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segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

a.7



sete minutos Jacó ser vil esperando por ela mas veio o de cicatriz na testa medir terreno fazer reconhecimento dos mecanismos de defesa o suburbano centurião negro escandindo ameaças o guardião venenoso da pequena puta principesca puxou do estojo dezenas de relógios mido tissot orient mondaine technos casio rolex ordenados no veludo como se fossem um pelotão de fuzilamento então era esse o ofício a técnica de sobrevivência do inimigo a astuciosa tática de conquista as armas do império por isso o volume à altura do lado esquerdo da cintura tudo teatro a besta viera farejar pontos fracos viera descobrir que Tétis segurou o falso Aquiles pela pica ao banhá-lo no rio Estige sim nada bobo o espião infiltrado na sala quase sem móveis suas narinas dilatadas seus olhos contraídos eram pura felonia seu suor caía do rosto mal barbeado sobre o cordão de ouro onde São Jorge se afogava seu hálito de ave de rapina empesteava até os pensamentos tudo brilhava nos relógios um galo qualquer marca o que realmente era necessário ele negava uma pistola glock 380 e um pente de balas



a.6




escadas paredes portas janelas assoalho teto nunca mais os mesmos pois não era um casal de tarde de domingo em visita furtiva percebera desde o início nos olhos amêndoas havia âncoras a acenar demorada estadia percebera a língua lambendo os lábios como se dissesse “ego te removebo, ego te humiliabo, ego tibi multas neces impendi praecipiam” por que se apoderar de uma alma de mil remendos para removê-la como o suor de corpo febril se nenhuma escada alcança a altura do desejo por que fazer alguém sofrer humilhações em praça pública enquanto descasca uma laranja com requintes de cortesã homicida por que matar alguém em câmara lenta se o filme não será exibido em lugar algum a não ser no banheiro imundo entre água espuma e esperma uma corrente de ar fria ingressara na casa as palavras saíam pesadas e úmidas em frases que já não chegavam a qualquer destino como os livros escritos para cupins sobre a mesa como o de Guilherme de Tours aberto em página infamemente antecipatória do encontro inesperado os poemas levados por uma bicicleta lilás para o lixão da cidade uma corrente de ar vinda das terras baixas da acídia e da divagação contaminara todo o trabalho trazendo paralisia regurgitamento pestilência  


segunda-feira, 27 de maio de 2013

Oitava incursão à carne

Egon Schiele



Vieram as mulheres de Jerusalém para enxertar na minha pele devastada toda uma fome de bestas sem apocalipse, sem memória. Toalhas de linho sobre o criado-mudo e potes de barro ao pé da cama, as loucas de véu azul revezavam-se em fogo e fúria, excitadas com nacos de músculos e nervos entre os dentes de ouro. Com mãos gordurosas limpavam o excesso, depois usavam as próprias túnicas para extrair pequenos pedaços de vísceras entre os dedos viciados na solidão do sexo nas colinas. Aos risos e entoando palavras desconhecidas, jogavam em cestos de vime grandes flocos de algodão doce de sangue. Em meio à sofreguidão dos monossílabos do gozo, um nome soou acima dos lençóis rasgados pela luxúria, e era o teu nome flutuando em sílabas enlaçadas à memória da tua carne em noites de frio. Ao ouvi-lo as mulheres murcharam arroxeadas, as pedras de anéis presos à avidez das mãos perderam o brilho, todos os véus caíram ao chão, contaminando de melancolia vestes lavadas em lágrimas, esperma e sangue. A mais louca paralisou interminável felatio para cuspir maldições pelas dezenas de cáries da boca, os olhos fuzilando crimes. Saíram em bando, as almas insaciáveis sumiram como farrapos ambulantes muito além das cortinas do sonho. Sim, possuo apenas um nome para o amor, e é teu ainda mais quanto te ausentas.


