Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 22 de abril de 2013

A loja do outro lado da rua

Giorgio De Chirico



*

Uma fase muda a galope próxima. Tantas pétalas as fases, frases disfarces da rosa sem rosto. A leveza desejada, no entanto, turva-se ante o tumulto de dias pesados. Nunca se sabe de que lado a    página do próximo minuto cairá virada. Alguma corrente secreta de  ar anuncia recolhimento de luz em redes inquietas, impulso a cisternas anímicas, queda em aquíferos protegidos na área ao sul do pâncreas. Vou buscar um desenho perdido dentro do útero da linguagem impura. Tudo o que preciso fica agarrado às paredes do túnel, livro rupestre de falsa profundidade. Tempo moído, pele, película, pó. Logo você chega com esse cordãozinho de São Judas Tadeu balançando em ouro falso e tão redundante quanto o ondular ofegante daquilo que vejo logo abaixo dele.

*

Você chega com esse cordãozinho de São Judas Tadeu balançando em ouro falso e tão redundante quanto o ondular ofegante daquilo que vejo logo abaixo dele. Então os quadros na parede trocam de lugar, perdem o ar de reprodução barata: o nu veste-se de traças, a marinha engole as ondas como se fossem aspirinas de espumas, o falso Renoir derruba champagne em mesas e vestidos do “Le Moulin de la Galette” adquirido do marchand camelô 49 na Central do Brasil. Anulo o gesto instintivo de fuga para enfrentar os demônios ancorados no mar sem fundo dos seus olhos de impura cocaína. Exorcizar o fôlego de mil súcubos suicidas arremessados em fúria contra o meu corpo supera qualquer possibilidade de defesa. Não consigo evitar tapas no rosto, pescoço, tórax. Só dez degraus abaixo da porta percebo o logro; a respiração alterada era um convite, sim, não para cama, mas para retirada. Fico sentado na portaria do prédio de conjugados à espera da trouxa de roupa jogada com insultos pela janela.

*

Sentado na portaria do prédio de conjugados à espera da trouxa de roupa jogada com insultos pela janela, vejo a pequena comerciária varrer o chão da calçada em frente à loja de presentes do outro lado da rua. Olha para todos os lados, talvez a mova vergonha de conhecidos, talvez siga orientação do gordo fumador de cachimbo dono da loja e de mil mercadorias (perfumes, bijuterias, empregadas). Os cabelos louros da vendedora luziam ao sol até serem eclipsados por um ônibus parado entre nós. Quando o veículo enfim arrancou rumo a Irajá, os cachos da pequena tornaram-se negros  e a vassoura voara para longe. Vejo-a agora mais magra e bem baixinha. Atravesso a rua para fugir à miopia. Toco as suas costas para ver se ela era de carne e osso mesmo. Vira o rosto triste e sem beleza, ao se arregalarem, os olhos dispersam uma grossa camada de poeira e desesperança. Sinto que ela não pode me ver, está em pedaços, conformada a um corpo apenas por um contrato de experiência, mãos trêmulas quase na porta do desemprego, retrato à espera de carimbo. O senhor feudal vomita um nome. Meu pequeno e dócil manequim de fibra de vidro desaparece do outro lado da vitrine.

*

Quando o pequeno e dócil manequim de fibra de vidro desapareceu do outro lado da vitrine, voltei à entrada do prédio no Catete. Um casal saía às gargalhadas. Duas crianças atrás da explosão de alegria me olharam curiosas. A trouxa quase caiu sobre a mais nova. Discussão áspera. O corpulento diz que vai me encher de porrada, a mulher me xinga. Dizem que não valho nada, não trabalho, exploro a mulher do terceiro andar, uso drogas, desrespeito todas as senhoras casadas, mau-caráter, ateu e tarado. O troglodita me encurrala no canteiro à esquerda da entrada, debaixo da placa “Palais de Sérénité”. Seus olhos espumosos já me veem saco de pancada. Uma chuva de livros caiu sobre o casal e os filhos. Dicionários, romances russos, livros de xadrez, contistas contemporâneos, poesia erótica, manuais de linguística, meu mundo impresso em anacronia desabava: Deus me mandava o maná prometido. Os livros salvaram a minha vida. Grato, Ciça, você sempre foi ruim de mira. Pulo o corpo desacordado do vizinho com a cabeça sob o dicionário Houaiss aberto no verbete irremissível - “Adjetivo de dois gêneros: 1) que não se pode remitir, que não merece perdão, imperdoável; 2) que não se pode evitar; infalível, fatal”. Me abaixo apenas para recuperar Sonetos Luxuriosos, de Aretino, traduzidos por José Paulo Paes. Desisto das roupas e demais pertences. A loja do outro lado da rua já está fechada; aberta, escancarada, imensa cratera pulsando errância na alma.

*

A  loja do outro lado da rua já estava fechada; aberta, escancarada, imensa cratera pulsando errância na alma. Espremida em algum vagão de metrô minha vendedora-manequim flutuava exausta, o calor sufocante ameaçava derreter seu corpo de cera. No conjugado do Catete Ciça vegetava, possuída por decepção e antidepressivos. A lãnguida luz de um poste inclinado me convidava a infindáveis copos. Resisti à pressão do passado nas têmporas, uma dormência subia pelas artérias alagadas de pesadelos, instalava-se nos buracos de décadas em branco. Ao microscópio meus atos, envoltos em camadas de azinhavre, pulavam semelhantes a amebas sem futuro. Tudo era pulverescência, caos, pesadelo. Sabia-me arquiteto de cidades em ruínas, sem arrependimentos e remorsos. Tudo o que precisava era acionar com êxito os mecanismos que me catapultassem a novos desastres. Nada melhor do que a escrita para afundar-me por inteiro.

*

Nada melhor do que a escrita para afundar-me por inteiro. Com Ciça, água pela cintura, no máximo à altura do pescoço. Os braços ficavam livres para tatear falsas alternativas. A mão alcançava a maçaneta da porta de emergência. De uma forma ou outra, sempre uma boia salvadora. A via de escape era invariável promessa não cumprida; na outra ponta, nova hecatombe. Com o tempo aprendi a escapar invadindo territórios alheios. Hoje, por exemplo, preciso me instalar na loja do outro lado da rua para fugir da chuva torrencial. Minto, claro, minto o tempo todo. Minha manequim quase anã virá levantar a grade inglesa às seis horas da manhã. Eis a causa das rachaduras profundas e do inchaço no hipotálamo. Minha manequim-boia-farol um passo à frente. Quando deixar a mochila sobre o balcão e começar a fechar mecanicamente a sombrinha azul circulada por um dragão dourado, vislumbrará o vulto intruso encostado na prateleira de perfumes paraguaios. Apavorada, sim, mas muda. Tentarei falar de destino, de ser impulsionado por ventos misteriosos, da atração exercida sobre um corpo pela passagem da lua sobre o deserto. Todas as palavras irão se desintegrar nos olhos de resina da manequim quase menina. Ela não se acalmará com frases absurdas. Permaneceremos suspensos no medo do próximo gesto. Não, nada disso acontecerá, preciso dormir para voltar à realidade. Agora, no escuro entre balcões e mercadorias, deito-me com fones nos ouvidos, a pistola à altura das mãos.

*

Agora, no escuro entre balcões e mercadorias, deito-me com fones nos ouvidos, a pistola à altura das mãos. Quando acordar, investigarei, debaixo da camada de tártaro dos dentes tortos da minha pequena notável, o nome. Não, melhor não procurar porra nenhuma. Todas as mulheres, ao me revelarem os nomes, abriram um dicionário de centopeias carnívoras especializadas em degustação de desastres amorosos. Sim, nomes lançam nexos, laços, algemas. Nomes exigem biografia e memória, apontam tangências, confluências, margem mínima de afinidades. Nomes são feridas inscritas em corpos de próteses e instantâneos com tintas tragicômicas. Nomes são matilhas furiosas que me perseguem em filas de emprego e ocupações de sem-teto. Alguns tiram fotos, mandam e-mails e torpedos, gostam de gafieira. Permaneçamos, meu bem, indecifráveis anônimos vagabundos. A noite tem pernas curtas. Algum nome secreto abre com estridência a porta da loja e, ao tentar reacendê-la no grau cinza da rotina, pisa o meu pé esquerdo. Arma já bem guardada na cintura, levantei-me incontinente. A situação era confusa. Felizmente não havia explicações. A arma já estava na cintura. Minha musa-manequim esculpida em espanto no interior de magazine muquirana, diva no meio de bugigangas chinesas e paraguaias. Era o meu paraíso: o reino de notas frias, de cédulas falsas, de mulheres chaves de cadeia, de minha subliteratura.

