segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Não deixamos pistas


















Da garupa de moto
aos pedaços
avisto
do outro lado da avenida
pura poesia
à espera de sinal verde.

A vida acelerada
e o escapamento suicida
lançam a pequena maravilha
em ponto cego.

É contra os nossos princípios
qualquer apreciação
estética,
degustamos vinhos
e motores envenenados.
Fugimos com rapidez
a compromissos
como reses
resistentes a laços e ferro em brasa,
não temos documentação
canônica,
não sabemos o que as placas
dizem
nem os livros,
pois sempre faltam letras,
páginas,
capítulos,
na verdade sequer sabemos pilotar
o espanto das palavras.

E adoramos curvas,
corporal e filosoficamente,
é claro,
tanto que,
por causa do poder
de perfeita curva poética feminina,
rasgamos as páginas das normas de trânsito
e saltamos para o desconhecido.




Mortandade de peixes

















Toda a loucura desses anos todos,
toda a agonia desses anos todos,
toda a amargura desses anos todos
formam o lodo da lagoa Rodrigo de Freitas.


A voz que se apaga

Pintura de Ana Elisa Egreja














     A uma pequena notável

Sai de cena
antes do final
do filme
e o que fica no ar
quando as luzes
se acendem
ainda queima
a garganta.





domingo, 5 de janeiro de 2014

Fala Marinha I





Domingo, dia de remexer o baú. Encontrei este poema antigo, do tempo em que ainda me preocupava em registrar a data. Pareceu-me tão outro aquele que o criou.

Fala Marinha I

Naveamar
singrar as baías
do teu corpo de algas
Perder os teus lábios
ao colidir com recifes

Fora de alinhamento
sousandradino bêbado
folheando palavras
no fundo falso do mar

O poema?
Ah, não se constroem poemas apenas com palavras,
sempre remendos nas velas:
silêncio,
ausência,
pausa,
falha.

Situar-se dentro
dançar na corda
sentar-se no muro
tudo é navegar

O mundo é um bolo de chocolate
torta caramelada
vela a se apagar
num sopro vespertino
de infante de águas invisíveis

Navegar o silêncio
a cortar conchas e caramujos
O corpo
esponja a ondular
oficina de cavalos-marinhos e estrelas-do-mar

Rio, 22.06.1976



sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Aceleração

Federico Zandomeneghi - La parigina (En promenade), 1894




























Você passa,
e o coração,
de zero a mel.


Mínima lista




























Mínima lista:
você,
outras.


quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Haicai




Camisas cerejas
mais amassadas e sujas
que o amor em coma.


Três haicais




Vento soltou o cinto,
seios saltaram do vestido.
Lua no umbigo.


***

Quando a cobra quer
a lebre sequer cabeça
pra fora da toca.


***

Incenso na sala,
duas almofadas mortas.
A luz ainda espera.





A terra nunca é firme para os navegantes

Pierre Bonnard, "Woman with an Umbrella" (Femme au parapluie) from Album de la Revue Blanche, 1895, Lithografia













Guardava a porta
linha imaginária
sobre a qual pássaro
de indecisão
se encorpava
incorporando
o canto aos acordes
da chuva ácida.

A linha imaginária
separava o verniz
dos sapatos
em dois hemisférios
tomados de incerteza
até a altura dos polos
que brilhavam
à espera de salvação.

Mãos ansiosas
seguravam sombrinha
chinesa
sem saber
a direção do vento
a intensidade da chuva.




Poema



Sonhei-me
outra pele
tela de tatuagens
o arrepio
que atravessou
o corpo
tremor
imutável