sexta-feira, 8 de junho de 2012

CIDADE FIM SÉCULO VINTE





CIDADE FIM SÉCULO VINTE



I


cityado
o corpo no cerco
amarga a marca
selo na testa
festa nos pelos
fechada
por guardas/grades
a plena idade
a pélvis idade
porosa
goma / esponja
se espoja
calada / acuada
no beco
canoa encalhada
corpo fechado
o dito
interditado
fechado para obras
do prazer
: só as sobras



II


guarneço
luas com olhos suspensos
intacto
animal insulado na sombra
transito
entre o máximo e o mínimo
campos minados
de bares puteiros sobrados
sentinelas
dos rios-prazeres represados
mortos
em mares-de-mim inavegáveis
caminho
a cruz por todos os lados
capuzes
sessões secretas sob ogivas
dogmas
penalidades sanções excomunhão
reses
ao sol lambendo felicidade
e eu
contramão da unanimidade
visionário
ventríloquo/artesão de ima(r)gens
solto
animais aprisionados nos dentes
guilhotinando
nuvens de dúvida e medo
guia
extravio o rebanho submisso
devoro
as asas
na
invenção do voo


 
III

 
CIDADE
corpo neón & estrume
anônimos
artesãos sopram teu nome
e a dor nas esquinas
fábricas sem violinistas e bailarinas
parque de ruínas
as veias saltam órbitas solares
casas valas onde em depósito
os sonhos se acasalam
ímãs da morte meninos famintos
macabras jazz-bands tupiniquins
asas da miséria S.A.
manequins da miséria S.A.
CIDADE
noiterror do capital
cai em chuva de cicatrizes
 mil manchetes marrons anúncios sinistros
comícios noturnos
discursos clandestinos
aberto ao espelho pergunto
multidões-mendigas em missas de outros mundos
tropas tangidas em currais-avenidas
os sonhos tangenciam a aurora
CIDADE
tuas ruas tuas grades onde presos
apodrecemos teus pastos
CIDADE SÉCULO FIM VINTE
a corte dos parteiros do pânico
em tuas praças espalha a morte
(esperança apenas em tuas margens)


 
IV

 
pelas sete portas de mim
matilhas famintas de milênios
farejam carências
a carne aponta a lua
esquecida de marés & eclipses
a travessia da noite é surpresa
magia
paixão
encontro
por vezes distúrbios na fala
brados
bilhetes
trouxas
e um gosto de ferrugem na boca
crostas de ausência na pele
esperamar
galáxias do gozo sugam o sumo da insônia
guardam segredos nos dedos
traços mágicos
o desenho de carícias
no erro
pau
pedra
 guerra
raiva
daquilo que foi possível
e não houve
desesquecer a dor
estrelamar a carne o calor
a tatuagem nos olhos
o jogo de macho & fêmea
acesos
luzes
deuses



V

 
VILLE
negra caixa metálica
berço de abismos
jazigo
escavado por escravos
teus vigias
fantasmas enferrujados
viciosos fiscais
o sol
na rede de remendos
desalenta
roedores de rotina
espetam o céu de dúvidas
nimbos de bombas
cúmulos
o portátil poder das potências
o mundo
rima de doença
VILLE
o espanto não anula
o homem
armagedon geena juízo
é prenúncio de paraíso
não regido por deus
mas construção humana
o vento da história o barulho
das multidões famintas
: remoção do entulho



 VI


sitiado
em babilônia manhattan
algemado
a um eterno estado de símio
ensandeço
pregões do inferno
sousandradino
tempos saxônios de domínio
ora tornados Wall Street
Midas usura-moedas
bloco de embalo dos Silvérios
testas-de-ferro
canal conduto dos frutos afro-tupis
CIUDAD
inúteis instrumentos
as frias ferramentas
a inocente crueldade de tuas engrenagens
teus servis serviços de mucama
aos donos das dores e dos degredos
o arquitêxtil engenho da morte
bordado em ferro e vidro
as vigas podres dos que decidem
flores na praça
e a altura do horizonte
CIDADE
corre na tua desordem o correio
disseminando
decretos de medo & desconforto
a vigilância policial sobre as manhãs
no horto das mangueiras
teus criadores
nos músculos e nos ossos
padecem nas cruzes de vilas-cemitérios
cristãos primitivos
sambando nas catacumbas.


