domingo, 31 de julho de 2011

DESACONTECIMENTO

Vladimir Kush


    















  




 

       José Antônio Cavalcanti


Até então
se podia
seguir
na contramão
do mesmo
ou a esmo.

Havia
vidas fora do
ar,
em vias de rumo
qualquer;
câncer de avidez
em vidros-galerias.
Talvez naufrágio,
talvez poesia.

Pouco a pouco
os gestos gotejam abstratos
como zeros gastos
ou carros abandonados
em fuga.

Sem caminho
na cidade,
sem espessura,
volume,
densidade,
o mundo se desloca,
o eixo da Terra muda.

Tudo se turva,
tudo se nubla,
tudo se apaga,
agora,
com a faca da sua ausência  
cravada na garganta.


terça-feira, 19 de julho de 2011

GALÉS





"Galés" investe o mar de uma arquitetura conceitual, numa rota poética mais ousada, na qual ressoam as vozes dos condenados da terra em busca de liberdade e transcendência. A forma estrófica de remos e o ritmo das remadas dão-lhe uma sonoridade de litania como se a possibilidade de naufrágio iluminasse os olhos dos escravos (todos aqueles que são obrigados a nutrir o capital). Não consigo me  lembrar da data em que o criei, só sei que é da década de 80.




                         

                              GALÉS 



                         remos     remos
                       raros         leves
                    braços             penas
                riscando                 traçando
                marcas                     rotas
           nas águas                         com asas

                         remos     remos
                      verdes         duros
                     ramos             cortes
               flutuando                 desafiando
                portos                     mortos
           nas vagas                         com facas

                         remos     remos
                       puros         novos
                    letras             rumos
              inventando                 navegando
                 mares                     mundos
           no futuro                         com procuras

                         remos     remos
                     tristes         largos
                    ritmos             risos
                talhando                 amanhecendo    
                 rugas                     cantos
      nas travessias                         com profecias




quinta-feira, 14 de julho de 2011

FORA DE FORMA


                
         José Antônio Cavalcanti



        Plataforma apinhada. Massa compacta  inflando  a manhã  morna  e desanimada.  Um coro enfurecido de putas que o pariu e filhos da puta faísca no ar. Contraponto a um fanhoso e rotineiro −  “a composição destinada a D.Pedro II encontra-se avariada  na  estação de Pavuna. Próximo trem saindo de Belford Roxo”.  Enevoado, olho escândalos em um jornal.
        Nem sei como entrei. Felicidade. O jornal rasgado e um  botão da camisa perdido.  Arrastado  pela  multidão  em selva escura habito.  O corpo  dissolvido em humano inferno,  o suor naufraga todas as identidades. Minhas pernas, misturadas às outras, inviabilizam caminhos. Não sei qual a mão que remete ao meu ser.  Divindade panteísta,  sou  milhares de  olhos e bocas,  salivando preces e imprecações. 
          A porta, a turma da porta. Preciso caminhar. Melhor a porta aberta, o vento no rosto, a promessa de abismo − irrecusável convite.  Cotovelos em amplas barrigas ocas e convexas, expostas à fúria da minha fuga. Pés em chinelos são vítimas inermes de  pressões  brutais  e covardes. Cabeçadas à direita e à esquerda em um mundo sem centro.  E o revide  anônimo  e certeiro percutindo nas costas. Finalmente, a porta. Posso guardar escudo e  gládio,  transformar a couraça metálica em  trapos esvoaçantes.

