sábado, 23 de março de 2013

Café xeque-mate

Pintura da artista portuguesa Vieira de Melo (1908-1992)
























Falta-me fôlego,
foge-me o ar no terraço
do café,
vai-se na fumaça
azulada
antes da conta
nas mãos gordurosas do garçom
e de meu olhar entorpecido
cair em falência
na xícara de olhos verdes
sobre a mesa ao fundo
xadrez 
saboroso
na penumbra.


Moto contínuo




















Aposentei-me.
E agora?
Virar raiz
para flores impossíveis?
Trazer ao centro,
buscar no fundo
tudo o que ficou ao lado?
Não,
apenas atravessar
lentamente
os cabelos grisalhos
no meio da rua
para ver o que sobrou do rosto
no espelho de nuvens.
Depois bastará
olhar o medidor de sonhos,
ver o marcador verde
completamente aceso
e seguir pela calçada esquerda
até o centro mais espesso
do nevoeiro.


quarta-feira, 20 de março de 2013

O velho gramático




Morreu num incêndio de advérbios.
As circunstâncias nunca foram apuradas.


terça-feira, 19 de março de 2013

A poesia mora em outro lugar

















Para lê-la
além
paralela
à língua
ágio
à míngua
ante
(ex)crescente
pedágio
quilômetros ro
dados
roídos
pelos ruídos
de ratomóveis
21 gigas abaixo
descontrole
terremoto
escolha a opção certa:
( a )  ileg   (al)  idade
( b )  ileg (ibil)  idade
léxico em prolapso
instável

poema desajustado
em palavras


Carimbo






















Carimbo

Mecânica do beijo
des(p)ejado
na lixeira
do porco fora
do corpo.

Cumpra-se
Compra-se
Contra-se (*)

(*) Nota de dois:   Verbo contranominal da 4ª conjugação ("contrur-se", de "contrur") ainda não identificada no léxico.  Sinônimo de "suicidar-se", "foder-se". 


Estética do artista louco



























Rachei a cabeça
da minha amada
em duas partes.

Vou expô-las
em museu
como obra de arte.

Um crítico renomado
legislará:  “Magistral,
isso é que é
arte cerebral!”

Na próxima exposição
as tripas em instalação.
O crítico julgará: “Geniais
neoquipus demenciais”.


Quando a segunda pessoa é a primeira

"Ondina Dormida" - Pintura de Gonzalo Morcillo Juliani


























Milhares de punhais
saltarão do mar
camuflados em espumas
para furar mais fundo
o buraco que tens na alma
e beijar a bile negra,
o sangue de tua sombra

As ondas te perseguirão
no interior da cidade
sem abrigo
sem blindagem
até cumprires
a promessa de naufrágio.

O oceano largará no leito
coágulos de pesadelos
para lançar a muralha líquida
de todas as ondas
contra teu corpo de conchas
e lua cheia.

No refluxo das águas,
gêmea de Lázaro,
atravessarás impune a rua
para armar novas tempestades.


domingo, 17 de março de 2013

TRÍPTICO

Manabu Mabe
























I

Feminua
na concha da lua cheia.

Noturna sereia,
no cabaré da Lapa
não cabe
a indecisa nudez.


Peças
saltam ao chão,
desenham um pecado de cada vez.

Sombras de prímulas trêmulas
ao som de paredes perfuradas
por tristes tangos redondos
- sonoras crateras lunares
em que ávidos sorvemos
a vida sabor de vinho e contrabando.

Nosso clã
                nosso destino
                                          nossa idade


Clandestina claridade,
árvore onde inventamos
o verde
a levitar e inverter
a verdade:
essa versão falsificada de felicidade.

Feminua
é quando o salto se inaugura.



II

Ser a chuva sobre,
a água jogada aos pés
ou o vento invasor, talvez.

Mínimo movimento
em direção à perda de lucidez.

Diria, em outra pauta,
rumo à implosão
ou à falência das palavras.

Ir ao encontro do
beijo mais aceso,
esse, semelhante a selo
com o qual se lacra
a intensidade que escapa.

A chuva,
sobre a sombrinha,
soberana.

Quem determina
a cadência com que se afirma
a proteção redonda
dentro da qual caminha
elegância bailarina?

Qual proteção?! Que nada!
A sombrinha é que socorre a chuva
do sol que a segura e nasce a cada passo.

A sombrinha,
inversão completa:
passarela suspensa e portátil:
alumínio, nylon e poesia.



III

A cidade era uma rede de ruas
onde o progresso apagava a paisagem,
acumulava crimes e cicatrizes
e traçava em seco mapa suas margens.

Na verdade, já não existem cidades.
À falta de asas, de olhos e de encanto
avenidas são feridas urbanas,
enviam invisibilidade a todos os recantos.

Nenhum projeto urbano
rima com felicidade.
A cidade, então, é você,
toda,
inteira.

Praia, peito, ponte
onde circula a claridade
e pássaro solar 

dança no horizonte
além das salas secretas

uma cidade
flutua
sobre hálito incandescente.

Uma cidade deitada
derruba todos os muros,
incomensurável
entre paredes.


sábado, 16 de março de 2013

Livro de visitas




























Esfera & cônica
língua
inscrita
no livro de visitas
do silêncio.

Guardar 
ou apagar
as sentenças?

Talvez
não exista
linguagem
de permanência.

Todos os nomes
menos
o mesmo
som de sua passagem.



Tom, entretom




De tolo
a intolerante
é um instante.




Infrapoema























Poema
de palavras partículas.

A física,
o físico,
particularidade
de dança centrífuga

Signos
sísmicos
buracos de minhoca
fissura corporal
& cósmica.

Palavras
voláteis;
relâmpago
e remissão
a fonemas quânticos
invisíveis
em chapas de raio X
(apenas pinturas rupestres
os ossos
em cárcere de carne).

Infra-humano
sem escala
tudo o que escapa
resvala
na borda
tudo que se separa
se depura
se ampara
se estiola
em órbitas subatômicas.

Não dura
o poema.

A poesia,
passagem
instável,
irradiação no vácuo.



quinta-feira, 14 de março de 2013

Go to Hades





























Cerro as cortinas
de corpo eviscerado.

Jogado ao chão
um atestado,
a causa mortis:
cirrose em pontes
utópicas,
fratura
em paixões futuras,
metástase
(em roxo)
 do êxtase.

Lá fora,
o velório:
biscoitos e fofocas.