quarta-feira, 22 de maio de 2013

Morrer na praia





Desci do ônibus para ver o mar, agitados, nós. Míope e cansado, sentei-me em banco de cimento emplastrado de areia molhada. As ondas chegaram a mim apenas pelo estrondo, como se passos ritmados de um gigante líquido espalhassem acordes pesados nas pedras portuguesas.  Talvez os peixes pudessem saltar sobre as redes de vôlei, escapar a pranchas, turistas e ambulantes para finalmente secarem as escamas de gaze na minha bermuda cor de insônia, no exato momento em que eu sorvia todos os oceanos de um pequeno planeta verde. Terminado o saque, joguei o coco na caçamba e, incontinente, peguei um bloquinho de papel sem pauta para aprisionar um pensamento fértil mas volátil. A caneta caiu e rolou zombeteira no chão a caminho do ralo, deserdando a minha alma de notário de acontecimentos inapreensíveis em linhas e versos. A ideia não se quis presa, o texto morreu na areia. Mas o mar infame sempre guarda navalhas àqueles que não lhe fazem oferendas. Veio uma mulher (e dizer “veio uma mulher” é de uma pobreza imperdoável) pela calçada, veio vindo e eu vendo a sua vinda e ela vindo eu vendo ela vendo eu vindo ela veio do fundo da calçada eu vendo ela vindo e vendo eu no fundo rolando como a caneta também um corpo a caminho do ralo.


quarta-feira, 15 de maio de 2013

Quinta incursão à carne






O que salta dos olhos não são imagens de pêndulos sobrevoando a orquestra de notas falhas, quando descemos dois tons ou quando o si bemol atravessa as paredes para auscultar corpos despojados de sonhos no madeirame tomado por cupins no cômodo ao lado. Também irrompem sobre as pequenas hortênsias desenhadas em lençóis noites de interferências e assimetrias entre tesão e batalha, noites em que saltamos tigres, atravessamos o vácuo e caímos de costas, sem garras, vendo o olhar de escárnio da presa que nos escapa. Tanta espera e urgência inscritas em coxas morenas anatematizam a lança que não alcançou o alvo. Uma cidadela de portas abertas na cama expele seu pavor mais fundo, os lábios grandes e pequenos da vulva secretam, em impura resina e rancor,  todo o léxico uterino do inferno e, inflados de sintaxe homicida, sopram insultos ao falo. Os deuses e os homens brocham com a cara na lama.


segunda-feira, 6 de maio de 2013

Quarta incursão à carne

Egon Schiele




Sou Judas e vim cravar punhal babilônio nos olhos da harpia tatuada em tuas costas, serviçal de Gomorra, para que não vejas o tremor germinando no solo fértil da solidão dos que traem. Pertenço à legião daqueles de que nada sai sem o sacrifício de sangue e inocência. Sou da tribo dos possessos do espírito e devassos da carne que cruzam o deserto dos prédios para espalhar perversões em salas de cinema. Vim para devastar teu esfíncter banhado em azeite e lágrimas. Vim para calcinar o pântano maldito do teu clitóris, falso espelho do meu gládio, logo abaixo do terceiro círculo do inferno. Vim para enfiar em tua vulva uma carga de mágoas e rosas, pulsante navio transportando adubos, moedas, deuses, sucatas e sonhos. Para ti, serva libertina, o pau vibra qual um cometa ao tocar um ponto qualquer no universo após um século em órbita. Para ti, voz melosa ao telefone em falsas promessas, esta matilha de crimes implorando socorro.


domingo, 5 de maio de 2013

Segunda incursão à carne

Egon Schiele




O amor talvez fugisse ao se abrir um guarda-chuva enquanto a cabeça, virada à esquerda,  pensava em travessias. O amor faria bater artérias, portas e janelas, lançando-as do batente ao deserto? Faria cessar a névoa do existir às cegas, entronizando no vácuo uma claridade talvez insuportável, brilho paralisante em frestas pelas quais o vento invadia a câmara mortuária onde os sonhos? Se falhos e incompletos, se lacunosos e obsoletos, como a tentativa de domínio sobre natureza diversa da nossa ou sobre aqueles que brotam de nossa urgência e abandono? Onde a possibilidade de circular entre vultos que nos escapam a tardes ensolaradas, lábios que recuam ao primeiro sinal de tangência? O arrepio, no entanto, levantava suspeitas sobre o incontrolável movimento da pele: sístole e diástole, narinas dilatadas, a pressão sanguínea em alta. Impossível saber o que habita o outro lado, apenas mergulho kamikaze como impulso.


