sábado, 5 de novembro de 2011
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Antes que a noite termine
José Antônio Cavalcanti
Enjaulado em zoomotel
amo teu sexo em brasa,
entre bijuterias e botox.
Esqueço os piercings e o código,
erro a senha de acesso às tatuagens
entre as tuas pernas resinosas.
Há vida em outras gaiolas,
câmaras de torturas e obscenidades.
Casais em aço e alumínio
acariciam a polpa do vazio,
entre urros, contas e fantasia.
Enlouqueço sobre, dentro, fora.
Ofereço carícia e ferocidade,
corto a jugular de passado e família.
O prédio cercado pela polícia,
imerso em sirenes e silicone,
descubro drogado de desalento:
só eu amo e danço na contramão.
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
INTERLÚDIO
José Antônio Cavalcanti
Ela segurava
em pose sibilina e solene
(como uma gravura
capta
em placa de madeira, metal ou pedra
o gesto que escapa)
a xícara de chá
- serigrafia viperina do momento
em que o pulso se paralisa
tocado pela graça da anima feminina.
A fumaça exalava
o meu corpo convertido em fantasma
por ruína, pânico ou arrefecimento.
Ao vê-la
eu era o vilão,
olhar caviloso
cruel
canalha
corpo de cão
cravando a carne
em grades.
Eis que algo escapa
a mínimo domínio:
misterioso mimo,
o dedo mindinho
se liberta da asa;
flutua no ar
a mulher agora anjo.
terça-feira, 4 de outubro de 2011
FORTUNA BEATRIZ MUNDI
Beatriz Milhazes não existe, é miragem. Soube que uma mulher atende por esse nome, grava entrevistas, dá depoimento, inaugura exposições. Isso não é possível. Contraria as leis da física, a teoria quântica, a geometria e a metafísica. Beatriz Milhazes foi sequestrada pelo governo norte-americano para investigações sobre alienígenas. Dizem que é um programa da Nasa para criar zumbis como eu, mesmerizado, siderado, ligado às suas telas como lanternas acesas da noite do século XXI. Daí não consegui fazer um poema para a minha intergalática musa, mas segue esse samba-encantamento em sua homenagem.

FORTUNA BEATRIZ MUNDI
José Antônio Cavalcanti
I.
Movo-me entre miragens?
As cores com sabor de samba
em explosões Sapucaí?
Solar desfile biopictórico.
de sistemas insondáveis:
flores ou outros mundos
em telas estreladas?

José Antônio Cavalcanti
I.
Movo-me entre miragens?
As cores com sabor de samba
em explosões Sapucaí?
Solar desfile biopictórico.
de sistemas insondáveis:
flores ou outros mundos
em telas estreladas?

II.
Fazer o outro feliz
nos fios e filamentos
em fuga de pincéis
para olhares alheios.
Sonhos Beatriz
para Dantes em travessia.

Fazer o outro feliz
nos fios e filamentos
em fuga de pincéis
para olhares alheios.
Sonhos Beatriz
para Dantes em travessia.

III.
Colagens circulares
cercam olhos desertos.
É na retina,
lago de imagens inermes,
que luz e cor
sob forma de flor e lua
profanam a tela triste dos dias.

Colagens circulares
cercam olhos desertos.
É na retina,
lago de imagens inermes,
que luz e cor
sob forma de flor e lua
profanam a tela triste dos dias.

IV.
Quando pintar é doar-se,
reger orquestra de orquídeas
em fissuras,
reinar sob rascunhos e rasuras
mirando o ovo vazio
à procura de suculento abismo,
no risco de encarar as tintas
do nihilismo
e gerar alegria na cidade.

Quando pintar é doar-se,
reger orquestra de orquídeas
em fissuras,
reinar sob rascunhos e rasuras
mirando o ovo vazio
à procura de suculento abismo,
no risco de encarar as tintas
do nihilismo
e gerar alegria na cidade.

