quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Tempos acelerados




















     But who can live for long
     In an euphoric dream
          - W. H. Auden

drenagem em ponto máximo
faz a alma saltar
fora do corpo
via oral ou na veia
as válvulas
desreguladas
paradas cardiorrespiratórias
a todo volume
a flor fenece
nunca mais
o último baile
a pátria dos milagres
os tempos do ouro
migraram

ontem
os fogos de artifício
abriam o ano
(como são tristes
os anos
que precisam
de circo e espetáculos
para serem inaugurados)
hoje
quase sem pulso
a multidão
como loucos controlados
andando em círculo
em hospício desativado
pessoas que se desistem
em urnas
como corpos
em caixão




Sexo webcam



Esfíncter, clitóris,
não, Dóris, não são botões
de controle remoto.


Dístico isotônico

Kasimir Malevich



















Entre adrenalina e naftalina
distância mínima.


segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

a.7



sete minutos Jacó ser vil esperando por ela mas veio o de cicatriz na testa medir terreno fazer reconhecimento dos mecanismos de defesa o suburbano centurião negro escandindo ameaças o guardião venenoso da pequena puta principesca puxou do estojo dezenas de relógios mido tissot orient mondaine technos casio rolex ordenados no veludo como se fossem um pelotão de fuzilamento então era esse o ofício a técnica de sobrevivência do inimigo a astuciosa tática de conquista as armas do império por isso o volume à altura do lado esquerdo da cintura tudo teatro a besta viera farejar pontos fracos viera descobrir que Tétis segurou o falso Aquiles pela pica ao banhá-lo no rio Estige sim nada bobo o espião infiltrado na sala quase sem móveis suas narinas dilatadas seus olhos contraídos eram pura felonia seu suor caía do rosto mal barbeado sobre o cordão de ouro onde São Jorge se afogava seu hálito de ave de rapina empesteava até os pensamentos tudo brilhava nos relógios um galo qualquer marca o que realmente era necessário ele negava uma pistola glock 380 e um pente de balas



a.6




escadas paredes portas janelas assoalho teto nunca mais os mesmos pois não era um casal de tarde de domingo em visita furtiva percebera desde o início nos olhos amêndoas havia âncoras a acenar demorada estadia percebera a língua lambendo os lábios como se dissesse “ego te removebo, ego te humiliabo, ego tibi multas neces impendi praecipiam” por que se apoderar de uma alma de mil remendos para removê-la como o suor de corpo febril se nenhuma escada alcança a altura do desejo por que fazer alguém sofrer humilhações em praça pública enquanto descasca uma laranja com requintes de cortesã homicida por que matar alguém em câmara lenta se o filme não será exibido em lugar algum a não ser no banheiro imundo entre água espuma e esperma uma corrente de ar fria ingressara na casa as palavras saíam pesadas e úmidas em frases que já não chegavam a qualquer destino como os livros escritos para cupins sobre a mesa como o de Guilherme de Tours aberto em página infamemente antecipatória do encontro inesperado os poemas levados por uma bicicleta lilás para o lixão da cidade uma corrente de ar vinda das terras baixas da acídia e da divagação contaminara todo o trabalho trazendo paralisia regurgitamento pestilência  


O que escapa ao escuro

Tela do pintor espanhol Dino Valls





















Caem fora da blusa
dois pomos na linha turva
entre estrelas em brasa
e breu,
presas entre pressa e pressão
as aves latejam auroras
e voam paradas
para um céu inalcançável
por palavras.


domingo, 26 de janeiro de 2014

Todos os verbetes à solta

Mosaico de Pompeia





















O que eu queria
te dizer
fugiu
assim que você
atravessou a porta
a única linguagem
que importa
rolou pelo chão
de A a Z.


sábado, 25 de janeiro de 2014

Os apóstatas dançam nas praças

















Ao perceber
que ninguém
se livrava
dos fones
soldados
aos ouvidos,
ninguém se empolgava
com a baba da verdade
a escorrer
do canto da boca
possessa
de versículos
fora de contexto,
o  heresiarca
(com pequena arca
carregada de dólares)
pegou um táxi
para o outro mundo.


A hora mais próxima

















Tantas urnas
de se guardar sêmen
abertas
como fraturas expostas
ao cair da noite
entre carros de polícia
e luzes
que debruam a praia
de urgência e sombras.


quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Osteopirado

"Engraving In The Femur Of T", trabalho da artista romena Marian Capraru




















O fêmur mofado
solta da cartilagem
uma cartilha
de desintegração.

Na colônia de ossos
onde há pouco
uma pele envolvia
a urna do corpo
alguém se anuncia:
my name is Bones,
James Bones.




quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Cartão de crédulo











Zumbis
Fidelizados
Feudalismo
Reciclado
Almas
Clonadas
Em liquidação
De dogmas
Sem fundos
Vida
Negativada
Pântano
Em promoção

A senha
Acende a cobiça
Na cabeça dos infiéis.




Os dias felizes erraram o código postal

La valse, Camille Claudel














Perto é fora.
Pouco importa
distância
se o alvo
nunca na pira.

Perturbação
aberta
a cem metros
de nova
lição de abismo,
mais uma palavra
e seria possível
outra caligrafia.

O paraíso
vem
sempre
que
não estou.