segunda-feira, 12 de setembro de 2011

AFNA

Bloqueado, Hélio Oiticica

     José Antônio Cavalcanti


No primeiro dia em que estive na cidade de Afna, tudo foi monótono e enfadonho porque: a) não sabia o afnês; b) a cidade parecia estar complemente abandonada.

No segundo dia em que estive na cidade de Afna, tudo foi monótono e enfadonho porque: a) ainda não sabia falar o afnês; b) a cidade continuava um inquietante ponto de interrogação.

No terceiro dia em que estive na cidade de Afna, tudo foi monótono e enfadonho. a) ainda não sabia falar afnês (embora tivesse aprendido que muito obrigado, na língua local, era tri paktu); b) a cidade permanecia um inquietante ponto de interrogação; c) além de tudo, eu era o único hóspede do único hotel, propriedade do único habitante.

No quarto dia em que estive na cidade de Afna, aconteceram tantas coisas que fui compensado, com sobras, da monotonia dos três primeiros dias. Para começar, o dono do hotel, a quem até então julgara o único habitante, revelou-me ser a cidade povoada por cerca de dois milhões de pessoas, todas, no entanto, mostravam-se receosas com os visitantes, pois há milênios Afna não recebia viajantes. Contudo, como ele narrou-me em afnês e como não entendo patavina desse idioma, não pude entender nada, razão pela qual fui altamente confuso e contraditório ao dizer que o quarto dia não foi monótono e enfadonho. Seguramente foi o mais monótono e enfadonho, uma vez que passei as vinte e quatro horas do dia escutando o dono do hotel narrar-me a história da cidade, ou a perguntar-me donde vinha, ou a contar-me piadas, ou a falar mal do governo, ou a oferecer-me garotas de programa e cocaína...

No quinto dia em que estive na cidade de Afna, o sol foi a única novidade, porém não bastou para tirar a chatice de ruas e praças vazias.

No sexto dia, escutei um som muito harmonioso, uma música que ora parecia vir de fora, ora parecia sair do meu próprio cérebro. Um fato que despertou a minha curiosidade foi ter encontrado todas as tabuletas trocadas, alterados os nomes das ruas e das casas comerciais. Alguns edifícios também foram colocados fora de lugar da noite para o dia.

No sétimo dia, amanheci mais disposto: o sete, além de ser um número místico, também é o meu número de sorte. Estava tão esplêndida a manhã que rejeitei o café, aliás, um líquido vermelho de gosto horrível, servido com cogumelos. O sétimo dia foi só para constar: veio e foi embora a galope.

No oitavo dia em que estive em Afna, decidi que ele não poderia ser tão enjoado quanto os outros sete. Mesmo que não aparecesse ninguém, eu iria botar pra quebrar. Causaria um alvoroço tão grande, perturbaria tanto, que, fatalmente, alguém seria obrigado a tomar uma atitude mais drástica comigo. Naquele momento ficaria grato se alguns deles me agredissem. Ao sair do hotel, quebrei vidraças e continuei destruindo tudo à minha frente até sentir um gás forte e insuportável e, creio, desmaiei.

Acordei apenas no nono dia, completamente esgotado, nauseado. Escutei o barulho dos carros na rua, os gritos de crianças indo ou vindo das escolas, as pragas e os risos de gente trabalhando, apitos de guardas de trânsito e ruídos de toda espécie de máquina. Todavia, estava derreado, sem forças sequer para levantar-me até a janela, embora alegre por prever, no dia seguinte, o primeiro encontro com os meus semelhantes.

Veio o décimo dia e acordei bem aliviado, fiz a barba e desci para o saguão do hotel, olhando para todos os lados, na tentativa de vislumbrar uma pessoa qualquer. Triste recepção, apenas o dono do hotel falava ao telefone sem parar. As ruas estavam tão desertas quanto nos dias anteriores. As lojas, fechadas. Ninguém. Ninguém. Ninguém. O dono do hotel disse-me que tinham saído em férias e foram para o campo e para os balneários, mas ele não poderia ter falado isso. Eu não poderia entendê-lo. Isso não passa de história de viajante.

No décimo-primeiro dia, fiz as minhas malas e tomei a direção do aeroporto, depois de dar mil e uma voltas pela cidade, graças à balbúrdia de placas e sinais de trânsito. Embarquei no avião e jurei a mim mesmo nunca mais pôr os meus pés na cidade de Afna. Antes de o avião levantar voo, pude ver o movimento do aeroporto, o entrar e sair de pessoas, os mecânicos, os carregadores, os passageiros das outras aeronaves, os automóveis nas ruas e avenidas adjacentes.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

POEMA DA PARTIDA



      José Antônio Cavalcanti

Cais não sou.
Em mim amarras
não formam amálgama
de amor e algas.
A lua de gala
de qualquer nave
são ânsias de ave
em corpo de âncoras.

Cais não sou,
antes calado.
Em mim palavras
passeiam descabeladas;
o vento no ouvido
e nas camisolas
sopra no porto
e em  portas descascadas.
O eco encardido
assobia  partidas.

Cais não sou,
antes o sulco
do lado oposto do casco,
o risco de ser exposto
ao abismo das conchas.
A pressa das velas
desaba o horizonte.
Despovoado,  o porto
deserda chegadas.
O amor a léguas
naufraga em águas invisíveis
em mar de mágoas.


Cais não sou.
sequer cantor.
Giro o leme em direção incerta,
pinto o vento de azul
e afundo o meu desencanto
na maré de escombros.