*

Era o meu paraíso: o reino de notas frias, de cédulas falsas, de mulheres chaves de cadeia, de minha subliteratura. A pequena funcionária tremia agarrada à mochila coalhada de bótons de ícones pop. Ergueu o braço direito para se apoiar no balcão. Vi as pulseiras girarem no punho como se descobrissem combinações do cofre em que se ocultam pulsações assassinas. Um sentimento de júbilo arrastou-me alguns passos em sua direção. Queria lamber a sensação de abandono nas salas circulares de minha musa-manequim presas à língua acostumada à cegueira de comandos, talvez pudesse retirar as agulhas fincadas no pergaminho enrugado do rosto devastado por retroescavadeiras de lares desfeitos, descobrir um mapa submerso de peixes entorpecidos à procura de águas vulcânicas, ricas em nutrientes, coágulos, miomas. Pus as duas mãos sobre o material sintético que ligava os ombros à cartilagem mecânica dos braços. O corpo parou de tremer. Seus olhos instalaram um alfabeto estranho em meu destino.

*

Seus olhos instalaram um alfabeto estranho em meu destino. Outro DNA invadia meu organismo. Os braços pareciam imantizados ao dorso da desconhecida, o tórax inflado, as mãos energizadas e mais largas, a pulseira metálica do relógio arrebentou-se no pulso, o corpo mais pesado e cinco centímetros mais alto.  Tudo era estranheza e turbulência. Quando virei a cabeça para ver quem acabava de ultrapassar o limiar da porta, bochechas maiores do que as de Dizzy Gillespie começaram a insultar a pequena escrava. Da garganta apoplética do comerciante saíam fileiras de nomes sujos.  Raspavam a gosma do farto bigode, banhavam-se em perdigotos e cheques sem fundos, batiam no estuque falho do teto  para desabarem na pele tão clara de minha doce desconhecida, em cujas veias eu podia ver pedras e peixes no fundo. A mudez de minha manequim feria a cláusula x  do contrato; na falta de açoites, uma semana sem pagamento, corte de vale-refeição e auxílio-transporte. O troglodita suava em bicas sobre o teclado em que redigia multa e fundamentações. Processo por perdas e danos. Indignação de ópera bufa com a loja transformada na casa da mãe joana. Não vacilei. Peguei a  pistola, apontei-a para o cofre incrustado naquela testa lustrosa, disposto a estourar-lhe os miolos.

*

Peguei a  pistola, apontei-a para o cofre incrustado naquela testa lustrosa, disposto a estourar-lhe os miolos, porém, após tensão provocada por rumor exasperante, o piso emborrachado estremeceu e começou a dobrar-se. Lentamente papéis amarelecidos escaparam de frestas no chão, movimentando-se em círculos até ficarem suspensos no ar. Poemas de todos os tempos flutuavam entre quinquilharias como fantasmas. Pude ver manuscritos em línguas diversas. Fragmentos de Dante, Donne, Bandeira, Cruz e Sousa, Cesário Verde, Emily Dickinson, Vallejo, Drummond, Khlébnikov, Villon, Cecília, Góngora, Wislawa Szymborska, Antíloco, Hölderlin, Arnaut Daniel levitavam entre tantos outros. Os poemas apagaram os relógios. A pequena comerciária agarrou-se ao meu pescoço. Senti seus minúsculos seios latejarem contra o suor do meu peito. Uma pontada abaixo do coração acusou um estranho dispositivo girando bem rápido dentro do meu corpo. Novo fluxo aquoso percorria minhas artérias, numa pressão intensa, como se caravelas incendiassem o rumo de continentes desconhecidos. Vi o meu rosto mover-se no círculo cor de ferrugem ao redor da pupila da pequena vendedora de miudezas. Havia uma tonalidade azulada nas maçãs do rosto, não sei se refletia a excessiva claridade da loja à beira de curto-circuito ou se minha pele buscava novas camadas de nuvens e areia. Guardei a pistola. O proprietário, aterrorizado pelo fenômeno inexplicável e pela certeza da completa falência, esquecera minha ameaça. Eu não tinha mais razões para matá-lo. Só os humanos são assassinos. Eu já assimilara a natureza complexa de minha musa-manequim. Saímos porta afora, livres para a desintegração do universo.


quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Quaterno

"O suicida", 1877, tela do pintor Édouard Manet (1832-1883)




I

Caminhava apressado por uma das galerias da Praça Saens Peña. Havia uma turbulência em seus gestos, um vazamento de rancor e orgulho. Rapidamente as nuvens escuras desapareceram. Pôde ver, então, um asséptico espaço subterrâneo de guichês, corredores, escadas rolantes e roletas. Na realidade, entrava inconscientemente na área de lançamento de um voo cego, tudo ali se constituiria nos registros físicos do embarque na área cinzenta dos impulsos, do descontrole, da perda de rumo.

Próxima parada – São Francisco Xavier; próxima parada – Afonso Pena; próxima parada – desespero; próxima parada – o Inferno. Desembarcou como autômato na estação da Central. Voltou a contemplar as nuvens, agora menos carregadas, atravessadas em pequenas fendas por tímidos raios de sol. 

A calçada do Campo de Santana era insuficiente para os seus passos pesados, largos, presos a tantos tropeços e desencontros. Os camelôs espetavam nos ouvidos maravilhas de produtos. Até que surgiu, em frascos minúsculos, sem qualquer destaque no colorido das mercadorias, a solução para o seu mal. Não parou. O medo obrigou-o a olhar para diante. Ultrapassou o vendedor de bermuda vermelha, camiseta do Flamengo e óculos escuros. O som, no entanto, permaneceu em seu cérebro como farpa: “elimina qualquer rato”, “tiro e queda contra aquelas ratazanas que invadem a sua casa”, “leve três e pague apenas um”. Tremor nas pernas, uma sensação desconhecida adormeceu a língua, quis continuar, não quis continuar. Voltou. Dirigiu-se ao ambulante com uma estranha inflexão na voz -  “Amigo, eu quero quatro” - como se estivesse num confessionário.

Ligou para Odete. Ninguém atendia. Insistiu. Novamente no metrô, de volta a Saens Peña. Na Tijuca. pegou um ônibus rumo à Barra. Sentou-se ao lado de uma jovem de óculos infantis e lindas pernas morenas. Não tirou os olhos. Voltou a ligar. Odete atendeu: “Já falei pra você não me procurar!”, furiosa, do outro lado da cidade. Ele não possuía nenhum argumento, só ameaças, a última: “Você vai se arrepender”. Ela desligou. Ele desceu na Floresta da Tijuca.

Nunca entrara no parque. O caminho era longo. Sem qualquer planejamento, as pernas simplesmente avançavam, passavam ao lado de caminhadas de casais, jipes com turistas, viaturas da segurança, risos de crianças. Mais à frente, pisavam no sinteco carcomido do sala e quarto no Bairro de Fátima, cruzando os zigues-zagues de Odete. Tropeçavam em frases com toneladas de pressão, uma atmosfera poluída por contas, cartas de cobrança, carências, empregos perdidos, cursos não concluídos, promessas não cumpridas. Irresponsável, podia ler pela milionésima vez a última palavra de Odete, misteriosamente escrita no chão pelas folhas caídas de árvores centenárias.

Íntima correlação entre a subida do caminho e a ascensão da nódoa cinzenta em seus pensamentos. Ingressava na faixa onde só se ouve o som da mata e dos bichos, reconhecia, no verde, o deserto habitual. Sentiu que não venceria a distância, exausto, quase no topo. Lembrou-se dos frascos.

Anexada ao boletim de entrada no Hospital  Sousa Aguiar, foi encontrada esta declaração: “Odete, nunca conheci alguém como você. Passei toda a minha vida à deriva, me decepcionando aqui e ali, totalmente perdido. Não há caminho sem a sua presença. Fiz tudo o que podia para aguentar o tranco, mas não deu”.


II

Abriu com dificuldades a porta da quitinete caindo aos pedaços onde vivia, próxima ao Largo do Machado. Bia ainda não voltara da casa de Luíza. Sacolas, malas, trouxas, caixas de papelão pareciam pregadas ao chão, muda resistência de objetos e roupas da vida em comum. Tudo enevoado agora, rachaduras nas fotos, olhos inchados explodindo retratos de noivado e casamento: rascunhos de uma felicidade não escrita até o final da página. Como dados enlouquecidos, as palavras da mulher de sua vida estouravam sintaxe e sentido. Um mundo desordenado fazia os móveis do conjugado levitarem na sala abarrotada de acusações mútuas. Perder a mulher para outra  tornava-o menos que um homem. Diploma de fracasso completo, com louvor, um ph.D em desastres amorosos andando em círculos no interior de um abrigo reduzido a hospício. Nunca poderia pensar. Luíza tão delicada, tão educada, tão feminina. Viagens à metade do mundo. Cursos em Londres, ex modelo, lista de ex namorados. Assediada, desejada por todos. Logo ela. Ele chegara a pensar que...

