dura, Zé.


sábado, 12 de abril de 2014

Cerol



















O trilho,
o melhor lugar
para o vidro moído.

Mas é fora da linha
que voa a vida.


quinta-feira, 10 de abril de 2014

Ronda alta




Lanço meus passos
na rua escura.
No tropel de horas
mortas
a lua madura
de tempestades
despeja
minha sombra
nas laterais
de prédios
blindados.

Não vejo onde piso,
não sigo as placas,
semáforos,
pedras portuguesas.

Vestido de amnésia,
chapéu borsalino,
bolsa a tiracolo
repleta de originais rejeitados,
espero um assassino
em cada esquina.

Espera e trajeto totalmente inúteis,
minha sombra,
faca de caça bem alta,
prova viva de minha suspeita
- sou homicida sem substituto.


Cidade, zona de exclusão






A manhã despontou
multidão no terreno
abandonado
há tempos
à espera
de rica oferta imobiliária.

Quadrados de giz
acenderam no chão
a luz de um lugar
aos sem lugar,
cuspindo no vácuo
vidas invisíveis
na contramão do futuro.
Colchões carregados nas costas,
filhos nos braços,
mãos de calos e gordura.

Breve a lei atiçará
todos os bulldozers da cidade ocupada
contra o coração de madeirite,
nos baldes onde a roupa
suja se limpa de tantas promessas
pequenas gotas de esperança derramada.


Breve um novo lançamento.