Sou o zelador de abismos.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

DEFEITO DE FABRICAÇÃO

Adriana Varejão






















O amor
possui duas pontas.

Uma
nunca
se encaixa 
na outra.



segunda-feira, 5 de setembro de 2011

SAGRAÇÃO


  
    José Antônio Cavalcanti

Reizinho estava ali, parado. Olhos grandes, arregalados. Boca aberta numa interrogação sem palavras. Talvez indagando das vitrinas, dos automóveis, das lanchonetes, de onde saíam tantas pessoas apressadas e distraídas. Suas mãozinhas guardadas do frio dentro da camisa, no calor do coração, comprimiam brinquedos imaginários. E toda a ingenuidade desbordava da sua pele arrepiada com o frio da tarde chuvosa.

Reizinho estava ali, entre a grande fogueira dos homens: bolas de fogo na trilha da cidade sem fim. Não sabia do visgo no interior dos prédios, nem da monótona mecanização da vida nos escritórios -- antros impermeáveis à sua presença. Sabia apenas do seu corpo perdido sobre bancos e sob marquises; da falta de agasalho e da fome doendo no estômago; das porradas da polícia; das brigas de rua com moleques de bandos rivais. Sim, os outros; aqueles que nunca foram diferentes porque estavam com ele na hora da pancadaria, no dia-a-dia de sobressaltos e carências.

Reizinho estava ali, parado, flor do abandono a assustar os engravatados, mas os bacanas, entre suas pastas de couro e uma mão estendida, optavam por jornais incompreensíveis e sanduíches desconhecidos.

O nome ninguém sabia como surgira. Seria o reizinho dos pivetes, aquele que mais roubava porque mais fome sentia? O maior estorvo à consciência cristã dos comerciantes da praça e adjacências? Que filava cigarros e suplicava pão com manteiga, pastéis e salgados? O precoce apreciador de cachaça (para diversão de adultos insanos)? Que engraxava sapatos, cuspindo sangue para deixar os doutores felizes em seus caprichos de mando? Que era até capaz de conversa solta quando um executivo, num gesto magnífico de suprema condescendência, começava a puxar assunto e a fornecer-lhe uns trocados, dando esmolinha para certificar-se da própria nobreza do caráter superior, numa tentativa inócua de provar a si mesmo não ser indiferente ao desamparo alheio?

Reizinho é rei, é menino. Às vezes sonha -- possibilidade considerada inconcebível por quem o observa todo suado agitando sacos de biscoito vagabundo no meio do engarrafamento ou quando pode ser percebido furtando laranjas e tomates na feira. Reizinho é um autêntico rei, não há dúvidas. Aquele cujas pernas alcançam limites de flecha. Aquele cujo dorso negro equilibra-se no chute em curva com bola de couro, de meia, de papel ou de plástico. Aquele que é inatingível, protegido pelos deuses, amado por Ogum, e ninguém pode vê-lo quando não deseja ser visto. Aquele que é punguista e imantiza carteiras, doces e relógios. Aquele que é a força da terra, a raiva latente no zinco dos barracos, a dor que, de tão antiga, já se esqueceu de gritar e convive ao lado do riso no mesmo semblante.

Reizinho é tudo. Um mundo de pirraça, insistindo, teimando, resistindo. Um mundo regido por estoques, giletes e navalhas, no corte rápido, na bolsa entre os dedos, no grito da vítima sem complacência, na perseguição implacável dos milicianos do caos. Reizinho não cai, não tropeça. Antes, desliza e valsa feito antílope percorrendo a savana de outro continente - a grande terra dos avós.

Reizinho, às vezes, se pega com modos de criança. Verdade que franze o cenho. Não pode desperdiçar tempo com bobagens. O mundo é muito exigente. Mas... acontece. Num gesto involuntário, começa a empurrar uma pedra pelo chão da praça. Mímico insuperável, imita o ruído de automóveis ou de aviões, provendo asas em pedra. Depois, engatilha caixas de fósforo à maneira de um trem destinado ao imponderável. Quando junta-se aos barulhentos parceiros, forja um balé de saltos e fugas, uma esgrima na qual vilões invisíveis são vencidos por velhos cabos de vassoura transformados em espadas invencíveis.

Que mágicas habitarão os seus sonhos deitados sobre folhas de jornais pródigas em tragédias? Tem-se a nítida impressão de que neles se interroga sem cessar e busca a cor dos distantes e perdidos desenhos da inocência; neles transita uma mulher envolta em roupas transparentes e com um turbante de fogo, a expelir pássaros negros de mãos feitas de terra. Um homem imenso, de garras de cristal, alveja os pássaros com flechas de luz. De seus lábios grossos e metálicos fogem canções negras e espessas como a noite e, aos seus pés, apodrecem milhares de algemas.

Fora das fortalezas do sonho, Reizinho tenta desenhar mentalmente o rosto de um pai e de uma mãe com os fiapos da memória. Pensa em como poderia ter sido a vida com eles ao seu lado, como seria bom se estivessem sempre por perto. Será que ainda irá encontrá-los? E imagina um redentor reencontro feito de grandes abraços, risos em profusão e um batuque eterno. Ah!, no entanto o pai é um deus africano totalmente sem juízo. Não o deixou jogado ao léu de propósito: deve ter tomado um porre homérico e, depois de espancar a mulher e as crianças, abandonou o lar, esquecendo-o em sua fúria. A mãe ( quem sabe se ainda estará viva?) embarcou num show de mulatas. Hoje, talvez gire perdida em algum terreiro de umbanda. Um vazio entre ele e os pais (não aquecerá o seu corpo minúsculo, no frio das madrugadas, o sangue paterno escorrendo ao lado do materno nas manchetes dos jornais?). Infelizmente a família é uma ciranda sem cirandeiros, nada sabe a respeito: faz ideia pelos outros e não pode deixar de sentir-se magoado ao contemplar pais e filhos em passos de riso e comunhão.

