quarta-feira, 2 de julho de 2014

Um soneto perde a cabeça e a rima


















Chega-se lentamente ao fundo falso
da memória. Tudo o que se descobre:
a falta de saída do cadafalso.

De um lado, o câmbio de ouro por cobre;
noutra margem, palavras fora de uso,
e no meio, alma e corpo em parafuso.

Contra a sentença do jogo do bicho
não vale o escrito se não se grava
na testa do sentenciado o grito
do número da derradeira data.

A favor do condenado, o direito
ao último fósforo e à folha em branco.
Que a última palavra seja um poema
que se queime como lençol em chamas.


Corpo a corpo
















Lutávamos
sem luvas
as migalhas
povoavam o chão
o sofá
o tapete
cujos desenhos
se perderam
à espera
da harmonia impossível

Lutávamos
porque as palavras
(muito mais pesadas)
eram mais impiedosas
do que os golpes
baixos
que revelavam
a intimidade
de nuvens negras

Round a round
exaustos
até cairmos abraçados
à espera de desforra




Midiavalismo




























a demokraken
baila
dez tentáculos
acima de quem canta
fora de coro
e coreografia
com a Orquestra Tabajara
a plenos pulmões

o cefalópode democracudo
espalha o terror branco
e dança
logo acima
do pescoço
onde a jugular
salta
fora de cabresto
ordem
órbita


sábado, 28 de junho de 2014

Idílio urbano

Obra da pintora espanhola Nicoletta Tomas Caravia

























Taça de frascati
ao cair da tarde
do outro lado
da mesa
e tudo o que se bebe
refrange
raios de tristeza
nem o burburinho
do centro da metrópole
apaga a felicidade
inscrita
em guardanapo
com o qual lábios
se abrem
em lânguida vontade
para se limpar
de beijos inesperados.


quarta-feira, 25 de junho de 2014

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Amador

Edvard Munch, "A Separação II"
















Quem nunca
levou chute
na grande área
amorosa
não entrou
de peito
aberto
no campo
dos afetos.


na arena só os bárbaros


todo
poema
gol
contra
nuvens
jogo
instável
quebrar
as louças
do logro
na bolsa de apostas
nada a ganhar
em campo minado

drible
de corpo:
viver
inventado



sábado, 21 de junho de 2014

Antivoo

























ela prende a respiração
até que o fôlego
falte
e os pássaros
pequenos pontos
estampados
em lençol azul cobalto
asas abertas
em volume máximo
os pulmões
quase estouram
bolhas de ar
alta pressão
de nuvens de algodão
em corpo ferido
de céu
e solidão 


quinta-feira, 19 de junho de 2014

Faunosfera

Cabeça de fauno, Pablo Picasso


Explorando novos recursos. Siga aqui as pernas antipoéticas de fauno exausto de tantos descaminhos. 




Línguas extintas

Cerâmica tapajônica, séculos XIV-XVI.


Houve uma tribo nos confins do Araguaia para a qual a escuta era algo sagrado. Como os indivíduos não gostavam de falar, recorriam a um estranho nomadismo a fim de ouvir o mundo. Deslocavam-se incessantemente pelos rios, avançavam em territórios hostis e canibalizavam idiomas, não sem antes ouvir, em cerimônia que durava semanas, o que diziam os inimigos antes da morte. Era inacreditável a atenção às palavras alheias; as frases mais simples brilhavam como estrelas nos olhos acesos de curiosidade, fisionomias inomináveis passavam como ondas pelos rostos de todos os membros da tribo que, a cada temporada de caça, cresciam cinco centímetros.


Com o tempo todas as palavras foram assimiladas. Já não havia aldeias capazes de propiciar o suprimento de línguas desconhecidas. A tribo começou a definhar, diminuíam cinco centímetros a cada temporada de chuvas. Muitos se aventuraram na busca desesperada pelo ouro da linguagem, nenhum deles voltou. Privados da abundante matéria-prima fornecida pelos povos da floresta, viram-se na obrigação de soltar a voz. Pena, pouco depois de o primeiro índio proferir as primeiras palavras da tribo – “homem branco” –, os portugueses comemoravam a extinção da primeira tribo do Novo Mundo. 


quarta-feira, 18 de junho de 2014

Memorabilia





Sacava uma maçã da bolsa como se estivesse sedenta de vingança e precisasse encontrar com urgência punhal justiceiro. Enquanto retirava o papel alumínio, eu tratava de me sentar no lugar mais próximo da invisibilidade para não desabar. Ria como se tivesse ouvido a história mais hilária do mundo, a maçã já completamente exposta. Mordia o fruto edênico com olhos fechados de prazer criminoso. O vermelho da casca realçava dentes de predadora cravados na polpa macia e suculenta. Inexplicável transferência quebrava, então, as leis da física, o vermelho saía da maçã para se infiltrar nos meus olhos, páginas famintas abertas em pânico, do outro lado da mesa, antes que o sinal anunciasse o fim do recreio. Levaria quinze minutos para saber o que fazer na sala de aula.


terça-feira, 17 de junho de 2014

360º


 



O mar é minha pele
salina e leve.
Azul e alada,
a água pulsa
em onda brusca,
breve,
espiralada.

Em meus olhos aquosos
algas  negras anunciam
novas ondas imprevistas;
vulcânicas  e velozes
me alagam e me largam
na pele arenosa do fundo.

Sonho surfar o insondável.
Pulo ousadia no oceano,
sinto o impulso suicida
de lançar meu nome camicase
contra tsunamis,
contra a violência circular
do tempo
e sua matilha de milênios e minutos.


O mar,
meu berço,
meu túmulo.