V.
A impropriedade dos círculos
é que disputam ao olhar o
movimento de leitura de almas.
Somos tomados
pelas formas redondas,
invadidos, devassados,
virados pelo avesso.
No final, imantizados por entretons e tonalidades
na pauta pincelada de hipnótica música plástica,
a exposição é toda nossa.

A impropriedade dos círculos
é que disputam ao olhar o
movimento de leitura de almas.
Somos tomados
pelas formas redondas,
invadidos, devassados,
virados pelo avesso.
No final, imantizados por entretons e tonalidades
na pauta pincelada de hipnótica música plástica,
a exposição é toda nossa.

VI.
Tropicolor,
Tropicaos,
Tropicarioca.
Exuberância de passista
fantasiada de Matisse;
pinceladas são passes e cálculo,
geomentiras giroverdades.
Saldo da obra:
tensão entre incessância barroca
e rigor construtivista.

VII.
Da monotipia
a mundos plurais.
Planos indeterminados
levam as formas a contínuos deslocamentos
ou somos nós que nos deslocamos
ao contemplá-las?
Bordado de Penélope,
o tempo circular anuncia o regresso
do humano ao humano.

Tropicolor,
Tropicaos,
Tropicarioca.
Exuberância de passista
fantasiada de Matisse;
pinceladas são passes e cálculo,
geomentiras giroverdades.
Saldo da obra:
tensão entre incessância barroca
e rigor construtivista.

VII.
Da monotipia
a mundos plurais.
Planos indeterminados
levam as formas a contínuos deslocamentos
ou somos nós que nos deslocamos
ao contemplá-las?
Bordado de Penélope,
o tempo circular anuncia o regresso
do humano ao humano.

VIII.
Cabeça de mulher.
planeta
ou óvulo,
tudo circunferências
em que se guardam mundos.
Espesso espaço de pensamentos vastos,
Campo magnético desconhecido
de tons ainda não inventados:
amarelo-fulgor, azul-imperatriz, verde-redondo.

Cabeça de mulher.
planeta
ou óvulo,
tudo circunferências
em que se guardam mundos.
Espesso espaço de pensamentos vastos,
Campo magnético desconhecido
de tons ainda não inventados:
amarelo-fulgor, azul-imperatriz, verde-redondo.

IX.
Giramundo
giravisão
girândola
geomotivos em constelações
hegemonia do múltiplo
a cromodiversidade da alegria
do viver carioca
na espacial dimensão humana
de perspectivas que escapam
a cálculo e controle.

X.
Mandalas,
qual mago, monge ou mandarim
desenharia destinos florais
em vestidos ou tapetes de cortesãs?
Em que escola de samba
uma ala se abriria
para abolir a tinta escura
sobre a esfera oculta dos dias?

XI.
Os círculos ausentes
são astros inscritos em órbitas impossíveis.
Seus movimentos
proveem as lacunas de águas misteriosas,
alimentam-nas de palavras incompreensíveis.
O que não veio
é o que está no centro,
o mais-para-dentro,
o secreto.
O círculo ausente não é o deserto,
pois os desertos são escritos e abertos.
Só o mais denso em nós se revela em silêncio
e em silêncio nos escapa.

Giramundo
giravisão
girândola
geomotivos em constelações
hegemonia do múltiplo
a cromodiversidade da alegria
do viver carioca
na espacial dimensão humana
de perspectivas que escapam
a cálculo e controle.

X.
Mandalas,
qual mago, monge ou mandarim
desenharia destinos florais
em vestidos ou tapetes de cortesãs?
Em que escola de samba
uma ala se abriria
para abolir a tinta escura
sobre a esfera oculta dos dias?

XI.
Os círculos ausentes
são astros inscritos em órbitas impossíveis.
Seus movimentos
proveem as lacunas de águas misteriosas,
alimentam-nas de palavras incompreensíveis.
O que não veio
é o que está no centro,
o mais-para-dentro,
o secreto.
O círculo ausente não é o deserto,
pois os desertos são escritos e abertos.
Só o mais denso em nós se revela em silêncio
e em silêncio nos escapa.