Reizinho sonha com coisas menores, mais palpáveis, como um relógio importado, de valor inestimável, que já adornara o seu pulso esquálido. Tão bacana que bastava comprimir suavemente o dedo sobre o mostrador e diversos números indicavam a hora em várias cidades do mundo. Lembra-se de tê-lo tomado de um garoto da sua idade na porta de um desses colégios de rico. Infelizmente um malandro resolveu ficar com ele em troca de uma dívida antiga. É, o mundo é muito exigente.

Apesar de todos os males, Reizinho ainda conserva a capacidade de rir. E o seu sorriso não possui nenhuma explicação. Não poderia sorrir como o faz, tão amiúde. O mais fascinante é que não é um riso educado, comedido, daqueles que têm freio no coração; não é um riso alto, autêntica gargalhada, de quem se joga por inteiro nos gestos; não é um riso marcado pelos vincos do infortúnio daqueles a quem o destino humilha e brutaliza. Não, quando Reizinho sorri, o riso em sua pequena boca selvagem dilata os limites do possível e a esperança desponta límpida e cristalina, fora de qualquer justificativa.

A vida ministrou-lhe lições inesquecíveis. Aprendeu a ler em gibis e em revistas de sacanagem, entretanto a virtude mais importante aos seus olhos era a sua extraordinária facilidade em enganar as pessoas, ludibriá-las, empregando os seus insuspeitos dotes de charlatão e comediante, desvelando, com isso, o seu profundo conhecimento do ser humano, de suas fraquezas, de sua alienação absoluta.

Quando a cana dava em cima, tinha o tom exato da lamúria, o ar amedrontado de criança abandonada, a desculpa de que seus pais expulsaram-no de casa depois de terem lhe aplicado uma surra desumana, e aquela velha história de que estava indo para a casa de uma tia moradora do morro de São Carlos, ou, então, algum desafeto havia roubado sua caixa de engraxate, sua lata de amendoim, suas balas de tamarindo. É bem verdade que levava alguns cascudos, contudo sempre lograva safar-se.

Se não gostava da polícia, muito menos morria de amores por aquelas madamas numa lambeção irritante: meu filhinho pra cá, meu filhinho pra lá. Reizinho não suportava tanta hipocrisia, tanto chamego exagerado, tanta gente chata querendo pregar remendos na consciência, adquirindo, pelo crediário das boas ações, uma vaguinha no Paraíso. Penalizadas, assistencialistas, prendadas e caridosas, olhavam-no como tese de mestrado, pesquisa sociológica, tarefa pedagógica ou obrigação cristã. Certas vezes o nojo era tão acentuado que ficava engendrando pequenos atos cirúrgicos: cortar a jugular da mais fanhosa; enfiar um estoque bem comprido e afiado no rabo da mais pegajosa; passar uma gilete na face da mais autoritária. Pior do que aquela cantilena toda era quando, insensíveis aos seus gritos e súplicas, as desgraçadas levavam-no para aquele prédio dito escola, mas espécie de manicômio/delegacia/presídio/cemitério. E toma-lhe cascudo, palmatório, aviãozinho, corredor polonês, ajoelhar no milho, porrada, aulas ricas em reguadas e escrever mil vezes “não devo dizer palavrão na sala de aula”.
















Reizinho já acha a vida uma grande porcaria. Não sabe o que significa morrer, não obstante haja visto muitos mortos, alguns até amigos. Já está indo longe demais, além do seu raciocínio. Torna-se cada vez mais difícil esperança, anseio de melhoria qualquer. Quase ponto final. O mundo é muito exigente. Já não é negocinho de estoque, gilete e navalha. Não. Seus dedos apalpam um quarenta e cinco num gesto amoroso. O mundo é muito exigente. Está na hora de provar para a rapaziada que já é um homem, que é rei de verdade, que é esperto e mete bronca, não é nenhum calça-frouxa. E a fome comanda os seus nervos, os seus dedos. Só que chega de empunhar, de acariciar, de imitar bandidos e mocinhos. Isso já não é suficiente. O mundo é muito exigente. Agora tem de apertar em cima de alguém se for preciso e se não for preciso. Agora esse é o seu brinquedo, o único que lhe foi dado e, deus do céu!, como ele gosta dessa brincadeira, como aperta o gatilho, como se entretece com a dolorosa música dos estampidos!

NUEVA GEOGRAPHÍA LATINOAMERICANA




            José Antônio Cavalcanti



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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

NA NOITE IMPOSSÍVEL

Vladimir Kush

                                                                                     
     José Antônio Cavalcanti

Jamais poderia imaginar que o que aconteceu há uma semana fosse possível. Porém, apesar de eu mesmo não encontrar explicações, tudo aconteceu como vou contar. 