 VII


subúrbio
sabor de sobra
depósito de humanos
o ventre
da verme/cidade
passeio na arena
marionetes
expostas ao sol
subnutridos em maio
guloseimas
nas vitrinas crediários
fantasias em dó menor
ópera bufa
nos palácios dos senhores
doutores messias
palhaços salvadores do mundo
emporcalhando as estrelas
atrás dos muros de cristal
a periferia o declive
– sabor de mais-valia
bandido
& boia-fria –
feira
onde os homens
catam os pedaços
dos homens
cavernas-dormitórios de cromagnon
farsa moradia moranoite morra
bandos-manchetes
em folhas
tiroteios estupros linchamentos
os descalços
os desnudos
os desnadas
HARLEM-pária
BAIXADA-proletariado
imagens à margem
imersão abissal no espanto
imaginação zero
maquinação zero
zero



VIII


cityado
o corpo no cerco
apaga a marca
afago na testa
festa nos pelos
aberta
por passos/pássaros
a plena idade
a pélvis idade
porosa
goma / esponja
se despoja
alada / ousada
na praça
canoa encantada
alma liberada
o dito
coletivizado
inauguração das obras
do prazer
: todas as formas


(1983)


quinta-feira, 31 de maio de 2012

Questão de química





Questão de química

Instruções:

Não use lápis nem caneta, apenas a imaginação. Aceitam-se todas as rasuras.

Em 1921, E. Rutherford e J. Chadwick relataram que, ao bombardear átomos de nitrogênio com partículas alfa (núcleos de Hélio), ocorria a liberação de prótons. Posteriormente, eles afirmaram:

             Não há informação sobre o destino final da partícula alfa. É possível que ela
             se  ligue, de  alguma maneira, ao  núcleo  residual. Certamente  ela   não  é      
             reemetida pois, se assim fosse, poderíamos detectá-la.
           

Anos mais tarde, P. Blackett demonstrou que, na experiência relatada por Rutherford e Chadwick, havia apenas a formação de um próton e de outro núcleo X. também lembrou que, na colisão da partícula alfa com o átomo de nitrogênio, deveria haver conservação de massa e de carga nuclear.

Agora, seu filho da puta, com base nas informações acima, escreva a equação nuclear representativa da transformação que ocorre ao se bombardear átomos do isótopo 14 do nitrogênio com partículas alfa ou com poemas oxidados de nitronuvens de massa desconhecida.

Irresolução

A questão parte de um pressuposto anticientífico, o de que há a possibilidade de construção de resposta, quando, na verdade, já não há sequer perguntas. Mas jogando com as regras implícitas na formulação do enunciado, observamos um fenômeno estranho.

a) A perspectiva de intervenção violenta dos cientistas na natureza (golpe, pancada, bombardeio de átomos, violência do destino sobre corpo e alma, exatamente como nós dois fazemos, arremessando-nos o tempo todo acusações e culpas) relaciona conhecimento e fratura, constituindo-se a razão instrumental em uma enciclopédia de ruínas, a exemplo dos gestos que inscrevemos, eu e você, em nossos corpos infectados de rugas e solidão. 

b) A liberação dos prótons aponta para o processo de indeterminação da liberdade. O próton transforma a solidez do lugar demarcado em instabilidade de rumo, inaugura a invisibilidade como um caminho onde nós dois entramos no inapreensível. O caráter instável da matéria forma a sinonímia de fuga e movimento. Sim, veja o vestido grená e o capuccino no último setembro.

