segunda-feira, 7 de abril de 2014

A matéria escura do poema

 


Ousar a palavra
o voo de pássaro,
asas atravessadas
de luz.
Penas e sílabas
aéreas,
risco de êxtase
e queda.
Não há viagem
sem quimera.

Ousar o ar
rarefeito
raro
canto
incompleto
fôlego
fora do limite

Palavra
solta
voa
salta sempre além
gira
vige
respira
mesmo onde o ar
termina.


Descolagem

Trabalho do artista russo Max Sauco




















Tremiam as mãos
na despedida
(a fila do check-in
fazia voltas).

Falsas promessas acenavam
da área de embarque
(por trás de óculos ray-ban
alívio e ameaça
de recaída).

Sorrisos mecânicos
decoravam mútuo desconforto
em rosto extenuados
de recomeços
e de voos em parafuso.

Por que os alto-falantes anunciam atrasos
quando queremos seguir adiante,
sem bilhetes de bagagem corrosiva?



Devaneio

Trabalho de Tatiana Blass


Fico pensando nas horas em que deitado de barriga para cima é possível dizer algo ao outro. Que relação está guardada entre a posição do corpo e a fruição do tempo? O que vem à tona quando, deitados, exaurido o jogo de corpos amantes, falamos num tom manso e sincero coisas que normalmente guardamos em cisternas abandonadas? A voz deitada soa de modo diferente de quando estamos sentados, em pé, ajoelhados, correndo, espremidos em elevador, metrô ou sequer estamos, apesar das palavras. Mesmo deitados em outras posições, ao lado de ausente atenção ou no tom ordinário com o qual desenhamos ações do cotidiano, tecemos comentários e planos, rimos ou nos desentendemos, sempre um compasso distinto. Digo isso porque há poucas horas, deitado, algumas frases saíram como se evaporadas de água desconhecida, numa sintaxe ordenada em ritmo lento e levemente dolorido. Percorreram uma espécie de caminho entre a fonte e os ouvidos que as captaram como se iluminassem um outono existencial. A luz se apagaria irremediavelmente se eu me virasse para qualquer lado da cama. Embora também seja verdade que só os meus olhos, na contramão do corpo, se voltaram para o olhar atento de quem me escutava, pois todas as palavras ditas então levantaram o véu que normalmente recobre o olhar. 


Haicai





A gralha-cancã,
a voz da caatinga, canta 
da cauda à crista.


Haicai




Gritaria no brejo.

Japacanim sobre junco.
Rasas águas mortas.


quarta-feira, 2 de abril de 2014

Haicai




Salve o saurá.
Entre céu e selva, dois
lenços vermelhos.


Haicai



João-corta-pau,
curiango camuflado
na noite sem lua.


Haicai




Nas asas do sol
macuru-de-testa-branca
manobra a manhã.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Haicai





Fora de uso
leveza na voz. Pesada
a flor na garganta.



domingo, 30 de março de 2014

Haicai




Cardeal de crista
encarnada. Uma beleza
de doer a vista. 


Haicai




Belo trinca-ferro
da árvore ao cativeiro
canto funeral.


Haicai




Tuiuiú à beira
do rio espreita um peixe.
Pantanal de pernas.