Era noite. Uma chuva miúda caía lá fora. Eu estava em frente ao monitor, meio perdido e cansado. A garrafa térmica e a xícara de café sobre a estante envidraçada anunciavam mais uma longa jornada. As ideias escapavam à possibilidade de texto. Pensava em escrever sobre a tese; caminhos e descaminhos da pesquisa; origens e fins; precisar intenções, justificar escolhas. Quarenta minutos imobilizado e nada. Não sabia como começar. Rejeitava todas as possibilidades, num grau de exigência absurdo. Fui retirado do impasse por um leve ruído na maçaneta da porta do quarto. Nada além do vento ou de algum movimento natural, pensei. Sequer fui verificar, preso à teia acidiosa da minha deriva.

Poucos minutos depois, ouvi um ruído mais forte, como se alguém quisesse e não conseguisse entrar. Levantei-me e abri a porta e, meu Deus, eis que a própria Hilda, aos 28 anos, surgia à minha frente  vestida em um modelito década de 50: blusa de crepe caramelo de manga três quartos com os ombros sensualmente torneados, saia godê grená, bem justa na cintura, com caimento quase à altura dos tornozelos, sapatos de salto agulha em tom caramelado. Parecia uma personagem saída de algum filme de Hitchcock, com notável diferença: era estonteante. A mão direita exibia, no alto, um copo de uísque, enquanto a esquerda ainda se apoiava na maçaneta. Ria baixinho, de modo irônico e levemente embriagado. Seu riso era pura provocação, desafio. Confesso, claudiquei. Acovardado, fechei a porta. Em vão. Ao virar-me em direção à escrivaninha, deparei-me com uma menina de oito anos, sentada na poltrona azul próxima à janela. 

– Você se lembra de mim? – sussurrou em suave inocência. – Sou Lory Lamb. Quer que eu tire a roupa? – Atirou palavras e tentação com uma overdose de sensualismo e perversão infantil sobre o meu espanto. Sentei-me bem devagar (ou caí) na cadeira rasgada da escrivaninha e fechei os olhos. Ao reabri-los, havia desaparecido. 

Após alguns minutos, voltei a pensar na prosa ficcional de Hilda Hilst. O que provoca a violenta comoção de sua leitura? Que propriedades encantatórias guarda o texto hilstiano? Por que é tão impactante? Precisava encontrar respostas. Eu ainda devia estar tonto: quem ainda acredita em respostas nessa altura do campeonato? De que ilusões me alimentara: procurar entender, buscar sentidos, acreditar em significados, ideologias, bandeiras. 

Havia lido toda a prosa ficcional de Hilda, acreditava que só um recorte abrangente pudesse dar conta daquilo que nela existe de mais essencial. Depois de, progressivamente, abrir mão de vários livros, consegui concentrar-me em três: Estar sendo. Ter sido. Tu não te moves de ti e A obscena senhora D. Trabalhei numa linha de pesquisa voltada para a indistinção entre prosa e poesia em seus textos ficcionais. Para isso tomei como ponto de partida a expressão “poesia em expansão”, empregada por um de seus interlocutores em entrevista concedida por Hilda Hilst aos Cadernos de Literatura Brasileira do IMS. Assim, aos poucos ia encontrando um caminho que justificasse o título da tese: “Deslimites da prosa ficcional em Hilda Hilst”. Pesquisei o processo de contaminação da prosa pela poesia, apoiado no conceito platônico de poiesis, ou seja, como “pro-dução, criação, passagem do não vigente para o vigente”, assimilado via Heidegger. Pude perceber como o caráter tardio da prosa ficcional , passado o momento primeiro, de reprodução especular da realidade, recuperava a potência da poética matricial mediante a crise da representação. Apostei, então, na escrita como cruzamento do plural e do proteico, ciente do movediço e precário terreno de seus termos. A indistinção, a zona de penumbra, o campo minado das fronteiras textuais propiciaram um caminho cujas incertezas me pareceram mais exatas do que a lógica narrativa fornecida por tipologias textuais, divisões genéricas, hierarquização discursiva, o método da transformação do texto literário em objeto de apreensão e catalogação destinado a validação de uma espécie de selo de qualidade, fetiche da crítica instituída como instância axiológica. 

Precisava não estabelecer um muro entre Hilda Hilst e o meu texto. Se necessitava de um mínimo campo conceitual para organizar minhas ideias, não poderia escravizar-me a ele, muito menos reduzir a prosa hilstiana a um experimento de laboratório. Em Giorgio Agamben encontrei a sustentação teórica da ideia-base, porém sempre no limite da necessidade real da pesquisa, evitando o engessamento do texto hilstiano e fugindo ao vício de usá-lo como mera exemplificação de qualquer formulação crítico-teórica, numa instrumentalização do texto literário como mera ilustração de correntes de ideias momentaneamente alçadas ao ponto culminante do vigor do pensamento.

- Pena, meu caro, que você nada entendeu. – ouvi uma voz grave soprar no meu ouvido esquerdo. Não acreditei. Era o próprio Agamben ao meu lado, esguio e elegante num blazer azul marinho, mais interessado num livro de filosofia escolástica do que na minha reação.

Senti dificuldade em responder. Achei-me inseguro, impotente. Como discutir com quem me orientara? No entanto, irritado rebati rudemente: - Por que o senhor saiu da Itália para vir aqui perturbar o meu trabalho? Se não pode enriquecer a minha tese, por favor, volte para casa.

- Você é um tonto – retrucou Agamben e num tom mais agressivo disparou - Não leu os meus livros, não saqueou o meu pensamento, não cortou, colou, recortou, usou e abusou dos meus textos. Não se portou como um parasita durante esses anos. Quer ajuda? Trate de pensar, então. Além do mais, quem é essa tal de Hilda Hilst de quem nunca ouvi falar?

