domingo, 13 de abril de 2014

Bergsoniana
























Entre o abc e o avc,
la duré.

A vida é dura, Zé.


sábado, 12 de abril de 2014

Cerol



















O trilho,
o melhor lugar
para o vidro moído.

Mas é fora da linha
que voa a vida.


quinta-feira, 10 de abril de 2014

Ronda alta




Lanço meus passos
na rua escura.
No tropel de horas
mortas
a lua madura
de tempestades
despeja
minha sombra
nas laterais
de prédios
blindados.

Não vejo onde piso,
não sigo as placas,
semáforos,
pedras portuguesas.

Vestido de amnésia,
chapéu borsalino,
bolsa a tiracolo
repleta de originais rejeitados,
espero um assassino
em cada esquina.

Espera e trajeto totalmente inúteis,
minha sombra,
faca de caça bem alta,
prova viva de minha suspeita
- sou homicida sem substituto.


Cidade, zona de exclusão






A manhã despontou
multidão no terreno
abandonado
há tempos
à espera
de rica oferta imobiliária.

Quadrados de giz
acenderam no chão
a luz de um lugar
aos sem lugar,
cuspindo no vácuo
vidas invisíveis
na contramão do futuro.
Colchões carregados nas costas,
filhos nos braços,
mãos de calos e gordura.

Breve a lei atiçará
todos os bulldozers da cidade ocupada
contra o coração de madeirite,
nos baldes onde a roupa
suja se limpa de tantas promessas
pequenas gotas de esperança derramada.


Breve um novo lançamento.


terça-feira, 8 de abril de 2014

Lançamento de livro



Recebi hoje os exemplares do meu  livro Palavra desmedida: a prosa ficcional de Hilda Hilst, publicado pela Editora Annablume, de São Paulo. Breve estará à venda.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Cláudia Silva Ferreira, in memoriam


A matéria escura do poema

 


Ousar a palavra
o voo de pássaro,
asas atravessadas
de luz.
Penas e sílabas
aéreas,
risco de êxtase
e queda.
Não há viagem
sem quimera.

Ousar o ar
rarefeito
raro
canto
incompleto
fôlego
fora do limite

Palavra
solta
voa
salta sempre além
gira
vige
respira
mesmo onde o ar
termina.


Descolagem

Trabalho do artista russo Max Sauco




















Tremiam as mãos
na despedida
(a fila do check-in
fazia voltas).

Falsas promessas acenavam
da área de embarque
(por trás de óculos ray-ban
alívio e ameaça
de recaída).

Sorrisos mecânicos
decoravam mútuo desconforto
em rosto extenuados
de recomeços
e de voos em parafuso.

Por que os alto-falantes anunciam atrasos
quando queremos seguir adiante,
sem bilhetes de bagagem corrosiva?



Devaneio

Trabalho de Tatiana Blass


Fico pensando nas horas em que deitado de barriga para cima é possível dizer algo ao outro. Que relação está guardada entre a posição do corpo e a fruição do tempo? O que vem à tona quando, deitados, exaurido o jogo de corpos amantes, falamos num tom manso e sincero coisas que normalmente guardamos em cisternas abandonadas? A voz deitada soa de modo diferente de quando estamos sentados, em pé, ajoelhados, correndo, espremidos em elevador, metrô ou sequer estamos, apesar das palavras. Mesmo deitados em outras posições, ao lado de ausente atenção ou no tom ordinário com o qual desenhamos ações do cotidiano, tecemos comentários e planos, rimos ou nos desentendemos, sempre um compasso distinto. Digo isso porque há poucas horas, deitado, algumas frases saíram como se evaporadas de água desconhecida, numa sintaxe ordenada em ritmo lento e levemente dolorido. Percorreram uma espécie de caminho entre a fonte e os ouvidos que as captaram como se iluminassem um outono existencial. A luz se apagaria irremediavelmente se eu me virasse para qualquer lado da cama. Embora também seja verdade que só os meus olhos, na contramão do corpo, se voltaram para o olhar atento de quem me escutava, pois todas as palavras ditas então levantaram o véu que normalmente recobre o olhar. 


Haicai





A gralha-cancã,
a voz da caatinga, canta 
da cauda à crista.


Haicai




Gritaria no brejo.

Japacanim sobre junco.
Rasas águas mortas.


quarta-feira, 2 de abril de 2014

Haicai




Salve o saurá.
Entre céu e selva, dois
lenços vermelhos.