quarta-feira, 17 de outubro de 2012



Estou nesta antologia que será lançada dia 18 de novembro.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Dose dupla


























Boa noite,
Sr. Golyádkin,
também
me chamam assim.

Somos sombras
cúmplices,
vacilantes,
falhas em duplicata.

Por favor,
coloque o capote,
aperte a minha mão
e o passo.
Não faça 
essa cara de espanto
nem me desaponte
com seu desdém.

Vamos vagabundear
por Petersburgo
em carruagem de cavalos de Kazan
digna do tsar.
Sairemos da rua Chestilávotchnaya,
atravessaremos
a ponte Izmáilovski;
Clara Olsúfievna
nos espera
vestida de versos franceses.

Não, amigo,
não há mais bailes aristocráticos.
Breve estaremos na neve
da avenida Niévski,
comemoraremos a morte
do Grande Inquisidor
no cabaré Príncipe Míchkin.


.


terça-feira, 9 de outubro de 2012

Latência





















Dois minutos
duas horas
dois dias
dois anos
dois séculos
e o pulso dos teus olhos
ausentes
não se fecha



segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Do lado avesso





























De passos suspensos
a levitação.
Basta leve impasse
e talvez a corda bamba
acorde
onde tomba
o artista,
do outro lado do chão.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Alma de sparring (versão BETA)

Jan Saudex - Kisses In The Moonlight, 2001

Com você
no ringue
no 
gole engole
do boxe
galope de golpes
no fígado
fôlego
falido

- nocaute

Na zona
abaixo da cintura
soa o gongo

- novo round





quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Nova cartografia urbana

arame farpado, Preto e branco, arquitetura, branco, construção, Arranha-céu



Eis o progresso.
Reparem sua impostura,
as linhas da nova arquitetura,
funcionalidade
o conforto

para poucos.


(Este é o melhor dos mundos.)

Situações extremas

abalam
editoriais e urbanistas,
mas a repaginação
das ruas,
o reforço da vigilância,
os helicópteros acima dos guetos,
as tropas estelares da polícia
e a cerca navalhada dos muros
exibem requintes de perversão
nas capas de revistas 

de revirar o estômago.

(Ainda bem que os Estados Unidos

nos salvam de terroristas
e de nós mesmos.)

A suprema delícia,

a maravilha da nova desordem
mundial
nos projetos de capitalixos
negociantes de almas,
traficantes de luas e cidades.
A leitura que importa
- a lista dos dez vigaristas
mais ricos do planeta.

(Graças ao disque-denúncia

nos livramos
de todas as pessoas diferentes.)

Vendem-se em fascículos e

realities shows,
no mesmo pacote,
condomínios luxuosos
e zonas de extermínio,
clones,
drones
e drenagem cibernética.

(Felizmente a televisão,

labirinto do olvido,
imagem e semelhança de Deus.)

As cidades

amputadas em plantas
monetárias
morrem sufocadas
de necronegócios.


Haicai para Carlos Nelson Coutinho



 
















Era um sol aceso
ainda há pouco. Apagou-se.
O chão ficou cego.


A excelente Revista Germina Literatura traz, na edição de setembro, doze poemas de minha autoria.  Para acessar entre no link 

http://www.germinaliteratura.com.br/2012/jose_antonio_cavalcanti.htm.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Série "Não hai nem kai" II

























xv

Um fogo no céu
amarelo queima o azul,
a nudez dos corpos.


XVI

No muro pichado
preguiçosa lagartixa
espicha o rabo.

XVII

A flor da loucura
nasce daquelas palavras
na cova da boca.

XVIII

Modula o regato
mágica música líquida,
canção cristalina.

XIX

Chuva na cidade.
A água leva lixo e mágoa
nas ruas que lava.

XX

No cravo vermelho
notas de outro cravo ecoam,
teclas tocam pétalas.


XXI

Laelia purpurata,
asas rosas, pura púrpura
guardiã do ouro.


Paisá

















a corda
sempre arrebata
o lado mais frágil
do dia

minha sombra
enforcada
dança
na janela
da poesia

Gramática do fim do mundo

 
 
 
 
 
 
 
 
Gramática do fim do mundo I – 

Processos de deformação de palavras

Ex marido
Ex vira-lata
Ex mulher
Ex modelo

Ex – prefixo do tempo perdido, usado para etiquetar a coleção de despojos que largamos em nosso caminho. Introduzido em língua portuguesa por Marcel Proust.

Gramática do fim do mundo II

Antilógico
Antimatéria
Anticristo
Antissocial

Anti – prefixo de barricadas e enfrentamento, morfema radical de confronto. Linguisticamente o movimento que nos arremessa um contra o outro, meu amor. Introduzido em língua portuguesa por Friedrich Nietzsche.

Gramática do fim do mundo III

Introjetar
Intrometido
Introito
introvertido

Intro – Prefixo que assinala movimento para dentro, posição interior. Dizem os pseudoeruditos da Academia Mundial dos Malditos (minha maior referência no campo dos estudos linguísticos) que essa forma deriva do verbo doer. O “d” e o “o” iniciais do gerúndio teriam caído fulminados por um frenético colapso fonético provocado pela intensidade da dor quando, supostamente, caminhamos para dentro de nós mesmos. Alegam os célebres estudiosos que esse prefixo é uma fraude, dada à completa impossibilidade de comprovação da existência de um interior humano. Prefixo introduzido em língua portuguesa por Freud.
 
 

domingo, 16 de setembro de 2012

Invasão



         
      Para Walter Franco
 




Vou me invadir

agora
de fora para dentro
de dentro para fora.

Vou me invadir

sem pena
sem demora.
A minha memória
escuta
os meus passos lá fora.

Vou me invadir

a qualquer hora
antes
que eu fuja de mim
depois
que eu for embora.