segunda-feira, 12 de maio de 2014

Clique


















Amor
em instagram,
do ap.
ao app,
mal
se vê
duas postagens
adiante
a porta
bater
para sempre.


A caminho do metrô



























-1

mais à frente,
o Letes,
próximo ou distante
ao som amargo
de águas lúgubres
flutua
o caminho
em escadas rolantes
o tempo
atravessa atalhos
com a velocidade da luz


-2

retardo os passos
piso
pequeno demônio
na plataforma submersa
repiso em vão
nunca a εὐδαιμονία 
já não vingam
vestígios
da ἀλήθεια 
vislumbrada
em alguma curva
underground




domingo, 11 de maio de 2014

Haicai




O clã dos canários
canta sem fôlego e galhos.
Tóxico staccato.


manada: cantiga

Foto de Carl Warner



















nonada
a primeira palavra
da saga
de jagunço
que conduziu
debalde
do nada
a lugar algum
adorado querubim
entre gado
caras de bronze
e bandos armados

entregue
ao destino de manada
por também ser rês
não pôde ver
o amor
acontecer
à sombra dos buritis





sábado, 10 de maio de 2014

Nova manada

Trabalho do escultor chinês Chen Wenling





















passeia a esmo
nas páginas do mesmo
outra manada
como se nada
obstruísse o céu
de cujas varandas
de vidro
ágata e lápis-lazúli
deuses dementes
atiram manuais
de máquinas do mundo
nos cornos curvos
de zumbis ávidos
de selfies e sangue

destino cruel
o das manadas
em caça a hierofantes
passam todas
as patas sobre
o pasto que as vê
passar
em brancas nuvens


quinta-feira, 8 de maio de 2014

Novas banhistas

Trabalho do fotógrafo japonês Daido Moriyama



As banhistas largaram recatos regatos / em fuga de telas molhadas de beleza / agora as águas vêm de canos enferrujados / impregnadas de lodo mijo sangue menstrual / quase sem pressão volume velocidade /partículas suspensas não removem as impurezas impressas na pele / ouve-se o barulho de expansão hídrica entre pálpebras de chumbo.


Do livro que não se fecha





Chega-se à página mais doce quando, após subir e descer ladeiras, vira-se à esquerda. Os pés ultrapassam trilhos saudosos de dias de carnavais em bondes  onde chapéus e carteiras eram furtados, mas a alegria permanecia inteira. O azul no céu intacto, imutável também o espelho distante da baía de Guanabara. Desde o início do mundo, pequena aldeia e mirante acima do rodamoinho urbano, Santa Teresa flutua poesia. Agora tudo o que se deseja são dois cafés e que  dois ingressos de cinema sosseguem no bolso da camisa mostarda. Aos poucos o coração recupera o ritmo do outono. Santa Teresa parece página arrancada do livro da cidade, mas a vista deslumbrante, a cidade postada aos pés para álbuns de recordações, desaparece. Não há neblina nem saudade, apenas leve interferência de alguém que, diante de nossos olhos, acende um tênue princípio de felicidade. Passa-se, então, da paisagem ao inacreditável.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Lâmina cega


















nas papilas
infiltrava-se
o gosto
não coado
de mágoas
pretéritas

memória
gustativa
reacendia
no miolo
do mês
faca
de cortar pão
cortando
ferrugem
em conversas
em que tudo
o que se dizia
virava farelos


segunda-feira, 5 de maio de 2014

Haicai

Salvador Dali, "Red Orchestra" (1957)


Música noturna
lavada na água do rio.
Sonhei com você.


domingo, 4 de maio de 2014

Perpetuum mobile



















Palavras em aerossol
comprimidos
ou gel
caem
qual moscas
da boca
sobre o papel.

Algumas pegam
outras pregadas
recarregam as baterias
da incompreensão
nas ruas de Babel.


Haicai




Maio abre o perfume
de tangerinas maduras.
Sol no céu na boca.


Haicai




Cinco folhas secas
sobre o que sobrou do amor. 
Flor abandonada.