Mostrando postagens com marcador Será que é prosa?. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Será que é prosa?. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Línguas extintas

Cerâmica tapajônica, séculos XIV-XVI.


Houve uma tribo nos confins do Araguaia para a qual a escuta era algo sagrado. Como os indivíduos não gostavam de falar, recorriam a um estranho nomadismo a fim de ouvir o mundo. Deslocavam-se incessantemente pelos rios, avançavam em territórios hostis e canibalizavam idiomas, não sem antes ouvir, em cerimônia que durava semanas, o que diziam os inimigos antes da morte. Era inacreditável a atenção às palavras alheias; as frases mais simples brilhavam como estrelas nos olhos acesos de curiosidade, fisionomias inomináveis passavam como ondas pelos rostos de todos os membros da tribo que, a cada temporada de caça, cresciam cinco centímetros.


Com o tempo todas as palavras foram assimiladas. Já não havia aldeias capazes de propiciar o suprimento de línguas desconhecidas. A tribo começou a definhar, diminuíam cinco centímetros a cada temporada de chuvas. Muitos se aventuraram na busca desesperada pelo ouro da linguagem, nenhum deles voltou. Privados da abundante matéria-prima fornecida pelos povos da floresta, viram-se na obrigação de soltar a voz. Pena, pouco depois de o primeiro índio proferir as primeiras palavras da tribo – “homem branco” –, os portugueses comemoravam a extinção da primeira tribo do Novo Mundo. 


quarta-feira, 18 de junho de 2014

Memorabilia





Sacava uma maçã da bolsa como se estivesse sedenta de vingança e precisasse encontrar com urgência punhal justiceiro. Enquanto retirava o papel alumínio, eu tratava de me sentar no lugar mais próximo da invisibilidade para não desabar. Ria como se tivesse ouvido a história mais hilária do mundo, a maçã já completamente exposta. Mordia o fruto edênico com olhos fechados de prazer criminoso. O vermelho da casca realçava dentes de predadora cravados na polpa macia e suculenta. Inexplicável transferência quebrava, então, as leis da física, o vermelho saía da maçã para se infiltrar nos meus olhos, páginas famintas abertas em pânico, do outro lado da mesa, antes que o sinal anunciasse o fim do recreio. Levaria quinze minutos para saber o que fazer na sala de aula.


quinta-feira, 8 de maio de 2014

Do livro que não se fecha





Chega-se à página mais doce quando, após subir e descer ladeiras, vira-se à esquerda. Os pés ultrapassam trilhos saudosos de dias de carnavais em bondes  onde chapéus e carteiras eram furtados, mas a alegria permanecia inteira. O azul no céu intacto, imutável também o espelho distante da baía de Guanabara. Desde o início do mundo, pequena aldeia e mirante acima do rodamoinho urbano, Santa Teresa flutua poesia. Agora tudo o que se deseja são dois cafés e que  dois ingressos de cinema sosseguem no bolso da camisa mostarda. Aos poucos o coração recupera o ritmo do outono. Santa Teresa parece página arrancada do livro da cidade, mas a vista deslumbrante, a cidade postada aos pés para álbuns de recordações, desaparece. Não há neblina nem saudade, apenas leve interferência de alguém que, diante de nossos olhos, acende um tênue princípio de felicidade. Passa-se, então, da paisagem ao inacreditável.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

a.9

Esta invenção alemã criada em 1925 




uma estratégia é tudo de que se necessita em situações de risco controlar o pânico estudar fraquezas do oponente diminuir a pressão nos pulmões avaliar os próprios recursos escolher a forma de luta o lugar o horário a posição do sol a fila de formigas que descem da janela quase solta das dobradiças em madeira mofada mover o botão do rádio até a última estação de música para dias de tempestade jogar Kafka na lixeira por amor a labirintos túrgidos plenos de suor feromônios fervor de hormônios anelantes sobre a mesa apenas matemática química geometria mapas manual de guerrilha ilustrações anatômicas rota de fuga grossos tratados de farmacologia facas tesouras material hospitalar garrafa térmica ferver nervos e neurônios para fixar as conexões entre matérias discrepantes as disjunções entre a roda dianteira e a traseira de uma bicicleta em mãos erradas corrosão visível na lateral direita pedais bastante danificados impróprios à delicadeza de pés tão chineses como se quebrados os dedos logo após o nascimento da mulher conduzida por mãos erradas a mundos subterrâneos




a.8

Gravura de Iberê Camargo



saíam para o trabalho os dois pombinhos plastificados os dias flagraram novos ângulos da tentação agora de costas saias sapatos bolsas vestidos de grife ele de abre-alas segurando a bicicleta era o guia que transformava músculos em garantia de posse de um terreno agora em disputa sairia à cata de propriedades alheias limpando a cidade de excessos à mulher o vizinho odioso ofereceria uma agenda de encontros suspeitos com sorriso canalha no rosto mal desenhado enorme mossa na face direita o galo no lado esquerdo da testa brilhava de satisfação ao exibir tanto poder mas tanta segurança não o impedia de voltar a cabeça para o alto da escada antes de bater a porta nem de largar o guidão apertar braços desatentos e despedir-se com beijo cinematográfico verdadeiro certificado de propriedade não escapavam ao meu olhar 48 degraus abaixo rasuras e parágrafos subterrâneos confusos no fundo dos olhos em estado de alarme da intrusa que viera devastar a minha vida