         Entra e sai nas estações inumeráveis – Ítaca, Magno, Lesbos, Rocha Miranda, Troia, Honório Gurgel, Pasárgada, Costa Barros, Patmos... −, repetições de espaços aguardando supressão;  núcleos  de  triagem  de  resíduos humanos onde se processa a alquímica conversão de flor em cobre e carvão. Renovação de retirantes entre o esperar e o ingressar sob a resina azul do céu.  Ratos  desmemoriados  portando  lanternas sem luz em trilhas que  conduzem  a laboratórios sinistros. Cobaias destinadas a um invento cuja fórmula  transmuta-as em ouro. Milhares de ratos munidos de ração e sonolência  invadem a manhã.
        Melhor essa emoção suburbana de perito, esse folhetim de terceira classe,  esse desafio aos deuses  da velocidade, do que a ida ao forno em confortável  abrigo, a ida ao logro  sem sombra de  perigo.  Melhor o caminho sinuoso  e  longo,  nele  vejo pés  sobre as janelas do trem. Loucos ambulantes da morte passeiam felicidade sobre os vagões.  Entre fios e  transgressão  exercitam-se  os  bailarinos do caos. O fascínio da queda  sem  anjos e paraíso.  Ao som de inaudível rap,  falseiam  passos,  apresentam  números de mágica e digitam  delírios,  infernizando a  vida  autômata do lado de lá do Grande Vidro,  onde  almas  pedestres hostilizam violinos.
        Não  hesito.  Mãos  sobre  outras   mãos-trampolins.  Pés  roçando  ombros  e   cabelos alheios. Corpo quase flutuando. Ginástica improvisada entre tapas e xingamentos. E o mundo é muito mais do que um se deixar conduzir,  um ser levado  por.  É uma  verdadeira  viagem. Agora sim, na galeria dos homens. Rito iniciático da arte kamikaze. Samurai de  sombras e suspense.  Entrego-me ao prazer de um lugar não destinado.  Invasão e  perversão do deslocar-se. Criação de um movimento real,  livre das coordenadas que empurram trajetos e percursos aos seres e,  externamente, determinam a cadência dos passos, o ritmo da respiração  e  todo  o  ritual  do  mover-se  em direção a.  Fora de lugar. A viagem enfim aventura, conquista de um mapa interior que me liberta da topografia imposta e  permite atalhos,  saltos,  precipícios. A distância é um conceito alojado no meu olhar.
        O mundo passa feroz. As casas voam. As pessoas explodem formas e cores  em  ritmo estonteante. Só nas estações  −   flechas apunhalando voos   −  entusiastas da  ordem,   inimigos da  imaginação  e  do  balé  dos homens livres,  desfilam conselhos estéreis, súplicas teatrais, intimidações bolorentas. Eles, os comensais da  hyerarchia,  os   incensadores   da  nova  ordem.
        Um tremor no corpo marca a precariedade do equilíbrio. Um calafrio, cujo epicentro aloja-se no estômago, percorre todos os membros. Fecho  os olhos incontáveis vezes,  enquanto as  mãos  seguram com  desconhecida sofreguidão qualquer reentrância metálica. O rosto tangencia placas, sinais luminosos,  postes, fios, passarelas, viadutos, tudo milimetricamente afastado.
        Sobre  a  composição,  uma  assembleia  de  apóstolos  da  loucura  traça  um  desenho inesperado e   selvagem. Californianos negros desdentados,  caubóis do morro da Lagartixa, louros carcomidos de perebas,  branquelos  heróis de  seriados  da  televisão saltam e pulam emoções  violentas  com  jubiloso  acompanhamento  de  gritos,  assobios e exclamações de “salve-se quem puder”.  Tarzans,  Rambos,  Hulks,  Robins Hoods,  exército de zés e  joões consumidos em sonhos  colonizados,  lançando  vísceras  e  músculos sobre  trilhos. Corpos mergulham por janelas rumo ao sem retorno. Quixotescos heróis  minúsculos,  pretos-forros do ‘vai fazer isso” e  “vai fazer aquilo”  subtraem espaço às notícias do mundo. Exército suburbano de  libertação  irracional. Dançarinos da  fome,  magricelas e cariados  fantasmas num salto mortal entre vagões.  Reaprendizado  cruel  do  jogo  da  amarelinha. Nos caixões metálicos operários  embalsamados  trocam  pisões,  sarros  e  cotoveladas,  permeados  por pungas e conversas. O amontoado de  seres ao gás de fábricas e escritórios. Lazer  perpétuo aos exterminadores de baixadas fluminenses estrelas.
        Também sou peregrino. O término da viagem é o santuário. Os templos impiedosos do século vinte erguem  torres monumentais a um céu despovoado de misericórdia. Só  as  viaturas da ordem, os códigos e as senhas de acesso, a  distância de gestos e trânsito. A cidade-cartão  postal por onde desliza essa carroça eletrometálica é um assustador jardim de alumínio, ferro e vidro;  paraíso  de guichês,  mendigos  e  camelôs.  A grande sucata-mor de  um país não sei qual.  Nela,  papéis  em ignota caligrafia nas mãos, autenticam passos em  Tiradentes praças,  Rio Branco avenidas, tantos e tais lugares,  andares,  salas  xis e  ipsilones. E mais:  eletrônicos  objetos  digitais sonhando  posse.  Espaços  onde  fucionários  anemizam  sorrisos  tão operacionais quanto idiotas. Contas.  Dívidas. Anúncios.  Jornais emprestados, colhidos ao chão.  Mil jogos de  ilusão povoando a vida de capoeiras e laser, engolidores de fogo e vídeos, cegos instrumentistas e  samplers, mímicos e robôs, pomadas vendedores japoneses e pistolas automáticas.
        Deslizo entre os vagões. Desligo razões. Pulo todos os degraus da insanidade. Xingo  a mãe dos passantes (farsantes?).  Tiro o pau  para fora e exibo o obelisco do pecado a cantorias protestantes e virtuoses de fim de semana.  Estou  fora  do controle oficial.  As leis  são apenas registros que me aprisionam a uma vida miserável. Não há clemência. No mundo só existe polícia.
     Repentinamente,  paralisam o movimento. Podam a floração de instintos e poesia. Plataformas interditadas.  Portas fechadas.  Agentes  de  segurança  ordenam,  mentem,  latem. Agora, uma multidão de zumbis vocifera de outras submersas plataformas:
        − Porrada!  Porrada!  Porrada!
        Os zumbis perdem a hora e o emprego,  só  não  perdem o sangue  alheio.  Precisam de uma certa dose de distração.  Enlaçam-se aos pés de seus amos. Fazem  salamaleques às autoridades e elegem, periodicamente, os seus coveiros. Os zumbis são tirânicos.
        −  Ladrão!  Veado!  Seu merda!
        A multidão adoça os meus ouvidos. Agora, entre os braços da lei, sinto-me  seguro  e protegido. Recebo uma cacetada quase na nuca,  mas estou inteiro.  Um guarda  me acerta um chute na altura dos rins.  Estou imensamente feliz!  Mais uma cotovelada, um tapa, um soco, um pontapé,  outro tapa... Sangro abundantemente pelo nariz... Outra cacetada nas costas...A lei me protege... Sou um cidadão, estou transbordando sangue e felicidade...  A multidão me abriga...  Retoma o seu lugar...  Todos recolocam-me nos trilhos...  Mais...

