domingo, 18 de maio de 2014

Comentário lírico I

Imagem: Count de Montizon - The Hippopotamus at the Zoological Gardens, Regent’s Park, 1852




























Toda palavra

é um hipopótamo


de asas.



Ciclo





















Louco e inócuo
o esforço
de tomar o poema
ao vácuo.

Traduzi-lo,
inflá-lo
de palavras sem peso,
vê-lo,
de olhos calcinados,
escapar
para outro deserto
como se fosse
gás em fuga
de anômala boca,
cloaca ou buraco negro
de fugaz balão aéreo.


sábado, 17 de maio de 2014

Obras e lagartos

Paul Klee, Comedy, 1921



















Lagartos saem da garganta
alagada de sarcasmos.
O pior sáurio fica na toca,
a língua solta na boca.




sexta-feira, 16 de maio de 2014

Haicai




Na mesa, pão, canja.
Noite de pesada espera.
Dois pratos em branco.


Luz em suspensão





















Antes de armar o ninho,
depois de canto ornamental
e de balé de gala,
algo altera a pressão do ar,
a densidade das folhas,
interfere na direção dos ventos,
na umidade sobre a mata
e afasta nuvens de chuva e de insetos. 


Balanço















No final
das contas
sobraram
um amor
e dois hamsters.

O amor,
elefante-marinho
sem GPS,
chocou-se
contra iceberg.

Quanto aos hamsters,
um galo por cabeça
a laboratório de ponta.


quinta-feira, 15 de maio de 2014

Figura com verbos desconhecidos

Rony Belinho
























papel Canson 90
nanquim
pena de metal
recortes de revistas
fora de circulação
luz insuficiente
solidão a todo volume
invadida por Jards Macalé
“Movimento dos barcos”
e horas e horas e horas
de olhos fechados
até que um traço
saia do zíper entre cílios
e caia como seta envenenada
em mãos adormecidas

sempre difícil
falsificar felicidade



terça-feira, 13 de maio de 2014

Lançamento do livro "Palavra Desmedida; a prosa ficcional de Hilda Hilst"





Na próxima terça-feira, 20 de maio, das 19:00 às 22:00 h, na Livraria da Travessa - Botafogo, terei o imenso prazer de receber os amigos no lançamento da minha tese transformada em livro.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Clique


















Amor
em instagram,
do ap.
ao app,
mal
se vê
duas postagens
adiante
a porta
bater
para sempre.


A caminho do metrô



























-1

mais à frente,
o Letes,
próximo ou distante
ao som amargo
de águas lúgubres
flutua
o caminho
em escadas rolantes
o tempo
atravessa atalhos
com a velocidade da luz


-2

retardo os passos
piso
pequeno demônio
na plataforma submersa
repiso em vão
nunca a εὐδαιμονία 
já não vingam
vestígios
da ἀλήθεια 
vislumbrada
em alguma curva
underground




domingo, 11 de maio de 2014

Haicai




O clã dos canários
canta sem fôlego e galhos.
Tóxico staccato.


manada: cantiga

Foto de Carl Warner



















nonada
a primeira palavra
da saga
de jagunço
que conduziu
debalde
do nada
a lugar algum
adorado querubim
entre gado
caras de bronze
e bandos armados

entregue
ao destino de manada
por também ser rês
não pôde ver
o amor
acontecer
à sombra dos buritis