XII.
Arcos sobre arcos
vão além do ornamento:
aportam no requinte.
Abundância barroca
costurada pelo rigor Milhazes.
Película, plástico, papel:
dinâmica da cor em velocidade.
Rodas em movimento na tela.

XIII.
Disco de múltiplas camadas,
de era indeterminada.
Seu tempo foi amanhã
(se houver),
é ontem
e será hoje.
Babélico floral humano:
se a Beleza não resiste ao tempo
também não existe tempo sem Beleza.
A flor, então, é viço para sempre.

Arcos sobre arcos
vão além do ornamento:
aportam no requinte.
Abundância barroca
costurada pelo rigor Milhazes.
Película, plástico, papel:
dinâmica da cor em velocidade.
Rodas em movimento na tela.

XIII.
Disco de múltiplas camadas,
de era indeterminada.
Seu tempo foi amanhã
(se houver),
é ontem
e será hoje.
Babélico floral humano:
se a Beleza não resiste ao tempo
também não existe tempo sem Beleza.
A flor, então, é viço para sempre.

XIV.
Anel,
arco,
aro,
bola,
roda,
disco,
círculo,
circunferência,
flores, floreios, florilégios,
sacros, profanos, sacrilégios
Arquitextura Milhazes:
“tu és pólen e ao pólen voltarás”.

XV.
Périplo do pigmento,
galáxia floral,
pintura corrosiva,
veneno antitédio antitristeza.
Limpo os meus olhos
de tantos detritos ao ver-te,
reinauguro a possibilidade
do olhar como forma de invenção.
O olho não apenas cópia,
tradução,
filtro da realidade,
mas o círculo mágico da criação.

Anel,
arco,
aro,
bola,
roda,
disco,
círculo,
circunferência,
flores, floreios, florilégios,
sacros, profanos, sacrilégios
Arquitextura Milhazes:
“tu és pólen e ao pólen voltarás”.

XV.
Périplo do pigmento,
galáxia floral,
pintura corrosiva,
veneno antitédio antitristeza.
Limpo os meus olhos
de tantos detritos ao ver-te,
reinauguro a possibilidade
do olhar como forma de invenção.
O olho não apenas cópia,
tradução,
filtro da realidade,
mas o círculo mágico da criação.