segunda-feira, 7 de abril de 2014

Devaneio

Trabalho de Tatiana Blass


Fico pensando nas horas em que deitado de barriga para cima é possível dizer algo ao outro. Que relação está guardada entre a posição do corpo e a fruição do tempo? O que vem à tona quando, deitados, exaurido o jogo de corpos amantes, falamos num tom manso e sincero coisas que normalmente guardamos em cisternas abandonadas? A voz deitada soa de modo diferente de quando estamos sentados, em pé, ajoelhados, correndo, espremidos em elevador, metrô ou sequer estamos, apesar das palavras. Mesmo deitados em outras posições, ao lado de ausente atenção ou no tom ordinário com o qual desenhamos ações do cotidiano, tecemos comentários e planos, rimos ou nos desentendemos, sempre um compasso distinto. Digo isso porque há poucas horas, deitado, algumas frases saíram como se evaporadas de água desconhecida, numa sintaxe ordenada em ritmo lento e levemente dolorido. Percorreram uma espécie de caminho entre a fonte e os ouvidos que as captaram como se iluminassem um outono existencial. A luz se apagaria irremediavelmente se eu me virasse para qualquer lado da cama. Embora também seja verdade que só os meus olhos, na contramão do corpo, se voltaram para o olhar atento de quem me escutava, pois todas as palavras ditas então levantaram o véu que normalmente recobre o olhar. 


domingo, 23 de fevereiro de 2014

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

a.5

Anselm Kiefer, Merkaba, 2011



a.5

de volta à escada para abraçar o vazio bicicleta e donos instalados nos vizinhos antipáticos rádio a todo volume e crianças insuportáveis os gritos histéricos dava para se ver beijos abraços palavras risos banhados em saudade talvez hipocrisia raio X através de velhas paredes como seria a intrusa fora do raio dos pneus sem que varetas de alumínio geometrizassem rosto de olhos amêndoas sem os pedais machucando os seios o guidão enfiado entre pescoço e testa as correntes algemavam o olhar do desejo a uma marcha suicida ao mundo do outro lado das rodas de bicicleta monark tropical cp aro 26 freio inglês lilás meio descascada selim alto fita flamenguista de cada lado bandejinha na frente retrovisor só do lado esquerdo levada por atleta mma ela carregava o cadeado e pequena caixa ressurrecta Pandora viera espalhar todos os males casa afora tomar de assalto alma sem sistema de defesa sem refúgio não é necessário imitar Leopoldo María Panero exilar-se em manicômio seguir caminho Robert Walser o mundo já é um hospício no qual alta e morte formam uma única palavra



terça-feira, 17 de dezembro de 2013

a.4




a.4


capas de discos de vinil ainda no chão sacados à noite lançados como discos-voadores negros pela janela arremessos portentosos repletos de álcool era lindo de se ver a heroica de Beethoven voar Karajan abaixo Mussorgski pictures at an exhibition supersônico no ar noturno espatifar-se Chopin prelúdios para piano na madrugada morta Parsifal wagneriano a lança na ferida de Amfortas quebrada em queda livre naquele momento era impossível saber que o santo graal subiria escadas coberto parcialmente por rodas de bicicleta provavelmente roubada o corpo todo era o cálice profanado o cálice que beberia os lábios devoraria o viço da carne em tensão máxima o desejo quase tocando o forro de madeira do teto sobre vinil intacto de Nora Ney um poema guardava momento anterior à loucura que trouxera a polícia à porta no meio da noite versos truncados incompletos incapazes de poesia ensaiavam última estrofe: “acordam na ópera acordes inaudíveis / neles a massa sonora se desmancha / para que a voz ressoe solo e vírus / na ária, lacerada a carne gangrenada / a garganta os pulmões os ossos / no chão sem sinal de harmonia” rasura premonitória da impossibilidade de coro


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Narrativa a caminho da queda

Iberê Camargo



a.2


antes dos degraus a porta caía aos pedaços tábuas como remendos inúteis qualquer bêbado a abriria só com o hálito de álcool em madrugada morta mas uma tarde dois fugitivos subiram o gólgota ombros e braços musculosos carregavam a bicicleta roubada por trás dos raios das rodas rodava uma miragem de cabelos negros e pequenas sardas as formas incabíveis em vestido gelo de folhas verde limão era a insônia era a luxúria era a loucura subindo as escadas era meu coração rangendo à passagem de tempestade de carne era um mocassim caramelo pisando as dobras do gozo em lençóis lavados de solidão a maldade despontava no sorriso como pura promessa de ruínas um casal principiava então a costurar abismos em que os aprisionava no pânico do olhar 

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Narrativa a caminho da queda





a.1

48 degraus rangiam pesadelos o peso dos pêndulos tiquetaqueavam horas em fendas as paredes de pinturas superpostas como camadas de tragédias de eras glaciais nós mesmos em outras estações inabitáveis temporais todos os cômodos mofados da casa em cacos nos pés descalços pois era assim a nossa dança o nosso olhar ainda não contaminado do bafio rançoso a emanar das tábuas do assoalho balaústre parapeito portas de duas bandas trincos destinos aferrolhados nada apontava os grilhões grisalhos mas tudo já estava posto na mesa do filho do amoníaco e do carbono podia ser entrevisto na fumaça da cannabis sativa madrugada a fora vejo agora dentro do riso e do sol nascente ácaros e fungos tecendo o pântano na alma

Estudo para futuro romance



Tangências – pequenos desgarrados que amassamos tanto o mesmo barro.

