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quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Huaco, de César Vallejo




César Vallejo jogou as letras do idioma de Pizarro em vaso cerimonial, temperou-as com ervas e preces quíchuas. O que ficou no fundo, sacudiu com as mãos ossudas até obter o movimento rotatório construído com papel e barro - o círculo milenar que guarda lhama, condor, puma e poeta. Muito além dos Andes paira o mistério da passagem ritualística do micro ao macro, viagem clandestina do ponto de sagração e de sangramento à esfera instável do planeta e de todo o universo. 

Huaco

Yo soy el coraquenque ciego
que mira por la lente de una llaga,
y que atado está al Globo,
como a un huaco estupendo que girara.

Yo soy el llama, a quien tan sólo alcanza
la necedad hostil a trasquilar
volutas de clarín,
volutas de clarín brillantes de asco
y bronceadas de un viejo yaraví.

Soy el pichón de cóndor desplumado
por latino arcabuz;
y a flor de humanidad floto en los Andes,
como un perenne Lázaro de luz.

Yo soy la gracia incaica que se roe
en áureos coricanchas bautizados
de fosfatos de error y de cicuta.
A veces en mis piedras se encabritan
los nervios rotos de un extinto puma.

Un fermento de Sol;
levadura de sombra y corazón!



Huaco

Eu sou o coraquenque cego
que olha pela lente de uma chaga,
atado ao Globo
como a um huaco estupendo que giragira.

Eu sou o lhama, a quem tão só alcança
a necedade hostil de tosquiar
ornatos de clarim,
ornatos de clarins brilhantes de asco
e bronzeados de velho yaraví.

Sou filho de condor desplumado
por latino arcabuz;
e à flor da humanidade flutuo sobre os Andes
como eterno Lázaro de luz.

Eu sou a graça incaica que se rói
em áureos coricanchas batizados
de fosfato de erro e cicuta.
Às vezes em minhas pedras se encabritam
os nervos exaustos de um extinto puma.

Um fermento de Sol;
levedura de sombra e coração!

Huaco, cerâmica pré-colombiana. Corequenque, ave sagrada dos incas que usavam as suas plumas na confecção de coroas destinadas aos soberanos. Yaraví, canção que funde elementos de origem indígena e hispânica. Coricancha, grande Templo do Sol, em Cuzco; sobre as suas ruínas os espanhóis construíram a igreja de Santo Domingo.


quinta-feira, 18 de abril de 2013

Poema de Robert Creeley




Não tenho pretensões de vir a ser um tradutor profissional, como, no entanto, as traduções servem para oxigenar palavras, significados e imaginação de qualquer poeta, tomei Robert Creeley como alvo.



After Lorca

For M. Marti

The Church is a business, and the rich
are the business men.
When they pull on the bells, the
poor come pilling in and when a poor man dies, he has a wooden
cross,
and they rush through
the ceremony.

But when a rich man dies, they
drag out the Sacrament
and a golden Cross, and go doucement, doucement
to the cemetery.

And the poor love it
and think it's crazy.


Depois de Lorca

para M. Marti

A Igreja é um negócio, e os ricos
são homens de negócios.
Quando os sinos batem, os
pobres se aglomeram na nave e quando morre um pobre, ganha uma cruz
de madeira,
e aceleram a cerimônia.

Mas quando um rico morre
suprimem o Sacramento
e a Cruz dourada, e caminham doucement, doucement
para o cemitério.

E os pobres adoram
e acham uma loucura.


terça-feira, 9 de abril de 2013

Anne Sexton (1928/1974)

























The Firebombers

We are America.
We are the coffin fillers.
We are the grocers of death.
We pack them in crates like cauliflowers.

The bomb opens like a shoebox.
And the child?
The child is certainly not yawning.
And the woman?
The woman is bathing her heart.
It has been torn out of her
and as a last act
she is rinsing it off in the river.
This is the death market.

America,
where are your credentials?

 ***

Os bombardeiros

Nós somos a América.
Somos enchedores de caixões.
Nós somos mascates da morte.
Arrumamos cadáveres como couves-flores em caixotes.

A bomba se abre qual caixa de sapatos.
E a criança?
A criança certamente não boceja.
E a mulher?
A mulher lava o seu coração.
Foi-lhe arrancado vivo
e agora, num último ato,
enxágua-o no rio.
Este é o mercado da morte.

América,
onde estão as tuas credenciais?



segunda-feira, 28 de novembro de 2011


























PAYSAGE MAUVAIS


         Tristan Corbière



Sables de vieux os—Le flot râle
Des glas: crevant bruit sur bruit....
—Palud pâle, où la lune avale
De gros vers, pour passer la nuit.

—Calme de peste, où la fièvre
Cuit.... Le follet damné languit.
—Herbe puante où le lièvre
Est un sorcier poltron qui fuit....

—La Lavandière blanche étale
Des trépassés le linge sale,
Au soleil des loups....—Les crapauds.

Petits chantres mélancoliques
Empoisonnent de leurs coliques,
Les champignons, leurs escabeaux.

Li as traduções de Augusto de Campos e Marcos Siscar. Resolvi aventurar a minha. Fugi ao octossílabo original, optando pelo eneassílabo.


PAISAGEM MÁ


Areias de antigos ossos, a onda
Em cólera, dobra-se ao açoite...
No pântano pálido, redonda
Lua devora vermes, à noite...

Calma de peste, onde alta febre
Queima... Um gênio louco se estiola.
- Erva fétida, fugidia lebre
Invoca um xamã frouxo e se evola...

A alva Lavadeira não se inibe,
A roupa suja da morte exibe
ao sol dos lobos... - Sapos singelos,

Pequenas criaturas melancólicas,
Contaminam com suas próprias cólicas
Chão de caracóis e cogumelos.