sábado, 4 de junho de 2011

ANARQUIPÉLAGO




















   

  José Antônio Cavalcanti


Submersas e móveis
ilhas
isoladas
sob um sol submarino
ensinam naufrágios a bússolas
no solstício de dezembro.

Não há caravelas
nem argonautas,
apenas náufragos
em águas estrangeiras.

Dois hemisférios
e nenhum verdadeiro.

Cinco ilhas desconhecidas:
entre elas, no fundo indizível,
vive,
no mar de fuligem, Le bateau Ivre.

Guarda (contrabando na carga)
palavras como âncoras corroídas,
ossos e um mundo fora de prumo.

O velame de velcro avisa
a vagabundos vivazes e visionários
que só se navega de verdade
verticalmente.

Ilhas em fuga
apagam a teoria dos conjuntos
a falácia de mapas,
o sentido da história,
os gozos memoráveis.

Tantos portos,
tantas palavras
e nenhum destino.

E se todo caminho for (clan)destino?

sábado, 28 de maio de 2011

O EXTERMINADOR DE ILHAS

René Magritte
   

José Antônio Cavalcanti





Ele vem antes do dilúvio,

cigarro e uísque em equilíbrio.

Diz “imperiosa reconfiguração”,

e mais “uma nova perspectiva”,

para acrescentar, exausto,

“um projeto para o século XXI”.



Carrega cidades nas costas,

mede distâncias e cargas,

olha à direita e à esquerda.

O olhar insone insiste:

“Precisamos fazer uma limpeza,

isso aqui está uma bagunça”.



Bela a camisa estampada ao vento

que insufla latitudes e meridianos

aos cabelos tingidos de espanto.

Belos seus pensamentos a barlavento:

supressão de pousos,

poda de portos e primaveras,

previsibilidade dos percursos.

Bela a luminosidade das palavras,

apesar de algumas lâmpadas queimadas:

priorizar, reciclar, operacionalizar, otimizar...



Gosto do seu olhar oceânico

a descerrar manhã e horizonte;

pura potência, puro encantamento,

a conversão de almas em moedas.



Na madrugada da última ilha antes de Ítaca,

esguio como um gato no tombadilho,

arremesso a humana maravilha ao mar.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

SUICÍDIOS EXEMPLARES



SUICÍDIOS EXEMPLARES, de Enrique Vila-Matas

É muito extensa a lista de autores que recorreram ao suicídio. Na literatura portuguesa, o gesto radical silenciou Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Florbela Espanca, Mário de Sá-Carneiro, entre outros. No Brasil, me recordo de Ana Cristina César e Torquato Neto. Em outras latitudes, foi o ponto final de Jack London, Virgínia Woolf,  Hemingway,  Stefan Zweig, Sylvia Plath,  Cesare Pavese, Hart Crane, Virginia Woolf,  Romain Gary, Ernest Hemingway, Jack London, Sylvia Plath,  Paul Celan, Serguei  Essenin, Vladimir Maiakóvski, Primo Levi, Paul Nizan, enfim, uma galeria impressionante de nomes ilustres. 

A morte, qualquer que seja a forma de sua presença, parece inscrita no próprio código da criação, talvez sirva mesmo para legitimar a arte como o movimento de fuga ao inexorável limite humano, uma desesperada escrita que tenta uma permanência negada pela dissolução promovida pelo tempo e suas duas sombras inseparáveis: a mudança e o esquecimento.