XVI.
Em que esferas nós vivemos?
Em que esferas nós dançamos?
Que sejam próximas ao mundo Milhazes,
esferas plenas de gáudio e poesia,
esferas a caminho do aberto e do impossível,
esferas de fantasias e de alegorias carnavalescas;
rodas rodas rodas de bambas
como a mais pura roda de samba.
Em que esferas nós vivemos?
Em que esferas nós dançamos?
Que sejam próximas ao mundo Milhazes,
esferas plenas de gáudio e poesia,
esferas a caminho do aberto e do impossível,
esferas de fantasias e de alegorias carnavalescas;
rodas rodas rodas de bambas
como a mais pura roda de samba.
Rio de Janeiro, 11/11/2009
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
INDAGAÇÕES A RESPEITO DE M
José Antônio Cavalcanti
Surpreso. Sim. Supresa. Depois de tanto tempo. É como se, de repente, tivesse percebido que houve apenas uma estranha construção: um muro sobre o terreno baldio de nossas vidas. E que estávamos encostados nele, exatamente na mesma posição, embora cada um no seu lado. E as pedras frias nos silenciavam, enquanto deixávamos sem dor e/ou arrependimento chamuscos de carne e massa cinzenta espalhados em volta da nossa solidão.
Recordar o quê? Para quê? Lembro muito bem que você mascava chiclete e usava tênis, jeans e um suéter vermelho, de doer as vistas, quando os dragões vieram prendê-la e chicoteá-la; e que eu estava sentado, lendo um tratado sobre alquimia, no momento em que a sentença foi proferida. Ainda tentei reagir, atirei sintaxes sobre os jurados, reneguei a lógica doentia do mundo e compus um elogio ao pássaro suicida, em vão. De que adianta lembrar, re/ver, re/ler, re/volver?
Eu ia até dizer que foi um tempo ruim, todavia o tempo nunca foi, é, continua sendo e será, eterno amanhecendo no mundo, no mesmo instante de ir e de voltar, rompendo barreiras de uma apreensão didático-existencial da vida. O que preciso reconhecer, embora custe bastante, é que tornei-me em e com você; foi o seu hálito que inflou o espaço vazio entre a minha pele e a consciência. Nasci homem no bojo do seu corpo. Sim, um crescimento enorme acordar profundamente enriquecido com o quente de suas carnes viçosas incendiando o desejo; escrever desordenadamente sobre as linhas do seu corpo, sempre à espera de sinais e prodígios. Talvez nos amássemos, quem sabe? É bem verdade que nos recusamos teimosamente a pensar nisso. Havia um acordo tácito de não aprofundar nada, de não erigir eternidade em cima do que é provisório e precário, de fruir o momento, de morder a polpa macia do fruto proibido sem pensar no que pudesse acontecer no estômago. É bem possível que nos iludíssemos e, por trás de laços tão frágeis e inseguros, a vida movesse os seus dedos no sentido de uma relação sem saída, algo de umbigo a umbigo; algo de junção, ponte; algo semelhante a casa com passarinhos, lunetas, mapas-múndi e filhos. Nunca pensamos no amor. Não iríamos sujar nossas esteiras pecaminosas com rótulos, frases feitas, discursos. O silêncio falaria por nós, sem racionalismos estéreis. O esperma ridicularizaria qualquer teoria, o riso apagaria qualquer explicação; os gestos seriam capazes de enevoar o pensamento e, de repente, restava apenas a vegetação intensamente verde transbordando dos seus olhos, falando de vida e perigo, de aventura e sossego, num tempo fora do tempo, no abismo do mundo.
É verdade que não nos deram alternativa, eu sei. O mundo sabe ser cruel. Sensação de mal-estar profundo no vértice do gozo: uma campainha interrompendo o beijo; batidas violentas na porta, deslocando a mão em seu movimento amoroso. Confesso que fiquei paranóico. Hoje amar já não é o mesmo brinquedo. Sempre me ocorre a possibilidade de, subitamente, um carro atravessar a parede e arrebentar a gente na cama, ou sermos violentados por uma quadrilha no banheiro, ou acontecer um incêndio.