sábado, 30 de março de 2013

Maná no deserto





Quando o pequeno e dócil manequim de fibra de vidro desapareceu do outro lado da vitrine, voltei à entrada do prédio no Catete. Um casal saía às gargalhadas. Duas crianças atrás da explosão de alegria me olharam curiosas. A trouxa quase caiu sobre a mais nova. Discussão áspera. O corpulento diz que vai me encher de porrada, a mulher me xinga. Dizem que não valho nada, não trabalho, exploro a mulher do terceiro andar, uso drogas, desrespeito todas as senhoras casadas, mau-caráter, ateu e tarado. O troglodita me encurrala no canteiro à esquerda da entrada, debaixo da placa “Palais de Sérénité”. Seus olhos espumosos já me veem saco de pancada. Uma chuva de livros caiu sobre o casal e os filhos. Dicionários, romances russos, livros de xadrez, contistas contemporâneos, poesia erótica, manuais de linguística, meu mundo impresso em anacronia desabava: Deus me mandava o maná prometido. Meus livros salvaram a minha vida. Grato, Ciça, você sempre foi ruim de mira. Pulo o corpo desacordado do vizinho com a cabeça sob o dicionário Houaiss aberto no verbete irremissível -  “Adjetivo de dois gêneros: 1) que não se pode remitir, que não merece perdão, imperdoável; 2) que não se pode evitar; infalível, fatal”. Me abaixo apenas para recuperar Sonetos Luxuriosos, de Aretino, traduzidos por José Paulo Paes. Desisto das roupas e demais pertences. A  loja do outro lado da rua já está fechada; aberta, escancarada, imensa cratera pulsando errância na alma. 


sexta-feira, 29 de março de 2013

Ponto de mutação




Uma fase muda a galope próxima. Tantas pétalas as fases, frases disfarces da rosa sem rosto. A leveza desejada, no entanto, turva-se ante o tumulto de dias pesados. Nunca se sabe de que lado a    página do próximo minuto cairá virada. Alguma corrente secreta de   ar anuncia recolhimento de luz em redes inquietas, impulso a cisternas anímicas, queda em aquíferos protegidos na área ao sul do pâncreas. Vou buscar um desenho perdido dentro do útero da linguagem impura. Tudo o que preciso fica agarrado às paredes do túnel, livro rupestre de falsa profundidade. Tempo moído, pele, película, pó. Logo você chega com esse cordãozinho de São Judas Tadeu balançando em ouro falso e tão redundante quanto o ondular ofegante daquilo que vejo logo abaixo dele.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Livro de antimemórias, vol. IV, p. 357







Não que coubesse em palavras, via-se uma longa trilha de cadáveres de significantes atrás de passos de suave ferocidade, mas veio para falar sobre pântanos e icebergs. Algo que não ficara claro precisava ser intensificado até ser alcançado o limite de obscuridade completa. Suas mãos coreografavam uma dança negra e nervosa como se pudesse alargar hiatos e reticências com o fogo de fonemas desconhecidos. Tudo o que não fora dito para sempre petrificado, todas as possibilidades dissipadas em fendas. Nas listas horizontais da saia, planetas saturninos fugiam a órbitas assassinas. O que ela dizia logo caía espatifado em mil pedaços que escapuliam como baratas. De nada adiantaria juntar os hieróglifos em papéis rasgados que fermentavam no chão. Um manequim talvez guardasse mais elegância, ritmo, fluência, embora perdesse em graça e eficácia. A sacerdotisa de Delfos não queria voltar para a ladeira do Leblon, permanecia plantada em sapatos rosa, relógio Cartier dourado, bolsa Gucci caramelada e  duas sacolas repletas de livros e material escolar. Não almejava vingança, apesar do ódio figadal. Tudo era a natureza oracular soprando forte em seus cabelos.


segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Sinais de fumaça





Essa história me foi contada por um velho lápis à beira da morte.

“Há muito tempo atrás, durante uma revolução na escrita, um nobre e presunçoso til apaixonou-se por uma vírgula desconhecida. Obcecado pelas pernas curvas da bailarina da linguagem, o til atrevido rompeu com os melhores amigos da alta sociedade: os acentos grave, agudo e circunflexo, além das aspas, irmãs siamesas. Seu amor por aquela criatura da classe baixa,  que vivia misturada a tipos inferiores, como pontos, travessões, hifens e reticências, transformou-o num pária a exemplo do velho companheiro trema, banido por decreto a exílio eterno.

Apesar de viverem em espaços diferentes, a paixão apagou as distâncias; peles arrepiaram-se, bocas selaram promessas, sonoridades do gozo vazaram rios noturnos. Mas o coração sempre oculta um saco de veneno em um dos ventrículos. A vírgula passou a cobrar do til mais presença em sua vida, queria sentir o fino perfume de suas palavras, a cabeleira em ondas do jovem aristocrata pulsando sobre os seus seios ofegantes. O til, com voz fanhosa e enfadonha,  sempre alegava excesso de trabalho ou problemas na mucosa nasal que quase impediam a respiração.

