domingo, 18 de novembro de 2012

Antídoto

















O riso,
como a vida
e a arte,
surge do nada.

Um pouco de
ar
para não acabar
estátua
esparzindo mudez
em redomas opacas.

O riso, compulsivo destino.
Talvez não se levar
a sério
seja o único remédio.

As dores de homem,
o sorriso de menino.

Apagamento



























paz
por afogamento

alcançar
o Nirvana
por inércia

cair
na terceira sílaba
da palavra
eu

decepção,
o verbo decepar
em todos os modos do futuro

especular
olho explodindo espelhos

anoitecer
em branco



sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Estipêndio


























Todo tributo
injusto
peso
da tribo
em excesso
ao indivíduo

Estupendo
imposto
da presa
ao predador
coletivo

Paga-se
alto preço
para apagar-se
vivo.


quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Questão 325 (ANULADA)





Comente o efeito de sem sentido nas palavras e expressões entre aspas no texto.

Use lápis 2B, régua, compasso, transferidor, máquina de calcular e bússola.

Naufrágio como “deriva” não em oceano, antes sinuoso esgueirar-se entre becos e luas metálicas. “Talvez Dinamene” no fundo, talvez mil sereias à frente, talvez o tesouro dos incas. Quem sabe escombros de barcos piratas no mapa de Tortuga, restos da invencível armada ou barco viking a caminho da América pré-colombiana, navios fantasmas? Naufragar sem gritos no convés, sem drama secreto, nenhum pânico no olhar, sem a reação instintiva de correr para a sala de armas, sem invocação a Netuno.  Guardar tragédias e assombros apenas para as páginas da História trágico-marítima, publicada por Bernardo Gomes de Brito em 1735-36. Naufrágio é mergulho interno, íntimo movimento de quem se aventura em “linguagens inavegáveis”. A mais funda herança lusitana em ondas nos “azulejos azuis do peito”.  Líquido e fugidio conceito, naufrágio também é a minha “queda” dentro dos seus olhos suspensos em “nuvens de lâmpadas queimadas”. Você que é tão céu e oceano. Não se necessita de margens, portos, cidades, barcos ou pranchas de surfe para que a tempestade se arme. Nenhum naufrágio possui a segurança de um fundo, que lhe forneça destino ou rumo. Naufrágio é toda a esperança de abraçar o aberto.


terça-feira, 13 de novembro de 2012

sábado, 10 de novembro de 2012

Máquina de moer versos




















Com você eu iria a                 Meca
       à margem
                       nossas vidas menos
        sábado à tarde                  narcômano
 mínimo                 figura            zigurate
obsidiana                a poesia quase
            deplorável fuga                    novamente
o deserto             palavras
              em                       debandada
        arrebatamento                   em estilhaços.
     

sábado, 3 de novembro de 2012

Efígie atlântida























Encontrei este poema de Aristeas de Proconeso, poeta grego (680 a.C. - 540 a.C.), no trem em que eu viajava para Santa Cruz.Embora não saiba grego muito bem, apelei para os espíritos e consegui fazer uma tradução razoável, embora cheia de lacunas.


1.
Não desabe
outra vez
cornija
e arquitrave
sobre os passos
de paixão indelével.

2.
Eros
em seu templo
sustente
erosão
nas colunas de carne
e carícia.

3.
Sacerdotisa
pítia
impiedosa
não profira
as sílabas
assassinas.

3.
O oráculo
de Delfos
guarde os véus
da tempestade.

4.
Pallas Athena
preserve o sangue
da coruja
em cratera de ouro
fora do alcance
de lanças macedônias.

5.
Afrodite
permita os prazeres viperinos
do cerimonial
de putas sagradas
em troca de sete virgens,
folhas de murta e romãs frescas.

6.
Dyonisos
libere a via dos excessos,
o trânsito do transe
de bacantes embriagadas
e nuas
no palco em escombros.

7.
Zeus
traiçoeiro e intrigante
lance raio fulminante
sobre as tropas espartanas
implacáveis na conversão
de tumulto em túmulo.

α 
Não desabe novamente
a não ser
sobre meu corpo
pulsando como louco
no porto de Pireu.


sexta-feira, 2 de novembro de 2012

ANI(AD)VERSÁRIO (Versão resmaterizada)




















Sessenta naves naufragadas
de uma frota demente:
prova contundente
que só navega de verdade
quem se arrisca verticalmente.

Cego da ausência dos olhos amados,
qualquer ilha no horizonte
é abismo incandescente.

Nenhum futuro a bordo,
nenhum felicidade à frente,
à beira de todos os perigos
do mar em turbulência.

Navego a mil nós por hora,
todas as velas velozes
ao sopro violento dos ventos.
Sem pânico,
sem arrependimento,
voo para o fundo dos seus olhos
a mil milhas de mim.

Não maldigo a sereia
cujo canto me afundou:
o verde licor da vida
só em seus lábios bebi.


Tubarão




Um vira-lata chamado Tubarão chegou ao fundo do oceano no fim da rua. De nada adiantou latir para a parede nua ou suplicar passagem a muro inflexível. O oceano é espaço aberto ao abandono, sem portas ou via de escape. Murcho e exausto, o cão vadio comemora o seu aniversário. Criado nas ruas onde pastam submarinos de ouro e plástico, guarda o fôlego em subterrâneos. Encurralado e submerso, o vira-lata cresce  incontrolavelmente como uma estrela gigante na zona morta da cidade invisível.

A morte roeu a corda


















Soube, naquela hora, que algo se partira para sempre em sua alma, por se quebrar e por ir embora. Uma corda esticada em máxima tensão amorosa cessara a música em que mergulhara tanto afeto e delicadeza. Sabia agora que a corda sempre arrebenta do lado imprevisível da esfera. A mesma corda frágil e fina que modulava felicidade providenciada de modo atento e sereno uma forca bem firme. Nada podia fazer, já não possuía pescoço para mais uma morte.

Passagem










































Beco sem saída
nenhum
enquanto houver
acesa
a lâmpada
da pulsação
e o desvio
da surpresa.