quinta-feira, 19 de junho de 2014

Faunosfera

Cabeça de fauno, Pablo Picasso


Explorando novos recursos. Siga aqui as pernas antipoéticas de fauno exausto de tantos descaminhos. 




Línguas extintas

Cerâmica tapajônica, séculos XIV-XVI.


Houve uma tribo nos confins do Araguaia para a qual a escuta era algo sagrado. Como os indivíduos não gostavam de falar, recorriam a um estranho nomadismo a fim de ouvir o mundo. Deslocavam-se incessantemente pelos rios, avançavam em territórios hostis e canibalizavam idiomas, não sem antes ouvir, em cerimônia que durava semanas, o que diziam os inimigos antes da morte. Era inacreditável a atenção às palavras alheias; as frases mais simples brilhavam como estrelas nos olhos acesos de curiosidade, fisionomias inomináveis passavam como ondas pelos rostos de todos os membros da tribo que, a cada temporada de caça, cresciam cinco centímetros.


Com o tempo todas as palavras foram assimiladas. Já não havia aldeias capazes de propiciar o suprimento de línguas desconhecidas. A tribo começou a definhar, diminuíam cinco centímetros a cada temporada de chuvas. Muitos se aventuraram na busca desesperada pelo ouro da linguagem, nenhum deles voltou. Privados da abundante matéria-prima fornecida pelos povos da floresta, viram-se na obrigação de soltar a voz. Pena, pouco depois de o primeiro índio proferir as primeiras palavras da tribo – “homem branco” –, os portugueses comemoravam a extinção da primeira tribo do Novo Mundo. 


quarta-feira, 18 de junho de 2014

Memorabilia





Sacava uma maçã da bolsa como se estivesse sedenta de vingança e precisasse encontrar com urgência punhal justiceiro. Enquanto retirava o papel alumínio, eu tratava de me sentar no lugar mais próximo da invisibilidade para não desabar. Ria como se tivesse ouvido a história mais hilária do mundo, a maçã já completamente exposta. Mordia o fruto edênico com olhos fechados de prazer criminoso. O vermelho da casca realçava dentes de predadora cravados na polpa macia e suculenta. Inexplicável transferência quebrava, então, as leis da física, o vermelho saía da maçã para se infiltrar nos meus olhos, páginas famintas abertas em pânico, do outro lado da mesa, antes que o sinal anunciasse o fim do recreio. Levaria quinze minutos para saber o que fazer na sala de aula.


terça-feira, 17 de junho de 2014

360º


 



O mar é minha pele
salina e leve.
Azul e alada,
a água pulsa
em onda brusca,
breve,
espiralada.

Em meus olhos aquosos
algas  negras anunciam
novas ondas imprevistas;
vulcânicas  e velozes
me alagam e me largam
na pele arenosa do fundo.

Sonho surfar o insondável.
Pulo ousadia no oceano,
sinto o impulso suicida
de lançar meu nome camicase
contra tsunamis,
contra a violência circular
do tempo
e sua matilha de milênios e minutos.


O mar,
meu berço,
meu túmulo.


segunda-feira, 16 de junho de 2014

Temor





















Medo de olhar
a janela
que ela desabe
a tarde
trazendo o vento
dos galhos
para os olhos
em pane seca
que as cortinas
rasguem
o fígado em fiapos
a vesícula
o baço
que a árvore
em frente à janela
caia
no cabeça de vento
e quebre
o encanto
dos pássaros nos galhos
atravessando
o céu pela janela.


Anoitecência

















A boca da noite
engole
o fogo do dia.
Todo gole
de luz
que escapa
é poesia.


Manadas em arenas


















Manadas ufanistas
lustram as arquibancadas
curvas
sempre curvas
as velhas arcadas
da máfia
carcaças recicladas
guardadas por couraças
arenas lotadas
de moedas

os patriotas de chuteiras
os párias da pátria
hinos a plenos pulmões
em gargantas
acostumadas à canga
à carga da cavalaria ligeira
do dia a dia

após os espetáculos
todos os escravos
voltam curvados
aos postos de controle
como se fossem
formulários ambulantes

os patriotas de chuteiras
já não possuem língua
país
pátria
tudo o que defendem
é uma marca
mas já não sabem
o que ela representa


sábado, 14 de junho de 2014

Manada













Manada de búfalos
deixou a noite deserta
quando o sol.

O cimento dos cascos
colado ao espanto
da ruiva guia sedutora
ao saber que olhos alheios
liam pensamentos.

Os búfalos partiram
a noite
em dois continentes;
o maior, feito de areia,
tem formato de piano
vermelho-amnésia,
o menor, mais pesado
porque feito de palavras,
afunda lentamente
em águas mortas.


sexta-feira, 13 de junho de 2014

Nome no anel





Rosa 
ferida
o anel de safira
sangue pálido
em ouro falso
pequena joia
perniciosa
diâmetro
perfeito
para anular
anelos
desmedidos


Poesia




Poesia é defeito:
pane na mente,
vírus no peito.


quarta-feira, 11 de junho de 2014

Pergunta aérea





























Que pássaro
canta
com uma gaiola
na garganta?


Migração noturna



























O que se abre quando as pálpebras
se fecham
passarelas
do pré-deserto
pois é água
a memória
que ainda escoa em sulcos
atrás de palmeiras de plástico
úlceras de sombras alongadas
na tábua de passar roupa
atrás de vagos vultos
um sol devasta
a área de serviço
o sinteco de tacos gastos
câncer de pele
o horizonte
lançando ameaças
saarianas
do hall à varanda
quando mais fechados
estão os olhos
carcaças jogadas no ocaso
da cozinha
então
surge música
e narguilé
no quarto dos fundos
surge você
e seu cortejo de eunucos
e machos
e passa
passa
por cima dos meus olhos
fechados
bem fechados
para não ver
a caravana de carros
no meio da avenida
e você
minha tempestade de areia
que não passa
não passa