Alguns meses transcorreram pesados, perdidos, a proximidade fazia água, o til raramente aparecia. Até que, numa esplêndida madrugada de outono, apareceu todo animado na linha onde a vírgula morava. Ao chegar contemplou de queixo caído a cena que o deixou irremediavelmente amargurado: um ponto movia-se como minúsculo demônio por cima da vírgula adorada.”


segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Texto de passagem




Pronto para lançar-me fora, desprendimento, desaprendizagem, única possibilidade de reencontrar o prazer. Na lavagem de fim de ano, desfazer tatuagens com grandes movimentos circulares sobre o corpo, ao final proferir três vezes: “lavo para que leves o que te for entregue para enterro e cremação”. Vejo meus pedaços caírem em cubos, cones, cilindros, desmontagem cubista do erro de ótica a que denominei “meu corpo”. O que mais assusta são os gases, a fumaça, a névoa da alma em fuga. Às vezes quero ficar em mim, nostálgico e acomodado às décadas de insegurança. O risco de desmanchar-se é a sombra de um cataclismo: em vez de reinvenção o surgimento de simulacro, a prevalência da redução em detrimento da ampliação arquitetada, basta que materiais abandonados retornem misturados a outros ou que o marasmo desenhe novo projeto. A nova página do rosto: verdadeiro mosaico. “Reescrever, reproduzir um texto a partir de suas iscas, e organizá-las ou associá-las, fazer as ligações ou as transições que se impõem entre os elementos postos em presença um do outro: toda escrita é colagem e glosa, citação e comentário” (*). O processo de revivescência cria cenários insólitos. Estou na fronteira com Walter Benjamin. Ontem ele não dormiu. Ficou andando agitado, extremamente nervoso. A Gestapo a oito horas de distância; os Zetas, ao norte, à espera de nossa travessia com presentes alojados em fuzis pós-modernos; as tropas franquistas, além Pirineus, hostis com seus binóculos à nossa procura; a polícia militar de Rondônia, do outro lado da fronteira oeste, nos confundindo com contrabandistas de diamantes. Tomamos café, comemos bolo de milho e biscoitos. Benjamin não quis cachaça. Jogamos cartas até eu lançar sobre a mesa a frase de Paulo, o apóstolo: “Como uma cidade arrombada, sem muralha, é o homem que não domina seu espírito (Provérbios, 25:28).” Benjamin fechou a cara, arrumou o óculos e desistiu de jogar. Não existia ainda o livro de Badiou sobre os textos paulinos. Irônico, Benjamin apenas disse “e depois eu é que sou um marxista messiânico”.  Isso aconteceu ainda há pouco, na madrugada de 27 de setembro de 1940. Agora, a três horas de 2013, enquanto vou me despedindo de mim mesmo, posso observar a sombra de Benjamin ainda com a injeção de morfina sobre o peito e o olhar dividido entre o quadro Angelus Novus, de Klee, e a pistola sobre o criado mudo. Afasto-me de costas, contemplo horrorizado o acúmulo de ruínas, sou um anjo sobre uma montanha de lixo tão alta que parece uma escada para o Paraíso. Preciso fugir à tempestade que vem para salvar o mundo. Nenhum olhar é mais aterrorizante do que a ilusão de verdade nas pupilas de um salvador.

* COMPAGNON, Antoine. O trabalho da citação. Trad. Cleonice P. B. Mourão. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1996.  p.39.


quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Frutos do mar





Chegou tenso e com uma cor esverdeada no rosto ao restaurante à beira-mar. Duas baleias marcavam duas da tarde no relógio azul além areia. Pôde vê-las atrás das ondas e da cortina de atletas e ciclistas na pista da avenida Atlântica. Nuvens pesadas eram rasgadas pelo sol, os trapos cinzas se desmanchavam preguiçosamente no varal do horizonte em reconstrução.

Olhos pregados na biografia de Marighella quando, no meio da décima linha da página 356, Lilith emergiu da piscina dos sonhos perdidos. Trazia uma harpa de argila e fios de ouro abaixo de seus olhos de tempestade. A intensidade do olhar lançou areia e memória à paralisia do leitor atordoado. Lilith sentou-se amistosa, palavras soltas ao vento, direta e incisiva, sacudindo os cabelos e a vida do homem de óculos tortos. Ele nada sabia sobre as fogueiras secretas que nela nunca cicatrizaram; míope e desatinado, ampliara por cegueira e falta de gentileza o próprio deserto, cortara em finas fatias camadas de afeto, polvilhando-as de sal e luto. 

