terça-feira, 4 de outubro de 2011

FORTUNA BEATRIZ MUNDI

Beatriz Milhazes não existe, é miragem. Soube que uma mulher atende por esse nome, grava entrevistas, dá depoimento, inaugura exposições. Isso não é possível. Contraria as leis da física, a teoria quântica, a geometria e a metafísica. Beatriz Milhazes foi sequestrada pelo governo norte-americano para investigações sobre alienígenas. Dizem que é um programa da Nasa para criar zumbis como eu, mesmerizado, siderado, ligado às suas telas como lanternas acesas da noite do século XXI. Daí não consegui fazer um poema para a minha intergalática musa, mas segue esse samba-encantamento em sua homenagem.


























FORTUNA BEATRIZ MUNDI


                          José Antônio Cavalcanti


I.

Movo-me entre miragens?
As cores com sabor de samba
em explosões Sapucaí?
Solar desfile biopictórico.
de sistemas insondáveis:
flores ou outros mundos
em telas estreladas?








 


















II.

Fazer o outro feliz
nos fios e filamentos
em fuga de pincéis
para olhares alheios.
Sonhos Beatriz
para Dantes em travessia.







 














III.

Colagens circulares
cercam olhos desertos.
É na retina,
lago de imagens inermes,
que luz e cor
sob forma de flor e lua
profanam a tela triste dos dias.







 














IV.

Quando pintar é doar-se,
reger orquestra de orquídeas
em fissuras,
reinar sob rascunhos e rasuras
mirando o ovo vazio
à procura de suculento abismo,
no risco de encarar as tintas
do nihilismo
e gerar alegria na cidade.









 







V.

A impropriedade dos círculos
é que disputam ao olhar o
movimento de leitura de almas.
Somos tomados
pelas formas redondas,
invadidos, devassados,
virados pelo avesso.
No final, imantizados por entretons e tonalidades
na pauta pincelada de hipnótica música plástica,
a exposição é toda nossa.








 












VI.

Tropicolor,
Tropicaos,
Tropicarioca.
Exuberância de passista
fantasiada de Matisse;
pinceladas são passes e cálculo,
geomentiras giroverdades.
Saldo da obra:
tensão entre incessância barroca
e rigor construtivista.




























VII.

Da monotipia
a mundos plurais.
Planos indeterminados
levam as formas a contínuos deslocamentos
ou somos nós que nos deslocamos
ao contemplá-las?
Bordado de Penélope,
o tempo circular anuncia o regresso
do humano ao humano.







 













VIII.

Cabeça de mulher.
planeta
ou óvulo,
tudo circunferências
em que se guardam mundos.
Espesso espaço de pensamentos vastos,
Campo magnético desconhecido
de tons ainda não inventados:
amarelo-fulgor, azul-imperatriz, verde-redondo.






 















IX.

Giramundo
giravisão
girândola
geomotivos em constelações
hegemonia do múltiplo
a cromodiversidade da alegria
do viver carioca
na espacial dimensão humana
de perspectivas que escapam
a cálculo e controle.
























X.

Mandalas,
qual mago, monge ou mandarim
desenharia destinos florais
em vestidos ou tapetes de cortesãs?
Em que escola de samba
uma ala se abriria
para abolir a tinta escura
sobre a esfera oculta dos dias?


























XI.

Os círculos ausentes
são astros inscritos em órbitas impossíveis.
Seus movimentos
proveem as lacunas de águas misteriosas,
alimentam-nas de palavras incompreensíveis.
O que não veio
é o que está no centro,
o mais-para-dentro,
o secreto.
O círculo ausente não é o deserto,
pois os desertos são escritos e abertos.
Só o mais denso em nós se revela em silêncio
e em silêncio nos escapa.







 














XII.

Arcos sobre arcos
vão além do ornamento:
aportam no requinte.
Abundância barroca
costurada pelo rigor Milhazes.
Película, plástico, papel:
dinâmica da cor em velocidade.
Rodas em movimento na tela.





















XIII.

Disco de múltiplas camadas,
de era indeterminada.
Seu tempo foi amanhã
(se houver),
é ontem
e será hoje.
Babélico floral humano:
se a Beleza não resiste ao tempo
também não existe tempo sem Beleza.
A flor, então, é viço para sempre.








 











XIV.

Anel,
arco,
aro,
bola,
roda,
disco,
círculo,
circunferência,
flores, floreios, florilégios,
sacros, profanos, sacrilégios
Arquitextura Milhazes:
“tu és pólen e ao pólen voltarás”.






















XV.

Périplo do pigmento,
galáxia floral,
pintura corrosiva,
veneno antitédio antitristeza.
Limpo os meus olhos
de tantos detritos ao ver-te,
reinauguro a possibilidade
do olhar como forma de invenção.
O olho não apenas cópia,
tradução,
filtro da realidade,
mas o círculo mágico da criação.






 



















XVI.

Em que esferas nós vivemos?
Em que esferas nós dançamos?
Que sejam próximas ao mundo Milhazes,
esferas plenas de gáudio e poesia,
esferas a caminho do aberto e do impossível,
esferas de fantasias e de alegorias carnavalescas;
rodas rodas rodas de bambas
como a mais pura roda de samba.


Rio de Janeiro, 11/11/2009

quarta-feira, 28 de setembro de 2011



INDAGAÇÕES A RESPEITO DE M


  
José Antônio Cavalcanti


Surpreso. Sim. Supresa. Depois de tanto tempo. É como se, de repente, tivesse percebido que houve apenas uma estranha construção: um muro sobre o terreno baldio de nossas vidas. E que estávamos encostados nele, exatamente na mesma posição, embora cada um no seu lado. E as pedras frias nos silenciavam, enquanto deixávamos sem dor e/ou arrependimento chamuscos de carne e massa cinzenta espalhados em volta da nossa solidão.

 

Recordar o quê? Para quê? Lembro muito bem que você mascava chiclete e usava tênis, jeans e um suéter vermelho, de doer as vistas, quando os dragões vieram prendê-la e chicoteá-la; e que eu estava sentado, lendo um tratado sobre alquimia, no momento em que a sentença foi proferida. Ainda tentei reagir, atirei sintaxes sobre os jurados, reneguei a lógica doentia do mundo e compus um elogio ao pássaro suicida, em vão. De que adianta lembrar, re/ver, re/ler, re/volver?