No minúsculo apartamento, o banheiro assemelhava-se mais a um túmulo, porém dava-lhe a segurança de refúgio, pausa nas discussões e disputas. A camiseta do Iron Maiden no porcelanato caramelo, a calça jeans acinzentada jogada no porta-toalhas, ao lado das meias imundas e furadas. Sabonete barato suspenso nas mãos, enquanto pisava o único tênis que lhe restara, voltou-se para dois seios ofegantes à frente do acendedor do chuveiro a gás; olhos usurpavam o lugar dos bicos e das aréolas. Os mamilos sussurravam falsas delícias, obscenidades, numa linguagem sufocante. Sobre o balcão do banheiro, metade do pó imobilizado.

O número da besta, sim? Esquecera o número do celular de Bia. Não, não, a besta era Luiza. Tomara-lhe a mulher, o apartamento, a vida. Sua carne viva malhara desejos noturnos. Luiza selvagem e arisca. Perfume e perfeição dos peitos, bunda de calendário de oficina. Quanto desejo, quanta deriva. Investira todos os seus recursos de Don Juan falido, acenara com tudo que não possuía, oferecera plurais sem majestade e superlativos baratos. Luíza firme, uma madre Teresa de Calcutá, puro cristal. Traíra! Filha da puta! Joguinho safado por trás das costas. Ela e Bia, provocação, deboche.

Esquecera o bloco de rascunho na sala. Sorte contar com fita crepe bem larga. A caneta falhava, como ele, mas daria para o gasto. Mais uma carreira sobre a pia. Ao levantar a cabeça viu, no espelho manchado de velhice, Luiza atravessar a parede, nua e deliciosa.
Exultou. Em vão, logo após Bia cruzou as pastilhas da mesma parede com todo o esplendor de seu corpo moreno. As duas se beijaram e se amaram em um banho de deusas sob os seus olhos agachados no canto mais fundo do banheiro.

Alguém acrescentou uma folha amassada ao prontuário do Hospital Miguel Couto, nela se podia ler, em caligrafia confusa, declaração pungente em fita crepe colada no papel: “Luiza, nunca conheci alguém como você. Passei toda a minha vida à deriva, me decepcionando aqui e ali, totalmente perdido. Não há caminho sem a sua presença. Fiz tudo o que podia para aguentar o tranco, mas não deu”.


III

Entrou num táxi em frente ao prédio da Maison de France, onde passara a tarde toda lendo um livro de Michel Déguy sem ter compreendido uma linha sequer, o pensamento todo em Alana, irrompendo imagens, quebrando versos, rasurando páginas. 

De volta ao amplo apartamento na rua Toneleros, em Copacabana, jogou-se sobre o sofá verde musgo em L na sala com dois ambientes. Mais um final de semana sem a mulher, perdida em Búzios ou Angra, sequer sabia o paradeiro certo. Nas últimas semanas, o que ela lhe dizia chegava pastoso e confuso aos ouvidos. As palavras tinham pontas alongadas que desenterravam um passado desconhecido, anterior à fila de cinema onde a conhecera.

Entrou no escritório amplo com três estantes entulhadas de livros. Alana perdida para eternas pesquisas, simpósios, congressos, cursos. Professora universitária em pastas diversas sobre a escrivaninha. De um retrato, ambos em sorrisos abertos, saía tímida fumaça de felicidade. Sob um dicionário de francês um comentário aos versos que ele escrevia. “Bons, mas frouxos [...] criativos, espontâneos [...] pecam pela ausência de trabalho [...] grandes soluções anuladas por erros gramaticais e fórmulas grosseiras [...] falta de leitura, péssimos hábitos [...] inadmissível preguiça intelectual [...] anárquica irreverência, sim, mas jogos de palavras sem sentido, trocadilhos infames rimados [...] tragédias pessoais não transformam ninguém em poeta razoável, apenas revelam experiências comuns a milhares de outros indivíduos”.

De volta à sala, sentiu agulhadas nos ouvidos. “Você foi o maior erro da minha vida”. Alana enlouquecida ocupava todos os cômodos do apartamento, enquanto entre lágrimas, vermelha quase no limite de um AVC, soltava uma legião de frustrações. “Te peguei na lama, seu filho da puta, e você só sabe beber, arrumar confusão e me deixar sozinha, seu poeta de merda”.

Fechou e abriu os olhos para espantar o demônio da memória. Quis sair, lembrou-se de que acabara de entrar por já não ter para onde ir. Levantou-se extraordinariamente lúcido e pesado. Foi para a varanda.  Observou besouros velozes na rua e móveis pontos colorindo as calçadas. Viu a cortina de prédios do outro lado da rua, gente em outras varandas, um casal trepando no terceiro andar em frente.

De repente, uma frase antiga de Alana passou voando bem à sua frente. Em seguida, a mulher apareceu amorosamente nua e suspensa, pedindo perdão e chamando-o para uma reconciliação definitiva. Ele não hesitou, seguiu em frente.

Entre as anotações da ficha de entrada do paciente, em uma folha de caderno universitário pautado, com margem dupla, podia se ler a lápis o último parágrafo de um texto todo rasurado: “Alana, nunca conheci alguém como você. Passei toda a minha vida à deriva, me decepcionando aqui e ali, totalmente perdido. Não há caminho sem a sua presença. Fiz tudo o que podia para aguentar o tranco, mas não deu”.


IV

Saiu sonolento do sítio em Vargem Grande. Ligou o carro e apagou a sanidade. Louca e acesa a seu lado, Tininha falava pelos cotovelos.

O dia quase amanhecia quando chegaram à vila numa ruazinha perto da Praça Seca, em Jacarepaguá. Banho tomado, a mulher apagou-se exausta. Ele permaneceu zonzo na recém comprada poltrona reclinável azul-marinho, motivo de tanta discussão entre os dois. A porta da casa permanecia escancarada como um convite. Não tinha forças para se mover.

Já estava cansado, passara dos cinquenta. Tininha vinte e cinco anos mais nova. Pior, comportava-se como eterna adolescente. Patético, tentava acompanhá-la mesmo em modo grisalho. O viço do corpo que tanto o encantara começava a se apagar precocemente. Cada vez mais louca e viciada, Tininha atingira o estágio da total perda de controle. Cada dia mais impotente, não conseguia segurá-la, sentia-se uma nulidade, acompanhante mudo da decadência, personal trainer de catástrofes.

Voltou ao quarto. Não encontrou a mulher. A cama permanecia perfeitamente arrumada. Ninguém nela se jogara. No banheiro, tudo seco, nenhuma toalha molhada. Saiu para ver o carro. Nada. Lembrou-se, então, de ter deixado o velho Gol grafite na oficina. Voltou profundamente angustiado, sem encontrar explicações para o que estava acontecendo.

Abriu uma garrafa de uísque para se acalmar. Tininha surgiu com um copo e um sorriso estranho. O peignoir aberto mostrava os seios generosos parcialmente cobertos pelas pontas dos longos cabelos molhados. Sentiu o perfume de outros tempos balançar novamente o seu destino. Todas as mulheres desfaziam-se da carne para se transformarem em aparições em sua vida. Nunca conseguira construir laços, todos os caminhos amorosos deixavam-no no pântano mais próximo e mais fundo. Todas as vozes só se aproximavam para envenenar a alma, demolir afetos, devastar a cidade interior. Lutou para desvencilhar-se dos braços ainda roliços, repletos de marcas de picadas, daquela morena mignon de beleza capaz de mandar qualquer um para o inferno. O rosto diabólico de Tininha tirava-lhe o fôlego. A cruel devoradora de seus últimos dias pisava o seu abdômen com lâminas nos saltos, ajoelhava-se sobre o tórax enfraquecido, enfiava-lhe a língua bipartida nos ouvidos. 

 Refeito do assombro, deu-se conta do estado alucinatório anterior. Além dele, ninguém na sala. Estava com o telefone nas mãos. Ouviu com atenção de colegial todas as instruções da operadora. Largou o aparelho, decidiu-se por um bilhete final. Equilibrou-se num gesto de extrema determinação até chegar à cama. Abaixou-se lentamente. Pegou uma caixa de papelão de algum Natal passado que, agora,  servia para esconder a pistola Glock calibre 380, em fibra de carbono fosco, carregador de 16 tiros.  Abriu-a com ternura na tentativa de ingressar em outra caixa, bem maior e definitiva.

