domingo, 4 de março de 2012

PÁGINAS DA ZONA DE SOMBRAS

IV

FÁBULA

Era uma vez uma vogal pouco arredondada, aberta, de oralidade intensamente feminina, como um sol vivia no centro de qualquer sílaba. Um dia, cansada da rotina em comum com as suas irmãs e invejada pelas primas, constrangedoras constritivas e explosivas oclusivas, pôs-se a caminho da independência (gesto insensato, pois não existe autonomia na linguagem). Fugiu de casa com duas malas de acentos agudos e graves, sobre a cabeça um til escondia o ouro dos cabelos. No entanto, outra vogal esguia a tudo assistia bem mais à frente, fechada e alta. Ocultava estranha pulsação sonora no peito quando articulava uma melodia em comum com a vogal-rainha. Curiosa e insensata, desprendeu-se da nuvem onde morava e seguiu, movida pela paixão, a fugitiva veloz. Tonta vogal afinada e fina, cada fuga é particular e intransferível. Mas a louca achou possível uma sílaba especial com a outra, um ditongo para toda a vida. Que tombo! Que pancada! A vogal-rainha, refeita da surpresa e do fugaz encanto do som que se julgava alma gêmea, rompeu logo o pacto:

- Nada de ditongo, não temos nada em comum! Quero ficar só! Nossa união será sempre assinalada por um intervalo! De pouco proveito será para você ficar ao meu lado! Não preciso de capacho nem de escravo!

Esse foi um caso triste, inusitado e raro. De nada valeram os argumentos e assovios da vogal ensandecida: as canções mais alucinadas, as interferências sonoras mais mirabolantes, as mais belas modulações, timbres, ritmos não encontraram ouvidos. 

De fato, sou o primeiro homem na história da humanidade que morreu de hiato.






















III

Duelamos silêncios, dançamos uma esgrima de ausências. Havia o tumor de mundos extintos quando não nos cabíamos? O amor temperava no suor da carne a sopa de ruínas e azedume? Talvez um fluxo surdo e arroxeado minasse as palavras, gotejantes sílabas de eros e incandescência. Prensados por muros, contidos em frascos de veneno, tolhidos por fiscais de voos e alumbramento, caminhamos na contramão? Agora, sentado neste banco, observo o trânsito de abelhas e mamutes à frente de um circo decadente. A praça cheia de olhos implora minha retirada. As babás já recolheram as crianças. Só indesejáveis e suspeitos me olham com desconfiança. O policiamento não tardará. Mas não posso sair desse lugar, preciso ver você passar do outro lado da rua, do outro lado da cidade, do outro lado do planeta. Claro, você não virá, não sairá da frente do computador, não largará o iPhone, o iPod, o iPad, o tablet, o shopping, a rede social, ligada 24 horas na cilada da informação como forma de infantilização dos sentimentos, fuga da conversa e do afeto. Mesmo que você me olhe, não me reconhecerá, morto em 15 de dezembro de 2010, renasci há dez minutos atrás e resolvi ficar nesse banco, catatônico, invisível, cercado por um cão pestilento e moscas, um tambor explodindo no peito.




II

Ontem, antes da chuva, a lua era anúncio de despedida em sua curva. A noite turva escondia sobre o abraço a dissolução de países inviáveis. Mãos inábeis conduziam carícias no corpo de pedra e despedida. De olhos fechados, o que se via era o ruído de placas tectônicas em movimento. Tremor não era gozo, mas abalo, desmoronamento, física de dispersão e adeus. O último beijo é cogumelo mofado na selva dos sonhos. O último beijo é música congelada na primeira página da paisagem escura. Ontem, depois da chuva, o último beijo selou com batom e cerveja a caixa da solidão.





I

Atrás da porta um abismo me espera? Devo enfrentar o escuro, o pânico, o absurdo? De que me vale o abrigo no deserto, a inclemência do céu, o rancor do zodíaco, a transformação do abandono em oásis? Sei que o meu nome foi apagado do corpo da mulher do outro lado da porta. Seu olhar ainda medusa o pântano dos meus olhos, enquanto me atira areia e pedras, suspensa sobre um piano de gargalhadas. É verdade, tenho um isqueiro, mas me falta gasolina. Caríssimos leitores amigos, como tocar fogo em tudo?



sábado, 25 de fevereiro de 2012

A vingança dos persas





A VINGANÇA DOS PERSAS



       O que esperamos na ágora reunidos? 
                           - Konstantinos Kaváfis



Vão-se os navios gregos
abarrotados de moedas cunhadas
nas saias de Medeias mortas.