Sorri maldoso e envenenado, um sorriso Matamoros, pleno de vingança, uma luz sombria sobre as minhas palavras pantanosas: - Ah, é mesmo! Que pena! Em vossa altíssima e reluzente biblioteca, onde convivem Homero, Dante, os provençais, Nietzsche, Heidegger, Hölderlin, Hegel, Foucault, ao lado de autores esquecidos e ignorados, há mais que um hiato, uma verdadeira ferida. Precisa escolher melhor suas leituras.

Do sarcasmo da última frase, eu me arrependi incontinente, mas era tarde demais. De qualquer maneira, Agamben acusou o golpe. Vi o seu rosto avermelhar-se e percebi a sua respiração alterada. Sem querer entrar em confronto com um desconhecido, passou a bisbilhotar os meus livros. Sentou-se onde há pouco estivera Lory Lamb, retirou um exemplar de A obscena senhora D da estante e, com um aparente ar entediado, mergulhou no silêncio da leitura.

Envergonhado, também caí em cerrado mutismo, porém um falatório incessante brotava na minha mente. Pedaços de versos, fragmentos de textos diversos, frases truncadas, palavras raras e desconhecidas, pouco a pouco, cederam lugar a uma demora em Estar sendo. Ter sido, o último texto de Hilda Hilst, publicado em 1997. Enquanto enchia a xícara com um café cuja quentura arrefecera, pensava em porque havia falhado na inversão da ordem, já que me vi obrigado a confrontar o último livro com “Fluxo”, o texto inicial do primeiro livro de prosa da autora, Fluxo-Floema, de 1970. Não, não foi propriamente uma falha, mas uma exigência de Estar sido. Precisava observar as linhas da complexa trajetória da autora, comprovar como a expansão poética de sua prosa ocorria. Acho que eu guardava inconscientemente uma perspectiva evolucionista. Logo quebrei a cara. Hilda já estava completa em Fluxo-Floema. Seu texto espiralante não progride em plano geométrico, contínuo, crescente, seu movimento circular aproxima-se antes à dança de uma galáxia que se volta sobre si mesma, apagando e reescrevendo seu rastro, alimentando-se de uma energia carnal e cósmica capaz de manter acesa a intensidade com a qual ultrapassa as fronteiras entre drama, narrativa, pensamento e poesia. A pulsação libertária não se constrói sem requintada elaboração de linguagem, ainda que aberta ao chulo e ao não canônico, acompanhada de fina e irônica indagação filológica e de um vocabulário tanto seleto quanto mordaz, usado em dicção lírica ou herética, com aceno ao filosófico e ao fescenino. 

Buscava o ponto nebuloso da conversão de ideias em escrita quando escutei um riso debochado. Olhei para a direita. Não, não era Agamben, que agora, todo curvado, lia o texto de Hilda com olhos arregalados. Atrás de mim, Hilda, de chapéu de palha e bata indiana, aos 50 anos, ainda muito bonita, ria desbragadamente.

- Sabia que posso ler pensamentos? 

- Mas o que há de hilariante nas minhas reflexões? Tento como um louco capturar as palavras no mundo pesado das ideias, lá onde elas se escondem e esquivam, fugindo para o caos onde flutuam.

- Ora, por que acho graça? Quer saber mesmo? Tudo que você tenta é imobilizar o fluxo que me funda, não vê? Você quer definições, garimpar propriedades, fixar temas e motivos. Doido para descobrir uma ideia preciosa, o filão do ouro acadêmico a ser explorado pelo resto da vida.

- Isso é tão ruim assim?

- Não sei, meu caro, não o julgo. Apenas comete mais um equívoco. Para me ler com mais propriedade há que se danar, doer, doar, sangrar as pálpebras, o pau, o ânus; gritar e insultar Jesus, Maria e José; ser homem, mulher, porca  e cadela; para me encontrar precisa se perder em minhas páginas, precisa se libertar para fracassar como o amado Bataille pregava, ou como disse Beckett: “Tente de novo. Fracasse de novo. Fracasse melhor.”

Quando quis me defender, já era tarde. Hilda se esvanecera, apenas um doce perfume almiscarado ficara no ar. Inquieto e temeroso, tentei voltar a Estar sendo, mas o livro já se fora. Tadeu, Matamoros e Axerold surgiram no horizonte, movendo-se em Tu não te moves de ti. A atmosfera da noite chuvosa ficava cada vez mais onírica e paradoxal. Marcado pelo trânsito de personagens entre três histórias diversas, por uma ilimitada busca pelo inalcançável e por uma intensa metaficcionalidade, o livro parece negar os limites da territorialidade ficcional ao permitir o cruzamento incessante das linhas demarcatórias dos textos. As dicções e os ritmos diversos da tríplice narrativa, no entanto, reúnem-se na mesma negatividade: a arte como potência do nada.

Resolvi ir à cozinha comer alguma coisa que diminuísse o gosto do café meio amargo. Na volta, mais um sobressalto, agora terrível: sobre o sofá alaranjado da sala jazia Matamoros, um punhal espanhol enterrado na vagina. O sangue ainda escorria. Sob os cabelos em desalinho, dois olhos gregos me espreitavam apesar de mortos. 

Saí apressado para voltar inutilmente com um lençol na mão. O sofá permanecia intacto. Matamoros viera do nada, a criação fora um breve sopro cuja dissolução, contudo,  ficará gravada para sempre.

