domingo, 10 de abril de 2011
sábado, 9 de abril de 2011
NAU SEM RUMO
José Antônio Cavalcanti
Não preciso de cartas de navegação:
basta-me o sonho de travessias impossíveis.
Caminhar sobre a superfície do oceano,
pisando em pássaros submarinos,
tropeçando em ruínas de outras civilizações,
beijando cadáveres de náufragos,
até a definitiva conversão em água, sal e vento.
Sei que não tenho destino.
É o destino que me possui.
As correntezas traçam a rota
e as tempestades preparam o naufrágio.
O mar não precisa de caminhos,
tece na solidão as formas da morte,
enquanto o vento entoa cantos fúnebres
sobre os campos azuis do país marítimo.
O mar não precisa de navios,
precisa apenas de corpos.
(1976)
terça-feira, 5 de abril de 2011
ANJOS
![]() |
| Melancolia I, Dürer |
José Antônio Cavalcanti
“O último anjo derramou seu cálice no ar.” – Murilo Mendes
Não o da melancolia de Dürer,
olhos exilados de signos,
exausto de garimpar as sílabas
de um nome nunca revelado.
Não os prosaicos e suspensos
anjos de Chagall
descascando pecados
sob o chão da cozinha.
Muito menos o de Benjamin,
de costas para o futuro
num voo pesado e obscuro.
Sequer aquele caído nas sombras
de Drummond
em torta escrita de tropeços.
Nem a criatura terrível de Rilke
de asas lavadas em ira e arrogância,
escriba e vigia de nossa sangria.
Um anjo também me assombra
só para sangrar-me.
Anjo apóstata e herege,
corrói com suas asas de inseto
caminhos e projetos.
Examina com tédio e desânimo
os índices de pânico e de esperança
depois de devastar as reservas.
Intrigante e pérfido,
sussurra-me conselhos obscenos,
pragas,
impropérios.
Mostra-me o seio esquerdo
e me olha envenenado,
mensageiro sem mensagens,
desertor de Deus e do homem.
Em sua última passagem, mãos entrelaçadas
e seu corpo macio colado ao meu,
a dupla inscrição de pecados
nas placas e paredes da cidade.
segunda-feira, 4 de abril de 2011
ECLIPSE
José Antônio Cavalcanti
Corpos e palavras
às escuras.
Nudez oculta
acaricia membrana
mesa
ou muro
na câmara vazia.
A lingerie no assoalho
projeta no teto alaranjado
retalhos do amor submerso.
Sobre a cama
finas camadas de mágoa
escavam a camisola
de beijos incandescentes
na zona central da noite.
Tua presença,
teu corpo carnívoro,
luz e leveza esvaziadas,
astros atirados ao inalcançável
da matéria escura do universo.
AR, MARGENS, DONS - TRÍPTICO PÓS-APOCALÍPTICO

Poema: José Antônio Cavalcanti
Ilustrações: Rony Bellinho
α
Mãos desirmanadas entre infelizes
olhares, entre substâncias e acidentes
aristotélicos, bebuns em bandos;
dizer de vozes a se cortar com navalhas e sílabas,
dizer de pedintes penitentes,
dizer de olhos injetados de paraísos.
Poetas e párias desrimam escrita e assepsia
voam contra vanguardas e ventos
nos sambas suntuosos de velhos malandros,
agora fantasmas varrendo silêncio.
Nem de Antíloco nem de Madame Satã
nem de heraclitiano ou homérico dizer
o devir entre mesas e cadeiras,
no chão, a caminho do ralo.
Sombras assentadas em infames
panos poentos
(por baixo dos quais
insones defuntos anacreônticos
libam nostálgico sabor de boêmia)
desfilam indiferença olímpica;
hedonismo e catatonia,
o código de barras da classe média
em sua forma líquida.

β
Surgem os seres-do-fim-dos-tempos;
saem de tocas, antros, esconderijos,
de covas, talvez, ou de cisternas
clandestinas, jardins demoníacos,
fáb
ricas de misérias.
A noite é víscera exposta,
intestinos nas calçadas,
insólito animal sangrento
a exibir, alucinado e repetitivo,
seus mais sujos dentros,
a mecânica macabra da vida
- gangrena guardada em rugas.

