sábado, 18 de janeiro de 2014

Haicai



Falta uma letra
falsa em falso testamento.
Minha herança é vento.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

a.5

Anselm Kiefer, Merkaba, 2011



a.5

de volta à escada para abraçar o vazio bicicleta e donos instalados nos vizinhos antipáticos rádio a todo volume e crianças insuportáveis os gritos histéricos dava para se ver beijos abraços palavras risos banhados em saudade talvez hipocrisia raio X através de velhas paredes como seria a intrusa fora do raio dos pneus sem que varetas de alumínio geometrizassem rosto de olhos amêndoas sem os pedais machucando os seios o guidão enfiado entre pescoço e testa as correntes algemavam o olhar do desejo a uma marcha suicida ao mundo do outro lado das rodas de bicicleta monark tropical cp aro 26 freio inglês lilás meio descascada selim alto fita flamenguista de cada lado bandejinha na frente retrovisor só do lado esquerdo levada por atleta mma ela carregava o cadeado e pequena caixa ressurrecta Pandora viera espalhar todos os males casa afora tomar de assalto alma sem sistema de defesa sem refúgio não é necessário imitar Leopoldo María Panero exilar-se em manicômio seguir caminho Robert Walser o mundo já é um hospício no qual alta e morte formam uma única palavra



quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Despejo




Quando fui expulso do Estácio, em 1975, era a remoção de todo um bairro para a maravilha do Metrô. E fomos todos para Antares, Urucânia, Paciência e a puta que pariu, em casas falsas inspiradas em acampamentos palestinos. Os administradores da cidade sempre ofereceram espelhos e miçangas, além de um conjunto de frases feitas que nunca chegaram à última sílaba. O progresso é irrefreável, mas o desrespeito às pessoas é inevitável? Irrefreável e inquestionável formam mesmo uma rima estranha. Por exemplo, rimam com o morro do Bumba, casas sobre aterro sanitário? Quem desapropria o faz em benefício de quem? Progresso para quem? O que é progresso? Ampliação da mais-valia? Bantustões para turistas, aluguel de laje no Vidigal? Formação de nômade-lupemsinato para eleições viciadas? Ingresso automático em facções criminosas, já que a esquerda desistiu de lutar? As cidades cada vez mais um gigantesco balcão de negócios onde a população só merece respeito quando aumenta o faturamento de seus verdadeiros donos, sempre acompanhados pelos hediondos cães de guarda.

Fiz esse poema em homenagem a meu amigo Maurício, da favela de Antares que morreu em confronto com outra gangue e eu sequer me lembro do ano, e a todas as pessoas que já tiveram a porta de casa marcada para demolição.

Despejo

Nosso lar
não é mais nosso
logo um shopping
ignóbil
colosso

nossos móveis
nossos ossos
no caminhão de entulho

a copa do mundo é nossa
por que não sentimos orgulho?





quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Dê um rolê














A constituição
ficcionaliza o direto de ir
e vir
a tomar porrada
graças à letra da lei
que reza que
ir é direito
de gente pé-rapada
à cela
ou à cova mais rasa.

Os sem nada
só podem vir
a tentar a sorte
em facção armada,
igreja pentotal,
bundalelê
ou Mega-Sena:
gado pra corte.

Felizmente
há zona eleitoral
eletrônica

fraudulenta
regada a dólares
e caixa dois
para sustentar
pena de morte
e invisibilidade
à periferia.

Os pobres
excedem a medida
de nossa democracia.


segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

A arte da guerra




Sopa em porcelana

ainda ferve o veneno.

O clã sem cabeça.



Manada




Manada de búfalos
deixou a noite deserta
quando o sol.

O cimento dos cascos
colado ao espanto
da ruiva guia sedutora
ao saber que olhos alheios
liam seus pensamentos.

Os búfalos partiram
a noite
em dois continentes;
o maior, feito de areia,
guarda com cerca de arame farpado
a terra prometida à manada. 


domingo, 12 de janeiro de 2014

A cicatriz de Ulisses















A velha ama
Euricleia
vislumbrou,
ao lavar os pés
do forasteiro,
velha cicatriz:
não era no joelho,
mas um pouco mais acima.
Sabia agora
por que tamanha demora.


Pele

























página virada
amor
e leitura
só existem
até que outros dedos
destilem
novos destinos




sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Ciência médica

Ilustração de Tim Ripper





















O septo nasal
torto o suficiente
para cirurgia
corretiva.

Diz o doutor
fim de apneia
dor de cabeça
ronco
sangramento.

Mas se o ar
vai todo
pra cabeça
e nela vira
fumaça
miragem
poesia
o que faço
então?


quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Jaula

"Self Portrait Laughing", de Richard Gerstl



Jaula
mãos decepadas
fora de grades
a lei da gravidade
todos os corpos
tendem
a um ponto suicida
todos os passos
sem saída

Jaula
cabeça degolada
ideia fixa
a morte
com avental de rendas
a faca mais afiada
para o corte
de falsas promessas
carne macia
enferrujada

Jaula
caixa de calmantes
paralisia
vazio tão estufado
prestes à explosão
energia
sempre se perde
energia
lacrada em solidão
energia
em queda
eterna recaída