Eu ia até dizer que foi um tempo ruim, todavia o tempo nunca foi, é, continua sendo e será, eterno amanhecendo no mundo, no mesmo instante de ir e de voltar, rompendo barreiras de uma apreensão didático-existencial da vida. O que preciso reconhecer, embora custe bastante, é que tornei-me em e com você; foi o seu hálito que inflou o espaço vazio entre a minha pele e a consciência. Nasci homem no bojo do seu corpo. Sim, um crescimento enorme acordar profundamente enriquecido com o quente de suas carnes viçosas incendiando o desejo; escrever desordenadamente sobre as linhas do seu corpo, sempre à espera de sinais e prodígios. Talvez nos amássemos, quem sabe? É bem verdade que nos recusamos teimosamente a pensar nisso. Havia um acordo tácito de não aprofundar nada, de não erigir eternidade em cima do que é provisório e precário, de fruir o momento, de morder a polpa macia do fruto proibido sem pensar no que pudesse acontecer no estômago. É bem possível que nos iludíssemos e, por trás de laços tão frágeis e inseguros, a vida movesse os seus dedos no sentido de uma relação sem saída, algo de umbigo a umbigo; algo de junção, ponte; algo semelhante a casa com passarinhos, lunetas, mapas-múndi e filhos. Nunca pensamos no amor. Não iríamos sujar nossas esteiras pecaminosas com rótulos, frases feitas, discursos. O silêncio falaria por nós, sem racionalismos estéreis. O esperma ridicularizaria qualquer teoria, o riso apagaria qualquer explicação; os gestos seriam capazes de enevoar o pensamento e, de repente, restava apenas a vegetação intensamente verde transbordando dos seus olhos, falando de vida e perigo, de aventura e sossego, num tempo fora do tempo, no abismo do mundo.

É verdade que não nos deram alternativa, eu sei. O mundo sabe ser cruel. Sensação de mal-estar profundo no vértice do gozo: uma campainha interrompendo o beijo; batidas violentas na porta, deslocando a mão em seu movimento amoroso. Confesso que fiquei paranóico. Hoje amar já não é o mesmo brinquedo. Sempre me ocorre a possibilidade de, subitamente, um carro atravessar a parede e arrebentar a gente na cama, ou sermos violentados por uma quadrilha no banheiro, ou acontecer um incêndio.

Falar agora é inútil. De nada adiantará preencher esse apartamento abandonado de palavras e palavras. Os móveis dizem muito e o aquário, onde um peixe morto há anos transformou-se em um sapo, é capaz de gritar. O discurso não reconstruirá M, a língua nada possui de mediúnica. Nem sei se vale a pena procurar fantasmas, devassar páginas de um diário inútil. Mas M será fruto da imaginação? Aonde foi M? Foi comprar cigarros ou à boutique Shazam? Que fizeram de M? Que fará M neste exato minuto? Às vezes penso que M está na cozinha de uma casa de um subúrbio distante, fazendo um pavoroso café, e se ela pudesse me ouvir me daria um esporro violento, diria que sou um machista-filho-da-puta irrecuperável e o diabo a quatro. Porque, na verdade, M estaria comendo borboletas e colocando um livro na vitrola, a fim de ouvir as visões mais delirantes da loucura. Porque M estaria agonizante na ponta de uma seringa. Porque M estaria assustadíssima, olhando a sua filha, e desesperada por não saber como ser mãe e o que fazer com aquela criatura nascida de um seu esquecimento, uma sua distração numa praia submersa na noite. Porque M estaria tão perdida quanto eu, arrastando todos os móveis para escorar a porta, procurando chaves e cadeados, fechando-se toda, com medo de novos dragões, com medo de um tempo em que discutia amor, poesia e revolução.

Jamais deveria ter voltado, essa re/volta, ler esse apartamento, re/ler sua história, tentar abraçar imagens, fadas, duendes. Nunca se pode compreender a separação que por si mesma não se decidiu, do que ainda não se esgotou, do que ainda é possível, do que sequer se juntou. Não posso abastecer-me do próprio veneno, nem devorar a minha cauda, nem suprimir a parte luminosa no meio desse desvio. Preciso de M e M está fora de mim, fora de si, extirpada do mundo, em outro mundo dentro desse mundo. As raízes cortadas pelos dragões, o amor bloqueado, o nosso ser-no-mundo todo fodido. E, agora, de nós dois resta apenas o resto que sou e cada vez mais vou assumindo o meu próprio vazio, e cada vez mais o meu rosto é este puro desespero de boneco ventríloco, escondido no poeta embriagado, desse boneco capaz de repetir palavras, desse papagaio de luxo que diverte e preenche o tédio de outros tantos bonecos vazios, nos quais a consistência do ser é nula, com os quais a verdade amanhece morta num ônibus lotado, num paletó-e-gravata-cedinho-na-luta. Invento palavras, coloco, sílaba após sílaba, a minha armadura vazia no oco do mundo, e me sustento de entrega e agonia, sangrando auroras pelo meio-dia, sentado no mmheiu-fyu, foRA dhi zinthonyA, fora de Rota, fora desforra de rumo/ramo/rima, porque M está perdida em Peixes e o meu signo é uma merda; porque M está vagando pelo pavilhão do Pinel e hoje não é dia de vis(i)ta arrasadora. Hoje não tem encontro de dor e hambúrguer, coca-cola e loucura. E preciso escamotear os meus sentimentos dentro de frases polidas: – Como está?, dona Isaura. Não se preocupe, M está bem melhor – e passo dias, noites, tentando ser agradável, simpático, educado: um rapazinho encantador. E só posso escrever M porque M mesmo é impossível, porque M agora não está em nenhum lugar do mundo e não adianta tentar me enganar com a voz de M vinda do quarto. E vou voo inventando/inventariando sobre o vazio/vozerio da vida a mis(T)éria(O) d’arte: astúcia & manha, VERdaDE e MENTira, gozo y sufrimento. A arthe é um arte-feto, inútil boneco, uma piada repepetitidada. A artéria só se possibilita em M, seja lá o que M for.

Melhor não nem fechar a aorta. Abrir a artéria/porta para o outro lado de dentro do inferno. Melhor não fechar a torneira, abrir. E que tal quebrar todos os objetos? Ahn?! É uma boa ideia... Ah! Ah! Ah! Ahn?!... E de repente um uivórtice no quarto. I don’t understanding. Oh, no!... E como refazer o sentido desses tapetes/quadros/livros/discos/eletrodomésticos/roupas/papéis/papéis/papéis...