Ω
As ruas então em festa:
códigos, circuitos, câmaras de vigilância,
verbiequívocovisuais controles anêmicos
acadêmicos políticos policiais
- o mundo oficial -
alimentam as hienas noturnas;
o capital contabiliza todos os excessos,
a mais-valia compra corpos e felicidade
plastificada, no cartão ou no paraíso.
A escória
- resíduo do humano liquefeito -
escorre de guetos, górgonas e esgotos,
invisível licor a invadir becos e portas secretas
contido apenas por gps e algemas.
Negra beleza bailarina nas calçadas,
grafita de vermelho muros e asfalto
antes da travessia irrevogável.
Invisíveis da mais espessa invisibilidade,
figuras goyescas lançam rajadas e granadas
contra as estrelas.
quinta-feira, 31 de março de 2011
INVENTO
Não me lembro de quando é esse poema. Provavelmente da década de 90. Espero que agrade a algum leitor.
José Antônio Cavalcanti
Tensionadas ao infinito
as janelas despencam
e a noite furta lanternas
ao céu.
Noturna procissão
de pássaros de jade
sobrevoa
o mármore da ansiedade.
Correnteza intangível
mergulha o destino
no inevitável.
A manhã é um gesto distante:
um relógio quebrado
no porão de uma igreja.
Um telhado em chamas
retém a chuva;
temporal de perdas
desabando imagens
e granizo.
Nada deterá o rosto
e o seu esforço
em inventar-se,
o grito ao ver-se,
o doer-se.
![]() |
| Adriana Varejão |
José Antônio Cavalcanti
Tensionadas ao infinito
as janelas despencam
e a noite furta lanternas
ao céu.
Noturna procissão
de pássaros de jade
sobrevoa
o mármore da ansiedade.
Correnteza intangível
mergulha o destino
no inevitável.
A manhã é um gesto distante:
um relógio quebrado
no porão de uma igreja.
Um telhado em chamas
retém a chuva;
temporal de perdas
desabando imagens
e granizo.
Nada deterá o rosto
e o seu esforço
em inventar-se,
o grito ao ver-se,
o doer-se.
POLIORAMA
![]() |
| Damien Hirst |
José Antônio Cavalcanti
I
guardou do jornal notícias remotas entre goles de um vinho vagabundo era inverno apesar do sol a noite roía saudades ratazana imóvel em um canto do olhar esse calidoscópio no qual a vida flutua gestos e acontecimentos esse deformador de fragrâncias incapaz de sintaxe por não conectar o visível à lógica de um sentido poço névoa abismo o olhar cegueira ensandecida filtro podre odre vazada moedas falsas nada
II
de muvuca rave micareta balada da apoteótica pulsação imperial do neoliberalismo em suas formas lúdicas mantinha distância festa é a loucura silenciosa o gesto sem coreografia a babalorixá com um charuto na xana inscrição do corpo no livro de registros clandestinos no subterrâneo do shopping-sex fora de anestésica exibição de juventude eterna amor a rugas à escultura temporal antiplástico o humano em seus podres
III
irritava-se com Montale Cecília Borges Ponge concretistas Cruz e Sousa Drummond Bandeira Cabral Murilo Mendes Lorca Rimbaud Baudelaire Laforgue beats já não podia ler o que antes amara a poesia morava em teclas só os circuitos permitiam trânsito de poemas uma forma pós-moderna de contrabando e dilúvio percebia que seus versos eram um cemitério textual a poesia é algo que nunca aconteceu apenas uma possibilidade de acontecimento algo que está por nascer um além da língua morta que falamos
IV
escrita nenhuma o abrigaria nômade de textos pirata de mundos desconhecidos exilara-se em internet quarto floresta cela caverna (o que Batman fazia com túnica platônica?) o pavor desenhava espirais em sua testa suava pleonasmos e versos ruins a falta de palavras murchava as maçãs do rosto os textos não-escritos perdidos inconclusos iam deformando os dedos curvando a coluna o não cumprimento da promessa de poesia apodreceu lentamente a alma
guardou do jornal notícias remotas entre goles de um vinho vagabundo era inverno apesar do sol a noite roía saudades ratazana imóvel em um canto do olhar esse calidoscópio no qual a vida flutua gestos e acontecimentos esse deformador de fragrâncias incapaz de sintaxe por não conectar o visível à lógica de um sentido poço névoa abismo o olhar cegueira ensandecida filtro podre odre vazada moedas falsas nada
