domingo, 5 de agosto de 2012

Gesto vazio


"The Embrace", 1917- Egon Schiele















Gesto vazio


Um abraço
às vezes é tudo;
toque e troca de tom
da pele,
sai o cinza entra o caramelo.

Adoro abraçar teu nome
principalmente agora
que enlaço o vento,
com as costas escoradas na parede
para não cair.

As pernas ainda dispostas
a sair
correndo porta afora
atrás de tuas palavras impuras.
Mas os braços escutam
o vazio
e murcham no escuro.


sábado, 4 de agosto de 2012

Inclassificável






















Esqueci minha mochila
no táxi.
Dentro a mão direita
e um rim bichado.
O telefone da cooperativa
ocupado.

Mochila militar
desfiada
com manchas de felicidade.
Favor não devolverem
o anel de noivado.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Quá-quá-quá em tablete meio amargo





















Quá-quá-quá em tablete meio amargo



Atravesso uma quadratura aquátil
palafitas
                malditas
                                : as palavras

Casa do falso quediva do Cairo
em ondas de quebra-verso
à deriva

Quiçá um esquadro
de quartzo no meio do quarto
ou de um quasar
quebre meu queixo
antes que a roda de um carro

Quero
a quântica quenga
do último bolero
que fugiu com o roteirista
cego

Mas o serviço de entrega
à queima-roupa
me reserva anódinas encomendas

a) Dois versos de Paul Celan
     dentro de vidro de azeitonas
     “Deslizas: o granizo negro da melancolia
     Cai num lenço, todo branco pelo aceno de despedida”

b) Caixa com fotografias extraviadas
     menina com um cãozinho beagle no colo
     mulher quíchua de olhos quebrados
     contra a neve dos Andes
     homem mal passado

c) Apólice de plano de apo(sentado)ria
      bilhete anexo
      “prazo de validade ilegível”


quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Exercício aéreo






















Sete
serpentes de celofane flutuam
sob a pele azul-pólvora
do céu em queda.

As linhas
que as sustentam
são minhas veias aéreas.

Até que o destino
abra o zíper de intempéries
e despeje,
sete pipas
voarão alto na tarde.


quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Não hai nem kai 23

 
 
 
 
 
 
 
Não hai nem kai  23

Música volátil,
flauta aberta na gaveta
da escuta vazia.
 
 

Surf


















SURF

sem superfície

surto
no fundo


sem prancha
sou plâncton
afundo

tumulto

meu nome
netuniano
undífluo
underground
é engano

A poesia morreu. Juro que sou inocente.


Poema vencedor da PROMOÇÃO  “ O FINAL  DOS TEMPOS”,              
organizada pelo site BLOGBLUGBLAGUE


 Para VC, amor, um poema WC    
  
  (com posição etilírico-amorosa)

Troque    uma letra  de   PERDA
Ganhe     um   quilo de   MERDA
                                 
    Poema de    Umbego egobigo


Parecer do Júri: O poema explora a miséria alheia em proveito impróprio, isso pode ser verificado pela axiologia coprológica em termos vulpinos da semiose libidinal dos catavermes imunes. Com os estrogênios telecinéticos o autor cria um processo paronomástico vibrátil, pleno de niilismo vesânico pós-moderno e cataléptico autorreferenciado. Notável o efeito do modo injuntivo conjugado a um jogo em que o par  linguagem/medida formula matrizes de um desequilíbrio concêntrico.


terça-feira, 31 de julho de 2012

Ida



É sem direção
o rumor dos sonhos.

Vou para a luz
atrás de árvores gigantes.

Nuvens me dizem
obscenidades,
pedras abrem-se ocas;
expondo as vísceras 
de todas as ruínas e tempestades.

É a perversão das vozes
demoníacas
sob os galhos de árvores mortas
que espalha despojos pelas sendas:
uma trilha de estrelas inúteis
penduradas na poeira dos tempos.