Ir enquanto é tempo. Deixar a porta aberta. Deixar o vento espalhar o gozo do fogo sobre os objetos. O último fósforo.

1979

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Ruptura

Tripthych - Studies from de Human Body - 1970 - Francis Bacon




    José Antônio Cavalcanti


Só, rosto colado à vidraça, na muda contemplação da chuva, sonhava outros tempos, pródigos em esperanças. A chuva, indiferente, caía miúda e persistente. Dona Z não via mais as sombras úmidas por trás do vidro. Seus olhos pareciam um estranho vitral projetado para o passado – um território apascentando túmulos secretos onde apodreciam grandiosos projetos de vida.

Só, como sempre estivera, mesmo ao lado daqueles que saquearam o seu corpo em busca de prazer, observava os seus cacos espalhados por cima da mobília e uma sombrinha abrindo seu colorido desanimado a um canto da sala.

Já não olhava através do vidro embaçado por sua respiração forte e ritmada. Distraída, vagava lentamente entre mesas e arquivos, guiando a matilha de sonhos encurralados no cubo geométrico da rotina.

Nos corredores, quando passava, cochichos. Diziam que ela era..., que ela fora..., que ela fizera... E não podia deixar de magoar-se com risos abafados denunciando intrigas e calúnias. No entanto, temiam-na. Sabiam dos seus grandes poderes: manejara homens, domara chefes, destruíra carreiras. Agora, ao caminhar despojada de trunfos, diminuída em seu prestígio, onde, outrora, tantas vezes desfilara arrogância, resultavam ridículas as joias espalhadas pelo corpo, a roupa forçando formas que ameaçavam se esfarelar. Sim, os seios murchos, sustentados à força da astúcia feminina, as nádegas mambembes, as pernas enxameadas de varizes, ocultas à custa de mil estratagemas, faziam ressurgir a impiedade dos inimigos, as piadas cruéis, as estórias obscenas. Sim, por trás, todos riam. Não obstante, vista de frente, Dona Z ainda impunha respeito: a ostentação de um passado em que o poder transitava por seu corpo permanecia viva nas paredes, nos documentos e na pele dos subalternos.

Só, rosto colado à vidraça, na inquietação transparente dos olhos, contemplava a chuva, líquida cortina a fechar o pano de outros tempos.

A aposentadoria ameaçava invadir os limites do seu ser. A sensação de inutilidade, de ser traste, objeto a ser abandonado, crescia. Um mal-estar horrível o descobrir-se sucata desesquecida entre máquinas, mesas, arquivos, papéis, carimbos, armários, paredes, documentos perdidos como as esperanças perdidas em tantos anos de vida. Anos de morte. Sim, de morte. Com todas as minúcias da burocracia, com todas as exigências impostas pelas necessidades e pelo absurdo. Uma morte vivida em toda a sua formalidade de assinar ponto, preencher de tédio formulários, preparar ofícios ao nada, minutar a dor de todo dia exalando solidão pelos poros. Morte semelhante à sua dissolução entre lençóis e mentiras, sob os quais o gozo era um passo rumo a um futuro melhor, cujas promessas de dinheiro e influência inflaram os olhos e aumentaram a sede de Dona Z: ex-datilógrafa inexperiente oriunda dos conselhos maternos para os perigos do mundo, consumindo-se num trabalho enfadonho, estéril, inútil, desprovido de sentido, numa ignota seção de uma empresa estatal inviabilizada pela inépcia e desinteresse.

Camaleoa, Dona Z acabou adquirindo a cor ambiente. Movendo-se orientada exclusivamente pela estratégia do êxito, assumiu os disfarces como um rosto verdadeiro e perdeu o passo. Dona Z construiu o seu status com os laços da hierarquia, enforcando neles qualquer amizade ou possibilidade de tangência. Sua posição: seu espaço de sofrer. Nele só a angústia medrou forte, densa, generosa.

Dona Z e seus planos de morar bem. Dona Z e seus planos de homem. Dona Z e a distância dos inferiores. Iludindo-se poderosa, não via que amante de chefe era assim: espécie de carro esporte, animal de estimação, coleção de selos.

Só, rosto colado à vidraça, vê na chuva a represa de lágrimas contidas graças a anos de experiência sob o controle dos relógios e das migalhas que lhe atiravam ao leito. Contudo Dona Z secou, definhou, acabou: impossível água em quem pedra, impossível vida em quem moeda. Dona Z é a menor parte de tudo aquilo que poderia ser. Suprimiu os olhos, mineralizou o sexo, amputou os sentimentos, pela ânsia, pela vontade absurda e absoluta de Poder.

À noite, pesadelos desprendiam-se do teto e caíam sobre o seu corpo envelhecido. As carnes flácidas movimentavam-se assustadas sob as cobertas. Morcegos com rostos de anjo vinham pedir-lhe o peito; animais pré-históricos intrometiam-se na vagina; nuvens de insetos tentavam arrastá-la da cama. Dona Z acordava aos gritos, acendia a luz, mas os fantasmas inundavam a noite de angústia e terror.

Pela manhã, ao entrar no elevador, seus olhos apresentavam manchas negras. Os funcionários olhavam maliciosamente. Imaginavam grandes orgias, bacanais com diretores. Não sabiam que Dona Z estava só. O corpo acabara. Acabara o poder.

Olhos eternas névoas. Vitral. Vidraça. Só, como sempre estivera. Enclausurada em triste e vão ofício, arrastava o peso das conveniências pelos sombrios corredores e escadarias intermináveis onde sombras recurvadas pastavam rotina e submissão. Dona Z transitava por perigosos desvios. Corpo fora de forma. Animal enjaulado saudoso de planos e objetivos. Não mais o cortejo dos adoradores, a magia dos gabinetes. Dona Z não compreendia mais nada. Os olhos eternas névoas. Só, rosto colado à vidraça, revia paisagens da distante inocência. Um tempo e sua promessa. Algo se partiu na mente de Dona Z. Ruído de memória fraturada. Sabor de veneno nas palavras. Feras fora de jaulas. Limo sobre a pele. A gosma. A ruína.