II
de muvuca rave micareta balada da apoteótica pulsação imperial do neoliberalismo em suas formas lúdicas mantinha distância festa é a loucura silenciosa o gesto sem coreografia a babalorixá com um charuto na xana inscrição do corpo no livro de registros clandestinos no subterrâneo do shopping-sex fora de anestésica exibição de juventude eterna amor a rugas à escultura temporal antiplástico o humano em seus podres
III
irritava-se com Montale Cecília Borges Ponge concretistas Cruz e Sousa Drummond Bandeira Cabral Murilo Mendes Lorca Rimbaud Baudelaire Laforgue beats já não podia ler o que antes amara a poesia morava em teclas só os circuitos permitiam trânsito de poemas uma forma pós-moderna de contrabando e dilúvio percebia que seus versos eram um cemitério textual a poesia é algo que nunca aconteceu apenas uma possibilidade de acontecimento algo que está por nascer um além da língua morta que falamos
IV
escrita nenhuma o abrigaria nômade de textos pirata de mundos desconhecidos exilara-se em internet quarto floresta cela caverna (o que Batman fazia com túnica platônica?) o pavor desenhava espirais em sua testa suava pleonasmos e versos ruins a falta de palavras murchava as maçãs do rosto os textos não-escritos perdidos inconclusos iam deformando os dedos curvando a coluna o não cumprimento da promessa de poesia apodreceu lentamente a alma
terça-feira, 29 de março de 2011
CESSOU A CHUVA
![]() |
| René Magritte |
A noite,
em silêncio,
secou a tarde
estendida na rua.
Descerro os olhos
e desenho ausências
na calçada da página.
Em sala sombria,
sem acesso a teu corpo selvagem,
observo a muda passagem de cometas
sem cauda,
sem coroa,
sem brilho.
Deixam um sulco invisível
à sombra de estrelas inclementes.
Dou adeuses às palavras
que emergem atônitas
do centro da página.
Revoltadas, me indagam:
- realidade ou pesadelo?
Invento evasivas
com um pássaro de azul e açúcar
no olhar.
Engesso sentimentos
em clichês de nonsense.
Ah, exímio artesão de coisas mortas!
As palavras zombam do meu estro.
Atiram-me vírgulas e acentos.
Dizem-me pilhérias,
impropérios.
Rancorosas,
roubam-me a caneta
e se escrevem.
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
INVOCABULUS
José Antônio Cavalcanti
Amor. Substantivo arcaico. Termo a ser banido da língua portuguesa. Mau hálito e azia. Dor de barriga. Insônia. Aumento de dívidas e da lista de remédios. Mau funcionamento do lado esquerdo do cérebro. Disfunção hepática e coronariana. Álvares de Azevedo, em mensagem psicografada, revelou-me ser o amor um pântano produzido apenas por palavras dispostas em uma química de enganos. Ver: Jack, o estripador, Sade, Safo, Oscar Wilde, a minha vizinha do quinto andar e as meninas da Vila Mimosa.
Arte. Antinome indeterminado. Algo que desapareceu no horizonte, no tempo em que este ainda existia, entre Grécia e Bahia. Ver: Aristóteles, Hegel, Heidegger, Cartola e Zeca Pagodinho.
Ética. Substantivo de marketing. Criado pelos irmãos Platão, Spinoza e Kant, sob a curadoria papal, faz parte dos organogramas empresariais e alimenta ongs picaretas. De natureza vaga e modus embromatorius, é uma máscara para o sem rosto da sociedade, normalmente disfarce para o repulsivo e o hediondo. Ver: direitos do consumidor, analistas políticos da burguesia (perdoem a redundância), sociólogos (ou seja, explicadores submissos da nossa realidade), religiosos (de preferência, fundamentalistas, tarados e pedófilos), melhor: consulte todo mundo, pois todos se declaram éticos.
Insurreição. Substantivo existencial. Movimento de retorno à palavra manifestada como ausência. Cisão entre o antes e o depois. Ver: Antígona, Hölderlin, Vallejo e Khlébnikov.
