IV
FÁBULA
Era uma vez uma vogal pouco arredondada, aberta, de oralidade intensamente feminina, como um sol vivia no centro de qualquer sílaba. Um dia, cansada da rotina em comum com as suas irmãs e invejada pelas primas, constrangedoras constritivas e explosivas oclusivas, pôs-se a caminho da independência (gesto insensato, pois não existe autonomia na linguagem). Fugiu de casa com duas malas de acentos agudos e graves, sobre a cabeça um til escondia o ouro dos cabelos. No entanto, outra vogal esguia a tudo assistia bem mais à frente, fechada e alta. Ocultava estranha pulsação sonora no peito quando articulava uma melodia em comum com a vogal-rainha. Curiosa e insensata, desprendeu-se da nuvem onde morava e seguiu, movida pela paixão, a fugitiva veloz. Tonta vogal afinada e fina, cada fuga é particular e intransferível. Mas a louca achou possível uma sílaba especial com a outra, um ditongo para toda a vida. Que tombo! Que pancada! A vogal-rainha, refeita da surpresa e do fugaz encanto do som que se julgava alma gêmea, rompeu logo o pacto:
- Nada de ditongo, não temos nada em comum! Quero ficar só! Nossa união será sempre assinalada por um intervalo! De pouco proveito será para você ficar ao meu lado! Não preciso de capacho nem de escravo!
Esse foi um caso triste, inusitado e raro. De nada valeram os argumentos e assovios da vogal ensandecida: as canções mais alucinadas, as interferências sonoras mais mirabolantes, as mais belas modulações, timbres, ritmos não encontraram ouvidos.
De fato, sou o primeiro homem na história da humanidade que morreu de hiato.
III
Duelamos silêncios, dançamos uma esgrima de ausências. Havia o tumor de mundos extintos quando não nos cabíamos? O amor temperava no suor da carne a sopa de ruínas e azedume? Talvez um fluxo surdo e arroxeado minasse as palavras, gotejantes sílabas de eros e incandescência. Prensados por muros, contidos em frascos de veneno, tolhidos por fiscais de voos e alumbramento, caminhamos na contramão? Agora, sentado neste banco, observo o trânsito de abelhas e mamutes à frente de um circo decadente. A praça cheia de olhos implora minha retirada. As babás já recolheram as crianças. Só indesejáveis e suspeitos me olham com desconfiança. O policiamento não tardará. Mas não posso sair desse lugar, preciso ver você passar do outro lado da rua, do outro lado da cidade, do outro lado do planeta. Claro, você não virá, não sairá da frente do computador, não largará o iPhone, o iPod, o iPad, o tablet, o shopping, a rede social, ligada 24 horas na cilada da informação como forma de infantilização dos sentimentos, fuga da conversa e do afeto. Mesmo que você me olhe, não me reconhecerá, morto em 15 de dezembro de 2010, renasci há dez minutos atrás e resolvi ficar nesse banco, catatônico, invisível, cercado por um cão pestilento e moscas, um tambor explodindo no peito.