De nada valera agarrar-se a serviços robotizantes. Fugitiva de si mesma, transformara o trabalho em ópio e, permanentemente alheia, sobrevivia com a alma cheia de remendos e lacunas. O preenchimento correto e sem rasuras do formulário TD.1 item dois alínea b do artigo três dois quatro de vinte de abril de não existiu. Dona Z e a correspondência. Dona Z e os contínuos. Dona Z e a máquina de escrever. Dona Z e o horário. Dona Z e a dieta. Dona Z e as promoções. E os anos passam, e passam os minutos por cima das carnes molengas, e passam os meses como insetos cavando rugas, e o tempo cava túneis no desejo, e o caminho sem retorno aproxima-se do seu termo.

Dona Z ainda se aguentara segurando muletas invisíveis. Enveredara pelo terreno do conformismo. Argumentara com fervor e resignação. Apelara para todos os espíritos. Peregrinara por terreiros, centros espíritas, igrejas e templos de todas as seitas. Acendera velas com o último fogo da esperança. Tentara construir-se estóica, firme, inabalável. Vestira-se de fatalista, liberta da dor e dos prazeres do mundo. Nada.

E se todos se unirem contra ela? E se quiserem ir às forras? E se a espancarem? E se roubarem as suas joias? E se perder o emprego?

Dona Z era um açude sangrando. A incerteza corroera a precisão de sua fala. Até mesmo os gestos, rigorosamente construídos e profissionais, começaram a desmoronar. Evaporaram-se os sorrisos mecânicos, distribuídos nas ocasiões oportunas; os lânguidos olhares privativos de momentos intimistas com os chefes; a expressão austera e compenetrada de funcionária exemplar como disfarce eficaz. Suas cartas não apresentavam o mesmo grau de correção. A memória, prodígio que a todos assombrava, começara a claudicar: esquecia números de processos, trocava nomes de funcionários, errava telefones. Sua calma, proverbial na empresa, começara a decompor-se. Gesticulava nervosa, erguia a voz, irritava-se pelo motivo mais fútil. Já não chegava pontualmente às oito da manhã. Em todas as seções, os inimigos comentavam. Velhos desafetos caíam na sua pele. Rivais contavam os seus podres, impiedosas. Inimigos, inimigos por toda parte. O mundo só era habitado por cínicos e invejosos. O ser humano não valia nada. Dona Z sentia-se acuada. A humanidade não prestava.

Olhos eternas névoas. Lentes mentirosas inventando cores quentes num ambiente cinzento. Refração da luz. O côncavo e o convexo dos dias. O desvio – intransitável caminho. Sombras recurvadas pastam desânimo entre pilhas de papéis. O barulho de buzinas, máquinas e vozes humanas rege um balé de zumbis. Sinfonia do caos e do desconserto. Gigantesco coral em solidão maior. Sombras subservientes disputam um lugar ao sol. Dona Z descera aos porões da sua inquietude. Instalara a sua fábrica de dúvidas no interior de pensamentos sempre evitados. Dona Z sabia de criaturas despidas de muros, carregando futuro e solidariedade como luzes, mas não acreditava nas canções onde a vida é plenitude.

Dona Z não conseguia dormir. Desde a noite em que começara a sentir algo estranho em seu corpo – um cheiro insuportável a exalar quando se despia. Olhou-se no espelho do guarda-roupa. Mirou, remirou: nada. Aquilo prenunciava perigo. Teve a impressão de que a sua coluna fervia e uma corrente elétrica atravessava-lhe as vértebras.

Olhos eternas névoas. Dona Z, ao andar pelas seções, evitava se expor em demasia. Preferia ficar sentada em sua cadeira, ela, que adorava exibir as suas formas sedutoras por toda parte: ela, que se comprazia em despertar desejos em pobres coitados para entregar-se aos graus mais altos na hierarquia.

Todas as noites, ao despir-se, sentia o cheiro insuportável. No início, pensou existir alguma coisa estragada em casa, quem sabe algum bicho morto? Não obstante, o cheiro provinha do seu próprio corpo. Pensou em consultar um médico, assustada com a possibilidade de encontrar-se profundamente doente, contudo a vergonha tolhia a sua vontade. Talvez estivesse imaginando coisas. Cansaço ou medo, quem sabe?

Uma noite Dona Z descobriu o motivo dos seus sofrimentos. Estarrecida, não quis acreditar. Não era possível aceitar aquilo. Sua coluna, coisa espantosa!, tentava prolongar-se. O último ossinho irrompera pela carne afora, sangrando suas nádegas. Dona Z horrorizou-se. Chorou todos os seus choros. Desesperou-se nas mãos do infortúnio. Gritou aterrorizada, pulando sobre a cama, esmurrando-a, chutando-a com ódio, alucinada. Sua coluna teimava em crescer, teimava em sair do corpo e a dor ultrapassava todas as fronteiras.

Por uma chuvosa manhã carioca Dona Z passara angustiada. Após três dias de falta, ousara retornar ao serviço. Ninguém percebeu toda a tragédia que a abatia. Guardou a ferro e fogo o seu terrível segredo. Viera apressada, cabeça baixa, insegura.

À noite, inferno. Descobrira que o ossinho repartia-se em três. Uma pele já estava se formando sobre as feridas. Ela possuía, oh terror!, três pequenos rabinhos, de aproximadamente cinco centímetros cada. Além da pele, surgiam pelos em todos eles. Nua frente ao espelho, não acreditava no que via.

Olhos eternas névoas colados à vidraça, descolados do mundo. Só, como sempre estivera, Dona Z contemplava a chuva. Cada pingo era uma parte do seu ser dissolvendo-se vertiginosamente. De rainha a ruína. De todo-poderosa a nulidade. Os cabelos embranquecendo. A dentadura. Os óculos. As mãos trêmulas. O andar pausado, convalescente. A pressão. O vidrinho e as pílulas. Os três rabinhos. Asco. Medo de que todos saibam. Monstruosidade. Pânico.

Nem se despia mais. As roupas permaneciam com as joias. Vergonha e medo. Dona Z em extinção. Apenas sombra recurvada perambulando pela cela-repartição, etiquetando cadeados e ferrolhos. A Ordem comandando os nervos. A obediência ilimitada aos preceitos e regulamentos. O chefe. O subchefe. O candidato a chefe. A mulher do chefe. O filho do chefe. O pica do chefe. O chefe do chefe. Dona Z elaborava o relatório de seus tormentos, desfazendo razões, traçando um quadro sombrio: os resultados negativos eram índices de uma alma no vermelho.