Ao procurar, entre tantos documentos, o formulário de alta do paciente, Duília, auxiliar de enfermagem do Hospital Lourenço Jorge, deixou cair uma folha meio rasgada em que se podia ler declaração única e inesquecível: “Tininha, nunca conheci alguém como você. Passei toda a minha vida à deriva, me decepcionando aqui e ali, totalmente perdido. Não há caminho sem a sua presença. Fiz tudo o que podia para aguentar o tranco, mas não deu”.


terça-feira, 8 de novembro de 2011

As três chaves



       José Antônio Cavalcanti

Abriu o portão externo do edifício cheio  de insegurança, ela podia aparecer e ele não saberia como reagir. Olhou a chave azul,  indeciso, enfiou-a na porta do prédio, sua agitação fazia-o confundi-las. Não, não era a azul. A vermelha era da porta do apartamento no terceiro andar. Sobrava a de metal. Aproximou-se como um criminoso da caixa de correio. Olhou preocupado para todos os lados, para a parte externa e para o corredor onde ficavam os elevadores, simultaneamente vigiava as escadas e o acesso ao estacionamento. Ninguém. Aliviado, enfiou as chaves desajeitadamente na  caixa de madeira. Ouviu o barulho do metal contra o fundo. Era um som de catástrofe, seco e abafado ao cair da tarde de verão.
Era preciso voltar, virar à esquerda, seguir em frente, atravessar outra rua, outro continente, para finalmente inaugurar o deserto no ponto de ônibus. Precisava escapar do peso daquele barulho em sua mente. Não poderia adivinhar naquele momento que sua alma incorporara-se às chaves devolvidas e sua vida, dali para sempre, seria semelhante a uma carta extraviada. Além disso, ignorava que o som produzido pelas três chaves no interior da caixa de madeira iria persegui-lo incessantemente como uma trilha sonora de progressivo enlouquecimento.
Semanas antes, numa quarta-feira ensolarada, ela viera sem a aceleração habitual. A saia longa e pregueada combinava com a blusa azul e com a sandália âmbar. A bolsa? Sim, existia uma bolsa, mas a memória dela se dissolvera na névoa dos acontecimentos. Não, não era âmbar. Ele havia permanecido no quarto o tempo todo. Provavelmente a bolsa tenha ficado na sala.  A tonalidade do azul destacava de modo delicado a beleza nórdica da mulher. Sem manifestar outra intenção a não ser a de trocar-se, ela transformou a passagem pelo apartamento em escala meteórica para nova saída na qual ele seguramente não estava incluído.
 O rosto enevoado entre as sardas que lhe conferiam certo encanto e um jeito de olhar contraído e inquieto pareciam estudar palavras e possibilidades, tentavam amenizar o rigor de decisão noturna e impostergável. Um banho ligeiro permitiu-lhe limpar os receios; a consciência no ralo. Ousou fazer café, fechar persianas, arrumar as almofadas no sofá, alongando a permanência perigosa. Discreta e natural testava-se, mobilizando tato e argúcia. Por dentro, quase afundava, mas era preciso arrancar a farpa do olho, extrair o pus da alma.
O homem esperou-a, contudo, desatento. Apesar de tantos sinais, insinuações, frases, fragmentos, gestos, silêncios, expelidos como SOS em outros encontros, nunca conseguira livrar-se do aprisionamento ao terreno exíguo de furtivas tangências nem fugir ao precário equilíbrio em finos fios de arame que se enlaçavam às pernas e engessavam os movimentos. Acreditava no intervalo como condensação, densidade do afeto tão fundamente fincado em sua existência. Não percebia que pouco era menos do que nada. Na outra margem, latente urgência mobilizava mais fundas necessidades, um corpo desmontava-se em solidão, rugas e mágoas. Incapaz de perceber o que se movia mais abaixo dos lençóis, a tsunami em formação na região além-do-corpo, estendia-se pronto ao exercício de uma coleção de carícias com a qual ocultava as fissuras, o fosso, o silêncio entre ambos. Seu jeito de amar revelava-se puro anacronismo, uma intensidade infensa à racionalização, desprovida de mecanismos compensatórios, anuladora da capacidade de observar, fundamental à sobrevivência dos afetos. Prender-se à sedução da pele não é o único caminho da gênese do superficial. Embora desacreditasse em filosofias de profundidade e em paixões eternas, sabia do vigor e da complexidade que o arremessavam misteriosa e incontrolavelmente àquela mulher. Não a pele, a superfície, mas o não saber cuidar, o não saber guardar, a obliteração do olhar por uma pesada película de previsibilidade abriram as páginas de uma tempestade em surdina.   
Deitados lado a lado. Ele nu, ela vestida. Ele de bruços como um corpo baleado, ela de barriga para cima, olhos verdes e vazios fixados no ventilador de teto, mãos postas como quem reza. Assim ficaram suspensos fora de qualquer temporalidade até o momento em que, com uma leveza ensaiada e assassina, uma frase formou-se por trás das tardes acumuladas sobre a cama, nasceu do amplo sinal da coxa esquerda da mulher, até sair de uma de suas costelas, suave e fatal, num tom preocupado em evitar rachaduras e desenlaces patéticos. A frase, gêmea do barulho das chaves na caixa, circulou minúscula e impronunciável, antes de se arrumar na voz que tanto o encantava e agora, ainda serena, dava-lhe um tiro na nuca: “Vou pedir para você se afastar de mim”.

Sentado no ônibus para Guadalupe, voltava a junho. Os dois a caminho de um restaurante onde ocasionalmente almoçavam. Localizava o início do fim no anúncio seco e sem direito à discussão: - Não vamos mais almoçar juntos. A frase lançou-o a três palmos do chão. A vigilância dos outros, a possibilidade de descoberta da paixão clandestina, o medo, a insegurança, um lado de sombras erguendo-se da limonada suíça para estender sua acidez sobre expectativas. Era com método e elegância que alçava o garfo à boca, perfeita arquiteta de uma estratégia de fuga e emparedamento.
Sim, a sensatez didática do gesto insinuou-se como um ensaio para livrar-se de alguém que a assombrava com um afeto delirante e indesejado. O homem revelara sua natureza mais funda: um demônio da quinta legião dos infernos, um sedutor barato, um Don Juan velho e impotente. Ela não se perdoava a falta de resistência à fala de vil e astuciosa criatura. “Amor, adoração ou devoração?”, perguntava-se antes da escolha da sobremesa.  
A radicalização do sentimento de proteção era uma fórmula de afastamento deliberado, precisava encapsular-se, criar um sistema de blindagem imune à força virótica do sentimento incomum que despertara no indesejado admirador. O isolamento propiciaria a quarentena inadiável. Estratégia perfeita, traçada em ruas de aconselhamentos maternos, fraternos, amigos e científicos. Guardaria a cidade do bárbaro invasor. Precisava não vê-lo nunca mais, ocultá-lo, torná-lo invisível foi a forma encontrada para matá-lo. Ela sabia da ausência de algo que afastasse a órbita dele em torno de um corpo e de uma alma que o nucleava.
Toda a solução final já estava presente naquele almoço, faltava a ela, porém, a energia capaz de enfrentar a intensidade em menor escala da paixão acesa também em seu coração. Pura incandescência, o hálito dele magnetizava-a, acendia os territórios adormecidos do corpo, despertava nuvens que há muitos anos haviam desaparecido do horizonte. Por isso, seus seios saltavam bélicos e viçosos, por isso em sua pele uma resina deliciosa escorria sobre palavras desconhecidas, dicionarizadas nas letras de momentos fugazes, por isso transformá-lo de homem em fantasma era tão difícil.

Quando alguém sentou-se ao lado dele, à altura de Benfica, teve ímpetos assassinos. Fixou enlouquecido o rosto da intrusa, mas a inexpressividade e o ar de cansaço atenuaram o  furor homicida. Voltou-se para o lado da janela e pôde observar com desalento a risadinha canalha da confidente da senhora das chaves. Jogadora de baixo calibre, espalhava armadilhas e maledicências, o olhar parecia dizer à amiga “você, hein, escondendo o jogo”, “quem é ele?”, “olha, ele é muito simpático” e dezenas de pérolas de intimidade,  condenação e sentimento de “eu sei de tudo”, como se possuísse alma de cafetina conhecedora de todos os caminhos clandestinos. A lembrança fez com que entendesse a obsessão dos estranguladores e o ataque injusto que sofriam ao cumprir desígnios divinos de remoção de falsas vítimas, verdadeiras víboras a envenenar corações alheios.  
Sangrava, era verdade, porém não tinha direito algum a lamentações. Desde o início fora repelido com veemência ou com fineza. Sempre prudente em suas recusas:
 – Olha, há tantas outras mais bonitas e mais moças.
– Você tem a sua família.
– Não há a menor chance de ficarmos juntos.
– Não suporto homens que gostam de Clarice Lispector e escrevam poemas.