Vou para a escuridão
absoluta
no interior de qualquer fim,
na fronteira onde tudo se acaba
e a vida cabe inteira
em rasa e estreita vala.

domingo, 22 de julho de 2012

A Oficina, de Luciana Viégas




Luciana Viégas


Luciana Viégas é professora de língua portuguesa do Colégio Pedro II e doutoranda em Literatura Brasileira na UFRJ. Além da atividade docente, vem trabalhando há algum tempo na divulgação de obras de grande relevância para a literatura. Traduziu O leitor comum, de Virgínia Woolf (2007) e O tempero da vida e outros ensaios, de G. K. Chesterton (2010), além de ter organizado os volumes A leitora e seus personagens e Escritos da maturidade (2005, 2ª. ed.), ambos reunindo textos de Lúcia Miguel Pereira. Todos os seus livros foram lançados pela Editora Graphia, que acaba de publicar o seu romance de estreia: A oficina.
Cruzamento e dispersão de duas famílias - uma de Recife e outra de origem alemã, a narrativa faz de uma oficina em Laranjeiras, montada pelos alemães, o núcleo memorialístico com o qual a trama tem início e se fecha no capítulo 43. Entre motores a vida passa com suas idas e vindas, sem qualquer espetacularização, sem excessos. O narrador parece nos dizer que uma estrutura tão complexa como a existência  não precisa de grandes gestos ou de acontecimentos extraordinários. O que ocorre em todos os trajetos já é suficiente para instalar espanto e precariedade.
Há um ritmo dotado de certa agilidade nos capítulos curtos, nos quais se misturam planos diversos: Recife e oficina, presente e passado. A narrativa só progressivamente desfaz a opacidade inicial, limpando os perfis indefinidos dos personagens à medida que se avança na leitura. Não há uma disposição linear dos fatos, deparamo-nos com uma rica teia que busca captar um tempo acelerado com instrumentos que se sabe fadados ao não cumprimento de fixações e à consequente armação de qualquer estabilidade. O tempo é o verdadeiro protagonista do romance.
As referências a inúmeros autores e faits divers (veja-se o capítulo 40) balizam de historicidade os acontecimentos sem historiografá-los, não são testemunhas da vida que passou, mas a experiência que se presentifica na pele temporal das personagens O narrador consegue em alguns momentos acender uma linguagem de leveza poética capaz de formar um contraste com o tom irônico que incide sobre diversas passagens.
Carlos Pena Filho, João Cabral de Melo Neto, Joaquim Cardoso, Jovem Guarda, Diretas Já, Copa do Mundo, Gôngora, citações bíblicas, Anna Magnani (referência à atriz italiana Anna Magnani, do filme "Roma, Cidade Aberta", comparada por Pedro à Tícia, filha do alemão dono da oficina), crônicas de Antônio Maria, as de Rubem Braga nas páginas de O Cruzeiro, corridas de automóveis pioneiras no Rio de Janeiro, os textos de Sérgio Porto no Última Hora, Nat King Cole, Sinatra, Getúlio Vargas, Recife e Laranjeiras, há um intenso perpassar de lembranças, processo construído talvez com excesso descritivo, como se houvesse uma urgência em se livrar de tanta coisa presa na memória.
A autora, em alguns momentos, tira bom efeito de recursos metalinguísticos. Veja-se, por exemplo, o início do capítulo 25: “O correio eletrônico, diariamente, posta brindes do Aulete. São verbetes descontextualizados, que aparecem na linha ao lado do remetente. O primeiro impulso, nas primeiras correspondências, é de apagá-los. Aos poucos, no entanto, conforme se vai percebendo que podem ser termos regionais tornados engraçados diante do falar hegemônico do sudeste, ou palavras retiradas do jargão universitário que usadas em ambiente novo se esvaziam de certa sisudez, a curiosidade obriga a dar uma parada e, se não se consegue ler a definição no momento, deixa-se a mensagem esquecida por um tempo até que o verbete seja enfim lido e mandado para a lixeira. Ontem me chegou o seguinte: alamoa: s. f., personagem lendária, Alamoa, galega, lourota, branca azeda, nariz torto”. Essa definição serve para a  inserir uma estrutura paródica sobre a narrativa mítica em que o lendário configura-se como elemento prosaico, esvaziado de dimensões extraordinárias. Termina a passagem com uma quebra radical do recorte mítico, abrindo-se para o cenário de um comercial.
Ainda vale a pena observar também o expressivo efeito obtido pela engenhosa narrativa epistolar que constitui o capítulo 23. Os textos lacônicos dos bilhetes e das cartas, associados às informações parentéticas, primam por expor a tensão oculta nas palavras.    
Um técnica quase fractal exibe a realidade caleidoscópica da memória. Quase porque nunca repete a mesma estrutura. Cada capítulo modifica o universo, apostando no antilinear e na memória como o processo de formação do mapa de ilhas vividas em ambientes e épocas distintas. A imagem reiterada do “piso de lajotas de cerâmica vermelha com bordas arredondadas” parece nos remeter ao texto construído como remontagem, um discurso em luta contra a força centrífuga do tempo que só na escrita, essa ação de rejuntamento, consegue o mínimo de coesão.
Freud apontou para o fato de a memória implicar tanto a ausência quanto a presença, ambas representadas no mesmo gesto: a presença de uma ausência. Embora constituída num determinado percurso, a memória nunca é a repetição do mesmo, sempre flutua, reconfigura-se, condenada a reinvenção constante de seu corpo discursivo. Assim, o passado, se volta através da falta, isto é, através da impossibilidade do seu resgate, permanece como lacuna. A memória é a invenção do passado como legibilidade, por isso a falta é matriz da ficcionalidade, do relato para inventar a memória, esse tempo sem passado.
Após a leitura de A oficina esbarramos em velhas questões. Que filtros atuam na depuração da memória a ponto de transformá-la em ficção? Lugares, pessoas, objetos, situações existenciais, anotações do precário ou inscrições que buscam ir além do horizonte do provisório - o que busca na realidade o narrador: lembrar ou esquecer? Provavelmente não haja nenhuma resposta. O narrador é aquele que fala de fora de qualquer experiência, por isso tudo o que diz é ficção e toda ficção é impura, ou seja, um terreno discursivo ilimitado. Isso é mais ou menos o que escreveu, com maior propriedade, Beatriz Sarlo (sobre outro contexto, o das narrativas provocadas por ditaduras):
“A literatura, é claro, não dissolve todos os problemas colocados, nem pode explicá-los, mas nela um narrador sempre pensa de fora da experiência, como se os humanos pudessem se apoderar do pesadelo, e não apenas sofrê-lo.”
Luciana Viégas, em sua primeira narrativa, já se revela possuída de febre ficcional. Isso é garantia de novas páginas de alta temperatura no horizonte.