Só, rosto colado à vidraça, como sempre estivera. Pelos sombrios corredores e escadarias intermináveis pastavam sombras recurvadas de rotinas. Dona Z não acreditava nas luzes semeadoras do futuro. Dona Z – sombra recurvada – viera trabalhar normalmente. O mesmo ritual. O culto ao dever. As canções metálicas das calculadoras e máquinas de escrever, a geometria anêmica dos arquivos e a assepsia de um piso quase espelho. Como artesã, teceu com habilidade as minúcias do dia, satisfez as exigências: escreveu, leu, carimbou. Às dezessete horas, depois de ter arrumado as gavetas, pegou a sua bolsa e foi ao banheiro. Pela primeira vez na vida quebraria a rotina: sairia da empresa por outra porta.

sábado, 24 de setembro de 2011

O penetra

Três músicos, Clóvis Graciano

     José Antônio Cavalcanti


Mais duas, pensou. O apartamento repleto de ruídos, abria-se a um corre-corre insuportável. Corpos misturados anexaram o corredor e as escadas à sala apertada e insatisfeita. Mãos esvoaçavam ágeis, aumentando o espaço, dissimulando, velozes e vorazes. Crianças modelos, problemas, prodígios, bonitas, doentes, honra e vergonha dos pais, meus filhinhos e minhas filhinhas, queridinhos, gracinhas, levados, coisinhas doces, capetinhas, ingratos, anjos barulhentos e desdentados apunhalavam olhares sequiosos no bolo e seus cúmplices. 

Medo de fotografia. Medo dos pais. Medo. 

O apartamento confeitado, transformado em vitrina, mostra das virtudes familiares. Trabalho e beleza pendurados nas paredes, no teto, no peito orgulhoso dos pais da aniversariante – bichinho murcho, assustado em cima de um banco, estonteado pelas gargalhadas riscando o ar da sala, pela música ensurdecedora, pelo atropelo. Parada, desaprendendo palavras, era uma boneca trabalhada em laços e rendas, vestida em nuvens povoadas de animaizinhos mimosos; uma princesa fotografada em torre medieval.

As paredes elásticas incorporavam novos contingentes de parabéns e presentes. Trovões esganiçados desequilibravam-se em lábios maternos alvejando ordem e respeito (respeito?). Inútil. O chão engolia bombas e brigadeiros destroçados, guaraná, glacê, cerveja, fora o bate-pé da pirraça. Gritos e exclamações transbordavam, manchando a mobília de espanto.
Três anos. A aniversariante, à margem da comemoração, contemplava desanimada pequenos embrulhos em papel colorido, coroados com laços de cores vivas. Três anos. O pai sumira no meio de bandejas, copos e garrafas. A mãe trafegava afoitamente entre os convidados. A vó cozinhava-se ao forno. Três anos. Nos seus ouvidos ressoavam “meu filho é isso, meu filho é aquilo”. Palavras misteriosas – balé, judô, natação, piano, inglês, informática – eram pespegadas às crianças, ampliando-lhes o ser. Assemelhavam-se a crachás, marcas registradas de prosperidade. Pompa e circunstância. Campeonato carnavalesco de maravilhas e virtudes: o filho mais alto, o filho mais gordo, a filha mais inteligente, o mais rápido, o que mija mais longe, o que cospe mais alto... 

Três anos. A aniversariante assustada com o mundo. Num canto murmuravam algo a seu respeito: “ –Coitada! Não cresceu nada!” Noutra rodinha achavam o bolo de mau gosto e os doces mal feitos. Alguém recordava outro aniversário com buffet, palhaços e uma bandinha. 


Três anos. A aniversariante é um confeito a ser devorado. Todos os olhos cravados na transparência do seu rosto; setas do mundo a desvendar-lhe a natureza humana. A garotinha vislumbrava nesgas de carinho, fiapos de ternura tremulando no meio da festa. Transitava leveza por colos e colos, luminosa e fluida. Galgava pernas desconhecidas. Ganhava beijos imprevistos e beijos programados. Elogios ensaiados, forçados, sinceros. Afagos espontâneos ou formais. Só não compreendia que a festa não lhe pertencia.

Mais duas, pensou. Onde caberiam? O apartamento apinhado de gente, um calor insuportável, uma música infantil enfadonha, uma zona. Ao seu lado uma mulher berrava: “– Cláudio! Clááááudio!!”, enquanto a espuma derramava-se pela estante. A mulher bebeu um gole, apertou a orelha do filho, torceu-a com toda a força, tomou outro gole, e largou o Cláudio, trocando a sua orelha por um salgadinho.

Mais três. Não. Tinham saído e voltado. Melhor desistir daquele improfícuo exercício. Sentiu a mãe do Cláudio olhar fixo nos seus olhos. Abaixou-se para cochichar algo com o filho, aproveitando o momento para ampliar o decote, desprotegendo seios morenos e maduros. Sorriu para ele, vulgar e acessível, as formas um tanto excessivas talvez. Mas, ainda assim, era uma mulher encantadora. O filho escapulira para uma brincadeira de super-heróis. Olhou-o de soslaio, promissora.

O pai da aniversariante, muito mais ocupado num minucioso estudo de líquidos liberadores, brigava com a máquina fotográfica, realizando a proeza de estragar quase todas as fotos, podando grandes áreas da filha, decepando cabeças, descobrindo ângulos inéditos e climas irretratáveis. Só a mãe esfalfava-se em vão, ao perceber o desconforto da filha, doida para tudo acabar logo. Por isso, certamente, apressou os parabéns.

O ritual foi exemplar. A massa compacta dos convidados ao redor da mesa. As crianças dando cotoveladas e pisando umas nas outras, impacientes. Os pais de olho no bolo, na aniversariante, vigiando-se. Vela acesa, luz apagada, cantoria, alegria geral. Uma, duas, três vezes. Em cada apagar das luzes, a mãe do Cláudio serpenteava a seu lado, roçando-se.

Livre das obrigações paternas, distribuídos doces e bolos, recolhidos os presentes, o aniversário começou. A hedionda música infantil substituída por uma execrável canção de amor, a mãe do Cláudio chegou-se toda para ele, morna e viscosa, abrindo um leque de ardis e fingimento. Ele, no entanto, observava uma coleção mal conservada de José de Alencar, distraído e bêbado. Não recusava mais nenhum copo, bebia mecanicamente, vendo a aniversariante brincar com outras meninas, dona de uma alegria inimaginável momentos atrás. Olhava-a como quem examina atentamente um quadro que jamais pintará, uma mulher que jamais possuirá, um emprego que nunca será seu. Teria feito igual? Afogado a sua casa de parentes e amigos, estrangulado o prazer, sufocado a vontade de correr, pular, cantar, entulhado cadeiras e sofá de mexericos, futricas de candidatos a pai do ano, mãe exemplar, déspotas impiedosos dos filhos? Talvez. Não, não era juiz, nem podia... Privado de descobrir, restava-lhe morder um quibe e entornar cerveja na roupa, pensando no que fazer com a mulher ao lado.