Voltei ao meu quarto. Medo de abrir os olhos. Medo de abrir as páginas. Fantasmas e teorias se cruzavam no ar. Aparições, sombras, penumbras, lampejos e vazio entre as paredes, o que quer que seja aquilo que se entenda por parede: limite, muro, fronteira, guarnição punitiva a eventuais ousadias. Certamente eu estava contaminado, uma peste artaudiana me invadira ao querer espalhar o vírus da poesia na prosa. 

No rádio – quem o ligara? – um samba de Candeia demorava na filosofia, cantando os paradoxos da existência em ritmo dolente. Cruel e confuso, não deixei a canção chegar ao fim. Desabei sobre a cadeira, decidido a voltar ao desrumo de um pensamento já não em fragmentos, mas em frangalhos. 

Perdi a noção do tempo, mas me vi girando em torno de A obscena senhora D, como se eu fosse um alienígena tentando decifrar a órbita de um planeta desconhecido. Nele, enfim, alguém, com propriedade de protagonista, reduz-se de nome a letra, de corpo humano a porca, de busca em naufrágio. A violência, o furor iconoclasta e a transgressão formulam a resposta hilstiana ao desamparo, tanto uma aproximação quanto um distanciamento do divino. O hiato entre deus e o homem não é fixo, funda-se na mobilidade de um pensamento capaz de transformar graça em gozo. Se o abismo é móvel, todas as fronteiras são flutuantes, tudo é em trânsito, tudo pode ser t(r)ocado, mesmo a ausência.

Começara a me empolgar quando uma voz estranha me interrompeu: 

- Por que você insiste nessa escrita século XIX, toda arrumadinha, ordenada, lógica? Fragmente-se, rapaz. 

Ninguém insistira tanto quanto eu. Percebi minha insensatez ao olhar a porca rosada ao meu lado questionando os meus métodos. Após sorrir exultante com a tirada, passou a desfilar sua megalomania pelo pequeno aposento.

Ressentido, dirige-me a ela em termos secos e provocativos: - Fique à vontade, minha cara, aqui em casa não há escadas, não há vãos, não há qualquer refúgio.

Ignorou-me solenemente. Com rapidez e sedução mútua, a porca e Agamben começaram a travar uma conversa amistosa. Discutiram, riram, citaram, divergiram, deram gargalhadas no meio da noite, porém, a partir de certo momento, passaram a se xingar com ironia e discrição, depois com fúria. Irritados com um diálogo que não ouvi,  começaram a atirar palavras um sobre o outro; uma mais pesada, quebrou o vidro da janela, outra danificou a tela do computador, uma frase de Heidegger arrancou-me o óculos. Era um velho embate, questão anterior a Platão: poesia e filosofia se atracavam e se expunham no corpo todo prosa da ficção. Sim, causava perplexidade e estranheza, porém era o jeito de se unirem, misturarem sintaxe e vocabulário, permanência e precariedade; isso nunca aconteceria no campo das amenidades. O diálogo inscrevia a literatura como a última utopia, a busca da palavra inaugural, capaz de alcançar, na literatura que vem, a superação da fratura da palavra originária.

Percebi, então, que eu era uma presença excessiva no texto, deveria me retirar, sair de fininho. 

Saí do quarto, deixei a porta aberta. Abri a página da sala, a porta do livro, senti o vento gelado das folhas da rua. As luzes do trânsito de palavras piscavam no final da noite.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

HELENA DESTRÓIER

















  



   



José Antônio Cavalcanti


A Vênus do telemarketing
sai apressada da sala no sexto
andar
de leveza e vulgaridade
acesa.

Sem medo,
largo a longa fila de emprego,
perco de vista a entrevista
e me atrevo um Páris.

O coração sai em disparada.
A perco de vista
entre a sala 610 e a escada.
O ascensor me escapa
(bem que li no horóscopo
que esse dia não daria em nada).

Desafio os deuses e a idade,
recordista de velocidade
mas chego tarde à Ítaca.

Vejo a Vênus de crachá
girar a roleta do adeus.

A Vênus de tênis e fones
some no meio da multidão,
essa maldita invenção de Baudelaire.

Eu, Heitor hilário e exausto,
acabo arrastado por um carro
no centro do estacionamento
Aquiles Park.

Um transeunte afirmou convicto:
o morto parecia drogado.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

FUGA

Maurits Cornelis Escher
     

      José Antônio Cavalcanti


O hábito não faz o monge
nem sei se habito um tempo
perto de abismo
ou longe
do exorcismo de palavras
em atrito
no palco portátil do mundo.

A poesia,  o que nos escapa
-  a rima imperfeita do infinito.


domingo, 31 de julho de 2011

DESACONTECIMENTO

Vladimir Kush


    















  




 

       José Antônio Cavalcanti


Até então
se podia
seguir
na contramão
do mesmo
ou a esmo.

Havia
vidas fora do
ar,
em vias de rumo
qualquer;
câncer de avidez
em vidros-galerias.
Talvez naufrágio,
talvez poesia.

Pouco a pouco
os gestos gotejam abstratos
como zeros gastos
ou carros abandonados
em fuga.

Sem caminho
na cidade,
sem espessura,
volume,
densidade,
o mundo se desloca,
o eixo da Terra muda.

