terça-feira, 14 de agosto de 2012

O amor trancado no cofre



















Não consigo parar de escrever esses poemas anacrônicos. Como vivo na contramão do meu tempo, talvez seja eterna maldição. Só pulando fora do horror para encará-lo e seguir em frente. O que é uma contradição, certamente. Talvez a anacronia seja apenas a falsa aparência, uma camisa de força necessária ao mundo hostil à apreensão lírica. De qualquer forma, sigo no meu pugilato, agora medindo distância, procurando apurar a mão para o golpe certeiro. Nós, poetas, sabemos que tudo o que buscamos na vida é um poema com a força de um nocaute. Não é o caso deste, evidentemente, pequeno jab talvez com leve intensidade.

 
O amor trancado no cofre

Cem metros à esquerda

uma decisão me espreita.

Basta uma palavra

para incêndio ou primavera.

Preso na garganta

um transatlântico
vê o horizonte
migrar para o impossível.

Duzentos metros depois

nada sobrou de nós dois.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Beatriz
























Beatriz

Também tive,

Dante,
por um breve instante
guardiã e guia
que me legou
eterna cicatriz.
 
 

domingo, 12 de agosto de 2012

Céu abaixo


A Escada de Jacó, de William Blake (1757-1827)


























A três palmos do chão
miro
manchas demoníacas no céu
em desmonte.

O caminhão de mudanças
levará o azul
para o outro lado da cidade.

Em gigantescos sacos plásticos
embalam manhã e nuvens.

Nenhuma informação dos indivíduos
em uniformes ocres.

As mesmas escadas
para marcas em outdoors
usadas
© Jacó.

Tapumes púrpuras impedem
a leitura de novo anúncio
na velha pele do planeta.

A três palmos do chão
piso
pedras despidas do céu
em demo/lição.



Margem mínima



A cem metros da superfície do teu rosto
nado contra a correnteza
e os peixes de escamas violetas
ao redor do farol abandonado
no canto de tua boca.


Teu olhar
ancorado na carne rasa
fecha a passagem das águas
e dispersa
com movimentos
de déspota imponente
a minha alma em finas camadas.

sábado, 11 de agosto de 2012

Na cola do poema






















A três passos
da descoberta
a palavra
murcha
no canto da boca.

Sílabas
na saliva,
sal
na língua
suja.

A escrita
um corpo
quase,
devassa,
devastação.

Gastei minha sombra
à procura,
virei exumador de cadáveres,
vermes,
vocábulos.

Meio milímetro a mais
nuvem epifânica esplenderia.

Pelos versos
sempre escapa o poema
ralo afora,
bueiro,
lapso,
no colo de uma vírgula nefasta.

Provo Nicanor Parra,
me valho de Vallejo,
malho Mallarmé em sintaxe exata,
acendo Drummond
na madrugada morta.

Heresia ou hermenêutica,
nada do poema,
nadinha.

Nunca o poema,
somente abalos sísmicos
espalham na pele das palavras
sombra e susto
de inominada passagem.

domingo, 5 de agosto de 2012

Gesto vazio


"The Embrace", 1917- Egon Schiele















Gesto vazio


Um abraço
às vezes é tudo;
toque e troca de tom
da pele,
sai o cinza entra o caramelo.

Adoro abraçar teu nome
principalmente agora
que enlaço o vento,
com as costas escoradas na parede
para não cair.

As pernas ainda dispostas
a sair
correndo porta afora
atrás de tuas palavras impuras.
Mas os braços escutam
o vazio
e murcham no escuro.


sábado, 4 de agosto de 2012

Inclassificável






















Esqueci minha mochila
no táxi.
Dentro a mão direita
e um rim bichado.
O telefone da cooperativa
ocupado.

Mochila militar
desfiada
com manchas de felicidade.
Favor não devolverem
o anel de noivado.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Quá-quá-quá em tablete meio amargo





















Quá-quá-quá em tablete meio amargo



Atravesso uma quadratura aquátil
palafitas
                malditas
                                : as palavras

Casa do falso quediva do Cairo
em ondas de quebra-verso
à deriva

Quiçá um esquadro
de quartzo no meio do quarto
ou de um quasar
quebre meu queixo
antes que a roda de um carro

Quero
a quântica quenga
do último bolero
que fugiu com o roteirista
cego

Mas o serviço de entrega
à queima-roupa
me reserva anódinas encomendas

a) Dois versos de Paul Celan
     dentro de vidro de azeitonas
     “Deslizas: o granizo negro da melancolia
     Cai num lenço, todo branco pelo aceno de despedida”

b) Caixa com fotografias extraviadas
     menina com um cãozinho beagle no colo
     mulher quíchua de olhos quebrados
     contra a neve dos Andes
     homem mal passado

c) Apólice de plano de apo(sentado)ria
      bilhete anexo
      “prazo de validade ilegível”


quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Exercício aéreo






















Sete
serpentes de celofane flutuam
sob a pele azul-pólvora
do céu em queda.

As linhas
que as sustentam
são minhas veias aéreas.

Até que o destino
abra o zíper de intempéries
e despeje,
sete pipas
voarão alto na tarde.


quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Não hai nem kai 23

 
 
 
 
 
 
 
Não hai nem kai  23

Música volátil,
flauta aberta na gaveta
da escuta vazia.
 
 

Surf


















SURF

sem superfície

surto
no fundo


sem prancha
sou plâncton
afundo

tumulto

meu nome
netuniano
undífluo
underground
é engano

A poesia morreu. Juro que sou inocente.


Poema vencedor da PROMOÇÃO  “ O FINAL  DOS TEMPOS”,              
organizada pelo site BLOGBLUGBLAGUE


 Para VC, amor, um poema WC    
  
  (com posição etilírico-amorosa)

Troque    uma letra  de   PERDA
Ganhe     um   quilo de   MERDA
                                 
    Poema de    Umbego egobigo


Parecer do Júri: O poema explora a miséria alheia em proveito impróprio, isso pode ser verificado pela axiologia coprológica em termos vulpinos da semiose libidinal dos catavermes imunes. Com os estrogênios telecinéticos o autor cria um processo paronomástico vibrátil, pleno de niilismo vesânico pós-moderno e cataléptico autorreferenciado. Notável o efeito do modo injuntivo conjugado a um jogo em que o par  linguagem/medida formula matrizes de um desequilíbrio concêntrico.