Tebas, Atenas, Corinto,
estiradas em mesas de cassinos,
fecharam as sete portas de bronze.
Agora shoppings agonizam
Agamenons e Ariadnes.

Padece a paideia no labirinto
de novos persas.

Ifigênia e Ajax em transe,
Homero arremessa o escudo de Aquiles
contra os bancos de extermínio,
de sangue,
de crime.

Nem Diotima de Mantineia sonharia
revelar a Sócrates profecias de tamanha barbárie.

Helicópteros patrulham Micenas,
e Midas já mandou as suas milícias
de cães e répteis contra Hércules.

Efebos deserdam fábulas,
lanças caídas em filas de desemprego,
elmos abandonados,
cavalos cravados de facas e cifrões.

Édipo, Orestes e Jocasta
veem Jasão navegar para o abismo.

Já não há Atlântida
e as muralhas da honra e da ousadia
desmoronaram em dívidas.

Oh, Zeus, insufla a revolta nos lares,
ateia fogo aos tesouros,
destrona a cabeça dos soberanos
cínicos e carniceiros.

Que heróis anônimos tomem as ruas de assalto
e que das assembleias surja o sonho de cidades livres.

Série "Não hai nem kai"


























Não hai nem kai 



I

 
A letra h cai;
onda muda do verão
apaga o som da água.




II

Bem-te-vi pousado
no telhado azul da tarde
alta, pura hipnose.




III

Calor e formigas.
Colar no círculo escuro
cantos de água clara.




IV


As folhas em breve
asas saídas de árvores
abrirão o outono.



V


Em ocaso fúcsia
o dia se despe do azul.
Lanternas noturnas.



VI


Mil máscaras mortas,
som e fantasias sepultas,
sonhos, sombras, cinzas.



VII

Rasura nas nuvens
o sol. Um sorriso imenso
lava-se na chuva.





VIII

Peixe morto espia
copos, pratos, mudo espanto.
Mesa da miséria.



IX

 

À beira de um rio
a  água avisa às rugas:
som de sal e foz.

 

X


Como sem as asas
riscar no papel azul
o salto no caos?

 

XI


Gatos algemados.
Salas ou jaulas urbanas.
Convívio de extremos.



XII


A cobra sob juncos
e a malícia sem remorso
revolvem-se em vão.



XIII


Gérbera, glicínia.
Nome e  perfume de Deus
moram em qual flor?



XIV


Árvores cortadas,
ferrugem em galhos verdes.
Cavar o deserto.

 

XV


Vento nas paredes,
no rebanho, nas colinas.
Bombas sobre aldeias.

 

XVI


Tecnozumbis pousam
mouse e maletas vazias
como suas cabeças.



XVII


Mais-valia, valises,
cuecas, aviões, Suíças:
país ou deserto?

 

XVIII


A noite, ao abrir-se,
é rascunho de pecados,
móvel  cicatriz.



XIX


Ondas, ondas, ondas.
O surf lava a alma na prancha.
O mundo, um balé.

 

XX


Sou mar e carvão.
A lua chora no meu ombro,
as ondas também.



XXI


A última palavra
poderá ser a primeira
letra do deserto.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Neve

Inventei-me um outro e fiz um poema para postar no Facebook. Fazia muito calor e ingressei em um tempo distante para apreender ou desaprender os caminhos do exílio, em todas as suas formas. 
O falso poeta, o falso tradutor e o texto integram algo indivisível. Não há razão alguma para explicar o que está cifrado no texto. Quem puder que descubra.




















Um poema de Stanislaw Warneńczyk (1889-1944)




A caminho de Cracóvia
caí.
Flocos de nuvens saíam
de minhas botas curvas.
O casaco escutava o vento
soprar uma canção de cinzas
entre memória e remendos .
O céu estava esplêndido,
azul com trovões humanos.
Tanta beleza
desabava
paredes de sinagogas e igrejas.
Levantei-me
e segui para o sul.


Traduzido do polonês por Zantonsky


domingo, 5 de fevereiro de 2012

Uma questão metodológica



 
 
 
 
 
 
 
 
 
Começa a aula.
Ela abre o livro
e cruza as pernas
nas páginas da lição
dezenove.
Depois me olha
como quem devora
um mundo.
Maldição!
O professor me convoca.
Como caminhar
com a esperança tão torta?

