quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
Os dias felizes erraram o código postal
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
As belas letras mortas, mortinhas mesmo
A única criatura do mundo que se interessa por minha
poesia, meu desafeto histórico, Zantonc, enviou-me da Turquia, onde conspira
contra o governo, um poema com o intuito de vergastar o meu obscuro trabalho,
lançando contra mim uma série de acusações infundadas disfarçadas de crítica
generalizada à litechatura de atualidades. Outra hora darei a resposta
apropriada.
![]() |
| Escultura do artista italiano Matteo Pugliese |
As belas letras mortas, mortinhas mesmo
Milhares de palavras,
gel versalhada,
contos do vigário,
ensaios em aramaico,
romandesmanches
peniconoclásticos,
remi$$ões
em páginas protocolopiadas,
fazemos a sua tese
a cem reais por lauda,
citações refogadas
em panelas de google,
QI interferências
em orelhas, prefácios,
novas coleções primavera-verão,
coincidências estilístico-
testiculares,
evacuação de regras
com ou sem flatulência,
nunca-antes-na-literatura,
ai-como-sou-foda,
gênese infindável de gênios,
nenhuma ideia.
E não me venham
com a frase maldita
de Mallarmé a Degas;
a poesia não é feita de palavras,
mas de vazios.
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
Entreforapoema - versão 2014
domingo, 19 de janeiro de 2014
sábado, 18 de janeiro de 2014
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
a.5
![]() |
| Anselm Kiefer, Merkaba, 2011 |
a.5
de volta à escada para
abraçar o vazio bicicleta e donos instalados nos vizinhos antipáticos rádio a
todo volume e crianças insuportáveis os gritos histéricos dava para se ver
beijos abraços palavras risos banhados em saudade talvez hipocrisia raio X através
de velhas paredes como seria a intrusa fora do raio dos pneus sem que varetas
de alumínio geometrizassem rosto de olhos amêndoas sem os pedais machucando os
seios o guidão enfiado entre pescoço e testa as correntes algemavam o olhar do
desejo a uma marcha suicida ao mundo do outro lado das rodas de bicicleta
monark tropical cp aro 26 freio inglês lilás meio descascada selim alto fita
flamenguista de cada lado bandejinha na frente retrovisor só do lado esquerdo
levada por atleta mma ela carregava o cadeado e pequena caixa ressurrecta Pandora
viera espalhar todos os males casa afora tomar de assalto alma sem sistema de
defesa sem refúgio não é necessário imitar Leopoldo María Panero exilar-se em
manicômio seguir caminho Robert Walser o mundo já é um hospício no qual alta e
morte formam uma única palavra
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
Despejo
Quando fui
expulso do Estácio, em 1975, era a remoção de todo um bairro para a maravilha
do Metrô. E fomos todos para Antares, Urucânia, Paciência e a puta que pariu,
em casas falsas inspiradas em acampamentos palestinos. Os administradores da
cidade sempre ofereceram espelhos e miçangas, além de um conjunto de frases
feitas que nunca chegaram à última sílaba. O progresso é irrefreável, mas o
desrespeito às pessoas é inevitável? Irrefreável e inquestionável formam mesmo
uma rima estranha. Por exemplo, rimam com o morro do Bumba, casas sobre aterro
sanitário? Quem desapropria o faz em benefício de quem? Progresso para quem? O
que é progresso? Ampliação da mais-valia? Bantustões para turistas, aluguel de
laje no Vidigal? Formação de nômade-lupemsinato para eleições viciadas?
Ingresso automático em facções criminosas, já que a esquerda desistiu de lutar?
As cidades cada vez mais um gigantesco balcão de negócios onde a população só
merece respeito quando aumenta o faturamento de seus verdadeiros donos, sempre
acompanhados pelos hediondos cães de guarda.
Fiz esse poema em homenagem a meu amigo Maurício, da favela de Antares que
morreu em confronto com outra gangue e eu sequer me lembro do ano, e a todas as
pessoas que já tiveram a porta de casa marcada para demolição.
Despejo
Nosso lar
não é mais nosso
logo um shopping
ignóbil
colosso
nossos móveis
nossos ossos
no caminhão de entulho
a copa do mundo é nossa
por que não sentimos orgulho?
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
Dê um rolê
A constituição
ficcionaliza o direto de ir
e vir
a tomar porrada
graças à letra da lei
que reza que
ir é direito
de gente pé-rapada
à cela
ou à cova mais rasa.
Os sem nada
só podem vir
a tentar a sorte
em facção armada,
igreja pentotal,
bundalelê
ou Mega-Sena:
gado pra corte.
Felizmente
há zona eleitoral
eletrônica
Felizmente
há zona eleitoral
eletrônica
fraudulenta
regada a dólares
e caixa dois
para sustentar
pena de morte
e invisibilidade
à periferia.
Os pobres
excedem a medida
de nossa democracia.
regada a dólares
e caixa dois
para sustentar
pena de morte
e invisibilidade
à periferia.
Os pobres
excedem a medida
de nossa democracia.
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
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