quinta-feira, 8 de março de 2012

Páginas da zona de sombra


V

Não diria infiltração em tela alheia, antes uma galeria de faits divers, zona de dispersão de fantasmas incubados em espelhos. Pouco importa o piso, o papel, o ladrilho, em qualquer superfície – fria ou quente – a mesma falta de juízo, a mesma curvatura de uma sombra inverossímil, exposta em mímica e contorção. Talvez fosse possível uma outra geometria, incorporando mofo e ângulos mortos. Mas a parede azulejada converte película em museu, um antro enigmático onde a arte instala, em posições artificiais e aritméticas, a vida como resíduo e projeto de nuvem. Não estar inteiro, abolir a perspectiva que conduz a um centro, expõe o corpo (o meu?) e sua sangrenta rota de fugas. Nada de tragédia no percurso. Por favor, não grite. Nenhum excesso anulará o vagaroso acúmulo de gás na pele e nos olhos. Algum desavisado leria, sem dúvida, a secção de sentidos como uma vida desossada, gesto que apenas o conduziria a um cômodo vazio. A sala secreta, no entanto, é música em outro plano. O horizonte não está no olhar, nem longe, nem distante. Horizonte é toda linha que justamente não está. Como você, por exemplo, do outro lado dos azulejos. Desmonte de manhã e horizonte, a existência como despojos, é tudo que posso lhe oferecer - um buquê de desejos bárbaros manchando o seu vestido floral. 

Adriana Varejão

domingo, 4 de março de 2012

PÁGINAS DA ZONA DE SOMBRAS

IV

FÁBULA

Era uma vez uma vogal pouco arredondada, aberta, de oralidade intensamente feminina, como um sol vivia no centro de qualquer sílaba. Um dia, cansada da rotina em comum com as suas irmãs e invejada pelas primas, constrangedoras constritivas e explosivas oclusivas, pôs-se a caminho da independência (gesto insensato, pois não existe autonomia na linguagem). Fugiu de casa com duas malas de acentos agudos e graves, sobre a cabeça um til escondia o ouro dos cabelos. No entanto, outra vogal esguia a tudo assistia bem mais à frente, fechada e alta. Ocultava estranha pulsação sonora no peito quando articulava uma melodia em comum com a vogal-rainha. Curiosa e insensata, desprendeu-se da nuvem onde morava e seguiu, movida pela paixão, a fugitiva veloz. Tonta vogal afinada e fina, cada fuga é particular e intransferível. Mas a louca achou possível uma sílaba especial com a outra, um ditongo para toda a vida. Que tombo! Que pancada! A vogal-rainha, refeita da surpresa e do fugaz encanto do som que se julgava alma gêmea, rompeu logo o pacto:

- Nada de ditongo, não temos nada em comum! Quero ficar só! Nossa união será sempre assinalada por um intervalo! De pouco proveito será para você ficar ao meu lado! Não preciso de capacho nem de escravo!

Esse foi um caso triste, inusitado e raro. De nada valeram os argumentos e assovios da vogal ensandecida: as canções mais alucinadas, as interferências sonoras mais mirabolantes, as mais belas modulações, timbres, ritmos não encontraram ouvidos. 

De fato, sou o primeiro homem na história da humanidade que morreu de hiato.






















III

Duelamos silêncios, dançamos uma esgrima de ausências. Havia o tumor de mundos extintos quando não nos cabíamos? O amor temperava no suor da carne a sopa de ruínas e azedume? Talvez um fluxo surdo e arroxeado minasse as palavras, gotejantes sílabas de eros e incandescência. Prensados por muros, contidos em frascos de veneno, tolhidos por fiscais de voos e alumbramento, caminhamos na contramão? Agora, sentado neste banco, observo o trânsito de abelhas e mamutes à frente de um circo decadente. A praça cheia de olhos implora minha retirada. As babás já recolheram as crianças. Só indesejáveis e suspeitos me olham com desconfiança. O policiamento não tardará. Mas não posso sair desse lugar, preciso ver você passar do outro lado da rua, do outro lado da cidade, do outro lado do planeta. Claro, você não virá, não sairá da frente do computador, não largará o iPhone, o iPod, o iPad, o tablet, o shopping, a rede social, ligada 24 horas na cilada da informação como forma de infantilização dos sentimentos, fuga da conversa e do afeto. Mesmo que você me olhe, não me reconhecerá, morto em 15 de dezembro de 2010, renasci há dez minutos atrás e resolvi ficar nesse banco, catatônico, invisível, cercado por um cão pestilento e moscas, um tambor explodindo no peito.




II

Ontem, antes da chuva, a lua era anúncio de despedida em sua curva. A noite turva escondia sobre o abraço a dissolução de países inviáveis. Mãos inábeis conduziam carícias no corpo de pedra e despedida. De olhos fechados, o que se via era o ruído de placas tectônicas em movimento. Tremor não era gozo, mas abalo, desmoronamento, física de dispersão e adeus. O último beijo é cogumelo mofado na selva dos sonhos. O último beijo é música congelada na primeira página da paisagem escura. Ontem, depois da chuva, o último beijo selou com batom e cerveja a caixa da solidão.





I

Atrás da porta um abismo me espera? Devo enfrentar o escuro, o pânico, o absurdo? De que me vale o abrigo no deserto, a inclemência do céu, o rancor do zodíaco, a transformação do abandono em oásis? Sei que o meu nome foi apagado do corpo da mulher do outro lado da porta. Seu olhar ainda medusa o pântano dos meus olhos, enquanto me atira areia e pedras, suspensa sobre um piano de gargalhadas. É verdade, tenho um isqueiro, mas me falta gasolina. Caríssimos leitores amigos, como tocar fogo em tudo?