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Dois caminhos para o romance



Resenha publicada no Jornal do Brasil, em 30/01/2012


José Antônio Cavalcanti *


Orhan Pamuk, romancista turco que conquistou o Nobel de literatura em 2006, já é bem conhecido entre nós, fato comprovado pelo sucesso de público e de crítica de livros como Neve, Istambul, Meu nome é vermelho, entre outros. Agora o autor nos revela algumas reflexões sobre o romance, forma literária nascida e desenvolvida sob o signo da crise, valendo-se de tríplice experiência: a de leitor privilegiado de prosa ficcional, a de criador de narrativas literárias e a de receptor de textos teóricos. Disso não resulta nenhum tipo de manual, história ou teoria, mas uma enriquecedora investigação do universo ficcional.

O romancista ingênuo e o sentimental reúne seis conferências de Pamuk organizadas para o ciclo Charles Eliot Norton Lectures, da Universidade Harvard, ativo desde 1926, do qual já resultaram outras obras importantes, como Seis Propostas para o Próximo Milênio, de Ítalo Calvino, Esse Ofício do Verso, de Jorge Luis Borges, Seis Passeios pelo Bosque da Ficção, de Umberto Eco, Os Filhos do Barro, de Octavio Paz; O Testemunho da Poesia, de Czesław Miłosz, O Uso da Crítica e o Uso da Poesia, de T. S. Eliot. O livro  revaloriza o clássico de E. M. Forster,  Aspectos do romance, também originalmente uma série de  conferências proferidas em Cambridge.

Pamuk considera Ana Kariênina, de Tolstói, o maior romance de todos os tempos. Chega a destacar o episódio da viagem de trem da protagonista de volta a São Petersburgo, após conhecer o jovem oficial Vronski, em Moscou, para ilustrar as suas ideias. A seu juízo, a passagem é primorosa por propiciar ao leitor entrar na história com os olhos de Anna Kariênina. Isso significa alcançar a plenitude da recepção da prosa ficcional: “O prazer real de ler um romance surge com a capacidade de ver o mundo não a partir de fora, mas pelos olhos dos protagonistas que habitam esse mundo”.

O título adotado desloca para o universo ficcional conceitos originalmente voltados para a poesia, elaborados por Friedrich Schiller no ensaio “Sobre a poesia ingênua e sentimental”. Constrói-se, assim, uma diferença fundamental entre dois tipos de leitores e autores de romance: os “ingênuos”, “que não estão nem um pouco preocupados com os aspectos artificiais da escrita e da leitura de um romance”; e os “sentimentais” ou “reflexivos”, “os leitores e romancistas que se fascinam com a artificialidade do texto e seu malogro em alcançar a realidade e que dão muita atenção aos métodos empregados na escrita de um romance e à maneira como nossa mente funciona quando lemos”. 

Ao refletir sobre uma das formas mais produtivas da cultura ocidental, Pamuk  não esconde a condição de escritor situado em um país sem forte tradição romanesca, o que não o impede de, fugindo ao universo eurocêntrico de Forster e Lúckacs, inscrever a periferia numa forma literária globalizada, considerada por Henry James como “a mais independente, a mais elástica, a mais prodigiosa de todas”.  O gesto político, portanto, vale para as narrativas asiáticas, africanas e latino-americanas, marcadas, de modo mais intenso, pela tensão entre o local e o universal presente desde a origem do romance. 

A leitura de romances implica algumas operações mentais importantes arroladas pelo romancista: o acompanhamento da narrativa e a tentativa de descoberta do significado e da ideia principal, a transformação de palavras em imagens mentais, o confronto entre texto e realidade, avaliação estética e moral, a sensação única de realização advinda da cumplicidade e do enriquecimento pessoal propiciado pela leitura e a busca do centro secreto do romance. O último ponto recebe um tratamento especial do autor de O museu da inocência.

Pamuk não se preocupa em formular respostas, mas em refletir sobre as questões que considera fundamentais. Deixa claro que esse centro não é de fácil identificação, pois é aquilo que transforma propriamente um texto em romance. Não obstante, afirma que fica distante da superfície da história: “Imaginamos que se situa no plano de fundo e é invisível, difícil de localizar, elusivo, quase dinâmico”. Dele emana a força que prende o leitor a cada detalhe da obra, buscando nas minúcias, nas personagens, nas ações, na trama ou  no cenário chaves de acesso ao centro de gravidade da narrativa.

É a presença de um  centro que propicia a sensação de profundidade e a ilusão num universo tridimensional, além de separar o romance do poema épico, da novela medieval ou da tradicional narrativa de aventuras. 

A natureza do centro é necessariamente ambígua: “A ambiguidade de sua localização nunca é algo ruim; ao contrário, é uma qualidade que nós, leitores, exigimos, pois, se o centro é óbvio demais e a luz é muito forte, o significado do romance se revela de imediato e o ato de ler se torna repetitivo”.