c) Nada sei sobre a sua massa nuclear. A órbita do seu perfume a anos-luz de distância me transforma em sombra residual do seu traçado. Radares e instrumentos de aferição corporal não detectam nenhuma pulsação no horizonte. Concluo, portanto, que o núcleo residual comprova a experiência da vida real como vestígio, resíduo de uma plenitude irrealizável.

d) O experimento investiga colisão, tangência, proximidade, afastamento. A ciência transita entre o mundo real e o universo fantasma (você, estrela irrecuperável de uma galáxia autofágica).

e) Se a partícula alfa me ligasse, haveria a reconstituição do núcleo (digamos, por amor à precisão, que com uma nova tonalidade, entre ocre e laranja, resultado de um excesso de neutrinos).

f) Qualquer experimento que apresente resultados positivos deve ser anulado. Justamente por sermos inviáveis, eu e você, deveríamos transformar a lei da gravidade relativa e construirmos um campo magnético em que nos bombardeássemos e nos amássemos até o final dos tempos. Anulados na matéria escura do universo, sairíamos livres e incapturáveis em alguma cidade dos mundos paralelos, tragados pelo aberto da existência.

g) Quanto à equação, nada posso revelar: é secreta.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

(In)FESTA(r)


Fotomontagem do fotógrafo belga Ben Goossens




















Rrose Sélavy acendeu
um cachimboom no ocaso.
Falsário feroz com a voz em falsete
desmoronou:
“"Rose is a rose is a rose is a rose”.

A Pomba Gira olhou pra Ogum:
“Que gente mais besta!”
Incontinente teclou para Wittgenstein
“Oi, seu puto,
minha linguagem entrou
em curto circuito.
Preciso de luz antes das dez,
sessão de descarrego”.

Wittinho ficou louco
(instalado em instalação secreta
de Pai Hélio Oiticica).
mandou esta letra atrevida:
“Não trato mais de terroria.
A arte sofre de artesclerose.
A filosofia morreu de sputnik.”

Gertrud Stein, na banheira com Angélica Freitas.

Duchamp se mijava de alegria.

terça-feira, 22 de maio de 2012

A grande marcha das baleias



















        José Antônio Cavalcanti


Em becos e vielas
presas
na maré tóxica
nadavam
sereias do necrossistema
pesadas
de taras e pecados.

As testemunhas insistem
em versões inconsistentes:
a) adernavam assombros e abandono;
b) abismavam autômatos urbanos:
c) negavam os negócios de Netuno;
d) nadavam o devir impossível;
e) eram falsas baleias de plástico e poliéster.

Dr. Ícaro Olímpico anotou em seu prontuário:

“Hoje, 22 de maio do ano tal, animais marinhos não identificados circularam pelas zonas cinzentas da cidade à procura de prazeres desconhecidos. Não se sabe o destino. Nas ruas ficou uma gosma esverdeada presa ao asfalto e um cheiro de dólar em decomposição no ar. Eram nove espécimes, uma, diminuta, mal podia acompanhar o resto do grupo. Bufavam alto e traziam estranhas inscrições na pele. Na mais ousada delas, nítida, iluminada e em letras amarelas, lia-se entre estrias: “o caminho nunca está onde caminhamos”. 

domingo, 20 de maio de 2012

Sala de espera



























o impasse
                do próximo passo


pendentes
                paixão e poemas de Kaváfis
                                                              em prateleiras mortas


limo
       a linha opalina do destino
                                                 da anônima iluminada        
na praça de alimentação de um shopping    
                                                           onde canibais domingam


furo
       a rede de pretéritos que não vi passar
                                                                   apesar das rugas e agora grisalho
(toda biografia é caos e infâmia)


indecisão
               a lâmpada sem o fio
                                                do gesto


é dezembro
                 e também inferno


os carros
              flechas no asfalto
                                           pretas azuis cinzas vermelhas
escorpiões cavando cicatrizes nas curvas


a cabeça nas mãos
                              de deuses dementes
espero
             entre um sofá rasgado e um celular emudecido
                                          a senha secreta da felicidade