quarta-feira, 14 de setembro de 2011

TEORIAS DO AFUNDAMENTO

Vladimir Kush


     José Antônio Cavalcanti

1 -  “Que absurdo pensar que um homem deve ocupar um lugar na vida, que absurdo, e no entanto muitos jovens acreditam que devem lutar para conseguir um espaço no mundo, espaço este que não existe porque todos os homens estão fora de lugar, mas só o velho tem consciência e por isso pode sentir-se feliz ao ficar fora do mundo, afundando cada dia mais no seu atraente abismo próprio.” – Enrique Vila-Matas,  em A viagem vertical.

2 – “Os novos estudos da neuropoética comprovam que o cérebro é dotado de uma cavidade próxima ao diencéfalo capaz de realizar as sinapses entre os neurotransmissores de fuga e abandono. O processo, ainda obscuro, promove uma irradiação azul do lado esquerdo da cabeça, provocando a perda da vontade de viver e um mergulho catatônico no vazio. A fenda sináptica abre-se desmesuradamente e nela a química dos encontros desaba todas as certezas. Em alguns indivíduos, o hipotálamo apresenta intumescência de dúvidas e perplexidade.” -  Dr. Philipp D. Salthouse, neuropoeta da University of Massachusetts.

3 – “No’mais,. Musa, no’mais que a lira tenho
       Destemperada e a voz enrouquecida.
       E não do canto, mas de ver que venho
       Cantar a gente surda e endurecida.
       O favor com que mais se acende o engenho
       Não no dá a pátria, não, que está metida
       No gosto da cobiça e na rudeza
       Duma austera, apagada e vil tristeza.” – Luís de Camões, em Os lusíadas.

4 – “Milímetro a milímetro nesse corpo transatlântico naufrago Titanic entre lençóis e camadas geológicas. Magma é a dissolução do meu caminho na tua pele tatuada de seres inúteis. Afundo no meio dessa fauna estranha, deslocando rochas e cidades, desabando afetos e palavras. O epicentro é pura demência quando não há mais liga e carícia. A terra se move para o abismo. O que nos abala inaugura o deserto”. - Dr. Raymundo O. Tavares, geólogo da Université Paris-Sorbonne IV.

5 – “Nenhuma palavra
       profunda.
       Fundo é o que nos foge,
       O mundo é superfície
       a face fina e fugaz não do fundo,
       mas do breve e do mínimo.
       o milímetro do nosso limite.” – Zantonc, pseudopoeta brasileiro.

6 – "Um inseto cava
      cava sem alarme
      perfurando a terra
      sem achar escape.

      Que fazer, exausto,
      em país bloqueado,
      enlace de noite
      raiz e minério?

      Eis que o labirinto
      (oh razão, mistério)
      presto se desata:

      em verde, sozinha,
      antieuclidiana,
      uma orquídea forma-se." – “Áporo”, de Carlos Drummond de Andrade

7 – "Com a lâmpada do Sonho desce aflito
      e sobe aos mundos mais imponderáveis,
      vai abafando as queixas implacáveis,
      da alma o profundo e soluçado grito.

      Ânsias, Desejos, tudo a fogo escrito
      sente, em redor nos astros inefáveis.
      Cava nas fundas eras insondáveis
      o cavador do trágico Infinito.

      E quanto mais pelo Infinito cava
      mais o Infinito se transforma em lava
      e o cavador se perde nas distâncias...

      Alto levanta a lâmpada do Sonho
      e com seu vulto pálido e tristonho
      cava os abismos das eternas ânsias!" – “Cavador do infinito”, Cruz e Sousa

8 – “Como os chistes e o cômico, o humor tem algo de liberador a seu respeito, mas possui também qualquer coisa de grandeza e elevação, que faltam às outras duas maneiras de obter prazer da atividade intelectual. Essa grandeza reside claramente no triunfo do narcisismo, na afirmação vitoriosa da invulnerabilidade do ego. O ego se recusa a ser afligido pelas provocações da realidade, a permitir que seja compelido a sofrer. Insiste em que não pode ser afetado pelos traumas do mundo externo; demonstra, na verdade, que esses traumas para ele não passam de ocasiões para obter prazer. Esse último aspecto constitui um elemento inteiramente essencial do humor.” - Sigmund Freud, em "O humor"..

9 – “O afundamento é uma depressão produzida pela movimentação tectônica das camadas mnemônicas da minha hipersensibilidade erótica. Parte da memória recupera territórios de felicidade, enquanto a outra parte, mais extensa, exibe imagens de devastação e palavras amargas. O humor, em caso de abalos sísmicos, é um tênue casaco incapaz de segurar as ondas venenosas de uma radiação letal proveniente de balões infláveis. O afundamento lida com massas, volumes, áreas e sólidos capazes de fazer um corpo atravessar a consciência para projetar-se como sombra no vazio do outro lado da fronteira. Há vários níveis de afundamento, mas os superiores são aqueles denominados travessias, aqueles que nos esvaziam de tudo o que fomos e nos reinventam nas formas do impossível. Afundar no chão, no mar, no deserto, inaugurar o caminho para o aberto.” - Ex-José Antônio Cavalcanti

10 – “(...) é preciso continuar, não posso continuar, é preciso continuar, vou então continuar, é preciso dizer palavras, enquanto houver, é preciso dizê-las, até que me encontrem, até que me digam, estranho castigo, estranha falta, é preciso continuar, isso talvez já tenha sido feito, talvez já me tenham dito isso, talvez me tenham levado até o umbral da minha história, ante a porta que se abre para a minha história, isso me espantaria, se ela se abre, serei eu, será o silêncio, aí onde estou, não sei, não o saberei nunca, no silêncio não se sabe, é preciso continuar, não posso continuar, vou continuar.” – Últimas linhas de O inominável, de Samuel Beckett.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Joaquim Palhares, 308, sobrado, Estácio