Quase à altura de Bonsucesso, uma mulher semelhante a uma morta-viva ofereceu-lhe um folheto com a proposta indecente de salvação da alma. Ficou puto. Falou que não queria salvação porra nenhuma, só os covardes e os canalhas invocam Deus para limpar as imundícies que fazem. A mulher teve um ataque, satanizou-o, gritando para quem quisesse ouvir que ele estava com o demônio no corpo. Perdeu as estribeiras, mandou-a tomar no cu. Ameaçou botar o pau pra fora, gesto não realizado graças ao completo encolhimento do membro. Explodiu, então,  numa linguagem e num gestual tão violentos e despropositados que os passageiros ameaçaram-no. Acabou expulso do coletivo debaixo de tapas e xingamentos.
Ingressou no primeiro buraco que apareceu. Maravilha. Em vez de balcão, mesas e cadeiras do bar onde julgara entrar, viu-se na festa de fim de ano. Ela o sorteou como amigo oculto, ele exultara. Muita sorte, pensava. Logo seu entusiasmo arrefeceria com palavras tão insípidas, tão distantes, tão vazias, moduladas num tom monótono, glacial e distante. Vontade de não receber o presente. A raiva fora tão grande que acabou bebendo oito cervejas e três conhaques, sem se dar conta que estava realmente num bar quase ao lado de uma boca de fumo. Acalmou-se ao observar no espelho rachado do boteco ele, na Floresta da Tijuca, ao lado da amada. O verde reconfortou-o, readquiriu forças, pôde caminhar quilômetros enquanto pensava seriamente em uma maneira de exterminar a amiga enxerida.  Bater com uma marreta na cabeça até o fim pareceu-lhe algo cansativo, tinha pavor a facadas, não possuía revólver nem pistola, não era de bater em ninguém. Como exterminar a amiga-inseto? Como remetê-la ao oitavo círculo do Inferno, onde Dante alojou os maus conselheiros.

Não conseguiu lembrar como chegara à praça das Nações, percebeu  que estava andando a esmo. Curiosos observavam seus movimentos a três palmos do chão, pensavam em milagre, manifestação demoníaca ou infiltração alienígena. Logo ficaram convencidos de tratar-se de mais uma jogada publicitária e perderam completamente o interesse. Enquanto se afastavam, o único medo que manifestara foi o de escutarem o som das chaves na madeira da caixa de correio; o barulho era ensurdecedor. Não conseguiu arrumar os pensamentos. Sabia, todavia, que existe uma dimensão oculta, uma simbologia do desastre. Pretendia desvendá-la, embora isso em nada aliviasse o gosto amargo da derrota, a última, a definitiva, a capitulação completa ao absurdo da existência.
Entrou numa papelaria. Pediu uma caneta, um lápis, um bloco de rascunho, uma borracha e um apontador. O balconista demorou uma eternidade para sair do lugar, enraizado a um chão de espanto. Quando finalmente conseguiu reduzir o temor, balbuciou: - O material é  oferta da loja, não é necessário pagá-lo.
Uma vez de volta à praça, atravessou a linha do trem, subiu o morro do Adeus com a intenção de viajar no teleférico. Percurso inútil. O barulho das chaves aumentou assustadoramente, obrigando-o a desviar-se do caminho e a entrar na primeira birosca que apareceu. Comércio miserável e sem espelhos, apenas uma mesa de sinuca, um balcão com bancos remendados, em petição de miséria, e duas mesas inseguras, talvez fosse o lugar ideal para começar a sua investigação, por isso esboçou um esquema ternário (pensava em Dante, na terza rima, nos círculos do inferno, em Beatriz, na Cabala, no amor e na morte) na última folha do bloco.

ESQUEMA DAS CHAVES

Chave metálica – O ciclo do mundo, as estações, as cidades e os planetas, origens e fins, manutenção das aparências, máscaras, falsidade, traição, trânsito entre as coisas e os seres. Todos os movimentos externos à relação entre os dois. Fílosofia.
Chave azul – O ciclo da amizade, da procura, do conhecimento, da carência, da cumplicidade, tangência e geometria, junção e disjunção, teoria dos conjuntos, pontos e linhas. Matemática.
Chave vermelha – O ciclo da paixão, química corporal, perfumes e resinas, quente, úmido, vento, entrega, promessa, redenção da carne e de todos os pecados. Poesia.

Já anoitecera. Nenhuma estrela grafava o próprio nome no céu suburbano. Saiu da birosca cercado de curiosidade e suspeita. Exército, pms e traficantes olhavam-no como o próximo alvo. Seu alheamento, confundido com autossuficiência, multiplicava exponencialmente o desconhecido em uma dimensão assombrosa.
Sem se dar conta, voltou para o apartamento onde morava. O esquema que traçara seria doravante o seu projeto de vida, razão pela qual o escrevera na última folha. Daquele momento em diante, tentaria encontrar na escrita um antivírus para o mal que o assolava.
Exausto, com a cabeça a ponto de estourar, teria sido melhor esquecer aquele dia, soterrá-lo, embriagar-se, dormir, anestesiar-se. Todavia uma corrente violenta percorria o seu corpo e o seu espírito; não conseguia ficar lúcido nem conseguia perder a lucidez.
Para combater o som das chaves que percutia agora de modo mais ameno em sua mente e aliviado com o desaparecimento da dor de cabeça, procurou refúgio na poesia. Buscou Dante, mas inexplicavelmente, para sua infelicidade, abriu as Elegias de Duíno, de Rilke, logo no primeiro poema.

            “Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos
            Me ouviria: E mesmo que um deles me tomasse
            Inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia
            Sua existência demasiado forte. Pois que é o Belo
            Senão o grau do Terrível que ainda suportamos
            E que admiramos porque, impassível, desdenha
            Destruir-nos; Todo Anjo é terrível.
            E eu me contenho, pois, e reprimo o apelo
            Do meu soluço obscuro. Ai, quem nos poderia
            Valer; Nem Anjos, nem homens
            E o intuitivo animal logo adverte
            Que para nós não  há amparo
            Neste mundo definido. (...)”

“Miserável do Rilke, me pôs a nocaute, ampliou meu insulamento, meu desamparo, nem Eros, nem Deus, nem porra nenhuma, só a poesia. E o que é a poesia se não a estilosa manifestação do nada. Maldito anjo da guarda, me largou quando viu uma passista na Sapucaí e saiu correndo alucinado atrás da mulher oferecendo beleza eterna e uma vida de madame”, pensou o poeta anônimo atingido pela potência da palavra rilkeana.
Fazia tudo para se ver livre do barulho insuportável e sobreviver ao desmoronamento de todo um sistema solar que construíra com tanto empenho, carinho e ilusão. Falho geômetra, péssimo astrônomo, medíocre poeta. Expulso da cama, do sofá, de almoços, de cinemas, dos braços, de teatros, dos peitos, das coxas, das palavras, dos olhares, dos beijos, da xota, da bunda, dos sonhos, da presença de quem amava. Para ele tragédia, para qualquer outro apenas mais um caso de vulgaridade obscena.
Não, não se considerava um qualquer. Que se fodesse o senso comum. Que se fodesse quem descobria em tudo um dramalhão mexicano. Fossem todos para as putas que os pariram (gostou de xingar em plural). Contaminado pela dor, querendo mais pancada, ansioso pelo fim do mundo, pulou a segunda elegia, para reencontrar na terceira a dona das chaves, pois sentiu no texto o amor fluvial e despótico. A amada exorcizava seus demônios, lançava pontes sobre o abismo onde morava, recolhia-o destroçado de suas próprias raízes selvagens. Rilke o enlouquecia. Saltou a quarta, a quinta e fugiu do herói da sexta elegia.
Mas surgiu um cão no quarto em que amontoava desordenadamente livros baratos comprados nos sebos da praça Tiradentes. O animal rosnava, ameaçava, encurralava-o na poltrona próximo à janela. Emitia uma ordem imperiosa em seu olhar feroz. O homem descobriu que o cão era o próprio Rilke,  O poeta tinha completo domínio sobre a sua vida, sabia tudo sobre a sua infelicidade amorosa.
O homem recusou-se a ler a sétima elegia, apesar da insistência obstinada do cão. Este, verificando a inutilidade de suas ameaças, enunciou com inflexão cínica um fragmento da sétima elegia, a fim de aterrorizá-lo: “Em parte alguma bem-amada, o mundo existirá, senão / interiormente. Nossa vida transcorre na metamorfose: / sempre decrescendo, o exterior desaparece.”
Metamorfose? Aquela palavra explodiu uma cólera intestina. O que desaparecia era a sua passagem mais próxima da ideia de felicidade. Como valorizar metamorfose, se a mudança é sempre sinônimo de morte, perda, destruição. Metamorfose é aniquilamento, nada se transforma em nada, o que é só vige no espaço do seu ser no momento pleno do seu vigor. A que ser humano interessa a transformação do corpo em cadáver, do sonho em pesadelo, do amor em solidão? Metamorfose é para aula de ciências, não para a existência de nossos afetos. Ruminou outros ressentimentos, olhos fixos no pequeno Cérbero.
Implorou a Rilke que parasse de injetar por meio de agulhas poéticas mais veneno em sua mente, porém o poeta ignorou solenemente o seu pleito e continuou. Ao chegar quase ao fim do poema, na passagem “Anjo, mesmo que te aliciasse não virias, pois meu / apelo é sempre denso de repulsa; que podes tu / contra a caudal do meu horror?”, o homem teve uma explosão de fúria, passou a chutar o cachorro com extrema violência e a lançar contra o odioso animal tudo o que encontrou no cômodo. Finalmente, arremessou Rilke e o livro insuportável pela janela.
Acreditou, assim, evitar o clima metafísico da oitava elegia e não se dar ao trabalho de tentar entender as duas últimas. Não obstante, alguém lá fora pôs-se a ler os versos da nona elegia: “Quem nos desviou assim, para que tivéssemos / um ar de despedida em tudo que fazemos? (...)”.  Puta que o pariu! Esbravejou, xingou, praguejou, blasfemou. Não queria ouvir nenhuma menção à palavra despedida, estava despedaçado justamente dentro de uma. Em vão, pois lá fora a mesma voz declamava um verso da última elegia: “Eis aqui o tempo do dizível, eis aqui sua pátria.” Não, maldito poeta morto, sem Beatriz nenhuma pátria poderia existir.
Incapaz de suportar mais, o homem pegou uma chave de fenda enorme, agachou-se no  parapeito da janela do terceiro andar decidido a pular, com a chave bem firme na mão, sobre o corpo agonizante de Rilke que, entre versos e uivos, aumentava a sua agonia, ampliando ao imensurável a dimensão da sua hecatombe pessoal. Estava prestes a cometer o desatino, quando a filha abriu a porta do quarto e assustou-se: - Não foi nada, filha, estou apenas consertando a persiana.
Sua filha o salvara? Não, para ele não havia salvação possível; mesmo que existisse,  seria uma indignidade. Face à queda, à perda, à ruína, só a energia por convenção denominada amor nos inclui no rol do sagrado.

