sábado, 10 de novembro de 2012

Máquina de moer versos




















Com você eu iria a                 Meca
       à margem
                       nossas vidas menos
        sábado à tarde                  narcômano
 mínimo                 figura            zigurate
obsidiana                a poesia quase
            deplorável fuga                    novamente
o deserto             palavras
              em                       debandada
        arrebatamento                   em estilhaços.
     

sábado, 3 de novembro de 2012

Efígie atlântida























Encontrei este poema de Aristeas de Proconeso, poeta grego (680 a.C. - 540 a.C.), no trem em que eu viajava para Santa Cruz.Embora não saiba grego muito bem, apelei para os espíritos e consegui fazer uma tradução razoável, embora cheia de lacunas.


1.
Não desabe
outra vez
cornija
e arquitrave
sobre os passos
de paixão indelével.

2.
Eros
em seu templo
sustente
erosão
nas colunas de carne
e carícia.

3.
Sacerdotisa
pítia
impiedosa
não profira
as sílabas
assassinas.

3.
O oráculo
de Delfos
guarde os véus
da tempestade.

4.
Pallas Athena
preserve o sangue
da coruja
em cratera de ouro
fora do alcance
de lanças macedônias.

5.
Afrodite
permita os prazeres viperinos
do cerimonial
de putas sagradas
em troca de sete virgens,
folhas de murta e romãs frescas.

6.
Dyonisos
libere a via dos excessos,
o trânsito do transe
de bacantes embriagadas
e nuas
no palco em escombros.

7.
Zeus
traiçoeiro e intrigante
lance raio fulminante
sobre as tropas espartanas
implacáveis na conversão
de tumulto em túmulo.

α 
Não desabe novamente
a não ser
sobre meu corpo
pulsando como louco
no porto de Pireu.


sexta-feira, 2 de novembro de 2012

ANI(AD)VERSÁRIO (Versão resmaterizada)




















Sessenta naves naufragadas
de uma frota demente:
prova contundente
que só navega de verdade
quem se arrisca verticalmente.

Cego da ausência dos olhos amados,
qualquer ilha no horizonte
é abismo incandescente.

Nenhum futuro a bordo,
nenhum felicidade à frente,
à beira de todos os perigos
do mar em turbulência.

Navego a mil nós por hora,
todas as velas velozes
ao sopro violento dos ventos.
Sem pânico,
sem arrependimento,
voo para o fundo dos seus olhos
a mil milhas de mim.

Não maldigo a sereia
cujo canto me afundou:
o verde licor da vida
só em seus lábios bebi.


Tubarão




Um vira-lata chamado Tubarão chegou ao fundo do oceano no fim da rua. De nada adiantou latir para a parede nua ou suplicar passagem a muro inflexível. O oceano é espaço aberto ao abandono, sem portas ou via de escape. Murcho e exausto, o cão vadio comemora o seu aniversário. Criado nas ruas onde pastam submarinos de ouro e plástico, guarda o fôlego em subterrâneos. Encurralado e submerso, o vira-lata cresce  incontrolavelmente como uma estrela gigante na zona morta da cidade invisível.

A morte roeu a corda


















Soube, naquela hora, que algo se partira para sempre em sua alma, por se quebrar e por ir embora. Uma corda esticada em máxima tensão amorosa cessara a música em que mergulhara tanto afeto e delicadeza. Sabia agora que a corda sempre arrebenta do lado imprevisível da esfera. A mesma corda frágil e fina que modulava felicidade providenciada de modo atento e sereno uma forca bem firme. Nada podia fazer, já não possuía pescoço para mais uma morte.

Passagem










































Beco sem saída
nenhum
enquanto houver
acesa
a lâmpada
da pulsação
e o desvio
da surpresa.


Conexão fantasma

 trabalho de Rauschenberg









































Pegou a mochila, sacou o lápis para desenhar
Ineses mortas e perdidas Penélopes. Incapaz de 
qualquer traço, abriu o laptop e acabou escrevendo
o título de poema informe. "Pêssegos à margem",
o tom joyceano dispersou-se no espírito tomado
p
or multidão e algaravia. Intumescidas palavras
escorriam pelas pálpebras, vinham impregnadas
de películas de fracasso. Podia, ao fechar os olhos,
escutar todos ritmos do desastre. Abriu a terceira
gaveta para pegar desculpas e fôlego. Na verdade,
queria apenas esquecer a dormência do olho direito
e a ardor nas axilas. Alguém jogara alvejante
na lua, talvez a mesma pessoa que espalhara Nora Ney
na madrugada. Três folhas de rascunho lançadas
aos canteiros do prédio em obras, andaimes farpados
na geometria de desconcertos camonianos.
Três vezes o coração em oferenda a clínicas cardiológicas.
Três vezes o nome capaz de destruir o universo
instigou passagens secretas da memória.
Da mochila sacou o "Poesia expressionista alemã"
para vampirizar Berlim, Dusseldorf, Munique,
nosferateando Gotffried Benn,, August Stramm
e Goerg Trakl. Sentiu fome, sentiu sede. Nada o
levantaria da cadeira de pé quebrado,
iria noite adentro bamboleando quedas e fracassos,
laptropeçando sempre na mesma tecla.



História da poesia sob a perspectiva etílico-esquizofrênica




















Um poeta louco
colocou um pelotão de decassílabos
alinhado em colunas imponentes
e ordenou, com voz de besouro modernista,
o fuzilamento de todas as rimas.

Atingidas por rajadas
de chaves de ouro, cesuras e granadas
as estrofes fugiram em pânico
para o pântano Anacrônico.

Do outro lado da página
leitores exaltados
tiveram crises de versos e nervos.
Afundaram palavras em liberdade
em baús gigantes
e jogaram fora as chaves
de qualquer poética.

O poeta louco,
mais louco ainda,
isolou a experiência em experimento.

Tempo louco (poema fractal)



























agora
há pouco
depois
de antes
é agora
depois
de agora
diante de
daqui
a pouco


Forma instável





















A palavra
plana
no sopro
em que se misturam
impulso
e procura.

O próprio do poema
matéria impura,
marca
a impropriedade do nome.

A dez milhas de metáforas
ao norte
ou a cinquenta graus
nas dunas do deserto
o mesmo dilema amoroso:
embriaguez ou recusa.

Equilíbrio,
solidez,
pesos falsos no poema.

Lucidez líquida,
palavras circulares
nada fixas
nadam danadas
na danação do nada.


O grande porre de ontem



















Uma garrafa
mais uma praga;
podres petiscos
sabor de perda.

Por favor, sal
em carne amarga,
ferida, amor
mui mal passado.

Quero lavar
memória morta
em cem mil copos
envenenados.

Só traga a conta
caso a alma tonta
em caos e ocaso
tombar em coma.



Fora de órbita





























Vivo em curto
circuito
à longa distância
do círculo
explosivo
do teu corpo de excessos

Sou visível
a olho nu
na constelação em espiral
do outro lado da sala.

Tudo é questão de grau
e abrigo.
Basta moveres
com delicadeza e matemática
palavras contrabandeadas
em antigos mapas astronômicos;
compreenderás,
então,
que ninguém paralisa o universo
para voltar incólume
depois da tempestade.

Órbitas desviadas
lacram as linhas do retorno cósmico.

O amor em fuga
forma a matéria escura do universo.