Isso. Pronome inconclusivo. Dêitico especificativo de porra nenhuma. Opõe-se àquilo para tornar nítida a oclusão da existência. Expelido por Kierkegaard, tem infernizado a vida de filósofos, apesar de a filosofia ter se transformado em esquizofrenia. Ver: Heidegger e outros místicos.
Palavra. Substantivo hipotético. Não é vocábulo, nome, termo, conceito ou qualquer definição conhecida. Autotélica e tautológica forma do nada, do qual emerge como fratura e suicídio. Ver: Wittgenstein, Beneviste, Guimarães Rosa, a Bibla (não encha o meu saco, ortografo como quiser).
Poema. Substantivo em extinção. Arquitetura insuflada pela anima da poiésis. Espécie de inutensílio costurado por espaços inúteis e signos absurdos para gáudio de esnobes e narcisos. Espelho de poetas que dispensa a imago de leitores. Ainda que extintos, sobrevivem ferozes e falaciosos no mínimo círculo de seus iniciados. Ver: Concretismo, Ponge, e. e. Cummings, Apollinaire, Arnaldo Antunes. (serve também qualquer poeta de botequim).
Poesia. Substantivo indeterminado. Algo que impulsiona a pro-dução, poiesis. Paradoxo: o incriado criador que produz aquilo em que não pode ser encontrado, pois nele não reside. Passagem em múltiplas formas e suportes, ainda hoje há quem acredite em sua sobrevivência como energia criadora ou fantasma. Ver: sei lá, liga a televisão.
ERRÂNCIA
![]() |
| Rné Magritte |
José Antônio Cavalcanti
A indiferença,
país de olhar longínquo,
ao meu incandescente caminho
na fímbria,
na fresta
entre o teatro do mundo
e as águas submersas,
é em ti dádiva divina,
uma cruel cicatriz nas cinzas
dos teus olhos imperiais.
Aparta de meus dedos
as cordas do teu corpo,
cruel domadora de desejos.
Estilhaças insurreições da carne
com correntes e métodos.
Podes, então, voltar ao livro
de capa verde sobre a mesa escura,
abri-lo em página inexistente,
embriagar-te com teu verso favorito,
pleno de delícias e sobressaltos,
que nenhum poeta ainda ousou escrever.
Coabitamos um tempo
em perpétuo desmoronamento.
Podes, amor, desabar
toda a fúria sobre a minha pele
em pânico, sobre a tela vazia do meu rosto
em curto, sobre as palavras plasmadas
em perda, em pedra, em pó.
Que a tua passagem em minha órbita
seja sempre o universo que me consome!
Que sempre voltes o teu olhar para o outro lado do abismo!
O fingimento é a mútua pronúncia
em nossos lábios
do que sobrou da palavra amor .
sábado, 12 de fevereiro de 2011
HEMATOMA
![]() |
| Iberê Camargo |
José Antônio Cavalcanti
Não, isso não vai ficar assim. Ele vai ver só. Babaca! Frouxo! Na cama que é bom mesmo, não consegue dar conta do recado. Sempre com sono, cansado ou bêbado como um porco. Rola as banhas prum lado e pro outro e principia a roncar forte e animalesco. Fim de semana inventa mil desculpas: é uma ida a São Paulo, um batizado lá em Piabetá, um casamento em Vila Rosali. Está sempre me evitando, fugindo, distante. Ah, mas ele me paga, juro por tudo que me é sagrado que esse banana vai se arrepender... Acho que está enlouquecendo. Só pode ser isso. Ontem o maluco investiu possesso contra mim, dando murros e pontapés, gritando, quebrando as coisas... Covardão! Eu queria apenas brincar de ilusão – tonta que sou. Hoje dormir com ele num mesmo leito é um ato de sacrifício. Não aturo mais o amontoado de adiposidades gemendo e babando sobre mim, sentir seu hálito de cachaça e fracasso. Difícil enxergar um homem por trás daqueles trapos. Impotente, gilete! Já não gozamos, sofremos o prazer irrealizado, e a vida... Que merda! Logo no dia do aniversário da Lena. Preciso disfarçar essa marca roxa no rosto. O estúpido rasgou até o vestido que me presenteou para que fosse estreado na festinha. Eu preciso ir, porém, assim, acho que não vou agradar muito. A Lena é tão boazinha. O marido dela é que é bacana. Não