O suicídio é seguramente uma forma de grande complexidade. Uma afronta à onipotência da morte, um desafio à autonomia que ela revela ao exercer um domínio impiedoso  sobre nós. O gesto extremo redunda de uma escolha ou, paradoxalmente, da própria impossibilidade de caminhos. Podemos entender a referência artaudiana à morte de Van Gogh, “suicidado pela sociedade”.  Em qualquer caso, matar-se é manifestar o desejo de descontinuidade, um salto equivalente à geração da vida, ou seja, a anticriação, a radicalidade da criação como forma suprema da negatividade. Caminho de fuga que podemos trilhar de modo autônomo, como quem busca um beijo e um abraço, ou impelidos por forças superiores à nossa capacidade de resistência. De qualquer maneira, abreviamos a jornada rumo a um encontro obrigatório.

A morte só existe como linguagem. Acho que Heidegger disse isso ao escrever que “só os mortais podem ter a experiência da morte como morte”. Não me preocupo em buscar significado para algo que me assombra. Nem quero aqui aprofundar um pensamento que fere e sangra de tão incômodo. Permaneço no impasse apontado por Heidegger: “A relação essencial entre morte e linguagem surge como um relâmpago, mas permanece impensada”.

Para Vila-Matas os suicídios exemplares são aqueles impossíveis, indefinidamente adiados, como observou com precisão o escritor argentino Alan Pauls na apresentação do livro, para quem o autor de O mal de Montano é “um hábil fabulador de ‘pulsões negativas’ (deixar de escrever, desaparecer, não ser ninguém)” e a reflexão sobre a morte ao longo do texto não implica desistência, derrota, antes “é um princípio de potência: algo na vida range, se abre e começa a ser possível – algo desconhecido, que até então não tinha rosto nem forma, e que agora, de repente, parece exercer uma sedução irresistível – quando alguma das criaturas que povoam estas páginas se deixam possuir pela ideia de se matar”.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Estou na revista CULT que está nas bancas (nº 157).







quinta-feira, 28 de abril de 2011

O INCRIADO

Eu não sou este corpo, 2003, Deise Marin




















     





  José Antônio Cavalcanti 



 

Antes houvesse fundado
uma tribo de bárbaros.
Assim saberia o sabor
de incontáveis calamidades,
ouviria ossos assobiando agonias
entre tendas destruídas
e cupins de inútil mobília.

Insensato,
habitou entre demônios e ratos.
Vasculhou fendas invisíveis
no vasto e vulnerável horizonte.
Não navegou margens mallarmaicas
nem em homéricos mares naufragou
suas palavras malsãs e lunares.
Uma vulgaridade absurda gotejava
de sílabas em pânico,
contaminava
- no chão poças de Vallejo, Khlébnikov,
Drummond, Montale
e um imóvel Brodsky -
a água impura dos poemas.

De tanto inventar-se, um outro
tomou-o por inteiro.
Nada sobrou
em pele ou cofre noturnos,
a não ser metáforas anacrônicas
em um caos digitalizado.


sábado, 23 de abril de 2011

DERInerVAÇÃO

                                  

                                 

                                       DERInerVAÇÃO
                           (quando falham os cognatos


                                             José Antônio Cavalcanti


                                  de baixo, baixaria
                                  de boato, boataria
                                  de cura, curadoria
                                  de confrade, confraria
                                  de glutão, glutonaria
                                  de grito, gritaria
                                  de infante, infantaria
                                  de lata, lataria
                                  de letra, letraria
                                  de michê, mixaria
                                  de monte, montaria
                                  de ouro, ourivesaria
                                  de par, parceria
                                  de patife, patifaria
                                  de pedra, pedraria
                                  de peito, peitaria
                                  de pirata, pirataria
                                  de ponto, pontaria
                                  de porco, porcaria
                                  de porrada, porradaria
                                  de porta, portaria
                                  de prata, prataria
                                  de puta, putaria
                                  de Roma, romaria
                                  de saco, sacaria
                                  de velhaco, velhacaria
                                  de vaca, vacaria
                                  de Zé Mané,  Zé Maria

                                  de você, avaria

quinta-feira, 21 de abril de 2011

TIJUCARNE





Reené Magritte


        



















        José Antônio Cavalcanti



                 Para Rony Bellinho


            
Havia uma vila,


Miss Brasil,


Rainha do Rádio.



 


Na esquina,

janelas entre o cinza


onde umas sardas sorriam


todas as tardes.


 


À noite,

três padre-nossos


e salve-me rainha.


(1983)



SEM CENA

Arthur Bispo Do Rosario























AOS CACOS

NO CAOS

POR ACASO

UM CASO

          SÓ

                    : OCASO

                      ACESO