          Um samba-narrativo de José Antônio Cavalcanti


A casa estava abandonada como uma cidade fantasma. Janelas abertas e olhos insones desmontavam arcanos e reminiscências. Pés e mãos perfurados por cigarros acesos e pregos enferrujados sustentavam um corpo crucificado na sala de jantar, antes do almoço. A casa estava vazia e supensa no ar, depois do despejo, do choro, da revolta de seus moradores e do peso de sua velha mobília terem descido degraus perplexos e inseguros. Pano de prato não serve para suicídio e a vida no presídio não vale o pavor na face lívida do oficial de justiça. Então, desocupar, fugir, recolher as cicatrizes e as rachaduras dessas paredes úmidas. Última flor do Estácio. Poiésis e veneno. Laço no pescoço. Dívidas e dívidas. Cintilação de estrelas sombrias em inolvidável segunda-feira, dez de fevereiro de mil novecentos e setenta e cinco. A casa completamente deserta, trincheira sem defensores, isolada numa esquina vadia, longe dos gritos de crianças medrosas fugindo por seus corredores longos e escuros, pasto de tímidas assombrações; longe do gozo de seus homens e mulheres brincando de pecado e perigo nas dobras de um tempo sombrio. Só o cheiro de álcool e suor, ainda entranhado em seu ventre, denunciava extintas primaveras de prazeres e testemunhava em silêncio uma época em que a noite adormecia a raiva e o ressentimento represados durante o dia. Joaquim Palhares, 308, sobrado, Estácio. As incontáveis batalhas travadas na calçada, na escada, no porão, nos quartos, converteram-se no martelar de um bate-estacas, no movimento ritmado e impiedoso de operários e betoneiras, metamorfoseando o passado em escombros, decompondo, tijolo a tijolo, esse pequeno universo desprovido de tamanho. Os fornos crematórios do progresso apagarão vestígios de porres e danças no lugar sagrado da tribo. Ultraje. Heresia. O assoalho não beijará os passos de seus bêbados incorrigíveis. A alegria delirante e boêmia de sua malandragem cederá vez e lugar à pose elegante de uma desumanidade, a um mundo padronizado, obediente a códigos de funcionalidade e indiferença, dominado por zelosos e eficientes gerentes de imagens, simulações, conveniências, vento. A polícia poderá fechar o livro de ocorrências, liberta do constante vaivém a pedido da seleta vizinhança. O trezentos e oito riscado em cruz. O estigma dos condenados. A marca sinistra dos inimigos da fé. Resta a Santa Inquisição, os jagunços do Tesouro Nacional, os engenheiros da Construção Perfeita, todos caírem sobre sua carcaça e como gralhas devorarem a pequena margem de pânico e lucidez dentro dos seus múltiplos olhos atônitos. A demolição move-se com pés mercuriais. Um sobrevivente perambulava pelas maltratadas dependências do sobrado, levando um espelho quebrado para não esquecer o próprio rosto saturnino e guardar bem viva a expressão de mágoa da casa adormecida. A casa tão dentro, tão no interior de tudo, tão só. Morcegos, ratos, aranhas, escorpiões, baratas, descargas quebradas, torneiras enguiçadas, fechaduras defeituosas, vidas perdidas. A casa furiosa com o trágico destino, batendo portas e janelas, desafiando a eficácia de máquinas e dos especialistas em demolição, ameaçando despencar do seu instável equilíbrio a qualquer momento e vingar-se de sua condenação. Tão gelada quanto as cervejas que, em dias de gala, recriavam o milagre da multiplicação do pão e do vinho. Pintada de branco, realçava a sujeira a formar estranhos desenhos em sua pele acinzentada. Um branco cor de ausência. Um branco que esgotara toda a sua alvura ao doá-la, generoso e cúmplice, a todos os momentos de nossas vidas. A casa, agora, reduzida a completo desamparo, repelia qualquer tentativa de contato, tolhia a imaginação e se furtava a um entendimento. A magia da casa não ocultava, entretanto, sua natureza labiríntica, os meandros onde as perdas e os pesadelos armazenavam-se, emudecidos. Joaquim Palhares, 308, sobrado, Estácio. Estacionauta invade a contramão e tropeça em pedaços de conversas, fragmentos de beijos e carícias, migalhas de sonhos, misturados ao tinir de copos, ao chiar das panelas, ao escorrer de águas em tanques exaustos. Sente o ruflar de asas inamistosas sobre a cabeça anelante. Ameaça de represália. Estacionave incapaz de inaugurar a sua trajetória, presa ao chão da memória de maneira irremediável. Estacionave ancorada no porto intergalático da América: América dos molambos, América das trapaças, lúmpen-América. Porto aberto aos flibusteiros, cruéis aventureiros, caçadores de índios, capitães do mato, bandeirantes em busca de tesouros, bandidos de todas as latitudes. Porto aberto a todos ansiosos por explorar teus meninos, tuas mulheres, tuas jazidas, tuas safras, tuas matas. Todos no mesmo barco. A solidariedade dos oprimidos forma um cordão protetor ao redor de cada um. A casa – apenas refúgio e esconderijo. Joaquim Palhares, 308, sobrado, Estácio. O cupim corroendo o madeirame. O jogo do bicho sempre a renovar expectativas de soluções miraculosas. A saga coletiva. Carlinhos, malandro e miserável, roubando bicicletas. Isaura, trabalhando todas as possibilidades do corpo. Henrique, ao volante de caminhões de cimento, dirigindo como um possesso a fome da família. Neca, bancando polícia, impondo respeito com pernas de capoeira, dando uma de xerife nos botequins adjacentes. Rita, sósia mal acabada de Ícaro, cujo salto suicida deixou-a viva, porém incrustou ao seu corpo um andar torto como o de um anjo exilado, sob o peso eterno da morte da filha de seis meses na queda. Cristina, sempre se esgueirando furtiva meia hora após a saída do marido para ver se recuperava com o seu viço e juventude o salário que ele gastava com bebida. Leila, a tonta, a sem juízo, que, enfurecida pelo fato de o marido ter esgotado o seu corpo e procurado novos tesouros em outros braços, perseguia garotos bonitos às carreiras pela rua, de camisola e sem dentes. Betinho, sem tempo e sem condições para tornar-se homem. Manéu, que alugava cômodos de um imóvel que não lhe pertencia, enquanto aguardava a redentora proposta de alguma viúva rica. Getúlio, assassino de outro homem num caso equivocado de amor e traição e agora a beber arrependimento, olhando fixamente numa foto antiga o seu sorriso ladeado pelas faces felizes da mulher e do irmão. Mauro, que descera as escadas com o auxílio de todos os moradores, marejado de lágrimas e súplicas, a caminho do Hospital de Engenho de Dentro, onde a morte o esperava entre choques e terapias homicidas. Moisés, que morreu num grande porre, depois de armar o último balão apagado. Luis Carlos, cujas mãos desferiram seis facadas no padrasto e os pés fugiram para Santa Catarina, para o corpo morrer afogado aos vinte e quatro anos de idade. Tiana, fugitiva do São Carlos, incapaz de explicar a pressa e o isolamento. Negão, que encarava qualquer barulho, desacatava polícia e, vez ou outra, hospedava-se por conta do estado. Marquinhos, empurrando carrinho de rolemã nas feiras, lavando carros e fazendo ganhos para assistir a bangue-bangues nos poeiras. Todos, agora, espalhados pelos sete cantos da cidade, sobrevivem na periferia da Babilônia, em terras de assaltos diários, ruas de lama e esgoto, sem luz, sem conforto, sem saída. Gado levado para engorda. Os caros filhos da pátria, da terra gentil, da cidade maravilhosa, do eterno berço esplêndido. Os habitantes da res publica, perfilados no paredão cinza dos dias, prestes a sucumbir perante polícia, autoridades, governantes, doutores, líderes carismáticos, fiscais da agonia, mascates do sofrimento humano, formam alas avessas às carnavalescas. A casa guarda sua tragicidade em folhas negras, adormecidas no sótão. A casa contaminada. A casa condenada. A casa suspeita. A casa mal-assombrada. A casa apenas casa: lugar de comer e dormir, amar e sofrer. Pôsteres e retratos como medalhas disseminadas pelas paredes enrugadas e tristes, acumulando camadas de gerações como se fossem pinturas sobrepostas. Estacionauta num mar que não dá livre curso ao seu calado, nem suporta a tonelagem de glórias e infâmias. O velho encouraçado desmanchou-se com o calor, a pressão do progresso, a especulação imobiliária, desviou-se do caminho previsto e adotou a rota das grandes fugas. Sinal de alarme: rombo no casco, botes de emergência, grades cerradas, lençóis amarrados um a um, uma pistola sete meia cinco na cintura. A casa sangrando pelas frestas do telhado. A água lavando mansamente os palavrões e as inscrições apaixonadas espalhadas pelas linhas tortas do seu corpo descascado e pulsante. Henrique é morto. Leila sumiu. Getúlio foi morar em Anápolis. Isaura vive com um alto funcionário do Banco do Brasil e não quer mais saber de ninguém. Sobra apenas a interminável fila do banheiro, as brigas, o desencontro total de vozes, pessoas e sentimentos. Resta o olfato descobrindo carne assada, peixe com coco, galinha ao molho pardo ou feijoada, em dias de aniversário, de batizado, de casamento, de milhar na cabeça. Resta a festa diuturna das crianças, importunando os infelizes, desorientando as regras estabelecidas, inventando a esperança em cada gesto, a cada minuto. Resta a dor e o desemprego, a falta de frutas e verduras; a expressão de espanto dos filhos, perguntando, inconformados, por balas e doces. Resta o amor sem perguntas a instalar-se sobre si mesmo, sem precisar recorrer a explicações ou justificativas, pois amadurece subterraneamente e quando aflora vem, caudaloso e irrefreável, arrastar reservas e resistências, ligar destinos, abalar antigas paixões, inverter valores, descobrir o véu de automatismo sobre o cerne da existência – forte, denso, inexaurível. Estacionauta, o último sobrevivente. Na impossibilidade definitiva de sustar a demolição, levou a casa no interior dos olhos: sugou as vigas e os tijolos; absorveu os tacos e as telhas. Estacionauta através do espaço, guiado por espelhos mágicos e cometas suicidas. Estacionave a preencher a memória do estacionáufrago. Joaquim Palhares, 308, sobrado, Estácio. Velhice. Decadência. Aposentados jogando baralho, dama, xadrez. Peladas no meio da rua. Princípio do mundo. Pipa cortando macia o azul dos domingos. A novela das oito desunindo e domesticando a família. O pau comendo solto no final dos bailes. A casa. A presença da casa nas mangas da camisa. A casa. A linguagem das cartas na caligrafia da casa. A casa vazia. A vida extirpada violentamente da insegurança da casa. Vazia a caixa do coração. Covil. Pardieiro. A casa vazia e forte. A casa vazia e forte. A casa vazia e forte.
 