Artur. Claro, nome falso. Para nós o Tatu, por razões que não me lembro. Melhor talvez fosse Touro, aquele corpaço hipopótamo. Sempre as mãos no lixo, os olhos revirando fundo restos, frutas estragadas, pães mofados, sonhos fora do prazo de validade, côdeas de desamparo. A família, sempre um câncer no calendário de visitas. Um dia, um muro, nunca mais o Tatu roendo ossos.

Moreira. Cobrir. Firme. Descansar. A santa trindade da obediência deixava marcas em seu pescoço branco avermelhado. Tanta disciplina precisava de estocadas no braço, olhos arroxeados, galos na testa, joelhos no milho. Dia houve em que uma surra de fio ensandeceria a escola, centenas de meninos alucinados tentando linchar o marinheiro mascarado de inspetor após expulsão da Marinha.

Gláucio. De Copacabana para nosso espanto, nós de Gramacho Vigário Geral Parada Angélica Engenheiro Pedreira Ricardo de Albuquerque Pavuna e adjacências. Filho de gravuras dos livros de História, já nascera com punhal nos olhos e com esperança ulcerada. Podíamos ver as pedras que guardava nos olhos, a pele cor de ressentimento, os cabelos de pregos e cacos de vidro. Aproximar-se era convite a duelo. Como num conto de Aníbal Machado, o menino-guerreiro sumiu no vento.

Papai Noel. Menino-bibelô largado sem babás no deserto. Olhinhos verdes em meio a tantos olhos famintos. Coxas de menina. Corpo agoniado por se saber em pesados sonhos infanto-juvenis. O postal de miss na hora da punheta. Dentes mais luminosos do que o sol, uma alegria misteriosa, inexplicável que o protegia de todo o mal ao redor.


Cocada. Anos sem visita. As férias só não o mantinham em solitária por causa de tantos outros largados como ele. Nosso líder na abertura de cadeados, assaltos à despensa, comida extra. O chefe da nossa gangue logo desgarrado em voo solo. Carteiras alheias em mãos frágeis, bolsas estudadas com método e rigor, objetos valiosos recolhidos para análise. Expulso com toda a pompa: a escola perfilada para exemplo e dor.


sexta-feira, 23 de agosto de 2013

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Abysmus Express



Primeira estação

Veio a névoa, densa neblina obliterando formas. Teu rosto ainda não existia no retrato, tua voz dormia cantatas em dias de chuva, e o desejo sequer latejava remotíssimo sabor futuro. Minha pele encerada por cerdas ásperas de nostalgia, pergaminho em caminho de rugas, solo intocado dos passos que um dia curvos. Tempo esvurmando minutos, grinaldando de grisalho pelos, cabelos, memórias. As palavras vieram depois, filtradas por máquinas de sucção de impurezas e excessos sintáticos. Os filtros eram falhos como as letras do manual de instruções. Uma vegetação luxuriosa saltava do coração da noite âmbar e ambivalente. Incenso de vigília e tempestade exalava-se em espera. Corria um rio invisível entre os móveis ofertados aos cupins na sala, ouvia-se o ritmo das corredeiras e quedas d'água saltando do pulso. Tudo um fluxo, tudo um continuum, mas nada apontava a possibilidade do legível. Nada de limpidez, toda geometria desmanchava-se em sombras no horizonte a anos-luz de distância. Tudo se tingia de pardo-obnubilante. Linhas voláteis desenhavam um chão de nuvens. Fugidios e movediços, os objetos afirmavam-se como um não-é-para-mim, algo latente num sempre-além, fora das circunstâncias, da vida e suas adjacências entrevistas como relâmpagos apenas em pesadelos. Aéreas fotomontagens as pessoas, nenhuma ascese, nenhum princípio de transcendência ou aproximação, redomas metafísicas. Longe, sempre longe o campo do real objetivo, a latência de formas vivas, a irrupção de sujeitos. Assim, caminhar e tateio operavam sinonímia, entendimento erigia-se em obscuridade, existir era um território de avessos. O trajeto vertical descendente radicalizava perdas e recusas. Mas algo atravessou a névoa, uma instalação desviou o sangue das entranhas para uma baía de águas vivas. Teu corpo, teu corpo, teu corpo, por isso todas as heresias em cântico, todas as blasfêmias abertas em chagas na carne viva. A tua voz do outro lado do impossível explodia o universo. 


