sábado, 4 de junho de 2011

ANARQUIPÉLAGO




















   

  José Antônio Cavalcanti


Submersas e móveis
ilhas
isoladas
sob um sol submarino
ensinam naufrágios a bússolas
no solstício de dezembro.

Não há caravelas
nem argonautas,
apenas náufragos
em águas estrangeiras.

Dois hemisférios
e nenhum verdadeiro.

Cinco ilhas desconhecidas:
entre elas, no fundo indizível,
vive,
no mar de fuligem, Le bateau Ivre.

Guarda (contrabando na carga)
palavras como âncoras corroídas,
ossos e um mundo fora de prumo.

O velame de velcro avisa
a vagabundos vivazes e visionários
que só se navega de verdade
verticalmente.

Ilhas em fuga
apagam a teoria dos conjuntos
a falácia de mapas,
o sentido da história,
os gozos memoráveis.

Tantos portos,
tantas palavras
e nenhum destino.

E se todo caminho for (clan)destino?

sábado, 28 de maio de 2011

O EXTERMINADOR DE ILHAS

René Magritte
   

José Antônio Cavalcanti





Ele vem antes do dilúvio,

cigarro e uísque em equilíbrio.

Diz “imperiosa reconfiguração”,

e mais “uma nova perspectiva”,

para acrescentar, exausto,

“um projeto para o século XXI”.



Carrega cidades nas costas,

mede distâncias e cargas,

olha à direita e à esquerda.

O olhar insone insiste:

“Precisamos fazer uma limpeza,

isso aqui está uma bagunça”.



Bela a camisa estampada ao vento

que insufla latitudes e meridianos

aos cabelos tingidos de espanto.

Belos seus pensamentos a barlavento:

supressão de pousos,

poda de portos e primaveras,

previsibilidade dos percursos.

Bela a luminosidade das palavras,

apesar de algumas lâmpadas queimadas:

priorizar, reciclar, operacionalizar, otimizar...



Gosto do seu olhar oceânico

a descerrar manhã e horizonte;

pura potência, puro encantamento,

a conversão de almas em moedas.



Na madrugada da última ilha antes de Ítaca,

esguio como um gato no tombadilho,

arremesso a humana maravilha ao mar.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

SUICÍDIOS EXEMPLARES



SUICÍDIOS EXEMPLARES, de Enrique Vila-Matas

É muito extensa a lista de autores que recorreram ao suicídio. Na literatura portuguesa, o gesto radical silenciou Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Florbela Espanca, Mário de Sá-Carneiro, entre outros. No Brasil, me recordo de Ana Cristina César e Torquato Neto. Em outras latitudes, foi o ponto final de Jack London, Virgínia Woolf,  Hemingway,  Stefan Zweig, Sylvia Plath,  Cesare Pavese, Hart Crane, Virginia Woolf,  Romain Gary, Ernest Hemingway, Jack London, Sylvia Plath,  Paul Celan, Serguei  Essenin, Vladimir Maiakóvski, Primo Levi, Paul Nizan, enfim, uma galeria impressionante de nomes ilustres. 

A morte, qualquer que seja a forma de sua presença, parece inscrita no próprio código da criação, talvez sirva mesmo para legitimar a arte como o movimento de fuga ao inexorável limite humano, uma desesperada escrita que tenta uma permanência negada pela dissolução promovida pelo tempo e suas duas sombras inseparáveis: a mudança e o esquecimento.

O suicídio é seguramente uma forma de grande complexidade. Uma afronta à onipotência da morte, um desafio à autonomia que ela revela ao exercer um domínio impiedoso  sobre nós. O gesto extremo redunda de uma escolha ou, paradoxalmente, da própria impossibilidade de caminhos. Podemos entender a referência artaudiana à morte de Van Gogh, “suicidado pela sociedade”.  Em qualquer caso, matar-se é manifestar o desejo de descontinuidade, um salto equivalente à geração da vida, ou seja, a anticriação, a radicalidade da criação como forma suprema da negatividade. Caminho de fuga que podemos trilhar de modo autônomo, como quem busca um beijo e um abraço, ou impelidos por forças superiores à nossa capacidade de resistência. De qualquer maneira, abreviamos a jornada rumo a um encontro obrigatório.

A morte só existe como linguagem. Acho que Heidegger disse isso ao escrever que “só os mortais podem ter a experiência da morte como morte”. Não me preocupo em buscar significado para algo que me assombra. Nem quero aqui aprofundar um pensamento que fere e sangra de tão incômodo. Permaneço no impasse apontado por Heidegger: “A relação essencial entre morte e linguagem surge como um relâmpago, mas permanece impensada”.

Para Vila-Matas os suicídios exemplares são aqueles impossíveis, indefinidamente adiados, como observou com precisão o escritor argentino Alan Pauls na apresentação do livro, para quem o autor de O mal de Montano é “um hábil fabulador de ‘pulsões negativas’ (deixar de escrever, desaparecer, não ser ninguém)” e a reflexão sobre a morte ao longo do texto não implica desistência, derrota, antes “é um princípio de potência: algo na vida range, se abre e começa a ser possível – algo desconhecido, que até então não tinha rosto nem forma, e que agora, de repente, parece exercer uma sedução irresistível – quando alguma das criaturas que povoam estas páginas se deixam possuir pela ideia de se matar”.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Estou na revista CULT que está nas bancas (nº 157).







quinta-feira, 28 de abril de 2011

O INCRIADO

Eu não sou este corpo, 2003, Deise Marin




















     





  José Antônio Cavalcanti 



 

Antes houvesse fundado
uma tribo de bárbaros.
Assim saberia o sabor
de incontáveis calamidades,
ouviria ossos assobiando agonias
entre tendas destruídas
e cupins de inútil mobília.

