segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Manada




Manada de búfalos
deixou a noite deserta
quando o sol.

O cimento dos cascos
colado ao espanto
da ruiva guia sedutora
ao saber que olhos alheios
liam seus pensamentos.

Os búfalos partiram
a noite
em dois continentes;
o maior, feito de areia,
guarda com cerca de arame farpado
a terra prometida à manada. 


domingo, 12 de janeiro de 2014

A cicatriz de Ulisses















A velha ama
Euricleia
vislumbrou,
ao lavar os pés
do forasteiro,
velha cicatriz:
não era no joelho,
mas um pouco mais acima.
Sabia agora
por que tamanha demora.


Pele

























página virada
amor
e leitura
só existem
até que outros dedos
destilem
novos destinos




sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Ciência médica

Ilustração de Tim Ripper





















O septo nasal
torto o suficiente
para cirurgia
corretiva.

Diz o doutor
fim de apneia
dor de cabeça
ronco
sangramento.

Mas se o ar
vai todo
pra cabeça
e nela vira
fumaça
miragem
poesia
o que faço
então?


quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Jaula

"Self Portrait Laughing", de Richard Gerstl



Jaula
mãos decepadas
fora de grades
a lei da gravidade
todos os corpos
tendem
a um ponto suicida
todos os passos
sem saída

Jaula
cabeça degolada
ideia fixa
a morte
com avental de rendas
a faca mais afiada
para o corte
de falsas promessas
carne macia
enferrujada

Jaula
caixa de calmantes
paralisia
vazio tão estufado
prestes à explosão
energia
sempre se perde
energia
lacrada em solidão
energia
em queda
eterna recaída



segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Não deixamos pistas


















Da garupa de moto
aos pedaços
avisto
do outro lado da avenida
pura poesia
à espera de sinal verde.

A vida acelerada
e o escapamento suicida
lançam a pequena maravilha
em ponto cego.

É contra os nossos princípios
qualquer apreciação
estética,
degustamos vinhos
e motores envenenados.
Fugimos com rapidez
a compromissos
como reses
resistentes a laços e ferro em brasa,
não temos documentação
canônica,
não sabemos o que as placas
dizem
nem os livros,
pois sempre faltam letras,
páginas,
capítulos,
na verdade sequer sabemos pilotar
o espanto das palavras.

E adoramos curvas,
corporal e filosoficamente,
é claro,
tanto que,
por causa do poder
de perfeita curva poética feminina,
rasgamos as páginas das normas de trânsito
e saltamos para o desconhecido.




Mortandade de peixes

















Toda a loucura desses anos todos,
toda a agonia desses anos todos,
toda a amargura desses anos todos
formam o lodo da lagoa Rodrigo de Freitas.


A voz que se apaga

Pintura de Ana Elisa Egreja














     A uma pequena notável

Sai de cena
antes do final
do filme
e o que fica no ar
quando as luzes
se acendem
ainda queima
a garganta.





domingo, 5 de janeiro de 2014

Fala Marinha I





Domingo, dia de remexer o baú. Encontrei este poema antigo, do tempo em que ainda me preocupava em registrar a data. Pareceu-me tão outro aquele que o criou.

Fala Marinha I

Naveamar
singrar as baías
do teu corpo de algas
Perder os teus lábios
ao colidir com recifes

Fora de alinhamento
sousandradino bêbado
folheando palavras
no fundo falso do mar

O poema?
Ah, não se constroem poemas apenas com palavras,
sempre remendos nas velas:
silêncio,
ausência,
pausa,
falha.

Situar-se dentro
dançar na corda
sentar-se no muro
tudo é navegar

O mundo é um bolo de chocolate
torta caramelada
vela a se apagar
num sopro vespertino
de infante de águas invisíveis

Navegar o silêncio
a cortar conchas e caramujos
O corpo
esponja a ondular
oficina de cavalos-marinhos e estrelas-do-mar

Rio, 22.06.1976



sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Aceleração

Federico Zandomeneghi - La parigina (En promenade), 1894




























Você passa,
e o coração,
de zero a mel.