Segunda estação

O amor talvez fugisse ao se abrir um guarda-chuva enquanto a cabeça, virada à esquerda,  pensava em travessias. O amor faria bater artérias, portas e janelas, lançando-as do batente ao deserto? Faria cessar a névoa do existir às cegas, entronizando no vácuo uma claridade talvez insuportável, brilho paralisante em frestas pelas quais o vento invade a câmara mortuária onde os sonhos? Se falhos e incompletos, se lacunosos e obsoletos, como a tentativa de domínio sobre natureza diversa da nossa ou sobre aqueles que brotam de nossa urgência e abandono? Onde a possibilidade de circular entre vultos que nos escapam a tardes ensolaradas, lábios que recuam ao primeiro sinal de tangência? O arrepio, no entanto, levantava suspeitas sobre o incontrolável movimento da pele: sístole e diástole, narinas dilatadas, a pressão sanguínea em alfa. Impossível saber o que habita o outro lado, apenas o mergulho kamikaze, impulso.


Terceira estação

Entra-se por qualquer porta escancarada, penumbra fora de perímetro. Às vezes se volta de mãos vazias e com a alma morta. Sempre se alcança, no entanto, ao se erguer os pés além da entrada, mais que porta, nimbo fora de qualquer teologia, bunker de tijolos aveludados isolado no tempo.  Por que maciez, champagne e seda? Por que tantos espelhos e excesso de vermelho nas cortinas? E esse olhar falsificando atração, memória e gula? E essa indumentária incomum sobre a qual repousam aparelhos mecânicos e pílulas para performances guinnessianas? E a boca, sim, a boca, a boca esplêndida e viciosa, a boca, atelier da carne, centro de efeitos efêmeros que escapam ao provisório, aos prazeres-zumbis que se recusam à morte mesmo confinados a poucos segundos. A boca que já não diz por que inventa, a boca esponjosa cuja cegueira arremessa urgência nas paredes.


Quarta estação

Sou Judas e vim cravar punhal babilônio nos olhos da harpia tatuada em tuas costas, serviçal de Lilith, para que não vejas o tremor germinando no solo fértil da solidão dos que traem. Pertenço à legião daqueles de que nada sai sem o sacrifício de sangue e inocência. Sou da tribo dos possessos do espírito e devassos da carne que cruzam o deserto dos prédios para espalhar perversões em salas de cinema. Vim para devastar teu esfíncter banhado em azeite e lágrimas. Vim para calcinar o pântano maldito do teu clitóris, falso espelho de meu gládio, logo abaixo do terceiro círculo do inferno. Vim para enfiar em tua vulva uma carga de mágoas e rosas, pulsante navio transportando adubos, moedas, deuses, sucatas e sonhos. Para ti, serva libertina, o pau vibra qual um cometa ao tocar um ponto qualquer no universo após um século em órbita. Para ti, voz melosa ao telefone em falsas promessas, esta matilha de crimes implorando socorro.


Quinta estação

O que salta dos olhos não são imagens de pêndulos sobrevoando a orquestra de notas falhas, quando descemos dois tons ou quando o si bemol atravessa as paredes para auscultar corpos despojados de sonhos no madeirame tomado por cupins no cômodo ao lado. Também irrompem sobre as pequenas hortênsias desenhadas em lençóis noites de interferências e assimetrias entre tesão e batalha, noites em que saltamos tigres, atravessamos o vácuo e caímos de costas, sem garras, vendo o olhar de escárnio da presa que nos escapa. Tanta espera e urgência inscritas em coxas morenas anatematizam a lança que não alcançou o alvo. Uma cidadela de portas abertas na cama expele seu pavor mais fundo, os lábios grandes e pequenos da vulva secretam, em impura resina e rancor,  todo o léxico uterino do inferno e, inflados de sintaxe homicida, sopram insultos ao falo. Os deuses e os homens brocham com a cara na lama no inverno.


Sexta estação

Desnudados num piscar de olhos, não reparamos a invasão de outros perfumes pretéritos aquém dos espelhos que nos arremessavam ao teto. Mentiras e gozos alheios permaneciam entre as paredes, fantasmas alongando excessos ao tempo de permanência. Meu rosto na toalha macia filtrava a respiração da rua em ablução ou batismo com o qual a pressa convertia-se em outro ritmo, sístole e diástole, fôlego erótico para atravessar túnel noturno. Bordadas na toalha com perfeição de fotografia as mãos de Verônica secavam mágoas e acariciavam a barba tão rala (no desenho eu negava três vezes a navalha sobre a bancada de aço inoxidável da pia). Um quarto sempre será estreito para o amor quando se rompe o lacre das aparências, quando desaba a blindagem de timidez e previsibilidade. Trouxemos de fora a tempestade, a saliva em temperatura de lava, a oleosidade incontrolável na zona erógena do corpo, a intumescência vergonhosa do pau saltando vexame na  calça xadrez, o movimento de nos tocar como se acendêssemos febre no corpo inteiro. Então, arrancamos nacos de carne com as pontas dos dedos lambuzadas de felicidade, fabricamos solda de suor e seivas, inventamos moluscos bivalves, fístulas, dutos de perversão e santidade; abraçados em extremos tão voláteis, vibrando em jorro em nossos dentros, levitamos nossos nomes, desmanchando-os letra a letra lentamente sobre a cama incandescente que trouxemos da rua em nossos pulsos.


