quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Crivo



Um acorde em si.
A corda em lá, sol. Aqui
silêncio sem dó.



Chamado





















Intervalo
onde pousam
aves palustres
em fios suspensos
nos pulsos.

Afluem
nuvens de falhas
da fenda onde
agulhas inserem
fogo
no movimento peristáltico,
o âmago do pântano

Atravessar
o bulício incubado
em lama perniciosa
acumulada
em camadas de sonhos

Do outro lado
da pausa
minha voz me espera



quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Crônica de maus costumes




























O grande conchavo
para
a entrega das chaves
do Papado.

Quem jogará os dados
no consórcio?

A religião é boa
para os negócios.

Alguém
disse ópio.

Mulheres podem rezar,
alcançar a santidade,
mas escrever o nome
do novo Pedro eleito
queima as mãos de Eva.



segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Armada


















Vou em navios
na névoa
cinérea.

A lua
afunda
em ondas escuras
chegadas
e quimeras.

Nau capitânia
em encapelado mar
azul-violeta,
vela mestra
fora do ar
saturnino,
apenas tempestade
& barris de rum
por radar.

Cento e um navios
a mil milhas
da ilha fantasma mais próxima.

Sísifos com asas
no mar de águas pesadas
levados por ventos alísios
contra a muralha do destino
e suas líquidas emboscadas.

Chegar pouco importa.
Vale ver os navios
do outro lado do fundo.



domingo, 10 de fevereiro de 2013

Múmias momescas





















A máfia
lava o dinheiro sujo.
O tráfico
lava riquezas ostentosas.
Os comerciais
lavam a roupa suja da tv.
Os cambistas
já lavaram turistas.
Os patrocinadores
lavam escolas de samba.
Os políticos
lavam os votos.
Os explorados
lavam a alma
com sabão barato.

A CEDAE informa:
faltará água quarta-feira,
não há vazão para tanta sujeira.




Beira-amor


























O amor
quase 
aconteceu.

Por um fio
do brilho
ao breu.



Singular plural



















Todo singular
é plural,
navio que em si
carrega
o caos,
frota recarregável
em cais
de ventos contrapostos.

Sem igual
apenas o  minimo lançado
em potência máxima.
O mesmo´
- maré e movimento -
sempre é outro
tempo.

Múltiplo
uno
ilimitado
navega
atravessando
os vidros partidos
de estreitos conceitos
e concepções
unitárias
entre mares
e falésias.

O rosto
ultrapassa
o calado
de qualquer amnésia,
tonelagem acima
o rastro
de muitos outros
no mesmo
barco.

Ser um
não é pouco,
em cada naufrágio
do corpo
uma cidade
afundada.



Quinteto em dó menor




I

Menina com vaso
em brasa. Quem virá à noite
irrigar a flor?

II

Extraia a ferida
da pele. Entregue a carne
ao amor em extremos.

III

Suspenda a saia
para mil dragões dançarem
tortas tatuagens.

IV

Um velho sabujo
sem faro, focinho sujo;
caçador no escuro.

V

Os corpos colados
nos degraus da madrugada
sacodem a lua.



Novo idioma





Cheguei muito tarde
ao seu nome. Inventar
outro alfabeto.



Fora do tom



























Um maestro
em seus melindres
tomba
a nota
fora 
do timbre.

A batuta
vira
estilingue.







A foliã



























Persegui uma foliã,
eufórico,
como Hércules
em luta contra Hidra,
no meio da multidão
contraída.

O bloco
prolongava o paraíso,
eu,
na contramão,
perdi o gás e o juízo.

A foliã,
soltando faíscas,
sumiu
na fotosfera.




sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Novos haicais


























I

Gosto de ver
a pulsação que se ouve
no teu decote em V.

II

Saudade secreta
a fragrância clandestina
de tua florescência.

III

Moça trigueira
mordisca maçã de intriga.
Ciúme gera frutos.

IV

Adeus à leveza
de palavra escrita à luz;
haicai nunca mais.