segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Lúmen





















Um lance de laços
sem estrelas
estreita um jogo
de fartos espelhos.

Os dados amarrados
não saem das pontas dos dedos
viciados
em apontar falhas e fiascos
lançados ao acaso.

As palavras recicláveis,
reutilizáveis,
descartáveis,
boiam nas vitrines do shopping
- mercado de sentidos em liquidação.

O jogo segue
cego e célere,
mas os jogadores sabem muito bem
que não há vocabulário
nem poetas-faxineiros
para limpar a sujeira de nossa miséria.

Jogam para sujar as mãos;
talvez do lodo uma estrela. 




























Caos
é meu nome
em dias de tempestade
e assombro.

No cais flutuante

do sonho
toda madrugada
o mundo acaba
sem trombetas
bem de mansinho.

Preciso morrer

de vez em quando
para adubar de sombras
palavras
ameaçadas de caminho.

Preciso morrer

para livrar-me
do acúmulo de fendas
no pergaminho do rosto,
para livrar-me
do peso de gestos
decalcados de noite e de dilúvio.
Preciso morrer
antes que o galo cante
qualquer redenção.

Pular a possibilidade

de sentido,
cortar qualquer entendimento,
viver sem explicações.

Preciso morrer
para permanecer vivo.


Fora de controle





Para alcançar
o inalcançável
escada magirus
cordas
roldanas
e balão de hidrogênio
tudo a caminho
do último andar
fora da linha
do horizonte
um trem no meio de nuvens
em chamas
e não há água nas mangueiras
sob holofotes samaritanos
palavras suicidas
lançam pedras nos bombeiros
pelo direito ao inferno


domingo, 23 de dezembro de 2012

Fora de mapas

Pintura de Amedeo Modigilini


















Para soletrar teu nome
nasci
em tarde âmbar e gris
nasci
para naufrágio e queda
nasci
para mergulho e perda
nasci
para o mar metálico do nada
nasci
fora de previsão e espera
nasci
aquém contra quase apesar
nasci
para me perder ao te navegar.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Visita



















Atrás das aldrabas
um pátio.
No centro do pátio
pequena fonte,
palco de águas
antigas.

A alfurja mourisca
não morre.
O chão duro
 ainda respira
o risco
de arisca felicidade
sob camadas de monturo.


quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Açúcar





















Às vezes 
me dá um branco: 
algo na memória 
se apaga. 

Grão ou gota 
de doçura extrema 
alarga-se 
na ponta da língua. 

Aproveito então 
a fuga milagrosa 
do acre 
e o desgaste de áspera gastronomia 
para abrir o lacre
do mel da poesia.





Sistema de insegurança





















Todos os beijos
intocáveis 
do outro lado
dos lábios
que não se abrem 
sem a senha 
são lacres
zelosos
no ofício
de fazer 
da boca 
inviolável 
cofre.

Espelho
















Veja,
meu bem,
este menino
dolorosamente adulto.

Também arremesso minha errância contra o horizonte.

Minhas pedras
muito mais leves
em suas arestas
perdem o alvo.
A carga do pequeno Ismail
muito mais letal e explosiva.

O altíssimo teor
 de abandono e urgência
inscrito em seu arremesso
é o nosso batismo como apátridas.

Imobiliária Deserto






Para que morar
em casa
de dois,
três andares
se um andar
sozinho
não encontra
qualquer caminho?


Horizonte vertical




















Adoro tempestades
fora de copos d'água,
mar derramado em tapetes
de carne bem verde,
plânctons entre paredes,
esponjas submersas em redes.

Podem ser rota maldita
os risos loucos
sobre o oceano.
Não,
não inverterei o curso;
corsário,
não vou deixar
o silêncio fazer água.

Para o quarto dos fundos
sem pânico
- todas as veias abertas.


domingo, 16 de dezembro de 2012




O portal Cronópios publicou a minha série de poemas "Não hai nem kai II". Confiram em 
http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=5582

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Largado






















Desde menino assim
ao largo.
A escola interna
- enferma escolha alheia -
antes depósito-inferno.
Nauta mirim no lodo
amargo
da mesa de mármore.

No entanto, o riso
natural, costura oculta
nas mangas do uniforme
listado
de fugas e abandono.

Nascido com os pés sujos
de ocaso,
restou-me
crescer para a aurora.

Um riso invencível
nos olhos,
intacto sol:
inviolável
fio fulvo escapa
de remendos.