Sétima estação

Não cair pela segunda vez, mesmo que íngreme demônio o caminho à tua pele estendida no alto de tantos desencontros. O desejo e seus antigos afluentes latejam nas têmporas correntezas sanguíneas, pressão máxima, tonta navegação armilar nos polos cranianos. Todos os líquidos corporais operam prodígios no campo magnético dos olhos, injetando-lhes uma luz alaranjada que alimenta cães selvagens na penumbra de seios à espera de ossos e areia. O sopro oriundo de cofres internos devasta espera e amplia ao infinito o som da abertura do zíper, enquanto o mover-se inquieto das mãos, impuro balé tateando maciez e manhã em peles rasuradas de hiatos e perdas, em teus pelos úmidos, em teus ocos, acende luzes de emergência entre as coxas. O tempo líquido, um mar anterior ao mundo, faz a armada ora levitar, ora ir ao fundo, mas todas as naus resistem completas à intensa travessia. As marés da carne, o enroscar-se de caramujos, a hibridez de rocha e esponja, tudo respira instante e eternidade. Alargar e contrair luas e pêndulos cravados na loucura mútua. Na ausência de centro, apenas alternância, ritmo, dança erótica; movimentos centrifugo e centrípeto. Corpos cerzidos, emendas afetivas, rascunhos amorosos, males da alma, tudo se evapora. Despidos de nós, o que somos vige exatamente agora quando gozamos estrelas de igual grandeza.


Oitava estação

Vieram as mulheres de Jerusalém para enxertar na minha pele devastada toda uma fome de bestas sem apocalipse, sem memória. Toalhas de linho sobre o criado-mudo e potes de barro ao pé da cama, as loucas de véu azul revezavam-se em fogo e fúria, excitadas com nacos de músculos e nervos entre os dentes de ouro. Com mãos gordurosas limpavam o excesso, depois usavam as próprias túnicas para extrair pequenos pedaços de vísceras entre os dedos viciados na solidão do sexo nas colinas. Aos risos, entoando palavras desconhecidas, jogavam em cestos de vime grandes flocos de algodão doce de sangue. Em meio à sofreguidão dos monossílabos do gozo, um nome soou acima dos lençóis rasgados pela luxúria, e era o teu nome flutuando em sílabas enlaçadas à memória da tua carne em noites de frio. Ao ouvi-lo as mulheres murcharam arroxeadas, as pedras de anéis presos à avidez das mãos perderam o brilho, todos os véus caíram ao chão como deusas de barro, contaminando de melancolia vestes lavadas em lágrimas, esperma e sangue. A mais louca paralisou interminável felatio para cuspir maldições pelas dezenas de cáries da boca, os olhos fuzilando crimes. Saíram em bando, as almas insaciáveis sumiram como farrapos ambulantes muito além das cortinas do sonho. Sim, possuo apenas um nome para o amor, e é teu ainda mais quando te ausentas.


Nona estação

A terceira queda no furor do corpo, três vezes o galo sobreposto à mudez, três cruzes no calvário acima do tórax, três vezes a água batendo no queixo. Levanta-te, Lázaro – e era como se um deus desconhecido rasgasse os estreitos limites do desejo, irrigando com o verbo canais secretos; talvez soprasse com desânimo uma das trombetas oxidadas após a queda das muralhas de Jericó. Sim, também os deuses aprenderam as margens noturnas dos homens, saem de pesadelos em bando para invadir a topografia afetiva fora do plano divino, sabem agora que todas as cidades são Sodoma e Gomorra. A desconhecida ria em sua nudez esplêndida, risos de puta, risos de quem abre as pernas às varizes e à exaustão das horas. Pela janela, infiltração da lua de cobalto. E, frenética loucura amorosa, gozava e ria a intervalos bem largos, na mesma frequência dos espasmos com os quais cobríamos nossos corpos gangrenados de carências. Os olhos, às gargalhadas, urravam: “Canalha! Filho da puta! Eu tô chapada, seu babaca!”  A carne ulcerada já não sentia o prazer em excesso, muito além do preço combinado. A cidadela indefesa, a trompa de Falópio sitiada, uma legião microscópica condenada pela insânia de um comandante tarado. “Seu merda, lúcida eu não gozava”.


Décima estação

A voz estridulante chegou cinquenta passos à frente da sombra, estranho chamado ao interior de antro gorduroso, coalhado de objetos inúteis, móveis quebrados, velas e oferendas. Era Deus e seus dez desregramentos do outro lado da parede mofada. Mãos de dedos rugosos estenderam-se como punhal dentado numa exigência imperiosa de nomes, roupas e pertences. Antes que os olhos piscassem, abrupto puxão nas costas; o linho rasgado de cima a baixo, as calças dilaceradas por dentes em fúria, cães arrancando sapatos, nacos de carne e tatuagens. Pequenos dados viciados, bilhetes amassados, moedas e retratos perdidos na recepção dos leões-de-chácara encapuzados. Despojado da película de ataraxia, o corpo esplendia viço e virilidade. A voz soou mais intensa, suplicando chagas, úlceras, doenças, arrependimentos, choro convulso, mas o corpo rijo e resistente lançou-lhe insultos no céu de álcool e feromônios: respiração ofegante, pressão alterada, circulação acelerada, brilho nos olhos, narinas dilatadas, o pau - lança rubra erguida por demônios. No chão as vestes impuras e as íris dilatadas de Bastet, testemunhas dos nomes que escorriam sílabas e cadáveres de boca em metástase.


