sábado, 23 de março de 2013
Moto contínuo
Aposentei-me.
E agora?
Virar raiz
para flores impossíveis?
Trazer ao centro,
buscar no fundo
tudo o que ficou ao lado?
Não,
apenas atravessar
lentamente
os cabelos grisalhos
no meio da rua
para ver o que sobrou do rosto
no espelho de nuvens.
Depois bastará
olhar o medidor de sonhos,
ver o marcador verde
completamente aceso
e seguir pela calçada esquerda
até o centro mais espesso
do nevoeiro.
quarta-feira, 20 de março de 2013
terça-feira, 19 de março de 2013
A poesia mora em outro lugar
Estética do artista louco
Quando a segunda pessoa é a primeira
![]() |
| "Ondina Dormida" - Pintura de Gonzalo Morcillo Juliani |
Milhares de punhais
saltarão do mar
camuflados em espumas
para furar mais fundo
o buraco que tens na alma
e beijar a bile negra,
o sangue de tua sombra
As ondas te perseguirão
no interior da cidade
sem abrigo
sem blindagem
até cumprires
a promessa de naufrágio.
O oceano largará no leito
coágulos de pesadelos
para lançar a muralha líquida
de todas as ondas
contra teu corpo de conchas
e lua cheia.
No refluxo das águas,
gêmea de Lázaro,
atravessarás impune a rua
para armar novas tempestades.
domingo, 17 de março de 2013
TRÍPTICO
![]() |
| Manabu Mabe |
I
Feminua
na concha da lua cheia.
Noturna sereia,
no cabaré da Lapa
não cabe
a indecisa nudez.
Peças
saltam ao chão,
desenham um pecado de cada vez.
Sombras de prímulas trêmulas
ao som de paredes perfuradas
por tristes tangos redondos
- sonoras crateras lunares
em que ávidos sorvemos
a vida sabor de vinho e contrabando.
Nosso clã
nosso destino
nossa idade
Clandestina claridade,
árvore onde inventamos
o verde
a levitar e inverter
a verdade:
essa versão falsificada de felicidade.
Feminua
é quando o salto se inaugura.
II
Ser a chuva sobre,
a água jogada aos pés
ou o vento invasor, talvez.
Mínimo movimento
em direção à perda de lucidez.
Diria, em outra pauta,
rumo à implosão
ou à falência das palavras.
Ir ao encontro do
beijo mais aceso,
esse, semelhante a selo
com o qual se lacra
a intensidade que escapa.
A chuva,
sobre a sombrinha,
soberana.
Quem determina
a cadência com que se afirma
a proteção redonda
dentro da qual caminha
elegância bailarina?
Qual proteção?! Que nada!
A sombrinha é que socorre a chuva
do sol que a segura e nasce a cada passo.
A sombrinha,
inversão completa:
passarela suspensa e portátil:
alumínio, nylon e poesia.
III
A cidade era uma rede de ruas
onde o progresso apagava a paisagem,
acumulava crimes e cicatrizes
e traçava em seco mapa suas margens.
Na verdade, já não existem cidades.
À falta de asas, de olhos e de encanto
avenidas são feridas urbanas,
enviam invisibilidade a todos os recantos.
Nenhum projeto urbano
rima com felicidade.
A cidade, então, é você,
toda,
inteira.
Praia, peito, ponte
onde circula a claridade
e pássaro solar
dança no horizonte
além das salas secretas
uma cidade
flutua
sobre hálito incandescente.
Uma cidade deitada
derruba todos os muros,
incomensurável
entre paredes.
sábado, 16 de março de 2013
Infrapoema
Poema
de palavras partículas.
A física,
o físico,
particularidade
de dança centrífuga
Signos
sísmicos
buracos de minhoca
fissura corporal
& cósmica.
Palavras
voláteis;
relâmpago
e remissão
a fonemas quânticos
invisíveis
em chapas de raio X
(apenas pinturas
rupestres
os ossos
em cárcere de carne).
Infra-humano
sem escala
tudo o que escapa
resvala
na borda
tudo que se separa
se depura
se ampara
se estiola
em órbitas subatômicas.
Não dura
o poema.
A poesia,
passagem
instável,
irradiação no vácuo.
irradiação no vácuo.
quinta-feira, 14 de março de 2013
Assinar:
Postagens (Atom)






.jpg)

.jpg)


