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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Relatos antitéticos

Laurie Lipton, "Bone China" - Charcoal & pencil



Relato de James Spencer Gross

“Chá de seis senhoras londrinas. Saquearam seis maridos nobres, antes de envenená-los. Receberam seis seguros altíssimos. Acreditaram ter encontrado a chave do baú e da felicidade. Da última, no entanto, nem sombra.”

Relato de Catherine Lee Harrell

“Chá de seis senhoras londrinas. Escravas de seis cães de guarda pervertidos. Trocadas por seis ninfetas assassinas. Acreditaram ter encontrado a salvação em rosários e novos relacionamentos. Nos últimos, a mesma sombra dos primeiros.”




domingo, 18 de maio de 2014

Comentário lírico II

Joan Miró, "Tête de paysan Catalan", 1925




Todas as sílabas de uma palavra são feitas de areia. Quando a maré sobe, e algo transborda língua afora, tudo é areia movediça.

Comentário lírico I

Imagem: Count de Montizon - The Hippopotamus at the Zoological Gardens, Regent’s Park, 1852




























Toda palavra

é um hipopótamo


de asas.



domingo, 26 de maio de 2013

Cuneiforme carioca

Interior do Teatro Lírico, Rio de Janeiro, em 19.02.1927 (o teatro foi demolido em 1934)



Dia de caminhar em silêncio cuneiformes cariocas, a arqueologia afetiva das ruas todas do centro do Rio de Janeiro. Dia de não se ver a calçada, a caixa de rolamento, os postes belle époque e as esculturas de ferro fundido em velhas sacadas. Dia para se perder no gigantesco pergaminho em cuja superfície zilhões de passos desaparecem em fluxo contínuo como líquida memória que se esvai entre as frestas dos paralelepípedos submersos numa espécie de hemorragia de espaços urbanos por onde um dia encontramos abrigo, subimos os rangidos de escadas, fomos acolhidos entre paredes imperiais e até nos apaixonamos. Ah, a era dourada de Ouvidor dândis; os ares parisienses da Rio Branco e a passeata dos cem mil; a música em sexo balzaquiano da Tiradentes; a urgência na fila do teatro de revista da Carioca; os bondes e as pernas da Uruguaiana; os casarões alongados do círculo dos sebos; os tílburis a caminho de Botafogo; os crepes, chamalotes, veludos, tafetás, cetins, cassas, gorgorões em vestidos dominicais no Passeio. E mais acima dos olhos, buscando insignificâncias no chão, a pulverescência de alguns prédios ou a modernosidade contábil-operacional de caixotões-business, monstros devoradores de horizonte e beleza, a fixidez de tantas outras construções nas quais a única mudança são novos hálitos urbanos e a respiração de outros trajes. Ah, o domingo rói em surdina os ossos da paisagem, lambe as suas cáries, oculta outra cidade no subsolo exposto – masmorra a céu aberto: bando de espectros, debaixo de marquises, amontoa-se sobre papelões, olhos insensatos montam cenários de crimes, cachorros latem desolação urbana, tapetes de sujeira, lixo. Um mendigo fuma  cachimbo insólito. Ele e todos os sobrados tremem de medo, como se pressentissem a aproximação furiosa de novos neofasciurbanistas que virão para ofertar o deserto à cidade.


sábado, 23 de março de 2013

Um, dois, três, mil Carandirus

As cabeças do bando de Lampião foram exibidas por autoridades brasileiras em diversos estados do país. Mortos em 1938, só em 1969 o governo permitiu o enterro das cabeças de Lampião e Maria Bonita.


Para abrir as páginas da pacificação feita à bala. Compulsar capítulos de orelhas cortadas como prova de batalha vencida. Ler com a alma em frangalhos o livro invisível das vítimas de chacinas, confrontá-lo com os perdigotos discursivos daqueles que nos asseguram "índole pacífica", "paraíso nos trópicos", "cordialidade luso-barroca". Um índice apócrifo avisa leitor amorfo do país potência, insere-o na coleção dourada da civilização. Certamente difícil consultar as fotos apagadas, conhecer os nomes dos anônimos executados em periferias e córregos. 


