sábado, 24 de maio de 2014

Volume morto




















consumido
milhares de litros
de poemas
em alarme
entro agora
no volume morto

nenhuma nuvem
de versos ou gafanhotos
no céu ulcerado da seca
sobre ossadas de palavras
fósseis
nenhum poço
guarda no fundo
ritmo
líquido e  cristalino

todo poema
quando não houver mais poemas
invisível memória
no talvegue das páginas
do volume morto


sexta-feira, 23 de maio de 2014

Línguas declinantes




Baú vazio da eternidade / pó de textos em branco / na primeira sílaba de poema / origens e fins / insustentáveis palavras suspensas nos pulsos / corte e tautologia / todo verbo inconjugável silêncio 


Procedimentos de rotina

Imagem: a máquina de leitura de Raymond Roussel





















Colha treze verbos
defectivos
entre ervas
na terceira prateleira
sétima conjugação
do armário terminado em -IR
acima da torneira da pia
bege-brega
banheiro
primeiro à esquerda.
Encolha seis substantivos
abstratos
bolorentos
ancorados no porta-toalhas
aos pedaços
até vírusvirarem
fubá de mofo.
Escolha meia dúzia de adjetivos
abortivos
surrados,
coloque-os
em banho-maria
no lugar (c)errado
da frase impossível.
Dê advermes de intensidade
e de pulverescência
aos ratos.
Esqueça conjunções,
deixe as feridas infames
a(b/l)ertas
sim, sangrarem
todos os tempos, modos, números e pessoas.
Nada de coesão
ornato
onanismo
orientação.
Poemas não precisam
de salvo-conduto
salvação
salve!


quinta-feira, 22 de maio de 2014

Manadas infantes


Imagem: "Landscape XIV", pintura de H.R. Giger.



















Manadas infantes

mugem na nascente
aquém do pasto
entre colinas e lodaçal.

Conduzidas
como animais de plástico
em mansas fileiras
destinadas ao corte
mecânico
do instantâneo
levam palavras em excesso
a sacrifício extremo
com suas patas poderosas.

Velhas práticas ainda sobrevivem,
apesar de sublevações inconsequentes,
nos  vales selvagens:
extração de carne
até o polimento dos ossos,
lixívia da pele,
sangramento
e escalpo
como ritos de aprendizagem.

Animais nômades
sem currais
ou estábulos
porém demasiadamente dóceis
codificados
a regulamentos
e voz de comando.


terça-feira, 20 de maio de 2014

Palavra velada




















"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, / Muda-se o ser, muda-se a confiança; / Todo o Mundo é composto de mudança, / Tomando sempre novas qualidades", escreveu o moderníssimo Camões. Os poemas também, não se assuste velho amante de Dinamene, podem cair fora do inalterável. Isso é o que nós, invisíveis poetas subaquáticos, fazemos o tempo todo. Aliás, é uma das vantagens de se viver abaixo da linha do horizonte: assim ou assado o silêncio sempre será o mesmo. Tudo isso porque resolvi alterar o último verso deste poema.


Palavra velada
]

Antes que venha a invasão noturna
e levante as veias fora da pele,
antes que os cílios caiam em coma
e o coração se negue sete vezes,
antes que os dedos cortados ensaiem
a volta ao vórtice da mão esquerda,
a palavra encravada na garganta
soletrará todas as sílabas do silêncio.


segunda-feira, 19 de maio de 2014

Haicai






Canela e arroz-
doce. Na tigela cheia,
amor e dois cravos.


Haicai

Imagem: Marcel Duchamp and Enrico Donati, "Priere de Toucher" (Please Touch), 1947



Sete seios saltaram
da seda de blusa cinza.
Não quero acordar.




Relatos antitéticos

Laurie Lipton, "Bone China" - Charcoal & pencil



Relato de James Spencer Gross

“Chá de seis senhoras londrinas. Saquearam seis maridos nobres, antes de envenená-los. Receberam seis seguros altíssimos. Acreditaram ter encontrado a chave do baú e da felicidade. Da última, no entanto, nem sombra.”

Relato de Catherine Lee Harrell

“Chá de seis senhoras londrinas. Escravas de seis cães de guarda pervertidos. Trocadas por seis ninfetas assassinas. Acreditaram ter encontrado a salvação em rosários e novos relacionamentos. Nos últimos, a mesma sombra dos primeiros.”




domingo, 18 de maio de 2014

Comentário lírico II

Joan Miró, "Tête de paysan Catalan", 1925




Todas as sílabas de uma palavra são feitas de areia. Quando a maré sobe, e algo transborda língua afora, tudo é areia movediça.

Comentário lírico I

Imagem: Count de Montizon - The Hippopotamus at the Zoological Gardens, Regent’s Park, 1852




























Toda palavra

é um hipopótamo


de asas.



Ciclo





















Louco e inócuo
o esforço
de tomar o poema
ao vácuo.

Traduzi-lo,
inflá-lo
de palavras sem peso,
vê-lo,
de olhos calcinados,
escapar
para outro deserto
como se fosse
gás em fuga
de anômala boca,
cloaca ou buraco negro
de fugaz balão aéreo.


sábado, 17 de maio de 2014

Obras e lagartos

Paul Klee, Comedy, 1921



















Lagartos saem da garganta
alagada de sarcasmos.
O pior sáurio fica na toca,
a língua solta na boca.