A chave metálica funcionava ao contrário, abria a porta do prédio não para que nele alguém entrasse, mas para os dois se lançarem nos braços da cidade, percurso estético e erótico: filmes, música, almoços, teatro, festas, passeios, pipoca, água de coco, café, shopping, livraria, colados um no outro no carro dele, aos papos e beijos, querência, paixão, impulso incontrolável. Era simultaneamente o espaço do risco, da cilada, da possibilidade de encontro indesejado na madrugada ou em motel, da bandeira, do movimento libertário.
A chave azul abria um ao outro, expondo-os em seus vícios e virtudes. Por intermédio dela a troca tornava-se possível. Permitia ao homem apalpar as asas e escamas esverdeadas da mulher, enquanto ela descobria minas e manhãs impronunciáveis no fundo dos olhos dele. Era o instrumento de aproximação, de um caminhar para o outro. Era a chave de descobertas, sem a qual os encontros ingressam em movimento pantanoso. Despia as distâncias, os receios, o medo, a desconfiança. Chave-ponte, arquiteta de cidades, continentes, planetas e constelações na tênue fronteira entre homem e mulher.
A chave vermelha era o acesso completo. O último cofre da sala de segurança dos sonhos. A senha de ingresso nos salões sagrados do prazer. A química dos corpos e a poesia dos gestos faziam os corpos flutuarem no ar. Irradiava uma essência paradisíaca: carne na carne, sexo incandescente, alma levitando. Sentiam o vento emanado de galáxias desconhecidas. Um se perdia no outro, e essa perda era a felicidade. Só a paixão pode construir uma queda com movimentos que não jogam os corpos para baixo, mais para o aberto e o além da existência. Só a paixão constrói naufrágios sem navios, sem mar, sem rumo. Só a paixão desperta desertos povoados por lembranças famintas e todas as tendas do desejo. Só a paixão marca a promessa com o beijo inaugural e a cicatriz da eternidade em corpos efêmeros.

Levaria a vida inteira para estudar o esquema das chaves. Doente, sabia que a doença crescia velozmente. Não tinha mais forças para lutar, ele que fora um leão na defesa dos seus sentimentos. Sentia-se aniquilado. Envelhecia a olhos vistos. Nada podia fazer. Ela tinha todo o direito de não querê-lo mais. Ele jamais transformaria a paixão desmedida em um peso na existência dela. Sabia que estava morrendo, irremediavelmente morrendo. Ia afundando, desaparecendo, tornando-se cada dia mais invisível há 327 dias, desde aquele fatídico 15 de dezembro. Todo o resto dos seus dias ouviria o som das três chaves caindo na caixa em madeira do correio de um prédio perdido na cidade. Viver seria apenas grafar infinitamente as dolorosas letras desse som.

Pilares, 08/11/2011

quarta-feira, 28 de setembro de 2011



INDAGAÇÕES A RESPEITO DE M


  
José Antônio Cavalcanti


Surpreso. Sim. Supresa. Depois de tanto tempo. É como se, de repente, tivesse percebido que houve apenas uma estranha construção: um muro sobre o terreno baldio de nossas vidas. E que estávamos encostados nele, exatamente na mesma posição, embora cada um no seu lado. E as pedras frias nos silenciavam, enquanto deixávamos sem dor e/ou arrependimento chamuscos de carne e massa cinzenta espalhados em volta da nossa solidão.

 

Recordar o quê? Para quê? Lembro muito bem que você mascava chiclete e usava tênis, jeans e um suéter vermelho, de doer as vistas, quando os dragões vieram prendê-la e chicoteá-la; e que eu estava sentado, lendo um tratado sobre alquimia, no momento em que a sentença foi proferida. Ainda tentei reagir, atirei sintaxes sobre os jurados, reneguei a lógica doentia do mundo e compus um elogio ao pássaro suicida, em vão. De que adianta lembrar, re/ver, re/ler, re/volver?

Eu ia até dizer que foi um tempo ruim, todavia o tempo nunca foi, é, continua sendo e será, eterno amanhecendo no mundo, no mesmo instante de ir e de voltar, rompendo barreiras de uma apreensão didático-existencial da vida. O que preciso reconhecer, embora custe bastante, é que tornei-me em e com você; foi o seu hálito que inflou o espaço vazio entre a minha pele e a consciência. Nasci homem no bojo do seu corpo. Sim, um crescimento enorme acordar profundamente enriquecido com o quente de suas carnes viçosas incendiando o desejo; escrever desordenadamente sobre as linhas do seu corpo, sempre à espera de sinais e prodígios. Talvez nos amássemos, quem sabe? É bem verdade que nos recusamos teimosamente a pensar nisso. Havia um acordo tácito de não aprofundar nada, de não erigir eternidade em cima do que é provisório e precário, de fruir o momento, de morder a polpa macia do fruto proibido sem pensar no que pudesse acontecer no estômago. É bem possível que nos iludíssemos e, por trás de laços tão frágeis e inseguros, a vida movesse os seus dedos no sentido de uma relação sem saída, algo de umbigo a umbigo; algo de junção, ponte; algo semelhante a casa com passarinhos, lunetas, mapas-múndi e filhos. Nunca pensamos no amor. Não iríamos sujar nossas esteiras pecaminosas com rótulos, frases feitas, discursos. O silêncio falaria por nós, sem racionalismos estéreis. O esperma ridicularizaria qualquer teoria, o riso apagaria qualquer explicação; os gestos seriam capazes de enevoar o pensamento e, de repente, restava apenas a vegetação intensamente verde transbordando dos seus olhos, falando de vida e perigo, de aventura e sossego, num tempo fora do tempo, no abismo do mundo.

É verdade que não nos deram alternativa, eu sei. O mundo sabe ser cruel. Sensação de mal-estar profundo no vértice do gozo: uma campainha interrompendo o beijo; batidas violentas na porta, deslocando a mão em seu movimento amoroso. Confesso que fiquei paranóico. Hoje amar já não é o mesmo brinquedo. Sempre me ocorre a possibilidade de, subitamente, um carro atravessar a parede e arrebentar a gente na cama, ou sermos violentados por uma quadrilha no banheiro, ou acontecer um incêndio.