Pacificação parece ser o nome da espada, da pistola, da metralha, da autoridade de mãos sangrentas lavadas e relavadas em discursos de sanguessugas piedosas nos quais a ética boia à semelhança de fezes.


segunda-feira, 11 de março de 2013

Forma e fundo





Hoje saí da piscina com uma sensação estranha: uma corrente de ouro perdida pedia socorro no fundo.  Juro a você, não era minha, minha só a solidão na água morna. Talvez o longo intervalo entre o último mergulho e a volta nada olímpica tenha interferido na percepção de forma e fundo. Debaixo de céu nublado, o sol não ousou refração, a luz em seu raio mais aceso. O que habitava a água senão a impureza, a permanência de fungos e fantasmas imunes à ablação de cenas e crimes antigos?  A falta de sua pele caramelada (sim, da sua pele de péssima pianista e ótima comediante) fez da piscina um oceano, por isso minhas mãos alcançaram com sofreguidão uma folha vadia arremessada por árvore provocante sobre os óculos de mergulho; por um segundo senti  a pressão delicada daquele biquíni floral do verão passado sobre  o seu nome tatuado na coxa esquerda. Que sombra foi aquela que atravessou o fundo da piscina rachando todos os azulejos? 

terça-feira, 5 de março de 2013

Esfingenigma





Foi numa noite antiga, no hall do 11° andar da UERJ. Conversava com outro poeta. Subitamente alguém invadiu o campo visual da conversa. Sibilina e aristocrática beleza pausou nossas vozes. Tudo o que vi, então, foi um dedo mindinho escapando como anjo da xícara de café (na verdade, mísero copinho plástico porcelanizado por minha memória traiçoeira). Posso ainda ver a fumaça contornando languidamente os cachos de cabelo castanho bem claro, os olhos concentrados na quentura, a elegância displicente de musa desconhecida. Por uma única vez na vida vi o “entre”. Nunca pensei que fosse visível a olho nu. Todo o universo esteve, por um breve e eterno momento, fixado entre o copinho levantado com a mão direita e os lábios em u na antemanhã do gole. Todas as coisas e todas as certezas dissolviam-se na fumaça. Ela ainda não sorvera a promessa do sabor e o aroma já se degustava em sua língua. Aquela fração mínima do tempo entre “ainda não” e “não mais” sustentou a versão do inalcançável da poesia.

Carolas joyceanos chamam a isso de epifania: o momento em que descobri que a poesia é "entre". Difícil, no entanto, dizer o que vi. “A meio de”, “intervalo”, “através de”, “dentro de”, “perto de”, “preferência”, entre outros sentidos da preposição no Houaiss, não lançam nenhuma luz; madeleines proustianas também pouco acrescentam. Entre pode ser ente infiltrado por um r. Ou forma de referência não à distância propriamente, mas à intransponibilidade, aos limites do corpo e da alma, ao aprisionamento do ser a ser-sempre-menos. Referência que é, simultaneamente, chamado, desafio, incitação a que alguém ouse saltar o impossível, gesto a que só loucos e poetas se atrevem. Por outro lado, meus olhos puderam ver que o ser-menos é a visão de olhos cansados e mecânicos, o movimento do café aos lábios da musa anônima foi a maior prova de que o nosso olhar é cego, coberto por véus de distância e alheamento. Talvez tenha visto todas as letras da distância inexpugnável entre a voz e o voo.


sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Conexão fantasma

 trabalho de Rauschenberg









































Pegou a mochila, sacou o lápis para desenhar
Ineses mortas e perdidas Penélopes. Incapaz de 
qualquer traço, abriu o laptop e acabou escrevendo
o título de poema informe. "Pêssegos à margem",
o tom joyceano dispersou-se no espírito tomado
p
or multidão e algaravia. Intumescidas palavras
escorriam pelas pálpebras, vinham impregnadas
de películas de fracasso. Podia, ao fechar os olhos,
escutar todos ritmos do desastre. Abriu a terceira
gaveta para pegar desculpas e fôlego. Na verdade,
queria apenas esquecer a dormência do olho direito
e a ardor nas axilas. Alguém jogara alvejante
na lua, talvez a mesma pessoa que espalhara Nora Ney
na madrugada. Três folhas de rascunho lançadas
aos canteiros do prédio em obras, andaimes farpados
na geometria de desconcertos camonianos.
Três vezes o coração em oferenda a clínicas cardiológicas.
Três vezes o nome capaz de destruir o universo
instigou passagens secretas da memória.
Da mochila sacou o "Poesia expressionista alemã"
para vampirizar Berlim, Dusseldorf, Munique,
nosferateando Gotffried Benn,, August Stramm
e Goerg Trakl. Sentiu fome, sentiu sede. Nada o
levantaria da cadeira de pé quebrado,
iria noite adentro bamboleando quedas e fracassos,
laptropeçando sempre na mesma tecla.



quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A poesia morreu. Juro que sou inocente.


Poema vencedor da PROMOÇÃO  “ O FINAL  DOS TEMPOS”,              
organizada pelo site BLOGBLUGBLAGUE


 Para VC, amor, um poema WC    
  
  (com posição etilírico-amorosa)

Troque    uma letra  de   PERDA
Ganhe     um   quilo de   MERDA
                                 
    Poema de    Umbego egobigo


Parecer do Júri: O poema explora a miséria alheia em proveito impróprio, isso pode ser verificado pela axiologia coprológica em termos vulpinos da semiose libidinal dos catavermes imunes. Com os estrogênios telecinéticos o autor cria um processo paronomástico vibrátil, pleno de niilismo vesânico pós-moderno e cataléptico autorreferenciado. Notável o efeito do modo injuntivo conjugado a um jogo em que o par  linguagem/medida formula matrizes de um desequilíbrio concêntrico.


quarta-feira, 14 de setembro de 2011

TEORIAS DO AFUNDAMENTO

Vladimir Kush


     José Antônio Cavalcanti

1 -  “Que absurdo pensar que um homem deve ocupar um lugar na vida, que absurdo, e no entanto muitos jovens acreditam que devem lutar para conseguir um espaço no mundo, espaço este que não existe porque todos os homens estão fora de lugar, mas só o velho tem consciência e por isso pode sentir-se feliz ao ficar fora do mundo, afundando cada dia mais no seu atraente abismo próprio.” – Enrique Vila-Matas,  em A viagem vertical.

2 – “Os novos estudos da neuropoética comprovam que o cérebro é dotado de uma cavidade próxima ao diencéfalo capaz de realizar as sinapses entre os neurotransmissores de fuga e abandono. O processo, ainda obscuro, promove uma irradiação azul do lado esquerdo da cabeça, provocando a perda da vontade de viver e um mergulho catatônico no vazio. A fenda sináptica abre-se desmesuradamente e nela a química dos encontros desaba todas as certezas. Em alguns indivíduos, o hipotálamo apresenta intumescência de dúvidas e perplexidade.” -  Dr. Philipp D. Salthouse, neuropoeta da University of Massachusetts.

3 – “No’mais,. Musa, no’mais que a lira tenho
       Destemperada e a voz enrouquecida.
       E não do canto, mas de ver que venho
       Cantar a gente surda e endurecida.
       O favor com que mais se acende o engenho
       Não no dá a pátria, não, que está metida
       No gosto da cobiça e na rudeza
       Duma austera, apagada e vil tristeza.” – Luís de Camões, em Os lusíadas.