Falar agora é inútil. De nada adiantará preencher esse apartamento abandonado de palavras e palavras. Os móveis dizem muito e o aquário, onde um peixe morto há anos transformou-se em um sapo, é capaz de gritar. O discurso não reconstruirá M, a língua nada possui de mediúnica. Nem sei se vale a pena procurar fantasmas, devassar páginas de um diário inútil. Mas M será fruto da imaginação? Aonde foi M? Foi comprar cigarros ou à boutique Shazam? Que fizeram de M? Que fará M neste exato minuto? Às vezes penso que M está na cozinha de uma casa de um subúrbio distante, fazendo um pavoroso café, e se ela pudesse me ouvir me daria um esporro violento, diria que sou um machista-filho-da-puta irrecuperável e o diabo a quatro. Porque, na verdade, M estaria comendo borboletas e colocando um livro na vitrola, a fim de ouvir as visões mais delirantes da loucura. Porque M estaria agonizante na ponta de uma seringa. Porque M estaria assustadíssima, olhando a sua filha, e desesperada por não saber como ser mãe e o que fazer com aquela criatura nascida de um seu esquecimento, uma sua distração numa praia submersa na noite. Porque M estaria tão perdida quanto eu, arrastando todos os móveis para escorar a porta, procurando chaves e cadeados, fechando-se toda, com medo de novos dragões, com medo de um tempo em que discutia amor, poesia e revolução.
Jamais deveria ter voltado, essa re/volta, ler esse apartamento, re/ler sua história, tentar abraçar imagens, fadas, duendes. Nunca se pode compreender a separação que por si mesma não se decidiu, do que ainda não se esgotou, do que ainda é possível, do que sequer se juntou. Não posso abastecer-me do próprio veneno, nem devorar a minha cauda, nem suprimir a parte luminosa no meio desse desvio. Preciso de M e M está fora de mim, fora de si, extirpada do mundo, em outro mundo dentro desse mundo. As raízes cortadas pelos dragões, o amor bloqueado, o nosso ser-no-mundo todo fodido. E, agora, de nós dois resta apenas o resto que sou e cada vez mais vou assumindo o meu próprio vazio, e cada vez mais o meu rosto é este puro desespero de boneco ventríloco, escondido no poeta embriagado, desse boneco capaz de repetir palavras, desse papagaio de luxo que diverte e preenche o tédio de outros tantos bonecos vazios, nos quais a consistência do ser é nula, com os quais a verdade amanhece morta num ônibus lotado, num paletó-e-gravata-cedinho-na-luta. Invento palavras, coloco, sílaba após sílaba, a minha armadura vazia no oco do mundo, e me sustento de entrega e agonia, sangrando auroras pelo meio-dia, sentado no mmheiu-fyu, foRA dhi zinthonyA, fora de Rota, fora desforra de rumo/ramo/rima, porque M está perdida em Peixes e o meu signo é uma merda; porque M está vagando pelo pavilhão do Pinel e hoje não é dia de vis(i)ta arrasadora. Hoje não tem encontro de dor e hambúrguer, coca-cola e loucura. E preciso escamotear os meus sentimentos dentro de frases polidas: – Como está?, dona Isaura. Não se preocupe, M está bem melhor – e passo dias, noites, tentando ser agradável, simpático, educado: um rapazinho encantador. E só posso escrever M porque M mesmo é impossível, porque M agora não está em nenhum lugar do mundo e não adianta tentar me enganar com a voz de M vinda do quarto. E vou voo inventando/inventariando sobre o vazio/vozerio da vida a mis(T)éria(O) d’arte: astúcia & manha, VERdaDE e MENTira, gozo y sufrimento. A arthe é um arte-feto, inútil boneco, uma piada repepetitidada. A artéria só se possibilita em M, seja lá o que M for.
Melhor não nem fechar a aorta. Abrir a artéria/porta para o outro lado de dentro do inferno. Melhor não fechar a torneira, abrir. E que tal quebrar todos os objetos? Ahn?! É uma boa ideia... Ah! Ah! Ah! Ahn?!... E de repente um uivórtice no quarto. I don’t understanding. Oh, no!... E como refazer o sentido desses tapetes/quadros/livros/discos/eletrodomésticos/roupas/papéis/papéis/papéis...
Ir enquanto é tempo. Deixar a porta aberta. Deixar o vento espalhar o gozo do fogo sobre os objetos. O último fósforo.
1979
terça-feira, 27 de setembro de 2011
Ruptura
![]() |
| Tripthych - Studies from de Human Body - 1970 - Francis Bacon |
José Antônio Cavalcanti
