segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Poltrona vazia

Manabu Mabe




















Ausência
agora
sentada
no assento
azul.
Recostada
em palavras
sem apoio
onde
há pouco
face engelhada
purgava
paixões
mortas.

O vento
ainda
balança
a canga
esticada
sobre
a poltrona
onde
há pouco
sobrevivente
sonhava
voltar
ao ponto
em que as escolhas
nos encolhem.


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

O declamador de tautologias
















atordoar-se
atordoer-se
atordanar-se
gesto esculpido
no gelo
da plateia
frente a frente
ao furacão
olho no olho
do cão
até que a faca
corte o verso
no grau extremo
da febre
que não consegue
contaminar de poesia
poltronas
que de tão ocupadas
parecem tão vazias



domingo, 2 de fevereiro de 2014

Cães de guarda




























a risca
na testa
de quem
segue
à risca
ordens de roedores
cada vez mais
uma suástica


Rio 50°C




Cada vez mais tuaregues sem lã de camelo / cariocas com câncer de pele / o pesado tributo solar do deserto à beira-mar / ígneo pesadelo / a evaporação das correntes marítimas de palavras náufragas / trouxe-nos dromedários em caravelas de ar seco / algas e esgoto enlaçados às águas salgadas / calor nos ossos áridos / desidratação em ondas / apneia na areia.


sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Pleura





azinhavre
nas placas
da cartilagem hialina
brônquios abaixo
peso acima do limite
das palavras
presas em pulmões
bolsas de ar
envenenado
logo acima
do diafragma
líquidos
infiltrados
secreção
de noites
dissolutas
hemoptise
em páginas túrgidas
enfisema
semântico
nebulização
cria nuvens
de palavras
terminadas em –ite
thriller
a bula
de antibióticos
filme
de efeitos colaterais
em 3D
drágeas
de antiestética
falta de ar
em chapa de raio-X

na falta de tango argentino
Paulinho da Viola na veia


quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O curso da Semântica



Sob a ossatura de qualquer discurso
a zona escura onde o sentido se desfigura.

Tempos acelerados




















     But who can live for long
     In an euphoric dream
          - W. H. Auden

drenagem em ponto máximo
faz a alma saltar
fora do corpo
via oral ou na veia
as válvulas
desreguladas
paradas cardiorrespiratórias
a todo volume
a flor fenece
nunca mais
o último baile
a pátria dos milagres
os tempos do ouro
migraram

ontem
os fogos de artifício
abriam o ano
(como são tristes
os anos
que precisam
de circo e espetáculos
para serem inaugurados)
hoje
quase sem pulso
a multidão
como loucos controlados
andando em círculo
em hospício desativado
pessoas que se desistem
em urnas
como corpos
em caixão




Sexo webcam



Esfíncter, clitóris,
não, Dóris, não são botões
de controle remoto.


Dístico isotônico

Kasimir Malevich



















Entre adrenalina e naftalina
distância mínima.


segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

a.7



sete minutos Jacó ser vil esperando por ela mas veio o de cicatriz na testa medir terreno fazer reconhecimento dos mecanismos de defesa o suburbano centurião negro escandindo ameaças o guardião venenoso da pequena puta principesca puxou do estojo dezenas de relógios mido tissot orient mondaine technos casio rolex ordenados no veludo como se fossem um pelotão de fuzilamento então era esse o ofício a técnica de sobrevivência do inimigo a astuciosa tática de conquista as armas do império por isso o volume à altura do lado esquerdo da cintura tudo teatro a besta viera farejar pontos fracos viera descobrir que Tétis segurou o falso Aquiles pela pica ao banhá-lo no rio Estige sim nada bobo o espião infiltrado na sala quase sem móveis suas narinas dilatadas seus olhos contraídos eram pura felonia seu suor caía do rosto mal barbeado sobre o cordão de ouro onde São Jorge se afogava seu hálito de ave de rapina empesteava até os pensamentos tudo brilhava nos relógios um galo qualquer marca o que realmente era necessário ele negava uma pistola glock 380 e um pente de balas



a.6




escadas paredes portas janelas assoalho teto nunca mais os mesmos pois não era um casal de tarde de domingo em visita furtiva percebera desde o início nos olhos amêndoas havia âncoras a acenar demorada estadia percebera a língua lambendo os lábios como se dissesse “ego te removebo, ego te humiliabo, ego tibi multas neces impendi praecipiam” por que se apoderar de uma alma de mil remendos para removê-la como o suor de corpo febril se nenhuma escada alcança a altura do desejo por que fazer alguém sofrer humilhações em praça pública enquanto descasca uma laranja com requintes de cortesã homicida por que matar alguém em câmara lenta se o filme não será exibido em lugar algum a não ser no banheiro imundo entre água espuma e esperma uma corrente de ar fria ingressara na casa as palavras saíam pesadas e úmidas em frases que já não chegavam a qualquer destino como os livros escritos para cupins sobre a mesa como o de Guilherme de Tours aberto em página infamemente antecipatória do encontro inesperado os poemas levados por uma bicicleta lilás para o lixão da cidade uma corrente de ar vinda das terras baixas da acídia e da divagação contaminara todo o trabalho trazendo paralisia regurgitamento pestilência