– Você é amigo do Célio?

A pergunta perturbou-o. Célio? Que Célio? Não conhecia ninguém com aquele nome, entretanto, talvez fosse o pai da aniversariante. 

Ela gozou o seu constrangimento, comprazendo-se com a sua vantagem. Falsamente alarmada, golpeou-o mais forte: 

– Não vá me dizer que não conhece o Célio?!

Claro, já percebera o jogo, a trama primária a revelar-lhe trabalho de amadora. Resolvera aceitar regras viciadas e adaptar-se mansamente, guardando o seu veneno para lances certeiros e mortais. Evitou encará-la quando, diante do seu ar surpreso, ela sorriu triunfante e segredou-lhe, tocando de leve as suas orelhas com lábios sedentos de gozo:

– Célio é o pai da Dinah, a aniversariante.

Em vão esperou explicações. Ele manteve-se nirvânico, desventrando a família pendurada na parede. Imaginando-se chefe de família, pai, marido, feitor de sonhos e destinos. Daria tudo para estrangular a mulher intrometida, pegajosa, crivando-o de perguntas idiotas. Queria lá saber de Célio! Mirou-a feroz e respondeu com mansidão:

– Não conheço nenhum Célio, nenhuma Dinah, ninguém. Para ser sincero sequer me conheço. Ninguém conhece ninguém. Não conheço você. Você não me conhece. Não existe nenhum conhecimento.

Ela tirou outro salgadinho de uma bandeja semideserta. Mordeu-o cheia de glamour, ajeitando com a mão esquerda a alça do soutien. Riu tranquila e satisfeita. Aquela conversa prometia muito. Encostou-se nele e falou baixinho:

– Penetra! Hein... Pensa que me engana, seu malandrinho. Penetra!

Suas palavras recendiam cumplicidade. Uma cumplicidade longa, morena e igual em todas as sílabas. O corpo prolongava a entonação daquelas palavras, ampliando-lhes o sentido, abrindo e travando promessas. Uma cumplicidade sem complacência: exigente, autoritária, possessiva.

Àquela hora a maioria das crianças já havia sido despachada. Algumas, todavia, permaneciam ativas, esquecidas de sono e cansaço. Não obstante, a festa transformara-se num círculo imenso, no qual feixes de energia interligavam os seres. Conversas cifradas, piadas, casos, façanhas, cantadas, feitos e fatos regados a batida, vinho, cerveja ou cachaça faziam do pequeno apartamento uma encruzilhada, ponto de tangência onde almas peregrinas, egressas do tédio e da desesperança, cruzavam e descruzavam caminhos. E isso acendia frações de resistência. Ainda que os encontros fossem construções de descompassos e incertezas. Mesmo que as pessoas se encontrassem apenas para um duelo, uma esgrima de misérias e ausência. Um ponto onde se projetava uma arquitetura de conflitos, prenúncio de inevitável solidão.

– Você está redondamente enganada. Não sou penetra. Apenas estou aqui. Mas não ingressei. Estou fora, entende? Estou aqui e estou fora.

– Bancando o filósofo, hein... Malandrinho! Você , para quem não está, já bebeu um pouquinho, né? Por favor, não fique zangado. Não me interprete mal. Para mim você está aqui e isso é o que importa. Nós dois estamos, conversamos, nos divertimos aqui e agora. Nós nos encontramos. Isso não é maravilhoso?

– Maravilhoso? Mas eu nem sei o seu nome. Não, absolutamente, não nos encontramos, apenas nos enganamos. Não conversamos – encadeamos sons desordenados, ilógicos, providos de farpas, cadeia ilusória de sentidos. Presos a graus cada vez maiores de cegueira, circulamos vazios e atados aos grilhões de frases desconexas, absurdamente prolixos e pedantes. Bebemos, comemos; sequer nos divertimos.

Ela procurou o Cláudio com olhos desatentos. Rápida e faceira, atrapalhava-o. Provocante e fácil, deixava-o desarmado, escravizado a uma psicologia livresca e protocolar, a enquadrar personalidades em tipos humanos, despercebido do rio caudaloso da existência, fértil em descobertas e diferenças. A imprevista capacidade de absorção criava-lhe embaraços. Definitivamente, vulgaridade revelava-se tão-somente sinônimo de algo imponderável, indefinível. Étimo modificado por um lodo deformador, filtro de olhos decadentes, alfinetando rótulos, provando juízos e valores nas pessoas à revelia de vítimas e ciência. Deselegante e atabalhoada, vista num relance, exorbitava fronteiras de compreensão, minava certezas.

Irresoluto e desconcertado, ele segurava com dificuldade um copo cheio de vinho há mais de meia hora, escorando uma parede oscilante. Achava que a aniversariante pendurada na parede poderia trazer a assinatura de Rubens. O fotógrafo caprichara. Talvez a mãe houvesse gasto vinte e quatro horas para arrumar os cachos, o vestidinho branco com rendas azuis. Fitinhas. A posição certa. O ar certo. O olhar certo. A luz. O ambiente. O tamanho. O preço.

– Tentando me enrolar, hein... seu malandrinho! Vai ver que você não é nem penetra. Então não somos nada, nada valemos, mas você bebe, come, conversa. Só não existe. Ou será que a bebida tem a capacidade de torná-lo vazio? Há pessoas que gostam de posar de vazias. Constroem-se vítimas, alvos eternos da infelicidade e da angústia. Algumas buscam até fundamentos, leem livros complicadíssimos, conhecem teorias da dor e do sofrimento, forjando explicações esfarrapadas para males inexistentes. Vazio não é quem se esvazia? Isso não é ser vítima do próprio crime?

