segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Mallarmargens



Mais dois poemas meus foram publicados na excelente Mallamargens - Revista de poesia e arte contemporânea. Confiram no link abaixo:

http://www.mallarmargens.com/2012/10/2-poemas-de-jose-antonio-cavalcanti.html

domingo, 21 de outubro de 2012

O colecionador

Trabalho de Cildo Meireles


















Apressado
por palavras importunas,
ergo a voz
para baixar meu retrato
de um arquivo morto
onde,
coberto de anêmonas
e betume,
anemiza dedicatória infame.

Sim,
este sou eu,
rasurado rosto
sem lábios,
a orelha direita mutilada,
apenas um olhar boiando
insuficiência e naufrágio.

Recolho
o minuto irrecuperável,
guardo-o com cuidado
de antiquário
na galeria fantasma
dos atos falhos,
ao lado
de outras cópias
imperfeitas
do corpo devoluto.


sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O passado é mais à frente



















Segue
a sombra
como se mil setas
a orientassem
na avenida morta.

Perseguidora implacável

joga a pistola de mira laser
no banco do carona.

Abre a bolsa,

retira um batom
e acelera
comprimindo os lábios.

A sombra 

do outro lado da rua
desparece
na curva em esse.

Pisa no freio,

vê no retrovisor
da sombra
à esquerda da penumbra.

Dá marcha ré

até alcançar
um almoço
perdido no passado.

Atropela,

ágil e aliviada,
as palavras
pousadas
em postas de peixe.



quarta-feira, 17 de outubro de 2012

26 não hai nem kais
























Há males que vêm,
há outros que vão embora,
os piores voltam.

2

Folhas maduras
dançam na luz noturna
do olho da rua.

3

Mãos estendidas
na chuva. Os pés não cabem
na rua alagada.

4

Luz suspensa. Ar
parado. Vento morto.
Você no portão.

5

O frio nos espia
com grossas lentes azuis.
Geleira no corpo.

6

As folhas estalam.
Minha amada me segue
para cegar-me.

7

Cigarras virão
com canções de despedida
aquecer o verão.

8

Bashô no Leblon
viu a lágrima na onda
da banhista nua.

9

Frutos nos galhos
em breve. Polpa nas bocas,
pecado nos corpos.

10

Camaleão imóvel
escreve eternidade
no muro em ruínas.

11

Plantas adormecem
na cidade morta. Filtram
ar, silêncio e sonhos.

12

Risos na floresta.
Concerto a quatro mãos
a canção do amor.

13

O rumor das águas
embala a madrugada.
Carícia sonora.

14

O céu desaba
chuva e cheiro de terra.
Lentes lavadas.

15

Nova primavera
invejosa do verão
incendeia a flor.

16

Calor infernal,
aves voam em chamas
no céu amarelo.

17

Quando o outono
voltar, outro amor virá
com a aurora.

18

Estala o galho
quebrado como beijo
seco e gelado.

19

Folha de veludo
verde no chão vagabundo,
breve as formigas.

20

Tremor no céu
manhã de tempestade
sem você ao lado.

21

Sabiá suspenso
no poste cinza inclinado
canta luminoso.

22

Diz Nuno Ramos:
lesmas lambendo a lama,
juncos sob o sol.

23

Lágrimas na lua
caem de olhos magoados.
Madrugada cheia.

24

Te vejo no beco.
Cabe o universo inteiro
em via tão estreita?

25

Neblina espalha
blindagem na mata verde.
O sol traz a chave.

26

Vulto sem asas
o uirapuru de plástico
e pilha. Pilhagem.





Camuflagem

Trabalho de Desiree Palmen



























Quando a noite cai
ou sobe
ele veste uma roupa
em camadas
oníricas,
listrada de desejos,
fora de moda
e pobre.

Cor de tempestade,
tamanho M,
de pernas enormes,
toda em algodão
e cobre.

Cordão grená
segura o capuz de couro
em torno do pescoço
do homem que foge.

Mangas imensas,
abertas ao infinito,
constroem cavernas
para membros suspeitos.

Pernas ortopoéticas
amputam palavras
no campo de pés quebrados.

Rimas líquidas
enceram os sapatos com embriaguez
e elegância;
a música derrama malícia
no piso e no papel
sobre os quais ecoam
os passos em falso
de mil disfarces.

O inominado desaparece
quando aperta o sétimo botão
perolado da camisa bege
sem deixar vestígio.

Seu olhar é a polpa impalpável
do impossível.



O falso Prometeu



Prometeu Acorrentado (1762); Sebastien Nicolas-Sébastien Adam (1705-1778); escultura em mármore (Louvre).

As meninas
queriam brincar com fogo
mas Prometeu
esqueceu as regras do jogo.





Estou nesta antologia que será lançada dia 18 de novembro.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Dose dupla


























Boa noite,
Sr. Golyádkin,
também
me chamam assim.

Somos sombras
cúmplices,
vacilantes,
falhas em duplicata.

Por favor,
coloque o capote,
aperte a minha mão
e o passo.
Não faça 
essa cara de espanto
nem me desaponte
com seu desdém.

Vamos vagabundear
por Petersburgo
em carruagem de cavalos de Kazan
digna do tsar.
Sairemos da rua Chestilávotchnaya,
atravessaremos
a ponte Izmáilovski;
Clara Olsúfievna
nos espera
vestida de versos franceses.

Não, amigo,
não há mais bailes aristocráticos.
Breve estaremos na neve
da avenida Niévski,
comemoraremos a morte
do Grande Inquisidor
no cabaré Príncipe Míchkin.


.


terça-feira, 9 de outubro de 2012

Latência





















Dois minutos
duas horas
dois dias
dois anos
dois séculos
e o pulso dos teus olhos
ausentes
não se fecha



segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Do lado avesso





























De passos suspensos
a levitação.
Basta leve impasse
e talvez a corda bamba
acorde
onde tomba
o artista,
do outro lado do chão.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Alma de sparring (versão BETA)

Jan Saudex - Kisses In The Moonlight, 2001

Com você
no ringue
no 
gole engole
do boxe
galope de golpes
no fígado
fôlego
falido

- nocaute

Na zona
abaixo da cintura
soa o gongo

- novo round





quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Nova cartografia urbana

arame farpado, Preto e branco, arquitetura, branco, construção, Arranha-céu



Eis o progresso.
Reparem sua impostura,
as linhas da nova arquitetura,
funcionalidade
o conforto

para poucos.


(Este é o melhor dos mundos.)

Situações extremas

abalam
editoriais e urbanistas,
mas a repaginação
das ruas,
o reforço da vigilância,
os helicópteros acima dos guetos,
as tropas estelares da polícia
e a cerca navalhada dos muros
exibem requintes de perversão
nas capas de revistas 

de revirar o estômago.

(Ainda bem que os Estados Unidos

nos salvam de terroristas
e de nós mesmos.)

A suprema delícia,

a maravilha da nova desordem
mundial
nos projetos de capitalixos
negociantes de almas,
traficantes de luas e cidades.
A leitura que importa
- a lista dos dez vigaristas
mais ricos do planeta.

(Graças ao disque-denúncia

nos livramos
de todas as pessoas diferentes.)

Vendem-se em fascículos e

realities shows,
no mesmo pacote,
condomínios luxuosos
e zonas de extermínio,
clones,
drones
e drenagem cibernética.

(Felizmente a televisão,

labirinto do olvido,
imagem e semelhança de Deus.)

As cidades

amputadas em plantas
monetárias
morrem sufocadas
de necronegócios.