sábado, 28 de setembro de 2013

Noite funda

Escultura em metal de Dale Dunning




























A cada gota de insônia
algo se desprende da pele sem pauta.
Naco de memória nacarada
desaprende a noite,
afunda-se no tumor tumular
de húmus sem flora.
Bandos boêmios ignoram
velhas pontes
em cujas amuradas mofa
o barro de alfabetos extintos,
palavras descascadas
caem como clichês exaustos
em folhas gordas de fungos. 


sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Águas minguantes



























expulsos
de antigas galerias
por águas
de dissolventes geleiras
e icebergs
os tempos felizes
migraram

o miocárdio
em preto e branco
guarda tênue pulsação
de beijos clandestinos
entre colunas e piso de mármore

ainda pulsa nas pupilas
o último verão antes das nuvens
caírem de tubos de oxigênio


quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Coleção Primavera estilo “Soft Power”

Trabalho de Carlos Huante

























   “Nós somos feitos da matéria de que são feitos os sonhos”.
    – Shakespeare, “A tempestade”, IV, 1



Não quero mais ouvir notícias
todas tão assustadoras
corpos estendidos em manchetes
mágoas em caixa alta
o fim do mundo em letras e gotas
de sordidez diária
drones devastam infância no Iêmen
dez mil Amarildos desaparecidos
amante degolou  filha de empresário
trabalhadores aterrorizados por patrões e tribunais
manifestantes presos por formação de quadrilha ao cantarem Noel Rosa
estelionatário, após comprar seis partidos políticos,  agora é ministro
torturador tem agência de segurança em Goiás
a máfia governante do Rio de Janeiro extingue professores

Talvez um vírus nas notícias
recuperasse a primavera:
as flores furaram a avenida
cavalos de lava descem escadarias do metrô
outros cavalos galopam no peito dos que amam
finalmente explodiram a ilha de Manhattan
todos habitam Pasárgada
palavras, palavras, que potência a vossa
rose is a rose is a rose is a rose
nunca mais a rosa com cirrose
inaugurado o tempo dos poetas
os banqueiros morreram de infarto
e todos os governantes foram para o inferno.


segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Pequenas providências

Foto de Alessandro Bavari



















Cheguei há pouco
fugindo da polícia e de péssimos pensamentos.
Deixei três dedos na maçaneta,
arremessei o pé direito na poltrona
a fim de aliviar o imenso cansaço
de andar a esmo.
Pendurei o olho esquerdo
no gancho do cabide quebrado,
assim a catarata se resguardará
de fugir a fantasmas,
duplos, duplicatas.
Antes de escutar os gritos
da vizinha doida
vangogueei as orelhas,
guardei-as com repolhos
na geladeira,
Assim amanhã será o café.
Depois pensarei qual o veneno para o almoço.

Antes que anoiteça
e eu me esqueça,
lanço no bloco de notas:
“colocar a alma de molho”.




Haicai







Tudo está colado,
todas as estações cantam
luz e escuridão.




Haicai








Cantam doce as águas

do riacho cheio de vida;

amargas, as lágrimas.


Haicai




Leve tão leve
o ar, capaz de anular
fôlego e palavras.


Haicai




Giro de estações,
ciclo de cores no chão;
a terra, uma tela.


Ofício de ossos

Desenho de Leonardo da Vinci


























os ossos entre instrumentos
secção de partes intactas
cortes costelas escápulas

as luvas contaminadas
de sangue, bílis e dúvidas
máscaras sobre a bancada

pus e martelo com gancho
maxilar vômer mandíbula
em nacos, desmantelada

ferrugem de parafusos
em fíbula tíbia fêmur
velho corpo de remendos

cinzel de crânio cravado
em fundo estado de coma
peças ocas de ossuário

afiadíssimo enterótomo
em mil cacos o calcâneo
vã agulha de sutura

o vaivém de serra de osso
sobe e desce rádio e úmero
curva ulna em pinça dentada

destroços etiquetados
o protocolo dos ossos
gera número de arquivo

ao caos a urna lacrada
os ratos roeram os ossos


quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Anarquipélago à vista




Eis a capa do meu primeiro livro de poesia em produção pela Ibis Libris. Acredito que seja possível lançá-lo em outubro.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Letras mortas

"Ciudad invisible", obra da pintora  argentina Eva Manzella



























Ele, após a milésima m,
ouvia, ao pé da letra,
metáforas rancorosas;
ela, cheia de efes e erres,
punha os pingos nos is.
Tudo porque na hora h
deu um nó no sexo,
corpos zerados na lona.

No dia D,
antes que se fechasse o zíper
da lua de mel,
a última gutural
na curva em U.

Sobraram dois dedos
de tequila
e um livro de Juan Gelman
aberto em v.