quinta-feira, 3 de julho de 2014
quarta-feira, 2 de julho de 2014
Um soneto perde a cabeça e a rima
Chega-se lentamente ao fundo falso
da memória. Tudo o que se
descobre:
a falta de saída do
cadafalso.
De um lado, o câmbio de
ouro por cobre;
noutra margem, palavras
fora de uso,
e no meio, alma e corpo
em parafuso.
Contra a sentença do jogo
do bicho
não vale o escrito se não
se grava
na testa do sentenciado o
grito
do número da derradeira data.
A favor do condenado, o
direito
ao último fósforo e à
folha em branco.
Que a última palavra seja
um poema
que se queime como lençol
em chamas.
Corpo a corpo
Lutávamos
sem luvas
as migalhas
povoavam o chão
o sofá
o tapete
cujos desenhos
se perderam
à espera
da harmonia impossível
Lutávamos
porque as palavras
(muito mais pesadas)
eram mais impiedosas
do que os golpes
baixos
que revelavam
a intimidade
de nuvens negras
Round a round
exaustos
até cairmos abraçados
à espera de desforra
sem luvas
as migalhas
povoavam o chão
o sofá
o tapete
cujos desenhos
se perderam
à espera
da harmonia impossível
Lutávamos
porque as palavras
(muito mais pesadas)
eram mais impiedosas
do que os golpes
baixos
que revelavam
a intimidade
de nuvens negras
Round a round
exaustos
até cairmos abraçados
à espera de desforra
sábado, 28 de junho de 2014
Idílio urbano
![]() |
Obra da pintora espanhola Nicoletta Tomas Caravia
|
Taça de frascati
ao cair da tarde
do outro lado
da mesa
e tudo o que se bebe
refrange
raios de tristeza
nem o burburinho
do centro da metrópole
apaga a felicidade
inscrita
em guardanapo
com o qual lábios
se abrem
em lânguida vontade
para se limpar
de beijos inesperados.
quarta-feira, 25 de junho de 2014
Cidade fim século vinte
Edição especial do meu poema "Cidade fim século vinte" disponível em -
http://issuu.com/joseantoniocavalcanti/docs/cidade_fim_s__culo_vinte
segunda-feira, 23 de junho de 2014
na arena só os bárbaros
todo
poema
gol
contra
nuvens
jogo
instável
quebrar
as louças
do logro
na bolsa de apostas
nada a ganhar
em campo minado
drible
de corpo:
viver
inventado
sábado, 21 de junho de 2014
quinta-feira, 19 de junho de 2014
Faunosfera
Línguas extintas
![]() |
| Cerâmica tapajônica, séculos XIV-XVI. |
Houve uma tribo nos confins do
Araguaia para a qual a escuta era algo sagrado. Como os indivíduos não gostavam
de falar, recorriam a um estranho nomadismo a fim de ouvir o mundo.
Deslocavam-se incessantemente pelos rios, avançavam em territórios hostis e
canibalizavam idiomas, não sem antes ouvir, em cerimônia que durava semanas, o
que diziam os inimigos antes da morte. Era inacreditável a atenção às palavras
alheias; as frases mais simples brilhavam como estrelas nos olhos acesos de
curiosidade, fisionomias inomináveis passavam como ondas pelos rostos de todos os
membros da tribo que, a cada temporada de caça, cresciam cinco centímetros.
Com o tempo todas as palavras
foram assimiladas. Já não havia aldeias capazes de propiciar o suprimento de
línguas desconhecidas. A tribo começou a definhar, diminuíam cinco centímetros
a cada temporada de chuvas. Muitos se aventuraram na busca desesperada pelo
ouro da linguagem, nenhum deles voltou. Privados da abundante matéria-prima
fornecida pelos povos da floresta, viram-se na obrigação de soltar a voz. Pena,
pouco depois de o primeiro índio proferir as primeiras palavras da tribo – “homem
branco” –, os portugueses comemoravam a extinção da primeira tribo do Novo
Mundo.
quarta-feira, 18 de junho de 2014
Memorabilia
Sacava uma maçã da bolsa como se
estivesse sedenta de vingança e precisasse encontrar com urgência punhal
justiceiro. Enquanto retirava o papel alumínio, eu tratava de me sentar no
lugar mais próximo da invisibilidade para não desabar. Ria como se tivesse
ouvido a história mais hilária do mundo, a maçã já completamente exposta.
Mordia o fruto edênico com olhos fechados de prazer criminoso. O vermelho da
casca realçava dentes de predadora cravados na polpa macia e suculenta. Inexplicável
transferência quebrava, então, as leis da física, o vermelho saía da maçã para se
infiltrar nos meus olhos, páginas famintas abertas em pânico, do outro lado da
mesa, antes que o sinal anunciasse o fim do recreio. Levaria quinze minutos para
saber o que fazer na sala de aula.
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