Falar agora é inútil. De nada adiantará preencher esse apartamento abandonado de palavras e palavras. Os móveis dizem muito e o aquário, onde um peixe morto há anos transformou-se em um sapo, é capaz de gritar. O discurso não reconstruirá M, a língua nada possui de mediúnica. Nem sei se vale a pena procurar fantasmas, devassar páginas de um diário inútil. Mas M será fruto da imaginação? Aonde foi M? Foi comprar cigarros ou à boutique Shazam? Que fizeram de M? Que fará M neste exato minuto? Às vezes penso que M está na cozinha de uma casa de um subúrbio distante, fazendo um pavoroso café, e se ela pudesse me ouvir me daria um esporro violento, diria que sou um machista-filho-da-puta irrecuperável e o diabo a quatro. Porque, na verdade, M estaria comendo borboletas e colocando um livro na vitrola, a fim de ouvir as visões mais delirantes da loucura. Porque M estaria agonizante na ponta de uma seringa. Porque M estaria assustadíssima, olhando a sua filha, e desesperada por não saber como ser mãe e o que fazer com aquela criatura nascida de um seu esquecimento, uma sua distração numa praia submersa na noite. Porque M estaria tão perdida quanto eu, arrastando todos os móveis para escorar a porta, procurando chaves e cadeados, fechando-se toda, com medo de novos dragões, com medo de um tempo em que discutia amor, poesia e revolução.

Jamais deveria ter voltado, essa re/volta, ler esse apartamento, re/ler sua história, tentar abraçar imagens, fadas, duendes. Nunca se pode compreender a separação que por si mesma não se decidiu, do que ainda não se esgotou, do que ainda é possível, do que sequer se juntou. Não posso abastecer-me do próprio veneno, nem devorar a minha cauda, nem suprimir a parte luminosa no meio desse desvio. Preciso de M e M está fora de mim, fora de si, extirpada do mundo, em outro mundo dentro desse mundo. As raízes cortadas pelos dragões, o amor bloqueado, o nosso ser-no-mundo todo fodido. E, agora, de nós dois resta apenas o resto que sou e cada vez mais vou assumindo o meu próprio vazio, e cada vez mais o meu rosto é este puro desespero de boneco ventríloco, escondido no poeta embriagado, desse boneco capaz de repetir palavras, desse papagaio de luxo que diverte e preenche o tédio de outros tantos bonecos vazios, nos quais a consistência do ser é nula, com os quais a verdade amanhece morta num ônibus lotado, num paletó-e-gravata-cedinho-na-luta. Invento palavras, coloco, sílaba após sílaba, a minha armadura vazia no oco do mundo, e me sustento de entrega e agonia, sangrando auroras pelo meio-dia, sentado no mmheiu-fyu, foRA dhi zinthonyA, fora de Rota, fora desforra de rumo/ramo/rima, porque M está perdida em Peixes e o meu signo é uma merda; porque M está vagando pelo pavilhão do Pinel e hoje não é dia de vis(i)ta arrasadora. Hoje não tem encontro de dor e hambúrguer, coca-cola e loucura. E preciso escamotear os meus sentimentos dentro de frases polidas: – Como está?, dona Isaura. Não se preocupe, M está bem melhor – e passo dias, noites, tentando ser agradável, simpático, educado: um rapazinho encantador. E só posso escrever M porque M mesmo é impossível, porque M agora não está em nenhum lugar do mundo e não adianta tentar me enganar com a voz de M vinda do quarto. E vou voo inventando/inventariando sobre o vazio/vozerio da vida a mis(T)éria(O) d’arte: astúcia & manha, VERdaDE e MENTira, gozo y sufrimento. A arthe é um arte-feto, inútil boneco, uma piada repepetitidada. A artéria só se possibilita em M, seja lá o que M for.

Melhor não nem fechar a aorta. Abrir a artéria/porta para o outro lado de dentro do inferno. Melhor não fechar a torneira, abrir. E que tal quebrar todos os objetos? Ahn?! É uma boa ideia... Ah! Ah! Ah! Ahn?!... E de repente um uivórtice no quarto. I don’t understanding. Oh, no!... E como refazer o sentido desses tapetes/quadros/livros/discos/eletrodomésticos/roupas/papéis/papéis/papéis...

Ir enquanto é tempo. Deixar a porta aberta. Deixar o vento espalhar o gozo do fogo sobre os objetos. O último fósforo.

1979

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Ruptura

Tripthych - Studies from de Human Body - 1970 - Francis Bacon




    José Antônio Cavalcanti


Só, rosto colado à vidraça, na muda contemplação da chuva, sonhava outros tempos, pródigos em esperanças. A chuva, indiferente, caía miúda e persistente. Dona Z não via mais as sombras úmidas por trás do vidro. Seus olhos pareciam um estranho vitral projetado para o passado – um território apascentando túmulos secretos onde apodreciam grandiosos projetos de vida.

Só, como sempre estivera, mesmo ao lado daqueles que saquearam o seu corpo em busca de prazer, observava os seus cacos espalhados por cima da mobília e uma sombrinha abrindo seu colorido desanimado a um canto da sala.

Já não olhava através do vidro embaçado por sua respiração forte e ritmada. Distraída, vagava lentamente entre mesas e arquivos, guiando a matilha de sonhos encurralados no cubo geométrico da rotina.

Nos corredores, quando passava, cochichos. Diziam que ela era..., que ela fora..., que ela fizera... E não podia deixar de magoar-se com risos abafados denunciando intrigas e calúnias. No entanto, temiam-na. Sabiam dos seus grandes poderes: manejara homens, domara chefes, destruíra carreiras. Agora, ao caminhar despojada de trunfos, diminuída em seu prestígio, onde, outrora, tantas vezes desfilara arrogância, resultavam ridículas as joias espalhadas pelo corpo, a roupa forçando formas que ameaçavam se esfarelar. Sim, os seios murchos, sustentados à força da astúcia feminina, as nádegas mambembes, as pernas enxameadas de varizes, ocultas à custa de mil estratagemas, faziam ressurgir a impiedade dos inimigos, as piadas cruéis, as estórias obscenas. Sim, por trás, todos riam. Não obstante, vista de frente, Dona Z ainda impunha respeito: a ostentação de um passado em que o poder transitava por seu corpo permanecia viva nas paredes, nos documentos e na pele dos subalternos.

Só, rosto colado à vidraça, na inquietação transparente dos olhos, contemplava a chuva, líquida cortina a fechar o pano de outros tempos.

A aposentadoria ameaçava invadir os limites do seu ser. A sensação de inutilidade, de ser traste, objeto a ser abandonado, crescia. Um mal-estar horrível o descobrir-se sucata desesquecida entre máquinas, mesas, arquivos, papéis, carimbos, armários, paredes, documentos perdidos como as esperanças perdidas em tantos anos de vida. Anos de morte. Sim, de morte. Com todas as minúcias da burocracia, com todas as exigências impostas pelas necessidades e pelo absurdo. Uma morte vivida em toda a sua formalidade de assinar ponto, preencher de tédio formulários, preparar ofícios ao nada, minutar a dor de todo dia exalando solidão pelos poros. Morte semelhante à sua dissolução entre lençóis e mentiras, sob os quais o gozo era um passo rumo a um futuro melhor, cujas promessas de dinheiro e influência inflaram os olhos e aumentaram a sede de Dona Z: ex-datilógrafa inexperiente oriunda dos conselhos maternos para os perigos do mundo, consumindo-se num trabalho enfadonho, estéril, inútil, desprovido de sentido, numa ignota seção de uma empresa estatal inviabilizada pela inépcia e desinteresse.

Camaleoa, Dona Z acabou adquirindo a cor ambiente. Movendo-se orientada exclusivamente pela estratégia do êxito, assumiu os disfarces como um rosto verdadeiro e perdeu o passo. Dona Z construiu o seu status com os laços da hierarquia, enforcando neles qualquer amizade ou possibilidade de tangência. Sua posição: seu espaço de sofrer. Nele só a angústia medrou forte, densa, generosa.

Dona Z e seus planos de morar bem. Dona Z e seus planos de homem. Dona Z e a distância dos inferiores. Iludindo-se poderosa, não via que amante de chefe era assim: espécie de carro esporte, animal de estimação, coleção de selos.

Só, rosto colado à vidraça, vê na chuva a represa de lágrimas contidas graças a anos de experiência sob o controle dos relógios e das migalhas que lhe atiravam ao leito. Contudo Dona Z secou, definhou, acabou: impossível água em quem pedra, impossível vida em quem moeda. Dona Z é a menor parte de tudo aquilo que poderia ser. Suprimiu os olhos, mineralizou o sexo, amputou os sentimentos, pela ânsia, pela vontade absurda e absoluta de Poder.