Tudo se turva,
tudo se nubla,
tudo se apaga,
agora,
com a faca da sua ausência  
cravada na garganta.


terça-feira, 19 de julho de 2011

GALÉS





"Galés" investe o mar de uma arquitetura conceitual, numa rota poética mais ousada, na qual ressoam as vozes dos condenados da terra em busca de liberdade e transcendência. A forma estrófica de remos e o ritmo das remadas dão-lhe uma sonoridade de litania como se a possibilidade de naufrágio iluminasse os olhos dos escravos (todos aqueles que são obrigados a nutrir o capital). Não consigo me  lembrar da data em que o criei, só sei que é da década de 80.




                         

                              GALÉS 



                         remos     remos
                       raros         leves
                    braços             penas
                riscando                 traçando
                marcas                     rotas
           nas águas                         com asas

                         remos     remos
                      verdes         duros
                     ramos             cortes
               flutuando                 desafiando
                portos                     mortos
           nas vagas                         com facas

                         remos     remos
                       puros         novos
                    letras             rumos
              inventando                 navegando
                 mares                     mundos
           no futuro                         com procuras

                         remos     remos
                     tristes         largos
                    ritmos             risos
                talhando                 amanhecendo    
                 rugas                     cantos
      nas travessias                         com profecias




quinta-feira, 14 de julho de 2011

FORA DE FORMA


                
         José Antônio Cavalcanti



        Plataforma apinhada. Massa compacta  inflando  a manhã  morna  e desanimada.  Um coro enfurecido de putas que o pariu e filhos da puta faísca no ar. Contraponto a um fanhoso e rotineiro −  “a composição destinada a D.Pedro II encontra-se avariada  na  estação de Pavuna. Próximo trem saindo de Belford Roxo”.  Enevoado, olho escândalos em um jornal.
        Nem sei como entrei. Felicidade. O jornal rasgado e um  botão da camisa perdido.  Arrastado  pela  multidão  em selva escura habito.  O corpo  dissolvido em humano inferno,  o suor naufraga todas as identidades. Minhas pernas, misturadas às outras, inviabilizam caminhos. Não sei qual a mão que remete ao meu ser.  Divindade panteísta,  sou  milhares de  olhos e bocas,  salivando preces e imprecações. 
          A porta, a turma da porta. Preciso caminhar. Melhor a porta aberta, o vento no rosto, a promessa de abismo − irrecusável convite.  Cotovelos em amplas barrigas ocas e convexas, expostas à fúria da minha fuga. Pés em chinelos são vítimas inermes de  pressões  brutais  e covardes. Cabeçadas à direita e à esquerda em um mundo sem centro.  E o revide  anônimo  e certeiro percutindo nas costas. Finalmente, a porta. Posso guardar escudo e  gládio,  transformar a couraça metálica em  trapos esvoaçantes.