Como é que ela podia conciliar tanto, abrir-se banal e invulgar. Droga. Mais um malandrinho daqueles, salivoso, e perderia a cabeça. Tornou-se mais fechado, impermeável. As pessoas oscilavam bojudas e graves. A aniversariante fazia oitenta anos. O pai fotografara animais em extinção num baile sem dança, sem máscara, sem motivo. Não podia aceitar acusações. Ela investia-se de poderes divinos. Grosseira e leviana, tentava incriminá-lo, recitando um discurso de assistente social de baixo calibre. Lutava por derrubá-lo rapidamente, colocando suas ideias no terreno do subproduto alcoólico. Ágil fêmea morena, senhora de formas em molde de cobiça. Morna matrona, tepidez do desejo nascendo irrefreável. Aranha pequena colhendo em teia tão frágil uma construção sem vigas, sem alicerces. Animal vulgar enxameando a cabeça de milhares de malandrinhos repugnantes, qualificativos lançados a um mar sem fundo. Ele segurava um copo inexplicavelmente cheio de vinho vagabundo. Agarrara-se a uma vagabunda, mãe de um vagabundinho, numa festa vagabunda, numa vida vagabunda. Não, não estava tonto. O vinho não poderia derrubá-lo. Um penetra nunca é derrubado, apenas enxotado pela família, pelos amigos da casa, pelos outros penetras. Ouvia o ritmo nervoso da música. Percebia os movimentos rápidos de dançarinos improvisados. Insuportáveis, agora, eram aqueles olhos tépidos injetando sobressaltos na sua alma. A proximidade de carnes. O contato de peles. O entrecruzar de hálitos. Dedos tocando-se mágicos.

Ela gritara pelo Cláudio bem alto. O garoto veio cabisbaixo, sonolento. Segurou o filho no colo, depois de limpar a boca com um guardanapo de papel e de tomar o último gole. Imponente e fútil, esperou pacientemente por ele. Percorreu todo o seu corpo com os olhos ansiosos. O filho pesava muito em braços enfraquecidos. A festa era algo distante, sem qualquer ligação com ela. Um rumor de vozes do outro lado do planeta Terra. Uma aldeia perdida numa selva comemorando ritos milenares: o plantio e a colheita, a fecundidade da terra, a perpetuidade da vida. A festa era um simples penetra em quem gostaria de abrigar o seu corpo, incrustar os seus pensamentos. Mas ele armava muros. Repelira com palavras veementes aquilo que afirmava com olhos de cão faminto. E agora, desguarnecida de trunfos, empunhava espadas no olhar, ameaçadora, terrível. Despojada de lógicas e razões, concentrava-se toda em seus contornos, densa, repleta, transbordante.

Ele perdia todas as folhas com a ventania soprando forte e inflexível. A lacuna dentro dos seus atos não se extinguiria. O vazio não bateria em retirada. A dor e a solidão permaneceriam acesas. Nenhuma comunicação. Nenhuma mensagem. Nenhum chamado o salvaria.

– Vamos?

A pergunta tirou-o daquela zona de turbulência, clareando a sala e as pessoas. Tomou-lhe o filho e carregou-o cuidadosamente. Uma gosma escorreu por seu ombro direito. Sentira o tênis emplastrado de doces. Suava. A quentura daquele corpinho molhava a sua camisa.

Quando entraram no elevador, ele observou que ela tinha as mãos ocupadas; pratinhos com doces, bolo e salgados equilibravam-se como por encanto. Ela fitou-o gulosa e ordenou-lhe:

– Quinto andar.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O craque

Ilustração de GILMAR FRAGA



      José Antônio Cavalcanti


Até que eu estava jogando bem, já havia cabeceado uma bola na trave e obrigado o goleiro a realizar duas defesas magistrais. Passe de calcanhar, de letra, trivela, finta, drible de corpo: um repertório luxuoso. Fui considerado o melhor jogador durante os primeiros quarenta e cinco minutos. Alguns, mais generosos, atribuíam a resistência do outro time à truculência da zaga.

O zero a zero do primeiro tempo fora injusto para o futebol apresentado pela nossa equipe. Tínhamos de aproveitar os quinze minutos finais da partida para assegurar a nossa vitória, já que na etapa final o adversário voltara bem melhor. Foi aí que o Peninha fez um senhor lançamento. Ganhei do cabeça de área deles na corrida e driblei o quarto-zagueiro, deixando-o caído no gramado. O goleiro já estava vencido. Era só dar um toque para o canto direito. A bola já ia beijar as redes adversárias. Quando eu preparava a canhota, no entanto, apareceu um cara encostado na trave direita. Na mão do homem, como um mortal apito de um árbitro seguidor de estranhos regulamentos, uma pistola sete meia cinco inverteu a jogada. A perna tremeu. A bola passou zunindo por cima do travessão. O desgraçado, ainda com o corpanzil encostado na trave direita, guardou a arma na cintura e correu para o bolo formado por repórteres e fotógrafos.

A revolta da torcida desabou sobre a minha cabeça. O Maracanã inteiro passou a me vaiar. Torcidas organizadas e desorganizadas urravam desespero. Vozes madureiras, jacarepaguás, copacabanas, tijucas, ilhas, baixadas, todo um dicionário de xingamentos, uma sinfonia de insultos - o múltiplo canto dos excluídos, agora expulsos também da alegria redentora de um título, único bem a ser exibido e carregado pela maioria nos bares, nos becos e nas ruas da cidade.

Os jogadores do meu time começaram a me hostilizar, evitando passar a bola para mim. A zaga do outro time cismou de baixar o sarrafo nas poucas vezes em que consegui tentar algo mais ousado. O juiz aproveitou uma dividida (quase arrebentaram o meu tornozelo) e me sapecou um cartão amarelo. Os comentaristas insuflavam o ódio da massa. Um repórter, ansioso por aumentar a audiência de sua emissora, informou, com uma entonação pausada e maldosa, a minha presença, no dia anterior ao da partida, na casa do goleiro adversário, e o resultado do nosso encontro tinha ficado claro naquele lance. A torcida não perdoou: o estádio veio abaixo. Praias, favelas, subúrbios, zona norte, zona sul: todo o Rio de Janeiro explodiu: de raiva, os nossos torcedores; de prazer zombeteiro; todos os outros, entregues à explosão de contentamento, deboche, piadas, canções infames, zombarias, insultos...

O técnico retirou-me de campo, maldizendo a hora em que me tinha escalado. Fui obrigado a sair às carreiras, evitando a chuva de pedras, latas de cerveja e outros objetos despejados sobre mim das arquibancadas e da geral. Vários jornalistas tentaram me seguir na boca do túnel, queriam saber se eram verdadeiras as informações de que um dirigente do outro clube teria encarregado o goleiro de me oferecer uma vultosa quantia para evitar gols. Consegui escapulir. Tranquei-me no vestiário, suportando o olhar de desprezo do Geraldão, o roupeiro, e de outros funcionários do clube.