Décima-primeira estação

Na sala de comando do abrigo subterrâneo, câmeras registram um corpo sendo despojado de passado púrpura e império, as vestes no chão, tragadas por ratos.  É preciso entrar nu em palavras gravadas para exaustão e tédio; é preciso enganar leitores de digitais, íris e quimeras; é preciso camuflar identidade, alma e vingança; guardar fôlego para atravessar o corredor polonês onde vozes eletrônicas distribuem instruções para performances de alto nível e questionários de riscos. Chega-se, por exaustão e aos pedaços, ao ponto extremo do movimento, após o qual tudo é indiscernibilidade e regurgitação. A face teriomórfica altera o perfil da sombra nos ladrilhos; cornos bipartidos são projetados no azul e branco, orelhas cônicas escondem líquido esverdeado na penumbra, não se veem as fendas da cabeça intumescida de protuberâncias, as bactérias pulsando no centro. Vamos, sim, exatamente aonde nos querem domesticados, strippers infláveis, vamos, no entanto, para danificar todos os circuitos, borrar todas as imagens, queimar todos os fios, desmontar todas as palavras de fibra de vidro e silício. Vamos, sim, morrer com a lança erguida, reluzente, humano hissope cravado em abertura carnívora. Sim, pai, eles sabem muito bem o que fazem; ensinaste muito bem a crueldade.


Décima-segunda estação

Na banheira, por asfixia, na cama, por infarto, em terreno baldio, por uniformes oficiais, ou em cruz de plástico, por cineastas amadores, a morte e seu séquito de banalidades: choro, hagiografia, totens, revelações escabrosas, faxina biográfica. Falsa proposição enunciar a causa mortis. A morte não. Desmoronar, parte da construção; afogamento, o próprio mar; sucumbir, outra manifestação do vigor; abandonar o porto, levá-lo nos dentes para ilhas distantes. A morte, não, a morte, porque nada nadinha reconfortante o abandono das horas em que juntos, porque extraímos fungos e diamantes de horas mortas, porque caminhamos às tontas para nunca escapar ao deserto, porque é necessário palavras cumprirem destino de areia. Só mentiras alimentam a alma, as grandes e as infames. O amor selado em tonéis e desfaçatez, o último orgasmo a acender-se em fumaça na lama sagrada do corpo. A morte não. A alma infante não cabe no corpo mofado. Como a ineludível lavará as falsas promessas de amor urdidas mutuamente em noites úmidas de felicidade? A morte não. Salamandras venenosas ensaiam carícia no corpo morto, nunca a morte, porém, encontrará a sonoridade das palavras que perdemos. A morte que nos leva não sabe o que deixa. Alguns afirmam ver, do outro lado dos orifícios nas duas mãos, a sombra do paraíso (um pastor de cobras foi pregado em poste para multiplicação de fé e descrença). A morte não. O que vi foi aqui mesmo quando pisava em falso.

Décima-terceira estação

Não há, depois da fermentação dos órgãos, da sutura dos tecidos, ponto de restauração de ossos e certezas. Nenhum fio materno virá redimir, ao amparar o corpo extinto, anos de barbárie no pântano. Vê: há certa beleza geométrica na floração de máculas espalhadas como semáforos por uma superfície já inavegável. E os olhos? Observe as cenas submersas pulsando atrás das pálpebras inchadas: mãe abandonada em plantões hospitalares, pano, balde e rodo em sanitários infestados de pestilência; mãe de noites estendidas em pânico quando o filho conduzia uma gangue de hirsutos em farrapos pelas ruas do bairro apóstata; mãe em apneia escrita em livro de ocorrências paranormais: peixes multiplicados por asfixia na cortina d’água, x9 ressuscitado para clandestina execução sumária, putas inscritas em liturgia pornoangelical, cegos que se amplificaram em câncer e surdez. Janelas fechadas à passagem de anódino cortejo, portas trancadas a pavor pleno, crianças nos cômodos mais fundos. Vê: eis o morto em ângulo sólido. Não, não é o dedo médio que lavra insultos a sacerdotes-eunucos. Algo se monumentaliza por causa da pressão hidrostática causada por ingurgitamento venoso, o pau insurgente de Prometeu. A curvatura do corpo cavernoso atira mitos, nódulos e coágulos contra a eternidade. Príapo de volta aos braços maternos.