Se E. M. Forster considerava que “o teste final de um romance será nosso afeto por ele”, Pamuk coloca como prova do valor de uma narrativa romanesca “o poder de provocar a busca por um centro”.  Daí discordar do ensaísta inglês para o quem as personagens corresponderiam ao núcleo do romance, dominando a trama, o cenário e o tema.

Embora o autor tenha abandonado a pintura ainda na juventude, guarda uma forte influência da arte inicial, por isso valoriza na narrativa a construção daquilo que denomina “paisagem pintada”. Paisagem, para Parmuk, deve ser entendida como “uma extensão, uma parte do estado mental dos protagonistas”. À influência da pintura deve-se também mais uma diferença entre romancistas: “Alguns escritores são melhores em se dirigir a nossa imaginação verbal, enquanto outros falam com mais força a nossa imaginação visual. Vou chamar o primeiro tipo de ‘escritores verbais’ e o segundo de ‘escritores visuais’”.  De acordo com essa divisão, Dostoiévski é classificado como verbal, já o próprio autor considera-se visual, a exemplo de Tolstói. 

Aos olhos de Pamuk o romance é, por essência, ficção literária visual. Quanto a isso não há a menor duvida: “Escrever um romance equivale a pintar com palavras, e ler um romance equivale a visualizar imagens por meio das palavras de outra pessoa”, afirmação que evoca a ideia expressa na Ars poetica, de Horácio: “ut pictura poesis” (“como a pintura, assim é a poesia). O autor busca fundamentação em  Lessing, que, em Laocoonte, apresentou categorias kantianas particulares à poesia e à pintura: aquela se desenrola no tempo; esta, no espaço. Daí a valorização da ekphrasis, cujo sentido original é o de descrição de obras de arte visuais por intermédio da poesia para pessoas que não podem enxergá-las. Um exemplo de ekphrasis é a passagem de Anna Kariênina destacada pelo autor: o narrador descreve os flocos de neve vistos pela personagem ao olhar pela janela do trem.

Ao longo do livro há inúmeras reflexões muito acuradas sobre a leitura e a produção de romances. Todas revelam uma visão otimista, uma crença no vigor dessa forma literária sujeita a periódicos bombardeios de descrença. A grande liberdade do romance, sua natureza proteica, móvel, flutuante,  a capacidade de incorporar outros terrenos ao seu corpo textual permitem-no alcançar uma resistência extraordinária. O romance é uma liga secreta entre texto e vida, campo minado entre real e irreal, ou, em um dos insights de Pamuk: “Um romance é uma estrutura única que nos permite ter pensamentos contraditórios sem constrangimento e entender diferentes pontos de vista ao mesmo tempo”.



Autor: PAMUK, ORHAN
Tradutor: FEIST, HILDEGARD

Editora:  COMPANHIA DAS LETRAS
Ano: 2011
Preço:  R$ 34,00


segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Café insolúvel
























 


O voo da águia

na teia azul do firmamento

desentranha uma antiga tese

que nega o movimento.




Mais que o gesto alado,

a gleba renegada,

a página negra onde moro,

afirma, confirma e reafirma

que jamais ousei um passo.


Talvez a preguiça impeça,

talvez a paralisia;

talvez porque o meu ato

não comprove a minha teoria.


sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Praia dos párias

    













      




o poema
termina
na areia


malhado
por espinhos
envene
             nados
de palavras-toxinas
eli
     mina
lâminas lúcidas,
no mar
             glauco
cada
        falso
movimento
                     dos surfistas
expõe os lábios
às líquidas infâmias
de ondas indecifráveis


sim,
a vida
a
f
u
n
d
a
a poesia
mulher corcunda
se apaga
na areia
funda.


segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Bagagem impura

Adriana Varejão



 
 
 
 
 
 
        
 
               "beber o extrato de ervas amargas
             mas não até o fim
             guardar por precaução
             algumas gotas para o porvir"
                      - Zbigniew Herbert -

Guardar o amargo,
a amargura, não.

Depurar o sangramento
com os filtros da memória
e um vigor contínuo,
além do limite dos alfabetos.

Incorporar o exercício
de cordas,
laços e nós
inextricáveis
como verbos viciados
envenenando a corrente sanguínea
até o último comando do corpo.

Um olhar impuro
há de separar
as partículas quânticas do insuportável
de frases feitas para matar.

Lenta conversão
proporcionalmente inversa ao apagamento instantâneo
de paisagens, pontes, sonhos
(ou daquilo que nomeamos realidade).

Guardar o amargo
como cartas na manga
para as manhãs de setembro.
A amargura, não;
excesso de carga cinzenta
tinge de mágoa a pele de qualquer caminho.