O jogo acabou. O time entrou no vestiário. Não perdemos; mas o empate nos eliminou da decisão do campeonato. Ninguém me dirigiu uma palavra de conforto ou esboçou a menor tentativa de crítica. O nojo e a revolta surda eram visíveis. Foram embora sem o bicho que antes consideravam no papo. Talvez o clube também não pagasse os salários atrasados.

Por um rádio de pilha, ouvi um comentarista arrasar a baderna no futebol, a corrupção entre cartolas, jogadores e empresários. E eu era o pivô de tudo - símbolo da degradação do futebol. Ninguém percebera um cara encostado na trave direita me apontando uma pistola. A multidão revoltada me esperava na saída. A polícia garantia, com precariedade, a segurança da minha família, pois torcedores exaltados rondavam a minha residência e tinham até atirado pedras na minha mulher, totalmente avessa ao futebol, quando brincava com as crianças no jardim.

Minha explicação foi motivo de piada. Ninguém vira o homem com uma sete meia cinco encostado na trave direita da outra equipe. Houve riso, ironia, indignação. Tornei-me um exemplo de noitadas, bebedeiras, orgias. Seguramente, eu havia entrado sob o efeito de alguma droga em campo. Como me deixaram escapar do exame antidoping? Tudo isso, levianamente disseminado pela mídia, multiplicava o meu desespero. Como tudo pôde acontecer? Como explicar esse pesadelo? Nenhuma emissora apresentou uma imagem capaz de dar veracidade à minha história. Nenhuma foto. Nenhuma testemunha. Nenhuma pista, por mínima que fosse.

Agora vou esperar muitas horas até que os ânimos esfriem. Amanhã evitarei os amigos, não lerei os jornais. E pensar que, ainda ontem, eu era considerado uma das revelações do campeonato.

Já é madrugada e amargura. Ninguém mais no estacionamento, apenas eu e quatro pms. Não, há mais alguém. Sim, o carro de algum retardatário só agora está saindo; passa lentamente bem ao meu lado. Ao volante, o homem da sete meia cinco me manda um beijo.


segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Dia de compras



     
O cara veio correndo em desabalada carreira. Na pressa de fugir, ou de chegar, esbarrou na mulher de lenço na cabeça e derrubou as suas compras. A mulher não pôde conter o desespero e começou a chorar copiosamente por causa de sua impotência face a avidez de dezenas de mãos disputando latas de sardinha, de salsicha, bananas, sacos de açúcar, detergente, sabão em pó, goiabada e tantas coisas espalhadas por cima da caixa de ovos, esmagados no afã de todos em pegar os alimentos e artigos de limpeza.

O cara já estava longe, dobrando uma esquina bem distante. A mulher tentou argumentar com o gerente. O gerente deu a entender que não tinha nada a ver com aquela história, portanto não o amolasse. A mulher recomeçou a chorar e a discutir em termos violentos com o homem intransigente. Formou-se um bolo ao redor dos dois, do que se aproveitou um molequinho franzino para roubar a bolsa da queixosa com alguns trocados remanescentes. O desespero da mulher alcançou proporções explosivas. Era lavadeira, mulher de um trabalhador da construção civil e tinha cinco filhos. Insistia no seu direito em pegar tudo que constava na nota da caixa número cinco em suas mãos trêmulas. O gerente, nervoso com o escândalo, não arredava pé de sua intolerância.

Meia hora depois, a mulher já estava novamente com o carrinho cheio na fila. Queria que a empacotadora arrumasse tudo nas sacolas com rapidez porque ela não iria pagar outra vez e já se atrasara demais. O gerente disse que ia sim. Ela disse que ia não. O pessoal da fila protestou por ela ter ido direto à caixa número cinco. Justificou-se dizendo que não ia pagar, uma vez que as suas compras foram derrubadas, fizeram um arrasa-arrasa e, depois disso, um pivete tinha arrancado a sua bolsa. Alguns sorrisos irônicos e descrentes apareceram na fila. O gerente impediu que a menina empacotasse as compras da mulher de lenço na cabeça. Ela recomeçou a chorar. Implorou ao gerente, disse que o marido era muito ignorante, se ela chegasse em casa sem as compras e sem o dinheiro, ele iria falar que ela estava mentindo, que tinha outro homem. O gerente não tinha nada com isso. O pessoal da fila da caixa número cinco não tinha nada com isso. O vespeiro humano começou a vaiar a mulher. Uma marafona corpulenta passou-lhe à frente no peito. A mulher de lenço na cabeça quis reclamar daquele atrevimento, porém o gigolô da marafona corpulenta deu-lhe uma porrada na nuca e a mulher caiu estatelada no chão brilhante do supermercado. As filas uniram-se em aplausos e piadas. Um engraçadinho quis tirar chinfra de gostoso e tentou ajudar a mulher, mas a segurança da casa já estava a postos e imobilizou o rapaz, retirando-o do meio do tumulto. Depois de descartar-se do intrujão, a segurança pegou a mulher de lenço na cabeça, que perdera as compras devido a um esbarrão fortuito, fora surrupiada por um pivete e esmurrada pelo macho da nega corpulenta, e arrastou-a para fora do supermercado. O gerente aproveitou a ocasião para fazer uma imperdível oferta-relâmpago, estratégia que lhe permitiu chamar um camburão estacionado a poucos metros sem despertar grande interesse dos clientes. Ele conversou demoradamente com um pm. A mulher de lenço na cabeça tentou explicar a sua situação. Os pms não quiseram papo. Um, de bigodinho fino, passou-lhe uma rasteira e o outro, de óculos, mandou-a parar de palhaçada. O terceiro veio por trás e segurou a mulher de lenço na cabeça, colocando-a próxima à traseira do veículo, enquanto o de bigodinho fino abria a porta. A mulher começou a se apavorar e a protestar inocência, mas de nada lhe valeu. O de bigodinho deu-lhe um ruidoso telefone que sangrou os ouvidos, e o que tinha saído por último meteu-lhe um pontapé nas costas tão violento que jogou-a dentro do camburão. Os três acabaram o serviço, cumprimentaram a segurança do supermercado e receberam tapinhas do gerente.