segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Camelô

Camelô (1998), de Cildo Meireles
















guarda
a muamba
guarda
que o rapa
em nome do rei
de olho gordo
rouba
teu ganha pão
duro
como o coração
do guarda
draconiano

corre
de velozes
autos de infração
do fiscal
de uísque falsificado
corre
cavalo paraguaio
corre
fora da lei
made in china
corre
que qualquer dito
é desacato
corre
que a dor
e a vida
não emitem
nota fiscal


domingo, 1 de dezembro de 2013

Ascensorista

Trabalho de Amy Casey, "The Leaning Tower of Suburbia"





















Para o último,
penúltimo
ou primeiro
pavimento
da torre
crematória.

Descontará
no contracheque
da eternidade
o sepulcro
adiantado?

Pesar





















palavras placebo
tão inócuas e chochas
como filmes em 3D
o falso desespero
de quem se atrasa
para missa
de sétimo dia
a que nos obriga
lugar marcado
a pura hipocrisia
no teatro da vizinhança



escrita

















abria o compasso
ao círculo
mais vasto
a mão
quase fora da borda
a linha
na fímbria
do papel
derrubava
réguas
lápis
certeza
com vagar
e ângulo exato
falsificava
mapa
de ponta
cabeça
onde se guardava
a chave
curva da morte


sábado, 30 de novembro de 2013

In totum

Basquiat



























Todos
os versos
entre
Hamlet
ETs
etc.




As películas protetoras




















casca de besouro
couro de jacaré
asa de morcego
colete à prova
de balas
más caras
pele óleo S.A.
biombo de bambu
bomba
de efeito fatal
o ranço da segurança
casa/mata
carro blindado
urutu
nau capitânia
caveirão
detector de presença
navio negreiro
sorria para
câmeras de intolerância
panzer
blitz
helicopterus rex
abrigo subterrâneo
para o cofre
o cofre
todos dentro do cofre
o cofre
todos os corpos
moedas
em caixa-forte


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Narrativa a caminho da queda

Iberê Camargo



a.2


antes dos degraus a porta caía aos pedaços tábuas como remendos inúteis qualquer bêbado a abriria só com o hálito de álcool em madrugada morta mas uma tarde dois fugitivos subiram o gólgota ombros e braços musculosos carregavam a bicicleta roubada por trás dos raios das rodas rodava uma miragem de cabelos negros e pequenas sardas as formas incabíveis em vestido gelo de folhas verde limão era a insônia era a luxúria era a loucura subindo as escadas era meu coração rangendo à passagem de tempestade de carne era um mocassim caramelo pisando as dobras do gozo em lençóis lavados de solidão a maldade despontava no sorriso como pura promessa de ruínas um casal principiava então a costurar abismos em que os aprisionava no pânico do olhar 

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Silepse













Ao Norte de nome
secreto
outro nome anoitece
em linhas tortas

ninguém
responde ao chamado
cercado de palavras mortas

o substantivo
concorda com o aniquilamento
em gênero e número negativos


Órion desoriente
























para que caiam novos
gêneses
como dentes com cárie
caindo
podres de apocalipse
e raios
partam paradigmas
aos pedaços
juízos teóricos divinos

para que palavras
bastilhem
pilhas de axiomas
matilhas
de sintaxe e sofisma
em preceitos
bordelizados
a intimidades e compadrio

barimetria
e guilhotina
ao excesso
de logomaquia
teoliterária
no céu de cães
canônicos

Anarquipélago



Meu livro de poemas Anarquipélago já está disponível para venda nas Livrarias Cultura e Travessa virtuais (R$ 30,00). Pedidos também podem ser feitos à editora Ibis Libris -http://www.ibislibris.net/site/



Não percam o lançamento na próxima terça-feira, 

03/12/2013 

Livraria da Travessa - CENTRO



Casulos

Imagem: fotografia de Robert e Shana ParkeHarrison



sono repartido / coma em colmeia / mente vazia de mel e maná / almas dobradas em redoma / algo se quebra e parte o deserto / basta uma sílaba para oásis e êxtase

Narrativa a caminho da queda





a.1

48 degraus rangiam pesadelos o peso dos pêndulos tiquetaqueavam horas em fendas as paredes de pinturas superpostas como camadas de tragédias de eras glaciais nós mesmos em outras estações inabitáveis temporais todos os cômodos mofados da casa em cacos nos pés descalços pois era assim a nossa dança o nosso olhar ainda não contaminado do bafio rançoso a emanar das tábuas do assoalho balaústre parapeito portas de duas bandas trincos destinos aferrolhados nada apontava os grilhões grisalhos mas tudo já estava posto na mesa do filho do amoníaco e do carbono podia ser entrevisto na fumaça da cannabis sativa madrugada a fora vejo agora dentro do riso e do sol nascente ácaros e fungos tecendo o pântano na alma