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

AFNA

Bloqueado, Hélio Oiticica

     José Antônio Cavalcanti


No primeiro dia em que estive na cidade de Afna, tudo foi monótono e enfadonho porque: a) não sabia o afnês; b) a cidade parecia estar complemente abandonada.

No segundo dia em que estive na cidade de Afna, tudo foi monótono e enfadonho porque: a) ainda não sabia falar o afnês; b) a cidade continuava um inquietante ponto de interrogação.

No terceiro dia em que estive na cidade de Afna, tudo foi monótono e enfadonho. a) ainda não sabia falar afnês (embora tivesse aprendido que muito obrigado, na língua local, era tri paktu); b) a cidade permanecia um inquietante ponto de interrogação; c) além de tudo, eu era o único hóspede do único hotel, propriedade do único habitante.

No quarto dia em que estive na cidade de Afna, aconteceram tantas coisas que fui compensado, com sobras, da monotonia dos três primeiros dias. Para começar, o dono do hotel, a quem até então julgara o único habitante, revelou-me ser a cidade povoada por cerca de dois milhões de pessoas, todas, no entanto, mostravam-se receosas com os visitantes, pois há milênios Afna não recebia viajantes. Contudo, como ele narrou-me em afnês e como não entendo patavina desse idioma, não pude entender nada, razão pela qual fui altamente confuso e contraditório ao dizer que o quarto dia não foi monótono e enfadonho. Seguramente foi o mais monótono e enfadonho, uma vez que passei as vinte e quatro horas do dia escutando o dono do hotel narrar-me a história da cidade, ou a perguntar-me donde vinha, ou a contar-me piadas, ou a falar mal do governo, ou a oferecer-me garotas de programa e cocaína...