Só, rosto colado à vidraça, na muda contemplação da chuva, sonhava outros tempos, pródigos em esperanças. A chuva, indiferente, caía miúda e persistente. Dona Z não via mais as sombras úmidas por trás do vidro. Seus olhos pareciam um estranho vitral projetado para o passado – um território apascentando túmulos secretos onde apodreciam grandiosos projetos de vida.
Só, como sempre estivera, mesmo ao lado daqueles que saquearam o seu corpo em busca de prazer, observava os seus cacos espalhados por cima da mobília e uma sombrinha abrindo seu colorido desanimado a um canto da sala.
Já não olhava através do vidro embaçado por sua respiração forte e ritmada. Distraída, vagava lentamente entre mesas e arquivos, guiando a matilha de sonhos encurralados no cubo geométrico da rotina.
Nos corredores, quando passava, cochichos. Diziam que ela era..., que ela fora..., que ela fizera... E não podia deixar de magoar-se com risos abafados denunciando intrigas e calúnias. No entanto, temiam-na. Sabiam dos seus grandes poderes: manejara homens, domara chefes, destruíra carreiras. Agora, ao caminhar despojada de trunfos, diminuída em seu prestígio, onde, outrora, tantas vezes desfilara arrogância, resultavam ridículas as joias espalhadas pelo corpo, a roupa forçando formas que ameaçavam se esfarelar. Sim, os seios murchos, sustentados à força da astúcia feminina, as nádegas mambembes, as pernas enxameadas de varizes, ocultas à custa de mil estratagemas, faziam ressurgir a impiedade dos inimigos, as piadas cruéis, as estórias obscenas. Sim, por trás, todos riam. Não obstante, vista de frente, Dona Z ainda impunha respeito: a ostentação de um passado em que o poder transitava por seu corpo permanecia viva nas paredes, nos documentos e na pele dos subalternos.
Só, rosto colado à vidraça, na inquietação transparente dos olhos, contemplava a chuva, líquida cortina a fechar o pano de outros tempos.
A aposentadoria ameaçava invadir os limites do seu ser. A sensação de inutilidade, de ser traste, objeto a ser abandonado, crescia. Um mal-estar horrível o descobrir-se sucata desesquecida entre máquinas, mesas, arquivos, papéis, carimbos, armários, paredes, documentos perdidos como as esperanças perdidas em tantos anos de vida. Anos de morte. Sim, de morte. Com todas as minúcias da burocracia, com todas as exigências impostas pelas necessidades e pelo absurdo. Uma morte vivida em toda a sua formalidade de assinar ponto, preencher de tédio formulários, preparar ofícios ao nada, minutar a dor de todo dia exalando solidão pelos poros. Morte semelhante à sua dissolução entre lençóis e mentiras, sob os quais o gozo era um passo rumo a um futuro melhor, cujas promessas de dinheiro e influência inflaram os olhos e aumentaram a sede de Dona Z: ex-datilógrafa inexperiente oriunda dos conselhos maternos para os perigos do mundo, consumindo-se num trabalho enfadonho, estéril, inútil, desprovido de sentido, numa ignota seção de uma empresa estatal inviabilizada pela inépcia e desinteresse.
Camaleoa, Dona Z acabou adquirindo a cor ambiente. Movendo-se orientada exclusivamente pela estratégia do êxito, assumiu os disfarces como um rosto verdadeiro e perdeu o passo. Dona Z construiu o seu status com os laços da hierarquia, enforcando neles qualquer amizade ou possibilidade de tangência. Sua posição: seu espaço de sofrer. Nele só a angústia medrou forte, densa, generosa.
Dona Z e seus planos de morar bem. Dona Z e seus planos de homem. Dona Z e a distância dos inferiores. Iludindo-se poderosa, não via que amante de chefe era assim: espécie de carro esporte, animal de estimação, coleção de selos.
Só, rosto colado à vidraça, vê na chuva a represa de lágrimas contidas graças a anos de experiência sob o controle dos relógios e das migalhas que lhe atiravam ao leito. Contudo Dona Z secou, definhou, acabou: impossível água em quem pedra, impossível vida em quem moeda. Dona Z é a menor parte de tudo aquilo que poderia ser. Suprimiu os olhos, mineralizou o sexo, amputou os sentimentos, pela ânsia, pela vontade absurda e absoluta de Poder.
