quinta-feira, 1 de maio de 2014
Música das esferográficas
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| Imagem: Utriusque Cosmi, obra pitagórica de Robert Fludd sobre a música das Esferas (1617) |
As vibrações
das cordas
de um violino
cósmico
formam quarks e neutrinos
soltam
a cada nota
na fenda temporal
da antipartitura
matéria e massa
de universos ignotos
as ondas
da melodia
compõem-se
de partículas
e propriedades
instáveis
como se música
fosse
palavra inaudita.
quarta-feira, 30 de abril de 2014
Modo abrasivo
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Obra do artista plástico mineiro José Madureira Vasconcellos
|
Todo passado
imperfeito
se apaga
quando
conjugo
o teu rosto
imperativo
categórico
com olhos
flexionados
no futuro
falacioso
do subjetivo.
Você,
primeira e única
pessoa
de qualquer discurso,
flexiona
nervos e verbos
secretamente
defectivos;
amar,
por exemplo.
domingo, 27 de abril de 2014
Sem salvo-conduto
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Kasimir
Malévitch, Composition : Blanc sur blanc, 1918
|
Algosaidocentrodealgoquandoalguémdentroéalvo
quandoalguéméalgoalgumalvosearmaparaalguém
quandoalgooualguéméalvodeoutroalguémquemira
ninguémnoespelhorespiraalgoquesetornanovoalvo
nocentrodentrodealguémnamesmalinhadetiroequeda
decorpoecartuchonacalçadaalgomenosqueninguém
quinta-feira, 24 de abril de 2014
a.9
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| Esta invenção alemã criada em 1925 |
uma
estratégia é tudo de que se necessita em situações de risco controlar o pânico
estudar fraquezas do oponente diminuir a pressão nos pulmões avaliar os
próprios recursos escolher a forma de luta o lugar o horário a posição do sol a
fila de formigas que descem da janela quase solta das dobradiças em madeira mofada
mover o botão do rádio até a última estação de música para dias de tempestade jogar
Kafka na lixeira por amor a labirintos túrgidos plenos de suor feromônios fervor
de hormônios anelantes sobre a mesa apenas matemática química geometria mapas manual
de guerrilha ilustrações anatômicas rota de fuga grossos tratados de farmacologia
facas tesouras material hospitalar garrafa térmica ferver nervos e neurônios
para fixar as conexões entre matérias discrepantes as disjunções entre a roda
dianteira e a traseira de uma bicicleta em mãos erradas corrosão visível na
lateral direita pedais bastante danificados impróprios à delicadeza de pés tão
chineses como se quebrados os dedos logo após o nascimento da mulher conduzida
por mãos erradas a mundos subterrâneos
a.8
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| Gravura de Iberê Camargo |
saíam
para o trabalho os dois pombinhos plastificados os dias flagraram novos ângulos
da tentação agora de costas saias sapatos bolsas vestidos de grife ele de
abre-alas segurando a bicicleta era o guia que transformava músculos em
garantia de posse de um terreno agora em disputa sairia à cata de propriedades
alheias limpando a cidade de excessos à mulher o vizinho odioso ofereceria uma
agenda de encontros suspeitos com sorriso canalha no rosto mal desenhado enorme
mossa na face direita o galo no lado esquerdo da testa brilhava de satisfação
ao exibir tanto poder mas tanta segurança não o impedia de voltar a cabeça para
o alto da escada antes de bater a porta nem de largar o guidão apertar braços desatentos
e despedir-se com beijo cinematográfico verdadeiro certificado de propriedade não
escapavam ao meu olhar 48 degraus abaixo rasuras e parágrafos subterrâneos
confusos no fundo dos olhos em estado de alarme da intrusa que viera devastar a
minha vida
Manual de poesia subaquática
quarta-feira, 23 de abril de 2014
Cidade de Caim
![]() |
Al Farrow, Casket Reliquary III (Foot of Santo
Guerro), 2011, Bullets, shell casings, steel, wood, glass, bone, lock, antique
velvet,
|
Feito à imagem e
semelhança
do inalcançável
o homem mata
por prazer,
por engano,
por encomenda.
Às vezes mata
para testar a
arma,
a perícia,
o calibre,
os limites
do tédio
ou da pontaria.
Matar é fácil,
tranquilo,
confere poder
e prestígio.
Alguns fazem
fortuna,
outros gravam
riscos em pistola.
Sempre houve aqueles
que viraram estátuas.
Mata-se por nada,
porque alguém
não gostou
de uma certa
camisa azul,
de um perfume
adocicado,
de um tom de voz
desagradável,
ou porque
vizinhos festejam
o quinto aniversário
de uma menina.
Também se mata
um vulto furtivo no escuro.
Mata-se por
passatempo,
por verdades e
inverdades,
por vastas
propriedades,
por falta ou
excesso de grana,
por erro de
cálculo ou informação falsa.
Alguns matam com
alegria.
Observe, amigo,
aquele homem sereno
comendo pipoca.
O ar tranquilo,
óculos de
mestre,
orelhas de
judoca.
Pois acredite,
matou a cara
metade
meia hora atrás,
entrou na fila
do cinema;
meia-entrada
para comédia romântica.
A consciência? Pura
leveza bailarina.
Feito à imagem e
semelhança
do inalcançável
o homem mata
por intolerância,
por impotência,
por cega
obediência.
Secos acordes
de compaixão
ecoam na cidade
crivada de corpos:
piedosos tiros
de misericórdia.
terça-feira, 22 de abril de 2014
Poemas em Mallarmargens
Sete poemas meus acabam de sair em Mallarmargens - Revista de Poesia e Arte Contemporânea
domingo, 20 de abril de 2014
Saudade em expansão cósmica
Arco vazio
Santificados
os que te dizimaram
com fé e varíola.
A pátria
apaga tuas terras
com a gula dos agiotas.
Em alguma narrativa oficial,
acadêmica,
nas linhas da prosa pétrea
etc & tal
medalhas e autocomplacência.
Chamam a matança
de tua gente
"páginas do desenvolvimento
nacional".
Metafísicos da terra de Oz
cospem verdades cósmicas
"os índios vivem em nós".
Difícil segurar a ira
ou o riso.
Poucas flechas,
tantos cafajestes.
os que te dizimaram
com fé e varíola.
A pátria
apaga tuas terras
com a gula dos agiotas.
Em alguma narrativa oficial,
acadêmica,
nas linhas da prosa pétrea
etc & tal
medalhas e autocomplacência.
Chamam a matança
de tua gente
"páginas do desenvolvimento
nacional".
Metafísicos da terra de Oz
cospem verdades cósmicas
"os índios vivem em nós".
Difícil segurar a ira
ou o riso.
Poucas flechas,
tantos cafajestes.
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