sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Série "Não hai nem kai" II




















1 (Lua azul)

Lua a duas vozes
acende no mesmo mês
um disco de luz.

2

Breve a primavera
abrirá todas as portas;
amores à solta.

3

Cavalos do sol
aos saltos, cascos nos corpos
de vastos pecados.

4

Um vento divino
sopra a palavra no poema,
mundo sem domínio.

5

Acena o oceano
com as sereias do Atlântico.
Eu...  copacabando-me.. 

6

Assustou-se  esquivo
sagui do Jardim Botânico;
ventania, relâmpago.

7

Babélica burla
o amor, rolam beijo e abismo
na mesma orla curva.

8

Delicado beijo;
na rubra falha do corpo,
tumulto e incêndio.


9

A sombra de um cão
na lua late luminosa;
eco nas estrelas.


10

Uma gota gasta
a margem negra do líquido.
Dedo no gatilho.


11

Segredo nas asas, 
voa e valsa um beija-flor.
Pétala de orquídea. 

12

Esvai-se o inverno
em seu casaco de nuvens
lavado nos ventos. 

13



Entre galhos secos
um sabiá, graça esguia
na chave de sol.

14

Cálice e corola
crescem o corpo da flor
aquém do perfume.

15

Árvore onde o sol
pousou seus cabelos de ouro
renasceu memória.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Subúrbia




Trabalho de Ernesto Neto






















Honório Gurgel.
Fila na sombra do poste.
Cinquenta minutos
à espera do ônibus
ou da morte.
Passa uma morena,
meu coração desmorona
nos fiapos do mínimo short.

Arte do manuseio


Trabalho de Cy Twombly 


























Dúctil, a palavra.
Você a pega,
atravessa
paredes
e samba.

Desmesurada
do outro lado
em outras bandas
toca o limite
da noite
e aos tropeços
toma
os nomes no colo,
espalha
telefones falsos
e olhares de puta
a homens anônimos
(ou será autômatos?)
Depois
você tomba.

Acorda
com o manuseio
de mãos e palavras
impuras
passeando nas nádegas.

Sairá pela porta
insana
com a bolsa
carregada de palavras
mortas.