À noite, pesadelos desprendiam-se do teto e caíam sobre o seu corpo envelhecido. As carnes flácidas movimentavam-se assustadas sob as cobertas. Morcegos com rostos de anjo vinham pedir-lhe o peito; animais pré-históricos intrometiam-se na vagina; nuvens de insetos tentavam arrastá-la da cama. Dona Z acordava aos gritos, acendia a luz, mas os fantasmas inundavam a noite de angústia e terror.
Pela manhã, ao entrar no elevador, seus olhos apresentavam manchas negras. Os funcionários olhavam maliciosamente. Imaginavam grandes orgias, bacanais com diretores. Não sabiam que Dona Z estava só. O corpo acabara. Acabara o poder.
Olhos eternas névoas. Vitral. Vidraça. Só, como sempre estivera. Enclausurada em triste e vão ofício, arrastava o peso das conveniências pelos sombrios corredores e escadarias intermináveis onde sombras recurvadas pastavam rotina e submissão. Dona Z transitava por perigosos desvios. Corpo fora de forma. Animal enjaulado saudoso de planos e objetivos. Não mais o cortejo dos adoradores, a magia dos gabinetes. Dona Z não compreendia mais nada. Os olhos eternas névoas. Só, rosto colado à vidraça, revia paisagens da distante inocência. Um tempo e sua promessa. Algo se partiu na mente de Dona Z. Ruído de memória fraturada. Sabor de veneno nas palavras. Feras fora de jaulas. Limo sobre a pele. A gosma. A ruína.
De nada valera agarrar-se a serviços robotizantes. Fugitiva de si mesma, transformara o trabalho em ópio e, permanentemente alheia, sobrevivia com a alma cheia de remendos e lacunas. O preenchimento correto e sem rasuras do formulário TD.1 item dois alínea b do artigo três dois quatro de vinte de abril de não existiu. Dona Z e a correspondência. Dona Z e os contínuos. Dona Z e a máquina de escrever. Dona Z e o horário. Dona Z e a dieta. Dona Z e as promoções. E os anos passam, e passam os minutos por cima das carnes molengas, e passam os meses como insetos cavando rugas, e o tempo cava túneis no desejo, e o caminho sem retorno aproxima-se do seu termo.
Dona Z ainda se aguentara segurando muletas invisíveis. Enveredara pelo terreno do conformismo. Argumentara com fervor e resignação. Apelara para todos os espíritos. Peregrinara por terreiros, centros espíritas, igrejas e templos de todas as seitas. Acendera velas com o último fogo da esperança. Tentara construir-se estóica, firme, inabalável. Vestira-se de fatalista, liberta da dor e dos prazeres do mundo. Nada.
E se todos se unirem contra ela? E se quiserem ir às forras? E se a espancarem? E se roubarem as suas joias? E se perder o emprego?
Dona Z era um açude sangrando. A incerteza corroera a precisão de sua fala. Até mesmo os gestos, rigorosamente construídos e profissionais, começaram a desmoronar. Evaporaram-se os sorrisos mecânicos, distribuídos nas ocasiões oportunas; os lânguidos olhares privativos de momentos intimistas com os chefes; a expressão austera e compenetrada de funcionária exemplar como disfarce eficaz. Suas cartas não apresentavam o mesmo grau de correção. A memória, prodígio que a todos assombrava, começara a claudicar: esquecia números de processos, trocava nomes de funcionários, errava telefones. Sua calma, proverbial na empresa, começara a decompor-se. Gesticulava nervosa, erguia a voz, irritava-se pelo motivo mais fútil. Já não chegava pontualmente às oito da manhã. Em todas as seções, os inimigos comentavam. Velhos desafetos caíam na sua pele. Rivais contavam os seus podres, impiedosas. Inimigos, inimigos por toda parte. O mundo só era habitado por cínicos e invejosos. O ser humano não valia nada. Dona Z sentia-se acuada. A humanidade não prestava.
Olhos eternas névoas. Lentes mentirosas inventando cores quentes num ambiente cinzento. Refração da luz. O côncavo e o convexo dos dias. O desvio – intransitável caminho. Sombras recurvadas pastam desânimo entre pilhas de papéis. O barulho de buzinas, máquinas e vozes humanas rege um balé de zumbis. Sinfonia do caos e do desconserto. Gigantesco coral em solidão maior. Sombras subservientes disputam um lugar ao sol. Dona Z descera aos porões da sua inquietude. Instalara a sua fábrica de dúvidas no interior de pensamentos sempre evitados. Dona Z sabia de criaturas despidas de muros, carregando futuro e solidariedade como luzes, mas não acreditava nas canções onde a vida é plenitude.
