terça-feira, 6 de maio de 2014

Lâmina cega


















nas papilas
infiltrava-se
o gosto
não coado
de mágoas
pretéritas

memória
gustativa
reacendia
no miolo
do mês
faca
de cortar pão
cortando
ferrugem
em conversas
em que tudo
o que se dizia
virava farelos


segunda-feira, 5 de maio de 2014

Haicai

Salvador Dali, "Red Orchestra" (1957)


Música noturna
lavada na água do rio.
Sonhei com você.


domingo, 4 de maio de 2014

Perpetuum mobile



















Palavras em aerossol
comprimidos
ou gel
caem
qual moscas
da boca
sobre o papel.

Algumas pegam
outras pregadas
recarregam as baterias
da incompreensão
nas ruas de Babel.


Haicai




Maio abre o perfume
de tangerinas maduras.
Sol no céu na boca.


Haicai




Cinco folhas secas
sobre o que sobrou do amor. 
Flor abandonada.


sexta-feira, 2 de maio de 2014

Exercício de equitação

















coração aos saltos
os obstáculos
um metro acima
da cabeça do jóquei
de vista turva

a estrada
pura tentação
tentáculos



Resíduos

Chapéu com rádio portátil, inventado em 1931.






















Tudo o que sobra
são os versos
dos poemas
que não deram certo.


quinta-feira, 1 de maio de 2014

Revolição

Obra de Alex Flemming
























Quero
tudo o que
não for
ou fora
do campo
de possibilidade,
o informe,
o obscuro.
Mais que o anônimo,
o inominado.
Enquanto
viver
sem me conectar
ao impossível,
a escrita,
anima em derrame.


Música das esferográficas

Imagem: Utriusque Cosmi, obra pitagórica de Robert Fludd sobre a música das Esferas (1617)


























As vibrações
das cordas
de um violino
cósmico
formam quarks e neutrinos
soltam
a cada nota
na fenda temporal
da antipartitura
matéria e massa
de universos ignotos
as ondas
da melodia
compõem-se
de partículas
e propriedades
instáveis
como se música
fosse
palavra inaudita.


quarta-feira, 30 de abril de 2014

Modo abrasivo

Obra do artista plástico mineiro José Madureira Vasconcellos















Todo passado
imperfeito
se apaga
quando
conjugo
o teu rosto
imperativo
categórico
com olhos
flexionados
no futuro
falacioso
do subjetivo.

Você,
primeira e única
pessoa
de qualquer discurso,
flexiona
nervos e verbos
secretamente
defectivos;
amar,
por exemplo.


domingo, 27 de abril de 2014

Sem salvo-conduto

Kasimir Malévitch, Composition : Blanc sur blanc, 1918


Algosaidocentrodealgoquandoalguémdentroéalvo
quandoalguéméalgoalgumalvosearmaparaalguém
quandoalgooualguéméalvodeoutroalguémquemira
ninguémnoespelhorespiraalgoquesetornanovoalvo
nocentrodentrodealguémnamesmalinhadetiroequeda
decorpoecartuchonacalçadaalgomenosqueninguém


quinta-feira, 24 de abril de 2014

a.9

Esta invenção alemã criada em 1925 




uma estratégia é tudo de que se necessita em situações de risco controlar o pânico estudar fraquezas do oponente diminuir a pressão nos pulmões avaliar os próprios recursos escolher a forma de luta o lugar o horário a posição do sol a fila de formigas que descem da janela quase solta das dobradiças em madeira mofada mover o botão do rádio até a última estação de música para dias de tempestade jogar Kafka na lixeira por amor a labirintos túrgidos plenos de suor feromônios fervor de hormônios anelantes sobre a mesa apenas matemática química geometria mapas manual de guerrilha ilustrações anatômicas rota de fuga grossos tratados de farmacologia facas tesouras material hospitalar garrafa térmica ferver nervos e neurônios para fixar as conexões entre matérias discrepantes as disjunções entre a roda dianteira e a traseira de uma bicicleta em mãos erradas corrosão visível na lateral direita pedais bastante danificados impróprios à delicadeza de pés tão chineses como se quebrados os dedos logo após o nascimento da mulher conduzida por mãos erradas a mundos subterrâneos