No quinto dia em que estive na cidade de Afna, o sol foi a única novidade, porém não bastou para tirar a chatice de ruas e praças vazias.

No sexto dia, escutei um som muito harmonioso, uma música que ora parecia vir de fora, ora parecia sair do meu próprio cérebro. Um fato que despertou a minha curiosidade foi ter encontrado todas as tabuletas trocadas, alterados os nomes das ruas e das casas comerciais. Alguns edifícios também foram colocados fora de lugar da noite para o dia.

No sétimo dia, amanheci mais disposto: o sete, além de ser um número místico, também é o meu número de sorte. Estava tão esplêndida a manhã que rejeitei o café, aliás, um líquido vermelho de gosto horrível, servido com cogumelos. O sétimo dia foi só para constar: veio e foi embora a galope.

No oitavo dia em que estive em Afna, decidi que ele não poderia ser tão enjoado quanto os outros sete. Mesmo que não aparecesse ninguém, eu iria botar pra quebrar. Causaria um alvoroço tão grande, perturbaria tanto, que, fatalmente, alguém seria obrigado a tomar uma atitude mais drástica comigo. Naquele momento ficaria grato se alguns deles me agredissem. Ao sair do hotel, quebrei vidraças e continuei destruindo tudo à minha frente até sentir um gás forte e insuportável e, creio, desmaiei.

Acordei apenas no nono dia, completamente esgotado, nauseado. Escutei o barulho dos carros na rua, os gritos de crianças indo ou vindo das escolas, as pragas e os risos de gente trabalhando, apitos de guardas de trânsito e ruídos de toda espécie de máquina. Todavia, estava derreado, sem forças sequer para levantar-me até a janela, embora alegre por prever, no dia seguinte, o primeiro encontro com os meus semelhantes.

Veio o décimo dia e acordei bem aliviado, fiz a barba e desci para o saguão do hotel, olhando para todos os lados, na tentativa de vislumbrar uma pessoa qualquer. Triste recepção, apenas o dono do hotel falava ao telefone sem parar. As ruas estavam tão desertas quanto nos dias anteriores. As lojas, fechadas. Ninguém. Ninguém. Ninguém. O dono do hotel disse-me que tinham saído em férias e foram para o campo e para os balneários, mas ele não poderia ter falado isso. Eu não poderia entendê-lo. Isso não passa de história de viajante.

No décimo-primeiro dia, fiz as minhas malas e tomei a direção do aeroporto, depois de dar mil e uma voltas pela cidade, graças à balbúrdia de placas e sinais de trânsito. Embarquei no avião e jurei a mim mesmo nunca mais pôr os meus pés na cidade de Afna. Antes de o avião levantar voo, pude ver o movimento do aeroporto, o entrar e sair de pessoas, os mecânicos, os carregadores, os passageiros das outras aeronaves, os automóveis nas ruas e avenidas adjacentes.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

POEMA DA PARTIDA



      José Antônio Cavalcanti

Cais não sou.
Em mim amarras
não formam amálgama
de amor e algas.
A lua de gala
de qualquer nave
são ânsias de ave
em corpo de âncoras.

Cais não sou,
antes calado.
Em mim palavras
passeiam descabeladas;
o vento no ouvido
e nas camisolas
sopra no porto
e em  portas descascadas.
O eco encardido
assobia  partidas.

Cais não sou,
antes o sulco
do lado oposto do casco,
o risco de ser exposto
ao abismo das conchas.
A pressa das velas
desaba o horizonte.
Despovoado,  o porto
deserda chegadas.
O amor a léguas
naufraga em águas invisíveis
em mar de mágoas.


Cais não sou.
sequer cantor.
Giro o leme em direção incerta,
pinto o vento de azul
e afundo o meu desencanto
na maré de escombros.

Sou o zelador de abismos.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

DEFEITO DE FABRICAÇÃO

Adriana Varejão






















O amor
possui duas pontas.

Uma
nunca
se encaixa 
na outra.



segunda-feira, 5 de setembro de 2011

SAGRAÇÃO


  
    José Antônio Cavalcanti

Reizinho estava ali, parado. Olhos grandes, arregalados. Boca aberta numa interrogação sem palavras. Talvez indagando das vitrinas, dos automóveis, das lanchonetes, de onde saíam tantas pessoas apressadas e distraídas. Suas mãozinhas guardadas do frio dentro da camisa, no calor do coração, comprimiam brinquedos imaginários. E toda a ingenuidade desbordava da sua pele arrepiada com o frio da tarde chuvosa.

Reizinho estava ali, entre a grande fogueira dos homens: bolas de fogo na trilha da cidade sem fim. Não sabia do visgo no interior dos prédios, nem da monótona mecanização da vida nos escritórios -- antros impermeáveis à sua presença. Sabia apenas do seu corpo perdido sobre bancos e sob marquises; da falta de agasalho e da fome doendo no estômago; das porradas da polícia; das brigas de rua com moleques de bandos rivais. Sim, os outros; aqueles que nunca foram diferentes porque estavam com ele na hora da pancadaria, no dia-a-dia de sobressaltos e carências.

Reizinho estava ali, parado, flor do abandono a assustar os engravatados, mas os bacanas, entre suas pastas de couro e uma mão estendida, optavam por jornais incompreensíveis e sanduíches desconhecidos.

O nome ninguém sabia como surgira. Seria o reizinho dos pivetes, aquele que mais roubava porque mais fome sentia? O maior estorvo à consciência cristã dos comerciantes da praça e adjacências? Que filava cigarros e suplicava pão com manteiga, pastéis e salgados? O precoce apreciador de cachaça (para diversão de adultos insanos)? Que engraxava sapatos, cuspindo sangue para deixar os doutores felizes em seus caprichos de mando? Que era até capaz de conversa solta quando um executivo, num gesto magnífico de suprema condescendência, começava a puxar assunto e a fornecer-lhe uns trocados, dando esmolinha para certificar-se da própria nobreza do caráter superior, numa tentativa inócua de provar a si mesmo não ser indiferente ao desamparo alheio?