Dona Z não conseguia dormir. Desde a noite em que começara a sentir algo estranho em seu corpo – um cheiro insuportável a exalar quando se despia. Olhou-se no espelho do guarda-roupa. Mirou, remirou: nada. Aquilo prenunciava perigo. Teve a impressão de que a sua coluna fervia e uma corrente elétrica atravessava-lhe as vértebras.
Olhos eternas névoas. Dona Z, ao andar pelas seções, evitava se expor em demasia. Preferia ficar sentada em sua cadeira, ela, que adorava exibir as suas formas sedutoras por toda parte: ela, que se comprazia em despertar desejos em pobres coitados para entregar-se aos graus mais altos na hierarquia.
Todas as noites, ao despir-se, sentia o cheiro insuportável. No início, pensou existir alguma coisa estragada em casa, quem sabe algum bicho morto? Não obstante, o cheiro provinha do seu próprio corpo. Pensou em consultar um médico, assustada com a possibilidade de encontrar-se profundamente doente, contudo a vergonha tolhia a sua vontade. Talvez estivesse imaginando coisas. Cansaço ou medo, quem sabe?
Uma noite Dona Z descobriu o motivo dos seus sofrimentos. Estarrecida, não quis acreditar. Não era possível aceitar aquilo. Sua coluna, coisa espantosa!, tentava prolongar-se. O último ossinho irrompera pela carne afora, sangrando suas nádegas. Dona Z horrorizou-se. Chorou todos os seus choros. Desesperou-se nas mãos do infortúnio. Gritou aterrorizada, pulando sobre a cama, esmurrando-a, chutando-a com ódio, alucinada. Sua coluna teimava em crescer, teimava em sair do corpo e a dor ultrapassava todas as fronteiras.
Por uma chuvosa manhã carioca Dona Z passara angustiada. Após três dias de falta, ousara retornar ao serviço. Ninguém percebeu toda a tragédia que a abatia. Guardou a ferro e fogo o seu terrível segredo. Viera apressada, cabeça baixa, insegura.
À noite, inferno. Descobrira que o ossinho repartia-se em três. Uma pele já estava se formando sobre as feridas. Ela possuía, oh terror!, três pequenos rabinhos, de aproximadamente cinco centímetros cada. Além da pele, surgiam pelos em todos eles. Nua frente ao espelho, não acreditava no que via.
Olhos eternas névoas colados à vidraça, descolados do mundo. Só, como sempre estivera, Dona Z contemplava a chuva. Cada pingo era uma parte do seu ser dissolvendo-se vertiginosamente. De rainha a ruína. De todo-poderosa a nulidade. Os cabelos embranquecendo. A dentadura. Os óculos. As mãos trêmulas. O andar pausado, convalescente. A pressão. O vidrinho e as pílulas. Os três rabinhos. Asco. Medo de que todos saibam. Monstruosidade. Pânico.
Nem se despia mais. As roupas permaneciam com as joias. Vergonha e medo. Dona Z em extinção. Apenas sombra recurvada perambulando pela cela-repartição, etiquetando cadeados e ferrolhos. A Ordem comandando os nervos. A obediência ilimitada aos preceitos e regulamentos. O chefe. O subchefe. O candidato a chefe. A mulher do chefe. O filho do chefe. O pica do chefe. O chefe do chefe. Dona Z elaborava o relatório de seus tormentos, desfazendo razões, traçando um quadro sombrio: os resultados negativos eram índices de uma alma no vermelho.
Só, rosto colado à vidraça, como sempre estivera. Pelos sombrios corredores e escadarias intermináveis pastavam sombras recurvadas de rotinas. Dona Z não acreditava nas luzes semeadoras do futuro. Dona Z – sombra recurvada – viera trabalhar normalmente. O mesmo ritual. O culto ao dever. As canções metálicas das calculadoras e máquinas de escrever, a geometria anêmica dos arquivos e a assepsia de um piso quase espelho. Como artesã, teceu com habilidade as minúcias do dia, satisfez as exigências: escreveu, leu, carimbou. Às dezessete horas, depois de ter arrumado as gavetas, pegou a sua bolsa e foi ao banheiro. Pela primeira vez na vida quebraria a rotina: sairia da empresa por outra porta.
Assinar:
Postagens (Atom)