         Entra e sai nas estações inumeráveis – Ítaca, Magno, Lesbos, Rocha Miranda, Troia, Honório Gurgel, Pasárgada, Costa Barros, Patmos... −, repetições de espaços aguardando supressão;  núcleos  de  triagem  de  resíduos humanos onde se processa a alquímica conversão de flor em cobre e carvão. Renovação de retirantes entre o esperar e o ingressar sob a resina azul do céu.  Ratos  desmemoriados  portando  lanternas sem luz em trilhas que  conduzem  a laboratórios sinistros. Cobaias destinadas a um invento cuja fórmula  transmuta-as em ouro. Milhares de ratos munidos de ração e sonolência  invadem a manhã.
        Melhor essa emoção suburbana de perito, esse folhetim de terceira classe,  esse desafio aos deuses  da velocidade, do que a ida ao forno em confortável  abrigo, a ida ao logro  sem sombra de  perigo.  Melhor o caminho sinuoso  e  longo,  nele  vejo pés  sobre as janelas do trem. Loucos ambulantes da morte passeiam felicidade sobre os vagões.  Entre fios e  transgressão  exercitam-se  os  bailarinos do caos. O fascínio da queda  sem  anjos e paraíso.  Ao som de inaudível rap,  falseiam  passos,  apresentam  números de mágica e digitam  delírios,  infernizando a  vida  autômata do lado de lá do Grande Vidro,  onde  almas  pedestres hostilizam violinos.
        Não  hesito.  Mãos  sobre  outras   mãos-trampolins.  Pés  roçando  ombros  e   cabelos alheios. Corpo quase flutuando. Ginástica improvisada entre tapas e xingamentos. E o mundo é muito mais do que um se deixar conduzir,  um ser levado  por.  É uma  verdadeira  viagem. Agora sim, na galeria dos homens. Rito iniciático da arte kamikaze. Samurai de  sombras e suspense.  Entrego-me ao prazer de um lugar não destinado.  Invasão e  perversão do deslocar-se. Criação de um movimento real,  livre das coordenadas que empurram trajetos e percursos aos seres e,  externamente, determinam a cadência dos passos, o ritmo da respiração  e  todo  o  ritual  do  mover-se  em direção a.  Fora de lugar. A viagem enfim aventura, conquista de um mapa interior que me liberta da topografia imposta e  permite atalhos,  saltos,  precipícios. A distância é um conceito alojado no meu olhar.
        O mundo passa feroz. As casas voam. As pessoas explodem formas e cores  em  ritmo estonteante. Só nas estações  −   flechas apunhalando voos   −  entusiastas da  ordem,   inimigos da  imaginação  e  do  balé  dos homens livres,  desfilam conselhos estéreis, súplicas teatrais, intimidações bolorentas. Eles, os comensais da  hyerarchia,  os   incensadores   da  nova  ordem.
        Um tremor no corpo marca a precariedade do equilíbrio. Um calafrio, cujo epicentro aloja-se no estômago, percorre todos os membros. Fecho  os olhos incontáveis vezes,  enquanto as  mãos  seguram com  desconhecida sofreguidão qualquer reentrância metálica. O rosto tangencia placas, sinais luminosos,  postes, fios, passarelas, viadutos, tudo milimetricamente afastado.
        Sobre  a  composição,  uma  assembleia  de  apóstolos  da  loucura  traça  um  desenho inesperado e   selvagem. Californianos negros desdentados,  caubóis do morro da Lagartixa, louros carcomidos de perebas,  branquelos  heróis de  seriados  da  televisão saltam e pulam emoções  violentas  com  jubiloso  acompanhamento  de  gritos,  assobios e exclamações de “salve-se quem puder”.  Tarzans,  Rambos,  Hulks,  Robins Hoods,  exército de zés e  joões consumidos em sonhos  colonizados,  lançando  vísceras  e  músculos sobre  trilhos. Corpos mergulham por janelas rumo ao sem retorno. Quixotescos heróis  minúsculos,  pretos-forros do ‘vai fazer isso” e  “vai fazer aquilo”  subtraem espaço às notícias do mundo. Exército suburbano de  libertação  irracional. Dançarinos da  fome,  magricelas e cariados  fantasmas num salto mortal entre vagões.  Reaprendizado  cruel  do  jogo  da  amarelinha. Nos caixões metálicos operários  embalsamados  trocam  pisões,  sarros  e  cotoveladas,  permeados  por pungas e conversas. O amontoado de  seres ao gás de fábricas e escritórios. Lazer  perpétuo aos exterminadores de baixadas fluminenses estrelas.
        Também sou peregrino. O término da viagem é o santuário. Os templos impiedosos do século vinte erguem  torres monumentais a um céu despovoado de misericórdia. Só  as  viaturas da ordem, os códigos e as senhas de acesso, a  distância de gestos e trânsito. A cidade-cartão  postal por onde desliza essa carroça eletrometálica é um assustador jardim de alumínio, ferro e vidro;  paraíso  de guichês,  mendigos  e  camelôs.  A grande sucata-mor de  um país não sei qual.  Nela,  papéis  em ignota caligrafia nas mãos, autenticam passos em  Tiradentes praças,  Rio Branco avenidas, tantos e tais lugares,  andares,  salas  xis e  ipsilones. E mais:  eletrônicos  objetos  digitais sonhando  posse.  Espaços  onde  fucionários  anemizam  sorrisos  tão operacionais quanto idiotas. Contas.  Dívidas. Anúncios.  Jornais emprestados, colhidos ao chão.  Mil jogos de  ilusão povoando a vida de capoeiras e laser, engolidores de fogo e vídeos, cegos instrumentistas e  samplers, mímicos e robôs, pomadas vendedores japoneses e pistolas automáticas.
        Deslizo entre os vagões. Desligo razões. Pulo todos os degraus da insanidade. Xingo  a mãe dos passantes (farsantes?).  Tiro o pau  para fora e exibo o obelisco do pecado a cantorias protestantes e virtuoses de fim de semana.  Estou  fora  do controle oficial.  As leis  são apenas registros que me aprisionam a uma vida miserável. Não há clemência. No mundo só existe polícia.
     Repentinamente,  paralisam o movimento. Podam a floração de instintos e poesia. Plataformas interditadas.  Portas fechadas.  Agentes  de  segurança  ordenam,  mentem,  latem. Agora, uma multidão de zumbis vocifera de outras submersas plataformas:
        − Porrada!  Porrada!  Porrada!
        Os zumbis perdem a hora e o emprego,  só  não  perdem o sangue  alheio.  Precisam de uma certa dose de distração.  Enlaçam-se aos pés de seus amos. Fazem  salamaleques às autoridades e elegem, periodicamente, os seus coveiros. Os zumbis são tirânicos.
        −  Ladrão!  Veado!  Seu merda!
        A multidão adoça os meus ouvidos. Agora, entre os braços da lei, sinto-me  seguro  e protegido. Recebo uma cacetada quase na nuca,  mas estou inteiro.  Um guarda  me acerta um chute na altura dos rins.  Estou imensamente feliz!  Mais uma cotovelada, um tapa, um soco, um pontapé,  outro tapa... Sangro abundantemente pelo nariz... Outra cacetada nas costas...A lei me protege... Sou um cidadão, estou transbordando sangue e felicidade...  A multidão me abriga...  Retoma o seu lugar...  Todos recolocam-me nos trilhos...  Mais...

sábado, 4 de junho de 2011

ANARQUIPÉLAGO




















   

  José Antônio Cavalcanti


Submersas e móveis
ilhas
isoladas
sob um sol submarino
ensinam naufrágios a bússolas
no solstício de dezembro.

Não há caravelas
nem argonautas,
apenas náufragos
em águas estrangeiras.

Dois hemisférios
e nenhum verdadeiro.

Cinco ilhas desconhecidas:
entre elas, no fundo indizível,
vive,
no mar de fuligem, Le bateau Ivre.

Guarda (contrabando na carga)
palavras como âncoras corroídas,
ossos e um mundo fora de prumo.

O velame de velcro avisa
a vagabundos vivazes e visionários
que só se navega de verdade
verticalmente.

Ilhas em fuga
apagam a teoria dos conjuntos
a falácia de mapas,
o sentido da história,
os gozos memoráveis.

Tantos portos,
tantas palavras
e nenhum destino.

E se todo caminho for (clan)destino?