Última estação


pula-pula a marafona sobre o abdômen do morto, o peso desproporcional afunda pouco a pouco a dissoluta carne arqueada, voluta ulcerada de volta ao útero, cornija para escoar lágrimas fingidas. pisa-pisa a face teriomórfica entre touro e carneiro, vértebras partidas, a flácida barriga de estrias azuladas aberta aos domingos para expiação pública e taxonomia, quase dobrado agora folha rasurada, bolas de pelo como amuletos macabros rolam ladeira abaixo pela goela do falso messias que proclamava proezas sexuais - pura fantasia para viúvas de homens mortos de tédio. agora o fêmur quase atravessando a garganta. outras carnes mofadas prensaram as letras com as quais esquiara esperança e sordidez, também atiraram insultos e serpentes em seu peito, dos pulmões sem pneuma vazavam vigílias alucinógenas e lamparinas para os dias de letras turvas. os poemas em bacias entulhadas de sal e olhos-vigias perdiam a caligrafia de infâmias. forjaram suas amantes uma cruz para a morte, mas todos sabem que o rei apócrifo enforcou-se de palavras, as frases enroscaram-se arame farpado no pescoço roído por prazeres de aluguel, sílabas de pernas abertas esfregavam esponjas e xanas em sua face esquerda enquanto a direita era todo o cenário do deserto.  para sempre lançado do lado de lá das palavras. ainda que não existam deuses e não tenha alcançado o inferno, o morto não pode ser enterrado. quem um dia o calvário de um nome, nunca desnomeado.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Última incursão à carne




pula-pula a marafona sobre o abdômen do morto, o peso desproporcional afunda pouco a pouco a dissoluta carne arqueada, voluta ulcerada de volta ao útero, cornija para escoar lágrimas fingidas. pisa-pisa a face teriomórfica entre touro e carneiro, vértebras partidas, a flácida barriga de estrias esverdeadas aberta aos domingos para expiação pública e taxonomia, quase dobrado agora folha rasurada, bolas de pelo como amuletos macabros rolam ladeira abaixo pela goela do falso messias que proclamava proezas sexuais - pura fantasia para viúvas de homens mortos de tédio. agora o fêmur quase atravessando a garganta. outras carnes mofadas prensaram as letras com as quais esquiara esperança e sordidez, também atiraram insultos e serpentes em seu peito, dos pulmões sem pneuma vazavam vigílias alucinógenas e lamparinas para os dias de letras turvas. os poemas em bacias entulhadas de sal e olhos-vigias perdiam a caligrafia de infâmias. forjaram suas amantes uma cruz para a morte, mas todos sabem que o rei apócrifo enforcou-se de palavras, as frases enroscaram-se arame farpado no pescoço roído por prazeres de aluguel, sílabas de pernas abertas esfregavam esponjas e xanas em sua face esquerda enquanto a direita era todo o cenário do deserto.  para sempre lançado do lado de lá das palavras. ainda que não existam deuses e não tenha alcançado o inferno, o morto não pode ser enterrado. quem um dia o calvário de um nome, nunca desnomeado.


sábado, 10 de agosto de 2013

Décima-terceira incursão à carne

Goya


Não há, depois da fermentação dos órgãos, da sutura dos tecidos, ponto de restauração de ossos e certezas. Nenhum fio materno virá redimir, ao amparar o corpo extinto, anos de barbárie no pântano. Vê: há certa beleza geométrica na floração de máculas espalhadas como semáforos por uma superfície já inavegável. E os olhos? Observe as cenas submersas pulsando atrás das pálpebras inchadas: mãe abandonada em plantões hospitalares, pano, balde e rodo em sanitários infestados de pestilência; mãe de noites estendidas em pânico quando o filho conduzia uma gangue de hirsutos em farrapos pelas ruas do bairro apóstata; mãe em apneia escrita em livro de ocorrências paranormais: peixes multiplicados por asfixia na cortina d’água, x9 ressuscitado para clandestina execução sumária, putas inscritas em liturgia pornoangelical, cegos que se amplificaram em câncer e surdez. Janelas fechadas à passagem de anódino cortejo, portas trancadas a pavor pleno, crianças nos cômodos mais fundos. Vê: eis o morto em ângulo sólido. Não, não é o dedo médio que lavra insultos a sacerdotes-eunucos. Algo se monumentaliza por causa da pressão hidrostática causada por ingurgitamento venoso, o pau insurgente de Prometu, a curvatura do corpo cavernoso atira mitos, nódulos e coágulos contra a eternidade. Príapo de volta aos braços maternos.  

terça-feira, 21 de maio de 2013

Sétima incursão à carne





Não cair pela segunda vez, mesmo que íngreme demônio o caminho à tua pele estendida no alto de tantos desencontros. O desejo e seus antigos afluentes latejam nas têmporas correntezas sanguíneas, pressão em alfa, tonta navegação armilar nos polos cranianos. Todos os líquidos corporais operam prodígios no campo magnético dos olhos, injetando-lhes uma luz alaranjada que alimenta cães selvagens na penumbra de seios à espera de ossos e areia. O sopro oriundo de cofres internos devasta espera e amplia ao infinito o som da abertura do zíper, enquanto o mover-se inquieto das mãos, impuro balé tateando maciez e manhã em peles rasuradas de hiatos e perdas, em teus pelos úmidos, em teus ocos, acende luzes de emergência entre as coxas. O tempo líquido, um mar anterior ao mundo, faz a armada ora levitar, ora ir ao fundo, mas todas as naus resistem completas à intensa travessia. As marés da carne, o enroscar-se de caramujos, a hibridez de rocha e esponja, tudo respira instante e eternidade. Alargar e contrair luas e pêndulos cravados na loucura mútua. Na ausência de centro, apenas alternância, ritmo, dança erótica; movimentos centrifugo e centrípeto. Corpos cerzidos, emendas afetivas, rascunhos amorosos, males da alma, tudo se evapora. Despidos de nós, o que somos vige exatamente agora quando gozamos estrelas de igual grandeza. 