Reizinho é rei, é menino. Às vezes sonha -- possibilidade considerada inconcebível por quem o observa todo suado agitando sacos de biscoito vagabundo no meio do engarrafamento ou quando pode ser percebido furtando laranjas e tomates na feira. Reizinho é um autêntico rei, não há dúvidas. Aquele cujas pernas alcançam limites de flecha. Aquele cujo dorso negro equilibra-se no chute em curva com bola de couro, de meia, de papel ou de plástico. Aquele que é inatingível, protegido pelos deuses, amado por Ogum, e ninguém pode vê-lo quando não deseja ser visto. Aquele que é punguista e imantiza carteiras, doces e relógios. Aquele que é a força da terra, a raiva latente no zinco dos barracos, a dor que, de tão antiga, já se esqueceu de gritar e convive ao lado do riso no mesmo semblante.

Reizinho é tudo. Um mundo de pirraça, insistindo, teimando, resistindo. Um mundo regido por estoques, giletes e navalhas, no corte rápido, na bolsa entre os dedos, no grito da vítima sem complacência, na perseguição implacável dos milicianos do caos. Reizinho não cai, não tropeça. Antes, desliza e valsa feito antílope percorrendo a savana de outro continente - a grande terra dos avós.

Reizinho, às vezes, se pega com modos de criança. Verdade que franze o cenho. Não pode desperdiçar tempo com bobagens. O mundo é muito exigente. Mas... acontece. Num gesto involuntário, começa a empurrar uma pedra pelo chão da praça. Mímico insuperável, imita o ruído de automóveis ou de aviões, provendo asas em pedra. Depois, engatilha caixas de fósforo à maneira de um trem destinado ao imponderável. Quando junta-se aos barulhentos parceiros, forja um balé de saltos e fugas, uma esgrima na qual vilões invisíveis são vencidos por velhos cabos de vassoura transformados em espadas invencíveis.

Que mágicas habitarão os seus sonhos deitados sobre folhas de jornais pródigas em tragédias? Tem-se a nítida impressão de que neles se interroga sem cessar e busca a cor dos distantes e perdidos desenhos da inocência; neles transita uma mulher envolta em roupas transparentes e com um turbante de fogo, a expelir pássaros negros de mãos feitas de terra. Um homem imenso, de garras de cristal, alveja os pássaros com flechas de luz. De seus lábios grossos e metálicos fogem canções negras e espessas como a noite e, aos seus pés, apodrecem milhares de algemas.

Fora das fortalezas do sonho, Reizinho tenta desenhar mentalmente o rosto de um pai e de uma mãe com os fiapos da memória. Pensa em como poderia ter sido a vida com eles ao seu lado, como seria bom se estivessem sempre por perto. Será que ainda irá encontrá-los? E imagina um redentor reencontro feito de grandes abraços, risos em profusão e um batuque eterno. Ah!, no entanto o pai é um deus africano totalmente sem juízo. Não o deixou jogado ao léu de propósito: deve ter tomado um porre homérico e, depois de espancar a mulher e as crianças, abandonou o lar, esquecendo-o em sua fúria. A mãe ( quem sabe se ainda estará viva?) embarcou num show de mulatas. Hoje, talvez gire perdida em algum terreiro de umbanda. Um vazio entre ele e os pais (não aquecerá o seu corpo minúsculo, no frio das madrugadas, o sangue paterno escorrendo ao lado do materno nas manchetes dos jornais?). Infelizmente a família é uma ciranda sem cirandeiros, nada sabe a respeito: faz ideia pelos outros e não pode deixar de sentir-se magoado ao contemplar pais e filhos em passos de riso e comunhão.

Reizinho sonha com coisas menores, mais palpáveis, como um relógio importado, de valor inestimável, que já adornara o seu pulso esquálido. Tão bacana que bastava comprimir suavemente o dedo sobre o mostrador e diversos números indicavam a hora em várias cidades do mundo. Lembra-se de tê-lo tomado de um garoto da sua idade na porta de um desses colégios de rico. Infelizmente um malandro resolveu ficar com ele em troca de uma dívida antiga. É, o mundo é muito exigente.

Apesar de todos os males, Reizinho ainda conserva a capacidade de rir. E o seu sorriso não possui nenhuma explicação. Não poderia sorrir como o faz, tão amiúde. O mais fascinante é que não é um riso educado, comedido, daqueles que têm freio no coração; não é um riso alto, autêntica gargalhada, de quem se joga por inteiro nos gestos; não é um riso marcado pelos vincos do infortúnio daqueles a quem o destino humilha e brutaliza. Não, quando Reizinho sorri, o riso em sua pequena boca selvagem dilata os limites do possível e a esperança desponta límpida e cristalina, fora de qualquer justificativa.

A vida ministrou-lhe lições inesquecíveis. Aprendeu a ler em gibis e em revistas de sacanagem, entretanto a virtude mais importante aos seus olhos era a sua extraordinária facilidade em enganar as pessoas, ludibriá-las, empregando os seus insuspeitos dotes de charlatão e comediante, desvelando, com isso, o seu profundo conhecimento do ser humano, de suas fraquezas, de sua alienação absoluta.

Quando a cana dava em cima, tinha o tom exato da lamúria, o ar amedrontado de criança abandonada, a desculpa de que seus pais expulsaram-no de casa depois de terem lhe aplicado uma surra desumana, e aquela velha história de que estava indo para a casa de uma tia moradora do morro de São Carlos, ou, então, algum desafeto havia roubado sua caixa de engraxate, sua lata de amendoim, suas balas de tamarindo. É bem verdade que levava alguns cascudos, contudo sempre lograva safar-se.

Se não gostava da polícia, muito menos morria de amores por aquelas madamas numa lambeção irritante: meu filhinho pra cá, meu filhinho pra lá. Reizinho não suportava tanta hipocrisia, tanto chamego exagerado, tanta gente chata querendo pregar remendos na consciência, adquirindo, pelo crediário das boas ações, uma vaguinha no Paraíso. Penalizadas, assistencialistas, prendadas e caridosas, olhavam-no como tese de mestrado, pesquisa sociológica, tarefa pedagógica ou obrigação cristã. Certas vezes o nojo era tão acentuado que ficava engendrando pequenos atos cirúrgicos: cortar a jugular da mais fanhosa; enfiar um estoque bem comprido e afiado no rabo da mais pegajosa; passar uma gilete na face da mais autoritária. Pior do que aquela cantilena toda era quando, insensíveis aos seus gritos e súplicas, as desgraçadas levavam-no para aquele prédio dito escola, mas espécie de manicômio/delegacia/presídio/cemitério. E toma-lhe cascudo, palmatório, aviãozinho, corredor polonês, ajoelhar no milho, porrada, aulas ricas em reguadas e escrever mil vezes “não devo dizer palavrão na sala de aula”.
















