quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Cartão de crédulo











Zumbis
Fidelizados
Feudalismo
Reciclado
Almas
Clonadas
Em liquidação
De dogmas
Sem fundos
Vida
Negativada
Pântano
Em promoção

A senha
Acende a cobiça
Na cabeça dos infiéis.




Os dias felizes erraram o código postal

La valse, Camille Claudel














Perto é fora.
Pouco importa
distância
se o alvo
nunca na pira.

Perturbação
aberta
a cem metros
de nova
lição de abismo,
mais uma palavra
e seria possível
outra caligrafia.

O paraíso
vem
sempre
que
não estou.


Terça-feira magra

James Turrel
















Vai-se a terça
esticada em esteiras.
O que nela aconteceu
em esferas fechadas
de muros sem memória
para sempre lacrado.
Flutua a noite em música,
distantes as palavras
para sempre silenciadas.
A terça que se vai
evanescente, esvoaça
como um pássaro
que se apaga
no céu escuro.


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

As belas letras mortas, mortinhas mesmo

A única criatura do mundo que se interessa por minha poesia, meu desafeto histórico, Zantonc, enviou-me da Turquia, onde conspira contra o governo, um poema com o intuito de vergastar o meu obscuro trabalho, lançando contra mim uma série de acusações infundadas disfarçadas de crítica generalizada à litechatura de atualidades. Outra hora darei a resposta apropriada.



Escultura do artista italiano Matteo Pugliese



























As belas letras mortas, mortinhas mesmo


Milhares de palavras,
gel versalhada,
contos do vigário,
ensaios em aramaico,
romandesmanches
peniconoclásticos,
remi$$ões
em páginas protocolopiadas,
fazemos a sua tese
a cem reais por lauda,
citações refogadas
em panelas de google,
QI interferências
em orelhas, prefácios,
novas coleções primavera-verão,
coincidências estilístico-
testiculares,
evacuação de regras
com ou sem flatulência,
nunca-antes-na-literatura,
ai-como-sou-foda,
gênese infindável de gênios,
nenhuma ideia.
E não me venham
com a frase maldita
de Mallarmé a Degas;
a poesia não é feita de palavras,
mas de vazios.


segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Floral

 Butchart Gardens, Victoria, British Columbia.


Gérberas, jacintos,
gerânios, goivos, glicínias,
girassóis, gardênias.


Entreforapoema - versão 2014

Basquiat






























Vou fazer um poema
não vou fazer um poema
poemas não são falsos
fetos

Vou fazer um poema
não vou fazer um poema
poemas não são fátuos
fórceps

Vou fazer um poema
não vou fazer um poema
poemas não são fármacos
infaustos

poemas não rendem
poemas não se vendem
poemas não se rendem


domingo, 19 de janeiro de 2014

Semi-haicai

                                                  "In free fall", de Dave-Bischoff-Mood


Há que se cair
sem se livrar
da leveza.


sábado, 18 de janeiro de 2014

Haicai



Falta uma letra
falsa em falso testamento.
Minha herança é vento.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

a.5

Anselm Kiefer, Merkaba, 2011



a.5

de volta à escada para abraçar o vazio bicicleta e donos instalados nos vizinhos antipáticos rádio a todo volume e crianças insuportáveis os gritos histéricos dava para se ver beijos abraços palavras risos banhados em saudade talvez hipocrisia raio X através de velhas paredes como seria a intrusa fora do raio dos pneus sem que varetas de alumínio geometrizassem rosto de olhos amêndoas sem os pedais machucando os seios o guidão enfiado entre pescoço e testa as correntes algemavam o olhar do desejo a uma marcha suicida ao mundo do outro lado das rodas de bicicleta monark tropical cp aro 26 freio inglês lilás meio descascada selim alto fita flamenguista de cada lado bandejinha na frente retrovisor só do lado esquerdo levada por atleta mma ela carregava o cadeado e pequena caixa ressurrecta Pandora viera espalhar todos os males casa afora tomar de assalto alma sem sistema de defesa sem refúgio não é necessário imitar Leopoldo María Panero exilar-se em manicômio seguir caminho Robert Walser o mundo já é um hospício no qual alta e morte formam uma única palavra



quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Despejo




Quando fui expulso do Estácio, em 1975, era a remoção de todo um bairro para a maravilha do Metrô. E fomos todos para Antares, Urucânia, Paciência e a puta que pariu, em casas falsas inspiradas em acampamentos palestinos. Os administradores da cidade sempre ofereceram espelhos e miçangas, além de um conjunto de frases feitas que nunca chegaram à última sílaba. O progresso é irrefreável, mas o desrespeito às pessoas é inevitável? Irrefreável e inquestionável formam mesmo uma rima estranha. Por exemplo, rimam com o morro do Bumba, casas sobre aterro sanitário? Quem desapropria o faz em benefício de quem? Progresso para quem? O que é progresso? Ampliação da mais-valia? Bantustões para turistas, aluguel de laje no Vidigal? Formação de nômade-lupemsinato para eleições viciadas? Ingresso automático em facções criminosas, já que a esquerda desistiu de lutar? As cidades cada vez mais um gigantesco balcão de negócios onde a população só merece respeito quando aumenta o faturamento de seus verdadeiros donos, sempre acompanhados pelos hediondos cães de guarda.

Fiz esse poema em homenagem a meu amigo Maurício, da favela de Antares que morreu em confronto com outra gangue e eu sequer me lembro do ano, e a todas as pessoas que já tiveram a porta de casa marcada para demolição.

Despejo

Nosso lar
não é mais nosso
logo um shopping
ignóbil
colosso

nossos móveis
nossos ossos
no caminhão de entulho

a copa do mundo é nossa
por que não sentimos orgulho?





quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Dê um rolê














A constituição
ficcionaliza o direto de ir
e vir
a tomar porrada
graças à letra da lei
que reza que
ir é direito
de gente pé-rapada
à cela
ou à cova mais rasa.

Os sem nada
só podem vir
a tentar a sorte
em facção armada,
igreja pentotal,
bundalelê
ou Mega-Sena:
gado pra corte.

Felizmente
há zona eleitoral
eletrônica

fraudulenta
regada a dólares
e caixa dois
para sustentar
pena de morte
e invisibilidade
à periferia.

Os pobres
excedem a medida
de nossa democracia.


segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

A arte da guerra




Sopa em porcelana

ainda ferve o veneno.

O clã sem cabeça.