é igual a esse paspalho que aperreia a minha vida. O sem-vergonha outro dia telefonou pra mim. Gostoso. Já o senti, no hall do elevador, me comendo com os olhos. Fiquei meio constrangida porque a Lena estava falando comigo e senti um alarme no olhar dela, mas bem que fiquei satisfeita. Onde está o outro vestido?... Não, esse é horrível. Já desfilou por todas as festas nos últimos dois anos. Acho melhor transar um ar esportivo. Assim, óculos, meias berrantes, bermuda... Não sei... Hum... O marido da Lena ganha muito bem; além de motorizado, não é nenhum unha-de-fome igual ao besta do Arnaldo. A Lena nunca anda reclamando. Filho da puta do Arnaldo: me bater ainda vai, mas rasgar o meu melhor vestido. Se pelo menos não tivesse ficado a marca. Nas coxas, tudo bem, ninguém vê, mas o hematoma aqui no olho é fogo. Se o marido da Lena visse costas e coxas ostentando sinais de pancadas, o que pensaria de mim? Preciso disfarçar. Espero que o Arnaldo hoje não dê a louca de chegar mais cedo. Ele é meio maníaco. Acho que todo funcionário público chefe de seção é meio doido. A Lena é uma pessoa tão agradável. Só é muito sacana. Como é que ela descobriu que a Solange adora mulheres? Mas a Solange, logo ela... tão quietinha. Que absurdo! A Lena perguntou se eu topava fazer uma experiência com ela e a Solange. Que idéia! Fiquei sem graça, mas ela acha que só tem coragem se formos juntas. Hoje, na festa, digo sim. Puxa! Estou ficando muito liberada. Acho que estou me atrasando. Esse hematoma desgraçado. Arnaldo é um grosso. Trata as mulheres como objetos. Vai ver me confunde com os arquivos, cartões de ponto, máquinas e carimbos da sua repartição. Homem é assim mesmo: roupa lavada, passada, comidinha no tempero exato, uma babá pros filhos, uma cadelinha pra cama – eis a esposa modelo. Arnaldo é um merda. O marido da Lena não. É, nem todos os homens são iguais. O marido da Lena tem o maior tesão por mim. Preciso ir bem charmosa. Tenho que fazer presença. Ah! essa coisa asquerosa enfeando o meu rosto. Arnaldo é um grosso. A Márcia é que é esperta. Outro dia me deu um sermão: não sei aproveitar a vida, tenho só vinte e oito anos, meu corpo é joia, sou muito medrosa. O marido da Lena tem um monza cinza metálico e trabalha numa gravadora. Puxa! deve conhecer muitos artistas. Desconfio que o Arnaldo está brocha. Pronto: agora só falta encobrir o ferimento. Arnaldo é mesmo um grosso. Não sei como ainda vivemos juntos. Oito anos de hiprocrisia e conveniências... oito anos... Foi na Igreja de Santa Margarida, meu velho sonho. Que merda! O Arnaldo tem um relacionamento tão estranho com o Ângelo. São tão ligadinhos que dá até para desconfiar. Eu, hein, veado! Ele me paga! Será que esqueci a chave na gaveta da cômoda? Tenho que dar um jeitinho de marcar um encontro com o marido da Lena. Ele é tão gostoso. A Lena é tão boazinha. Arnaldo é um animal... Eu só queria acreditar que ainda estávamos vivos... Ih! Já são dez e meia.
NAU URBANA
![]() |
| Cidade, Cícero Dias |
José Antônio Cavalcanti
Sombras sonoras piscam
na cidade,
esse charco aceso de segredos
onde anjos boêmios dissolvem
- com palavras e copos plásticos -
os muros do paraíso.
Noturnas,
as vias respiratórias da urbe
- duto de perversões e desvios -,
em sístole e diástole,
marcam o ritmo veloz
das aves que migram do inferno.
Bairros,
manchas de lixo e entulho
impermeáveis à luz
exibem lúgubres
a miséria de domicílios inviáveis.
Arquitetura e tautologia,
as fibras dessas construções
recusam passagem ao júbilo.
Ausência de música e catedrais;
Apenas a pauta das máquinas
Na mímica das mercadorias.
Encena insana dramaturgia.
O Armagedon não armou a paisagem.
A cidade é mesmo jogo sem regras,
sem sentido, sem finalidade.
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