Título: A oficina.
Autora: Luciana Viégas.
Editora: Graphia.
Páginas: 154. 
Ano: 2012
Preço:  R$ 40,00
Preço: 

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Revista Arraia PajéurBR + Contologia & Poemantologia dos Novíssimos Autores do Portal Cronopios


2ª FESTA DE LANÇAMENTO EM SÃO PAULO

Revista Arraia PajéurBR + Contologia & Poemantologia dos Novíssimos Autores do Portal Cronopios


- Entrevista com o escritor e editor Carlos Emílio C. Lima.


- Recital com os poetas e ficcionistas das antologias cronopianas.


Sexta-feira, dia 20 de julho, às 19h30

Local: Casa das Rosa Rosas - Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura

terça-feira, 17 de julho de 2012




















Um texto de intradução linguístico-anarcopoético-ideológica (análise psicótica de vocabulário neocolonizado)


Mainstream

Em tradução mal passada:
padronização do pensamento,
vaquinha de presépio,
Maria vai com as outras,
tecnozumbido,
obediência à onda,
massa de manobra
ou manada sob o rolo compressor
- cabeça na privada.

 
Origem
 

Sala de think tank,
ou seja,
aquário de pensamentos
alugados
à vista ou a prazo.
por peixes especializados
em expelir expertise em palavras.
Usinas sem ideias:
gêmeas de ongs-gangues .

 
Resultado

Uniformicocos mentalis
Nome vulgar: merda no miolo.

sábado, 7 de julho de 2012

A alma no aberto






















O bóson de Higgs
se dobra e desdobra
para me fazer um outro
mas não sou Rimbaud
não sou eu nem esse
nem aquele nem quero
não ser um ser qualquer.
Nada ao lado,
vazio ao centro,
é sempre o mesmo sopro,
o perfil torto,
o incompleto rosto
de um louco
sem amor
sem matéria
sem dentro.

A última partícula
partirá rumo ao esquecimento.

Como no amor,
o que se amplia na física*
é a fissura dos limites.

* entenda-se por física
as turbulências de seus olhos verde-suicida.