Reizinho já acha a vida uma grande porcaria. Não sabe o que significa morrer, não obstante haja visto muitos mortos, alguns até amigos. Já está indo longe demais, além do seu raciocínio. Torna-se cada vez mais difícil esperança, anseio de melhoria qualquer. Quase ponto final. O mundo é muito exigente. Já não é negocinho de estoque, gilete e navalha. Não. Seus dedos apalpam um quarenta e cinco num gesto amoroso. O mundo é muito exigente. Está na hora de provar para a rapaziada que já é um homem, que é rei de verdade, que é esperto e mete bronca, não é nenhum calça-frouxa. E a fome comanda os seus nervos, os seus dedos. Só que chega de empunhar, de acariciar, de imitar bandidos e mocinhos. Isso já não é suficiente. O mundo é muito exigente. Agora tem de apertar em cima de alguém se for preciso e se não for preciso. Agora esse é o seu brinquedo, o único que lhe foi dado e, deus do céu!, como ele gosta dessa brincadeira, como aperta o gatilho, como se entretece com a dolorosa música dos estampidos!

NUEVA GEOGRAPHÍA LATINOAMERICANA




            José Antônio Cavalcanti



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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

NA NOITE IMPOSSÍVEL

Vladimir Kush

                                                                                     
     José Antônio Cavalcanti

Jamais poderia imaginar que o que aconteceu há uma semana fosse possível. Porém, apesar de eu mesmo não encontrar explicações, tudo aconteceu como vou contar. 

Era noite. Uma chuva miúda caía lá fora. Eu estava em frente ao monitor, meio perdido e cansado. A garrafa térmica e a xícara de café sobre a estante envidraçada anunciavam mais uma longa jornada. As ideias escapavam à possibilidade de texto. Pensava em escrever sobre a tese; caminhos e descaminhos da pesquisa; origens e fins; precisar intenções, justificar escolhas. Quarenta minutos imobilizado e nada. Não sabia como começar. Rejeitava todas as possibilidades, num grau de exigência absurdo. Fui retirado do impasse por um leve ruído na maçaneta da porta do quarto. Nada além do vento ou de algum movimento natural, pensei. Sequer fui verificar, preso à teia acidiosa da minha deriva.

Poucos minutos depois, ouvi um ruído mais forte, como se alguém quisesse e não conseguisse entrar. Levantei-me e abri a porta e, meu Deus, eis que a própria Hilda, aos 28 anos, surgia à minha frente  vestida em um modelito década de 50: blusa de crepe caramelo de manga três quartos com os ombros sensualmente torneados, saia godê grená, bem justa na cintura, com caimento quase à altura dos tornozelos, sapatos de salto agulha em tom caramelado. Parecia uma personagem saída de algum filme de Hitchcock, com notável diferença: era estonteante. A mão direita exibia, no alto, um copo de uísque, enquanto a esquerda ainda se apoiava na maçaneta. Ria baixinho, de modo irônico e levemente embriagado. Seu riso era pura provocação, desafio. Confesso, claudiquei. Acovardado, fechei a porta. Em vão. Ao virar-me em direção à escrivaninha, deparei-me com uma menina de oito anos, sentada na poltrona azul próxima à janela. 

– Você se lembra de mim? – sussurrou em suave inocência. – Sou Lory Lamb. Quer que eu tire a roupa? – Atirou palavras e tentação com uma overdose de sensualismo e perversão infantil sobre o meu espanto. Sentei-me bem devagar (ou caí) na cadeira rasgada da escrivaninha e fechei os olhos. Ao reabri-los, havia desaparecido. 

Após alguns minutos, voltei a pensar na prosa ficcional de Hilda Hilst. O que provoca a violenta comoção de sua leitura? Que propriedades encantatórias guarda o texto hilstiano? Por que é tão impactante? Precisava encontrar respostas. Eu ainda devia estar tonto: quem ainda acredita em respostas nessa altura do campeonato? De que ilusões me alimentara: procurar entender, buscar sentidos, acreditar em significados, ideologias, bandeiras. 

Havia lido toda a prosa ficcional de Hilda, acreditava que só um recorte abrangente pudesse dar conta daquilo que nela existe de mais essencial. Depois de, progressivamente, abrir mão de vários livros, consegui concentrar-me em três: Estar sendo. Ter sido. Tu não te moves de ti e A obscena senhora D. Trabalhei numa linha de pesquisa voltada para a indistinção entre prosa e poesia em seus textos ficcionais. Para isso tomei como ponto de partida a expressão “poesia em expansão”, empregada por um de seus interlocutores em entrevista concedida por Hilda Hilst aos Cadernos de Literatura Brasileira do IMS. Assim, aos poucos ia encontrando um caminho que justificasse o título da tese: “Deslimites da prosa ficcional em Hilda Hilst”. Pesquisei o processo de contaminação da prosa pela poesia, apoiado no conceito platônico de poiesis, ou seja, como “pro-dução, criação, passagem do não vigente para o vigente”, assimilado via Heidegger. Pude perceber como o caráter tardio da prosa ficcional , passado o momento primeiro, de reprodução especular da realidade, recuperava a potência da poética matricial mediante a crise da representação. Apostei, então, na escrita como cruzamento do plural e do proteico, ciente do movediço e precário terreno de seus termos. A indistinção, a zona de penumbra, o campo minado das fronteiras textuais propiciaram um caminho cujas incertezas me pareceram mais exatas do que a lógica narrativa fornecida por tipologias textuais, divisões genéricas, hierarquização discursiva, o método da transformação do texto literário em objeto de apreensão e catalogação destinado a validação de uma espécie de selo de qualidade, fetiche da crítica instituída como instância axiológica. 

