sábado, 5 de novembro de 2011

Gesto impossível


Adriana Varejão

















   





   José Antônio Cavalcanti


 
Escrever é viver assim:

assim linha por linha,

assim letra por letra.



Escrever não possui receita.

Os códigos não se transmitem nessa esfera.

Cada um que descubra os olhos de ver.

Cada um que derrube o seu silêncio

para que as mãos não se calem

e se calando não se condenem.



Escrever não é uma ciência exata.

As regras não cabem no corpo da criação.

Os tímpanos da normalidade são surdos,

a pederastia do sucesso é desnecessária,

resta apenas a pureza de qualquer poesia.

 

O que há de sangue & insônia num poema,

o que há de amargura & esperança num poema,

o que há de imensamente humano num poema

é o que salva o poema do desprezo do tempo.



Escrever pode ser loucura,

mas o ódio se redime através da pena,

o desespero se alivia num verso,

e a alma vazia absorve como esponja

a beleza e a plenitude de um poema.



O poema pode não mudar o mundo,

mas ilumina o caminho do homem. 

Poeta em órbita





















José Antônio Cavalcanti



Nasa anuncia lançamento
próximo projeto:
poeta pancada no espaço.

Investimento a fundo perdido,
cientistas resistem à excentricidade,
périplo complexo,
parafusos a menos cabeça confusa semifusa
coloquem em risco segurança operação.

Diretora lab(oratório) experiências cu-estelares
(capaz mandar tudo para espaço)
fixou órbita dez anos luz de ausência,
perpendicular à solidão das galáxias
e ao silêncio dos in-sem-saltos.

Em alguma estrela anã,
ou nebulosa,
ou pulsar,
ou quasar,
cosmonáufrago irradia mágoas cósmicas
matéria negra, dor, gosma
em garrafas de raios gama e conhaque.

Astrônomo jura ter visto
último estágio corpo poeta
boiando constelação líquidos universais.

Noturno de abril



















     

     José Antônio Cavalcanti



A noite corta o meu corpo

em finas fatias de solidão.



A paisagem é um piano proscrito

apodrecendo partituras.



A noite tatuada de estrelas

espelha desespero.



Converto o olhar em lâmina acesa

num tráfico de luzes e desejos.


Leopoldina Railway



















    José Antônio Cavalcanti



Estranho trânsito entre

antes e infinito.



Nos trilhos,

flâmulas e entranhas.



Estações escapam de mapas.



Em apontamentos inexatos

letras

- pingentes pingando pesadas -

lentas em páginas paralisadas.



Quarenta anos

: e a bagagem extraviada.


segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Ani(ad)versário





















ANI(AD)VERSÁRIO


         José Antônio Cavalcanti




59 naves naufragadas

de uma frota demente:

prova contundente

que só navega de verdade

quem se arrisca  verticalmente.


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Antes que a noite termine


     

  





















    José Antônio Cavalcanti


Enjaulado em zoomotel
amo teu sexo em brasa,
entre bijuterias e botox.

Esqueço os piercings e o código,
erro a senha de acesso às tatuagens
entre as tuas pernas resinosas.

Há vida em outras gaiolas,
câmaras de torturas e obscenidades.
Casais em aço e alumínio
acariciam a polpa do vazio,
entre urros, contas e fantasia.

Enlouqueço sobre, dentro, fora.
Ofereço carícia e ferocidade,
corto a jugular de passado e família.

O prédio cercado pela polícia,
imerso em sirenes e silicone,
descubro drogado de desalento:
só eu amo e danço na contramão.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

INTERLÚDIO











    


     




     José Antônio Cavalcanti

Ela segurava
em pose sibilina e solene
(como uma gravura
capta
em placa de madeira, metal ou pedra
o gesto que escapa)
a xícara de chá
- serigrafia viperina do momento
em que o pulso se paralisa
tocado pela graça da anima feminina.

A fumaça exalava
o meu corpo convertido em fantasma
por ruína, pânico ou arrefecimento.

Ao vê-la
eu era o vilão,
olhar caviloso
cruel
canalha
corpo de cão
cravando a carne
em grades.

Eis que algo escapa
a mínimo domínio:
misterioso mimo,
o dedo mindinho
se liberta da asa;
flutua no ar
a mulher agora anjo.