À noite, pesadelos desprendiam-se do teto e caíam sobre o seu corpo envelhecido. As carnes flácidas movimentavam-se assustadas sob as cobertas. Morcegos com rostos de anjo vinham pedir-lhe o peito; animais pré-históricos intrometiam-se na vagina; nuvens de insetos tentavam arrastá-la da cama. Dona Z acordava aos gritos, acendia a luz, mas os fantasmas inundavam a noite de angústia e terror.

Pela manhã, ao entrar no elevador, seus olhos apresentavam manchas negras. Os funcionários olhavam maliciosamente. Imaginavam grandes orgias, bacanais com diretores. Não sabiam que Dona Z estava só. O corpo acabara. Acabara o poder.

Olhos eternas névoas. Vitral. Vidraça. Só, como sempre estivera. Enclausurada em triste e vão ofício, arrastava o peso das conveniências pelos sombrios corredores e escadarias intermináveis onde sombras recurvadas pastavam rotina e submissão. Dona Z transitava por perigosos desvios. Corpo fora de forma. Animal enjaulado saudoso de planos e objetivos. Não mais o cortejo dos adoradores, a magia dos gabinetes. Dona Z não compreendia mais nada. Os olhos eternas névoas. Só, rosto colado à vidraça, revia paisagens da distante inocência. Um tempo e sua promessa. Algo se partiu na mente de Dona Z. Ruído de memória fraturada. Sabor de veneno nas palavras. Feras fora de jaulas. Limo sobre a pele. A gosma. A ruína.

De nada valera agarrar-se a serviços robotizantes. Fugitiva de si mesma, transformara o trabalho em ópio e, permanentemente alheia, sobrevivia com a alma cheia de remendos e lacunas. O preenchimento correto e sem rasuras do formulário TD.1 item dois alínea b do artigo três dois quatro de vinte de abril de não existiu. Dona Z e a correspondência. Dona Z e os contínuos. Dona Z e a máquina de escrever. Dona Z e o horário. Dona Z e a dieta. Dona Z e as promoções. E os anos passam, e passam os minutos por cima das carnes molengas, e passam os meses como insetos cavando rugas, e o tempo cava túneis no desejo, e o caminho sem retorno aproxima-se do seu termo.

Dona Z ainda se aguentara segurando muletas invisíveis. Enveredara pelo terreno do conformismo. Argumentara com fervor e resignação. Apelara para todos os espíritos. Peregrinara por terreiros, centros espíritas, igrejas e templos de todas as seitas. Acendera velas com o último fogo da esperança. Tentara construir-se estóica, firme, inabalável. Vestira-se de fatalista, liberta da dor e dos prazeres do mundo. Nada.

E se todos se unirem contra ela? E se quiserem ir às forras? E se a espancarem? E se roubarem as suas joias? E se perder o emprego?

Dona Z era um açude sangrando. A incerteza corroera a precisão de sua fala. Até mesmo os gestos, rigorosamente construídos e profissionais, começaram a desmoronar. Evaporaram-se os sorrisos mecânicos, distribuídos nas ocasiões oportunas; os lânguidos olhares privativos de momentos intimistas com os chefes; a expressão austera e compenetrada de funcionária exemplar como disfarce eficaz. Suas cartas não apresentavam o mesmo grau de correção. A memória, prodígio que a todos assombrava, começara a claudicar: esquecia números de processos, trocava nomes de funcionários, errava telefones. Sua calma, proverbial na empresa, começara a decompor-se. Gesticulava nervosa, erguia a voz, irritava-se pelo motivo mais fútil. Já não chegava pontualmente às oito da manhã. Em todas as seções, os inimigos comentavam. Velhos desafetos caíam na sua pele. Rivais contavam os seus podres, impiedosas. Inimigos, inimigos por toda parte. O mundo só era habitado por cínicos e invejosos. O ser humano não valia nada. Dona Z sentia-se acuada. A humanidade não prestava.

Olhos eternas névoas. Lentes mentirosas inventando cores quentes num ambiente cinzento. Refração da luz. O côncavo e o convexo dos dias. O desvio – intransitável caminho. Sombras recurvadas pastam desânimo entre pilhas de papéis. O barulho de buzinas, máquinas e vozes humanas rege um balé de zumbis. Sinfonia do caos e do desconserto. Gigantesco coral em solidão maior. Sombras subservientes disputam um lugar ao sol. Dona Z descera aos porões da sua inquietude. Instalara a sua fábrica de dúvidas no interior de pensamentos sempre evitados. Dona Z sabia de criaturas despidas de muros, carregando futuro e solidariedade como luzes, mas não acreditava nas canções onde a vida é plenitude.

Dona Z não conseguia dormir. Desde a noite em que começara a sentir algo estranho em seu corpo – um cheiro insuportável a exalar quando se despia. Olhou-se no espelho do guarda-roupa. Mirou, remirou: nada. Aquilo prenunciava perigo. Teve a impressão de que a sua coluna fervia e uma corrente elétrica atravessava-lhe as vértebras.

Olhos eternas névoas. Dona Z, ao andar pelas seções, evitava se expor em demasia. Preferia ficar sentada em sua cadeira, ela, que adorava exibir as suas formas sedutoras por toda parte: ela, que se comprazia em despertar desejos em pobres coitados para entregar-se aos graus mais altos na hierarquia.

Todas as noites, ao despir-se, sentia o cheiro insuportável. No início, pensou existir alguma coisa estragada em casa, quem sabe algum bicho morto? Não obstante, o cheiro provinha do seu próprio corpo. Pensou em consultar um médico, assustada com a possibilidade de encontrar-se profundamente doente, contudo a vergonha tolhia a sua vontade. Talvez estivesse imaginando coisas. Cansaço ou medo, quem sabe?

Uma noite Dona Z descobriu o motivo dos seus sofrimentos. Estarrecida, não quis acreditar. Não era possível aceitar aquilo. Sua coluna, coisa espantosa!, tentava prolongar-se. O último ossinho irrompera pela carne afora, sangrando suas nádegas. Dona Z horrorizou-se. Chorou todos os seus choros. Desesperou-se nas mãos do infortúnio. Gritou aterrorizada, pulando sobre a cama, esmurrando-a, chutando-a com ódio, alucinada. Sua coluna teimava em crescer, teimava em sair do corpo e a dor ultrapassava todas as fronteiras.

Por uma chuvosa manhã carioca Dona Z passara angustiada. Após três dias de falta, ousara retornar ao serviço. Ninguém percebeu toda a tragédia que a abatia. Guardou a ferro e fogo o seu terrível segredo. Viera apressada, cabeça baixa, insegura.

À noite, inferno. Descobrira que o ossinho repartia-se em três. Uma pele já estava se formando sobre as feridas. Ela possuía, oh terror!, três pequenos rabinhos, de aproximadamente cinco centímetros cada. Além da pele, surgiam pelos em todos eles. Nua frente ao espelho, não acreditava no que via.

Olhos eternas névoas colados à vidraça, descolados do mundo. Só, como sempre estivera, Dona Z contemplava a chuva. Cada pingo era uma parte do seu ser dissolvendo-se vertiginosamente. De rainha a ruína. De todo-poderosa a nulidade. Os cabelos embranquecendo. A dentadura. Os óculos. As mãos trêmulas. O andar pausado, convalescente. A pressão. O vidrinho e as pílulas. Os três rabinhos. Asco. Medo de que todos saibam. Monstruosidade. Pânico.

Nem se despia mais. As roupas permaneciam com as joias. Vergonha e medo. Dona Z em extinção. Apenas sombra recurvada perambulando pela cela-repartição, etiquetando cadeados e ferrolhos. A Ordem comandando os nervos. A obediência ilimitada aos preceitos e regulamentos. O chefe. O subchefe. O candidato a chefe. A mulher do chefe. O filho do chefe. O pica do chefe. O chefe do chefe. Dona Z elaborava o relatório de seus tormentos, desfazendo razões, traçando um quadro sombrio: os resultados negativos eram índices de uma alma no vermelho.

Só, rosto colado à vidraça, como sempre estivera. Pelos sombrios corredores e escadarias intermináveis pastavam sombras recurvadas de rotinas. Dona Z não acreditava nas luzes semeadoras do futuro. Dona Z – sombra recurvada – viera trabalhar normalmente. O mesmo ritual. O culto ao dever. As canções metálicas das calculadoras e máquinas de escrever, a geometria anêmica dos arquivos e a assepsia de um piso quase espelho. Como artesã, teceu com habilidade as minúcias do dia, satisfez as exigências: escreveu, leu, carimbou. Às dezessete horas, depois de ter arrumado as gavetas, pegou a sua bolsa e foi ao banheiro. Pela primeira vez na vida quebraria a rotina: sairia da empresa por outra porta.