Precisava não estabelecer um muro entre Hilda Hilst e o meu texto. Se necessitava de um mínimo campo conceitual para organizar minhas ideias, não poderia escravizar-me a ele, muito menos reduzir a prosa hilstiana a um experimento de laboratório. Em Giorgio Agamben encontrei a sustentação teórica da ideia-base, porém sempre no limite da necessidade real da pesquisa, evitando o engessamento do texto hilstiano e fugindo ao vício de usá-lo como mera exemplificação de qualquer formulação crítico-teórica, numa instrumentalização do texto literário como mera ilustração de correntes de ideias momentaneamente alçadas ao ponto culminante do vigor do pensamento.

- Pena, meu caro, que você nada entendeu. – ouvi uma voz grave soprar no meu ouvido esquerdo. Não acreditei. Era o próprio Agamben ao meu lado, esguio e elegante num blazer azul marinho, mais interessado num livro de filosofia escolástica do que na minha reação.

Senti dificuldade em responder. Achei-me inseguro, impotente. Como discutir com quem me orientara? No entanto, irritado rebati rudemente: - Por que o senhor saiu da Itália para vir aqui perturbar o meu trabalho? Se não pode enriquecer a minha tese, por favor, volte para casa.

- Você é um tonto – retrucou Agamben e num tom mais agressivo disparou - Não leu os meus livros, não saqueou o meu pensamento, não cortou, colou, recortou, usou e abusou dos meus textos. Não se portou como um parasita durante esses anos. Quer ajuda? Trate de pensar, então. Além do mais, quem é essa tal de Hilda Hilst de quem nunca ouvi falar?

Sorri maldoso e envenenado, um sorriso Matamoros, pleno de vingança, uma luz sombria sobre as minhas palavras pantanosas: - Ah, é mesmo! Que pena! Em vossa altíssima e reluzente biblioteca, onde convivem Homero, Dante, os provençais, Nietzsche, Heidegger, Hölderlin, Hegel, Foucault, ao lado de autores esquecidos e ignorados, há mais que um hiato, uma verdadeira ferida. Precisa escolher melhor suas leituras.

Do sarcasmo da última frase, eu me arrependi incontinente, mas era tarde demais. De qualquer maneira, Agamben acusou o golpe. Vi o seu rosto avermelhar-se e percebi a sua respiração alterada. Sem querer entrar em confronto com um desconhecido, passou a bisbilhotar os meus livros. Sentou-se onde há pouco estivera Lory Lamb, retirou um exemplar de A obscena senhora D da estante e, com um aparente ar entediado, mergulhou no silêncio da leitura.

Envergonhado, também caí em cerrado mutismo, porém um falatório incessante brotava na minha mente. Pedaços de versos, fragmentos de textos diversos, frases truncadas, palavras raras e desconhecidas, pouco a pouco, cederam lugar a uma demora em Estar sendo. Ter sido, o último texto de Hilda Hilst, publicado em 1997. Enquanto enchia a xícara com um café cuja quentura arrefecera, pensava em porque havia falhado na inversão da ordem, já que me vi obrigado a confrontar o último livro com “Fluxo”, o texto inicial do primeiro livro de prosa da autora, Fluxo-Floema, de 1970. Não, não foi propriamente uma falha, mas uma exigência de Estar sido. Precisava observar as linhas da complexa trajetória da autora, comprovar como a expansão poética de sua prosa ocorria. Acho que eu guardava inconscientemente uma perspectiva evolucionista. Logo quebrei a cara. Hilda já estava completa em Fluxo-Floema. Seu texto espiralante não progride em plano geométrico, contínuo, crescente, seu movimento circular aproxima-se antes à dança de uma galáxia que se volta sobre si mesma, apagando e reescrevendo seu rastro, alimentando-se de uma energia carnal e cósmica capaz de manter acesa a intensidade com a qual ultrapassa as fronteiras entre drama, narrativa, pensamento e poesia. A pulsação libertária não se constrói sem requintada elaboração de linguagem, ainda que aberta ao chulo e ao não canônico, acompanhada de fina e irônica indagação filológica e de um vocabulário tanto seleto quanto mordaz, usado em dicção lírica ou herética, com aceno ao filosófico e ao fescenino. 

Buscava o ponto nebuloso da conversão de ideias em escrita quando escutei um riso debochado. Olhei para a direita. Não, não era Agamben, que agora, todo curvado, lia o texto de Hilda com olhos arregalados. Atrás de mim, Hilda, de chapéu de palha e bata indiana, aos 50 anos, ainda muito bonita, ria desbragadamente.

- Sabia que posso ler pensamentos? 

- Mas o que há de hilariante nas minhas reflexões? Tento como um louco capturar as palavras no mundo pesado das ideias, lá onde elas se escondem e esquivam, fugindo para o caos onde flutuam.

- Ora, por que acho graça? Quer saber mesmo? Tudo que você tenta é imobilizar o fluxo que me funda, não vê? Você quer definições, garimpar propriedades, fixar temas e motivos. Doido para descobrir uma ideia preciosa, o filão do ouro acadêmico a ser explorado pelo resto da vida.

- Isso é tão ruim assim?

- Não sei, meu caro, não o julgo. Apenas comete mais um equívoco. Para me ler com mais propriedade há que se danar, doer, doar, sangrar as pálpebras, o pau, o ânus; gritar e insultar Jesus, Maria e José; ser homem, mulher, porca  e cadela; para me encontrar precisa se perder em minhas páginas, precisa se libertar para fracassar como o amado Bataille pregava, ou como disse Beckett: “Tente de novo. Fracasse de novo. Fracasse melhor.”

Quando quis me defender, já era tarde. Hilda se esvanecera, apenas um doce perfume almiscarado ficara no ar. Inquieto e temeroso, tentei voltar a Estar sendo, mas o livro já se fora. Tadeu, Matamoros e Axerold surgiram no horizonte, movendo-se em Tu não te moves de ti. A atmosfera da noite chuvosa ficava cada vez mais onírica e paradoxal. Marcado pelo trânsito de personagens entre três histórias diversas, por uma ilimitada busca pelo inalcançável e por uma intensa metaficcionalidade, o livro parece negar os limites da territorialidade ficcional ao permitir o cruzamento incessante das linhas demarcatórias dos textos. As dicções e os ritmos diversos da tríplice narrativa, no entanto, reúnem-se na mesma negatividade: a arte como potência do nada.