sexta-feira, 17 de maio de 2013

Sexta incursão à carne

Egon Schiele


Desnudados por urgência, não reparamos a invasão de outros perfumes pretéritos aquém dos espelhos que nos arremessavam ao teto. Mentiras e gozos alheios permaneciam entre as paredes, fantasmas alongando excessos ao tempo de permanência. Meu rosto na toalha macia filtrava a respiração da rua em ablução ou batismo com o qual a pressa convertia-se em outro ritmo, sístole e diástole, íncubo e súcubo, fôlego erótico para atravessar túnel noturno. Bordadas na toalha com perfeição de fotografia as mãos de Verônica secavam mágoas e acariciavam a barba tão rala (no desenho eu negava três vezes a navalha sobre a bancada de aço inoxidável da pia). Um quarto sempre será estreito para o amor quando se rompe o lacre das aparências, quando desaba a blindagem de timidez e previsibilidade. Trouxemos de fora a tempestade, a saliva em temperatura de lava, a oleosidade incontrolável da vulva, a intumescência vergonhosa do pau saltando vexame na  calça xadrez, o movimento de nos tocar como se acendêssemos febre no corpo inteiro. Então, arrancamos nacos de carne com as pontas dos dedos lambuzadas de felicidade, fabricamos solda de suor e seivas, inventamos moluscos bivalves, fístulas, dutos de perversão e santidade; abraçados em extremos tão voláteis, vibrando em jorro em nossos dentros, levitamos nossos nomes, desmanchando-os letra a letra lentamente sobre a cama incandescente que trouxemos da rua em nossos pulsos.



sábado, 4 de maio de 2013

Primeira incursão à carne


"Mulher Caída", por Egon Schiele


Veio a névoa, densa neblina obliterando formas. Teu rosto ainda não existia no retrato, tua voz dormia cantatas em dias de chuva, e o desejo sequer latejava remotíssimo sabor futuro. Minha pele encerada por cerdas ásperas de nostalgia, pergaminho em caminho de rugas, solo intocado dos passos que um dia curvos. Tempo esvurmando minutos, grinaldando de grisalho pelos, cabelos, memórias. As palavras vieram depois, filtradas por máquinas de sucção de impurezas e excessos sintáticos. Os filtros eram falhos como as letras do manual de instruções. Uma vegetação luxuriosa saltava do coração da noite âmbar e ambivalente. Incenso de vigília e tempestade exalava-se em espera. Corria um rio invisível entre os móveis ofertados aos cupins na sala, ouvia-se o ritmo das corredeiras e quedas d'água saltando do pulso. Tudo um fluxo, tudo um continuum, mas nada apontava a possibilidade do legível. Nada de limpidez, toda geometria desmanchava-se em sombras no horizonte a anos-luz de distância. Tudo se tingia de pardo-obnubilante. Linhas voláteis desenhavam um chão de nuvens. Fugidios e movediços, os objetos afirmavam-se como um não-é-para-mim, algo latente num sempre-além, fora das circunstâncias, da vida e suas adjacências entrevistas como relâmpagos apenas em pesadelos. Aéreas fotomontagens as pessoas, nenhuma ascese, nenhum princípio de transcendência ou aproximação, redomas metafísicas. Longe, sempre longe o campo do real objetivo, a latência de formas vivas, a irrupção de sujeitos. Assim, caminhar e tateio operavam sinonímia, entendimento erigia-se em obscuridade, existir era um território de avessos. O trajeto vertical descendente radicalizava perdas e recusas. Mas algo atravessou a névoa, uma instalação desviou o sangue das entranhas para uma baía de águas vivas. Teu corpo, teu corpo, teu corpo, por isso todas as heresias em cântico, todas as blasfêmias abertas em chagas na carne viva. A tua voz do outro lado do impossível explodia o universo. 


domingo, 21 de abril de 2013

Vagão avariado





Não aguentava mais o barulho dos trens. Locomotivas iam e vinham no imenso pátio ferroviário de Praia Formosa. Vagões de todos os tipos - tanques, fechados, isotérmicos, hoppers, gôndolas, plataformas, especiais - acoplavam-se, desacoplavam-se na montagem de composições para destinos diversos. Trabalhava emputecido. Onze dias de greve descontados no minguado contracheque. O telex no pequeno cubículo, onde se mumificava longas horas por dia, ampliava o pesadelo sonoro. Quis ser ferroviário para seguir viagem interminável. Mil aventuras de ouro adormecidas, mil mulheres esquecidas à beira de trilhos intermináveis, morrer cada noite em um corpo para amanhecer em outra cidade. Acabou lotado numa área de manobras com ar de sucata. Agora a vida em aberto transformara-se em peso insuportável: âncora lançada em meia-água na Baixada Fluminense com mulher e três filhos. Mais um estrondo, dessa vez muito forte; a locomotiva descarrilou e tombou dois vagões. Pôde ver, pelas grades da janela da estação, sua cabeça esmagada entre dormentes e rodas de aço.