4 – “Milímetro a milímetro nesse corpo transatlântico naufrago Titanic entre lençóis e camadas geológicas. Magma é a dissolução do meu caminho na tua pele tatuada de seres inúteis. Afundo no meio dessa fauna estranha, deslocando rochas e cidades, desabando afetos e palavras. O epicentro é pura demência quando não há mais liga e carícia. A terra se move para o abismo. O que nos abala inaugura o deserto”. - Dr. Raymundo O. Tavares, geólogo da Université Paris-Sorbonne IV.

5 – “Nenhuma palavra
       profunda.
       Fundo é o que nos foge,
       O mundo é superfície
       a face fina e fugaz não do fundo,
       mas do breve e do mínimo.
       o milímetro do nosso limite.” – Zantonc, pseudopoeta brasileiro.

6 – "Um inseto cava
      cava sem alarme
      perfurando a terra
      sem achar escape.

      Que fazer, exausto,
      em país bloqueado,
      enlace de noite
      raiz e minério?

      Eis que o labirinto
      (oh razão, mistério)
      presto se desata:

      em verde, sozinha,
      antieuclidiana,
      uma orquídea forma-se." – “Áporo”, de Carlos Drummond de Andrade

7 – "Com a lâmpada do Sonho desce aflito
      e sobe aos mundos mais imponderáveis,
      vai abafando as queixas implacáveis,
      da alma o profundo e soluçado grito.

      Ânsias, Desejos, tudo a fogo escrito
      sente, em redor nos astros inefáveis.
      Cava nas fundas eras insondáveis
      o cavador do trágico Infinito.

      E quanto mais pelo Infinito cava
      mais o Infinito se transforma em lava
      e o cavador se perde nas distâncias...

      Alto levanta a lâmpada do Sonho
      e com seu vulto pálido e tristonho
      cava os abismos das eternas ânsias!" – “Cavador do infinito”, Cruz e Sousa

8 – “Como os chistes e o cômico, o humor tem algo de liberador a seu respeito, mas possui também qualquer coisa de grandeza e elevação, que faltam às outras duas maneiras de obter prazer da atividade intelectual. Essa grandeza reside claramente no triunfo do narcisismo, na afirmação vitoriosa da invulnerabilidade do ego. O ego se recusa a ser afligido pelas provocações da realidade, a permitir que seja compelido a sofrer. Insiste em que não pode ser afetado pelos traumas do mundo externo; demonstra, na verdade, que esses traumas para ele não passam de ocasiões para obter prazer. Esse último aspecto constitui um elemento inteiramente essencial do humor.” - Sigmund Freud, em "O humor"..

9 – “O afundamento é uma depressão produzida pela movimentação tectônica das camadas mnemônicas da minha hipersensibilidade erótica. Parte da memória recupera territórios de felicidade, enquanto a outra parte, mais extensa, exibe imagens de devastação e palavras amargas. O humor, em caso de abalos sísmicos, é um tênue casaco incapaz de segurar as ondas venenosas de uma radiação letal proveniente de balões infláveis. O afundamento lida com massas, volumes, áreas e sólidos capazes de fazer um corpo atravessar a consciência para projetar-se como sombra no vazio do outro lado da fronteira. Há vários níveis de afundamento, mas os superiores são aqueles denominados travessias, aqueles que nos esvaziam de tudo o que fomos e nos reinventam nas formas do impossível. Afundar no chão, no mar, no deserto, inaugurar o caminho para o aberto.” - Ex-José Antônio Cavalcanti

10 – “(...) é preciso continuar, não posso continuar, é preciso continuar, vou então continuar, é preciso dizer palavras, enquanto houver, é preciso dizê-las, até que me encontrem, até que me digam, estranho castigo, estranha falta, é preciso continuar, isso talvez já tenha sido feito, talvez já me tenham dito isso, talvez me tenham levado até o umbral da minha história, ante a porta que se abre para a minha história, isso me espantaria, se ela se abre, serei eu, será o silêncio, aí onde estou, não sei, não o saberei nunca, no silêncio não se sabe, é preciso continuar, não posso continuar, vou continuar.” – Últimas linhas de O inominável, de Samuel Beckett.