Resolvi ir à cozinha comer alguma coisa que diminuísse o gosto do café meio amargo. Na volta, mais um sobressalto, agora terrível: sobre o sofá alaranjado da sala jazia Matamoros, um punhal espanhol enterrado na vagina. O sangue ainda escorria. Sob os cabelos em desalinho, dois olhos gregos me espreitavam apesar de mortos. 

Saí apressado para voltar inutilmente com um lençol na mão. O sofá permanecia intacto. Matamoros viera do nada, a criação fora um breve sopro cuja dissolução, contudo,  ficará gravada para sempre.

Voltei ao meu quarto. Medo de abrir os olhos. Medo de abrir as páginas. Fantasmas e teorias se cruzavam no ar. Aparições, sombras, penumbras, lampejos e vazio entre as paredes, o que quer que seja aquilo que se entenda por parede: limite, muro, fronteira, guarnição punitiva a eventuais ousadias. Certamente eu estava contaminado, uma peste artaudiana me invadira ao querer espalhar o vírus da poesia na prosa. 

No rádio – quem o ligara? – um samba de Candeia demorava na filosofia, cantando os paradoxos da existência em ritmo dolente. Cruel e confuso, não deixei a canção chegar ao fim. Desabei sobre a cadeira, decidido a voltar ao desrumo de um pensamento já não em fragmentos, mas em frangalhos. 

Perdi a noção do tempo, mas me vi girando em torno de A obscena senhora D, como se eu fosse um alienígena tentando decifrar a órbita de um planeta desconhecido. Nele, enfim, alguém, com propriedade de protagonista, reduz-se de nome a letra, de corpo humano a porca, de busca em naufrágio. A violência, o furor iconoclasta e a transgressão formulam a resposta hilstiana ao desamparo, tanto uma aproximação quanto um distanciamento do divino. O hiato entre deus e o homem não é fixo, funda-se na mobilidade de um pensamento capaz de transformar graça em gozo. Se o abismo é móvel, todas as fronteiras são flutuantes, tudo é em trânsito, tudo pode ser t(r)ocado, mesmo a ausência.

Começara a me empolgar quando uma voz estranha me interrompeu: 

- Por que você insiste nessa escrita século XIX, toda arrumadinha, ordenada, lógica? Fragmente-se, rapaz. 

Ninguém insistira tanto quanto eu. Percebi minha insensatez ao olhar a porca rosada ao meu lado questionando os meus métodos. Após sorrir exultante com a tirada, passou a desfilar sua megalomania pelo pequeno aposento.

Ressentido, dirige-me a ela em termos secos e provocativos: - Fique à vontade, minha cara, aqui em casa não há escadas, não há vãos, não há qualquer refúgio.

Ignorou-me solenemente. Com rapidez e sedução mútua, a porca e Agamben começaram a travar uma conversa amistosa. Discutiram, riram, citaram, divergiram, deram gargalhadas no meio da noite, porém, a partir de certo momento, passaram a se xingar com ironia e discrição, depois com fúria. Irritados com um diálogo que não ouvi,  começaram a atirar palavras um sobre o outro; uma mais pesada, quebrou o vidro da janela, outra danificou a tela do computador, uma frase de Heidegger arrancou-me o óculos. Era um velho embate, questão anterior a Platão: poesia e filosofia se atracavam e se expunham no corpo todo prosa da ficção. Sim, causava perplexidade e estranheza, porém era o jeito de se unirem, misturarem sintaxe e vocabulário, permanência e precariedade; isso nunca aconteceria no campo das amenidades. O diálogo inscrevia a literatura como a última utopia, a busca da palavra inaugural, capaz de alcançar, na literatura que vem, a superação da fratura da palavra originária.

Percebi, então, que eu era uma presença excessiva no texto, deveria me retirar, sair de fininho. 

Saí do quarto, deixei a porta aberta. Abri a página da sala, a porta do livro, senti o vento gelado das folhas da rua. As luzes do trânsito de palavras piscavam no final da noite.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

HELENA DESTRÓIER

















  



   



José Antônio Cavalcanti


A Vênus do telemarketing
sai apressada da sala no sexto
andar
de leveza e vulgaridade
acesa.

Sem medo,
largo a longa fila de emprego,
perco de vista a entrevista
e me atrevo um Páris.

O coração sai em disparada.
A perco de vista
entre a sala 610 e a escada.
O ascensor me escapa
(bem que li no horóscopo
que esse dia não daria em nada).

Desafio os deuses e a idade,
recordista de velocidade
mas chego tarde à Ítaca.

Vejo a Vênus de crachá
girar a roleta do adeus.

A Vênus de tênis e fones
some no meio da multidão,
essa maldita invenção de Baudelaire.

Eu, Heitor hilário e exausto,
acabo arrastado por um carro
no centro do estacionamento
Aquiles Park.

Um transeunte afirmou convicto:
o morto parecia drogado.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

FUGA

Maurits Cornelis Escher
     

      José Antônio Cavalcanti


O hábito não faz o monge
nem sei se habito um tempo
perto de abismo
ou longe
do exorcismo de palavras
em atrito
no palco portátil do mundo.

A poesia,  o que nos escapa
-  a rima imperfeita do infinito.


domingo, 31 de julho de 2011

DESACONTECIMENTO

Vladimir Kush


    















  




 

       José Antônio Cavalcanti


Até então
se podia
seguir
na contramão
do mesmo
ou a esmo.

Havia
vidas fora do
ar,
em vias de rumo
qualquer;
câncer de avidez
em vidros-galerias.
Talvez naufrágio,
talvez poesia.

Pouco a pouco
os gestos gotejam abstratos
como zeros gastos
ou carros abandonados
em fuga.

Sem caminho
na cidade,
sem espessura,
volume,
densidade,
o mundo se desloca,
o eixo da Terra muda.

Tudo se turva,
tudo se nubla,
tudo se apaga,
agora,
com a faca da sua ausência  
cravada na garganta.