Alojados um frente ao outro, após uma longa pausa e um tremor na língua, o homem decidiu-se: – Garçom, por favor, traga em duas bandejas de prata os seios de Penélope e a cabeça de Helena de Troia. 

Então, Lilith, com astúcia de assassina, voltou-se em direção ao mar para ver, comovida, o navio de Ulisses afundar lentamente. Pudesse olhar em outra direção, teria observado dois olhos em escombros afundando-se nela até tocarem o céu ou o chão.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Questão 325 (ANULADA)





Comente o efeito de sem sentido nas palavras e expressões entre aspas no texto.

Use lápis 2B, régua, compasso, transferidor, máquina de calcular e bússola.

Naufrágio como “deriva” não em oceano, antes sinuoso esgueirar-se entre becos e luas metálicas. “Talvez Dinamene” no fundo, talvez mil sereias à frente, talvez o tesouro dos incas. Quem sabe escombros de barcos piratas no mapa de Tortuga, restos da invencível armada ou barco viking a caminho da América pré-colombiana, navios fantasmas? Naufragar sem gritos no convés, sem drama secreto, nenhum pânico no olhar, sem a reação instintiva de correr para a sala de armas, sem invocação a Netuno.  Guardar tragédias e assombros apenas para as páginas da História trágico-marítima, publicada por Bernardo Gomes de Brito em 1735-36. Naufrágio é mergulho interno, íntimo movimento de quem se aventura em “linguagens inavegáveis”. A mais funda herança lusitana em ondas nos “azulejos azuis do peito”.  Líquido e fugidio conceito, naufrágio também é a minha “queda” dentro dos seus olhos suspensos em “nuvens de lâmpadas queimadas”. Você que é tão céu e oceano. Não se necessita de margens, portos, cidades, barcos ou pranchas de surfe para que a tempestade se arme. Nenhum naufrágio possui a segurança de um fundo, que lhe forneça destino ou rumo. Naufrágio é toda a esperança de abraçar o aberto.


sexta-feira, 2 de novembro de 2012

A morte roeu a corda


















Soube, naquela hora, que algo se partira para sempre em sua alma, por se quebrar e por ir embora. Uma corda esticada em máxima tensão amorosa cessara a música em que mergulhara tanto afeto e delicadeza. Sabia agora que a corda sempre arrebenta do lado imprevisível da esfera. A mesma corda frágil e fina que modulava felicidade providenciada de modo atento e sereno uma forca bem firme. Nada podia fazer, já não possuía pescoço para mais uma morte.

sábado, 15 de setembro de 2012

Antifrases vagabundas





























α

Pele é onde o tempo digita a senha do inacessível.

β

Olhos flutuam unicórnios em esquinas mortas.

γ

Coxas acesas e deslizantes na balbúrdia de terrenos baldios sob lençóis de cambraia.

δ

Palavra interditada por sentença judicial inscrita em suas órbitas de vadia.

ε

Sou o cão da noite há nove luas algemado do outro lado da porta.

ζ

Na terceira gaveta do lado esquerdo do guarda-roupa dois seios se guardam para a chuva.

η

Navegação e naufrágio remam na mesma direção.

θ

O suicida falho descobre algo pior do que morte e vida.

ι

Não existe passado que não possa voltar para nos assombrar.

κ

Escombros e livros nunca cumprirão a promessa de construção.

λ

A Sociedade dos Eus Líricos Demenciais e Bêbados funciona na Rua da Página.

μ

Frase lapidar é o coroamento de cada lápide.

ν

Mcmorte, sanduíche de sangue, maionese e necrose.

ξ

Quando eu tiver juízo, viro um Kant.


ο



Facebook, faceboca, facebarba, facebigode.

π

Comigo a poesia ficou puta (depois que morrer, aprendo).

ρ

Govermes são górgonas gangrenadas a transformar o mundo em um inferno.

σ

Pensamento, pro fundo!


τ
 

Sou um tarado tangendo um alaúde.

υ

Sem o samba os velhos sobrados do centro do Rio de Janeiro desabavam.

φ

Intoxicado de suplementos, plenamente aditivado e pronto para o amor.

χ


Minhas pupilas me traíram, mas o prazer me condena.

ψ

Perceber é a pior forma de distração.

ω

O seguro morreu de verme.