Insensato,
habitou entre demônios e ratos.
Vasculhou fendas invisíveis
no vasto e vulnerável horizonte.
Não navegou margens mallarmaicas
nem em homéricos mares naufragou
suas palavras malsãs e lunares.
Uma vulgaridade absurda gotejava
de sílabas em pânico,
contaminava
- no chão poças de Vallejo, Khlébnikov,
Drummond, Montale
e um imóvel Brodsky -
a água impura dos poemas.

De tanto inventar-se, um outro
tomou-o por inteiro.
Nada sobrou
em pele ou cofre noturnos,
a não ser metáforas anacrônicas
em um caos digitalizado.


sábado, 23 de abril de 2011

DERInerVAÇÃO

                                  

                                 

                                       DERInerVAÇÃO
                           (quando falham os cognatos


                                             José Antônio Cavalcanti


                                  de baixo, baixaria
                                  de boato, boataria
                                  de cura, curadoria
                                  de confrade, confraria
                                  de glutão, glutonaria
                                  de grito, gritaria
                                  de infante, infantaria
                                  de lata, lataria
                                  de letra, letraria
                                  de michê, mixaria
                                  de monte, montaria
                                  de ouro, ourivesaria
                                  de par, parceria
                                  de patife, patifaria
                                  de pedra, pedraria
                                  de peito, peitaria
                                  de pirata, pirataria
                                  de ponto, pontaria
                                  de porco, porcaria
                                  de porrada, porradaria
                                  de porta, portaria
                                  de prata, prataria
                                  de puta, putaria
                                  de Roma, romaria
                                  de saco, sacaria
                                  de velhaco, velhacaria
                                  de vaca, vacaria
                                  de Zé Mané,  Zé Maria

                                  de você, avaria

quinta-feira, 21 de abril de 2011

TIJUCARNE





Reené Magritte


        



















        José Antônio Cavalcanti



                 Para Rony Bellinho


            
Havia uma vila,


Miss Brasil,


Rainha do Rádio.



 


Na esquina,

janelas entre o cinza


onde umas sardas sorriam


todas as tardes.


 


À noite,

três padre-nossos


e salve-me rainha.


(1983)



SEM CENA

Arthur Bispo Do Rosario























AOS CACOS

NO CAOS

POR ACASO

UM CASO

          SÓ

                    : OCASO

                      ACESO 


domingo, 10 de abril de 2011

GOOGLICERINA

Deserto líbio

            

   José Antônio Cavalcanti 



Todo excesso 

também é um deserto.




sábado, 9 de abril de 2011

NAU SEM RUMO



















      José Antônio Cavalcanti




Não preciso de cartas de navegação:
basta-me o sonho de travessias impossíveis.




Caminhar sobre a superfície do oceano,
pisando em pássaros submarinos,
tropeçando em ruínas de outras civilizações,
beijando cadáveres de náufragos,
até a definitiva conversão em água, sal e vento.



Sei que não tenho destino.
É o destino que me possui.
As correntezas traçam a rota
e as tempestades preparam o naufrágio.



O mar não precisa de caminhos,
tece na solidão as formas da morte,
enquanto o vento entoa cantos fúnebres
sobre os campos azuis do país marítimo.



O mar não precisa de navios,
precisa apenas de corpos. 

(1976)

terça-feira, 5 de abril de 2011

ANJOS

Melancolia I, Dürer
             

          






















       José Antônio Cavalcanti



                   “O último anjo derramou seu cálice no ar.” – Murilo Mendes


Não o da melancolia de Dürer,
olhos exilados de signos,
exausto de garimpar as sílabas
de um nome nunca revelado.

Não os prosaicos e suspensos
anjos de Chagall
descascando pecados
sob o chão da cozinha.

Muito menos o de Benjamin,
de costas para o futuro
num voo pesado e obscuro.

Sequer aquele caído nas sombras
de Drummond
em torta escrita de tropeços.

Nem a criatura terrível de Rilke
de asas lavadas em ira e arrogância,
escriba e vigia de nossa sangria.

Um anjo também me assombra
só para sangrar-me.
Anjo apóstata e herege,
corrói com suas asas de inseto
caminhos e projetos.
Examina com tédio e desânimo
os índices de pânico e de esperança
depois de devastar as reservas.
Intrigante e pérfido,
sussurra-me conselhos obscenos,
pragas,
impropérios.

Mostra-me o seio esquerdo
e me olha envenenado,
mensageiro sem mensagens,
desertor de Deus e do homem.

Em sua última passagem, mãos entrelaçadas
e seu corpo macio colado ao meu,
a dupla inscrição de pecados
nas placas e paredes da cidade.