domingo, 22 de dezembro de 2013

fast food poetry















múltiplas
camadas,
rútilas
cebolas,
matrioshkas,
as palavras,
incômodo
retornável

congestão
de frases recicláveis
bile
mal passada
as palavras
cruas
fazem água
fazem água
fazem água
as palavras
quando se desfazem
na boca

Feliz Natal, não

Terrorista do Free Syrian Army vestido de Papai Noel.















enquanto o carregador
tiver bala
pra me defender
de Noel  e sua gangue
de bonecos vermelhos
infláveis
à entrada do inferno
e suas vitrines 50% de descontos.
Certamente cristo
em pânico
no chão forrado de moedas
imploraria
recrucificação.


sábado, 21 de dezembro de 2013

Cão sem dono

Escultura de Elizabeth Lyons - "Climbing on Sticks".



O ouro do osso
do outro lado,
fora do alcance do faro.


Estame




voo vertical
pólen
antera
sou pássaro
na cama da quimera


quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Sob a lua de Hunan

"Dharma moon", de H. Kopp-Delaney
























Contava velha lenda
chinesa algo que se perdeu
pois quem a contava
enlouqueceu.

Agora sete sábios
ao redor de centenária figueira
mudos
contemplam a lua cheia
onde a lenda
renasceu
na seda amarela
de música e palavras inabitáveis.


terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Cortejo

Foto de Arthur Tress, 1974





















quatro skatistas
conduziam um caixão
com faixas amarelas
símbolos de facção
criminosa
coroas de flores
vermelhas
abertas
na contramão

dava para se ouvir
a estranha cantiga
dos skatistas
palavras incompreensíveis
quando os veículos
buzinavam
os automóveis não paravam
coração com pé no acelera
dor
motor V8 de 570cv
potência de anjo aniquilador
atropelava a canção lutuosa
os skatistas
travavam o rosto
com máscaras fúnebres
de gaze e bronze
e deslizavam o livro dos mortos
egípcio
nas ruas devastadas
da metrópole tropical


Por que nossas vidas não são guarda-volumes (poemeto lírico ao vinagre)















o amor
e sua baba
abafada
no mofo
de mala
vagaba
acaba
por falta
de alça

o amor causa catarata




a.4




a.4


capas de discos de vinil ainda no chão sacados à noite lançados como discos-voadores negros pela janela arremessos portentosos repletos de álcool era lindo de se ver a heroica de Beethoven voar Karajan abaixo Mussorgski pictures at an exhibition supersônico no ar noturno espatifar-se Chopin prelúdios para piano na madrugada morta Parsifal wagneriano a lança na ferida de Amfortas quebrada em queda livre naquele momento era impossível saber que o santo graal subiria escadas coberto parcialmente por rodas de bicicleta provavelmente roubada o corpo todo era o cálice profanado o cálice que beberia os lábios devoraria o viço da carne em tensão máxima o desejo quase tocando o forro de madeira do teto sobre vinil intacto de Nora Ney um poema guardava momento anterior à loucura que trouxera a polícia à porta no meio da noite versos truncados incompletos incapazes de poesia ensaiavam última estrofe: “acordam na ópera acordes inaudíveis / neles a massa sonora se desmancha / para que a voz ressoe solo e vírus / na ária, lacerada a carne gangrenada / a garganta os pulmões os ossos / no chão sem sinal de harmonia” rasura premonitória da impossibilidade de coro


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

A caminho



















A caminho

-1

mais à frente,
o Letes,
próximo ou distante
o som amargo
de águas lúgubres
flutua
o caminho
o tempo
atravessa atalhos
com a velocidade da luz

-2

retardo os passos
piso
pequeno demônio
repiso em vão
nunca a eudaimonia
já não vingam
vestígios
da alétheia
vislumbrada
em alguma curva
fechada


domingo, 15 de dezembro de 2013

Haicai



Abrir-se da flor
aroma azul celestial
aceso no vento.


Supersimetria

"Floração", obra de 2012 do artista plástico Shea Hembrey

















Nossa simetria que-
brada,
a cada palavra apagada
mais densa escorre a matéria
escura,
a massa mais pesada,
nosso amor
- inpuro teorema de Gödel -
enforcado
na teoria das cordas
vocais
laceradas em afasia.




sábado, 14 de dezembro de 2013

Migração noturna

Pintura de Dulce Osinski

















O que se abre quando os olhos
se fecham
areal
um areal pré-deserto
pois é água
a memória que ainda escoa em sulcos
atrás de palmeiras de plástico
úlceras de sombras alongadas
na tábua de passar roupa
atrás de vagos vultos
um sol devasta
o sinteco de tacos gastos
câncer de pele
o horizonte
lançando ameaças
saarianas
quando mais fechados
estão os olhos
carcaças jogadas no ocaso
então
surge música
em caravana
surge você
e seu cortejo de eunucos
e machos
e passa
passa
por cima dos meus olhos
fechados
bem fechados
para não ver
a caravana de carros
no meio da avenida
e você
minha tempestade de areia